O Sol também é uma Estrela
Tradução: Terezinha Santos
Título do original:
The Galactic Dimension of Astrology
Copyright ©1975 by Dane Rudhyar a First American Edition, Aurora Press INC.
PARTE I
1 — Introdução ao Nível Galáctico da Consciência .............................9
2 — O Sol Visto como uma Estrela ....................................................22
a) Um Enfoque Galáctico do Sistema Solar ......................................22
b) Planetas de Funcionamento Orgânico ...........................................30
c) Planetas de Transformação e Transcendência ...............................37
3 — A Polaridade Urano-Netuno .................................................................47
4 — Plutão e a Experiência da Profundeza, do Vácuo e da Recentralização 64
PARTE II
5 — Os Planetas Transaturninos nos Signos do Zodíaco ..............................80
6 — Os Ciclos Interpenetrantes de Urano, Netuno e Plutão .......................109
PARTE III
7 — Um Enfoque Transfísico da Galáxia ...................................................130
8 — As Relações Transpessoais e a Comunidade Galáctica .......................148
9 — O Desafio da Galacticidade na Astrologia Humanista ........................160
Apêndice ....................................................................................................181
Epílogo .......................................................................................................186
Índice Remissivo........................................................................................192
PARTE I
1 Introdução ao Nível Galáctico da Consciência
Há aproximadamente cinco séculos, Copérnico e Galileu imaginaram um sistema solar no qual planetas sombrios, impelidos pela força da gravitação, giravam subservientes em tomo de um magnífico Sol central, monarca do céu. Todo o sistema compunha-se de corpos materiais que se moviam no espaço vazio — matéria sólida no caso dos planetas, matéria em estado incandescente no caso do Sol. O sistema era regido por rígidas leis mecânicas. Este modelo veio suplantar a
antiga visão geocêntrica do universo, segundo a qual a Terra constituía o centro e uma hierarquia de esferas celestiais — lunar, solar, planetária, estelar e divina — girava em tomo dela.
Chamou-se a esta mudança da antiga para a nova visão de mundo de Revolução Copernicana, conquanto Galileu e Kepler tenham contribuído muito para sua formulação e difusão, bem como posteriormente, Francis Bacon, Newton e Descartes, os quais desenvolveram melhor as implicações da nova visão. O sistema heliocêntrico foi aceito em toda parte. Curiosamente, a sociedade clássica emergente na Europa em fins do século XVI e ao longo do século XVII foi modelada, sem dúvida inconscientemente, pelo padrão do sistema heliocêntrico: um rei autocrático governava com poder absoluto um país que teoricamente era seu, e cujo povo
sujeitava-se à sua vontade pessoal; esse rei cercava-se de ministros, cortesões e criados de diversas classes sociais, o que refletia o seu poder.
Uma sociedade e sua cultura baseiam-se sempre em um conjunto de pressupostos, de base metafísica e/ou religiosa, que encontram sua expressão em grandes símbolos e mitos. Ao longo do
Uma sociedade e sua cultura baseiam-se sempre em um conjunto de pressupostos, de base metafísica e/ou religiosa, que encontram sua expressão em grandes símbolos e mitos. Ao longo do
desenvolvimento da mesma, uma minoria curiosa e criativa de pensadores das classes dominantes cultas — que por sua vez controla os sentimentos e crenças religiosas das massas — questiona a validade de alguns dos conceitos básicos até então aceitos como dogmas e paradigmas. Quando isso ocorre, a revolução, já em processo nas mentes de um pequeno grupo de pioneiros,
gradualmente engloba toda a sociedade, produzindo suas mudanças. O modo de vida do povo e a mentalidade oficial imposta ao sistema educacional pela inteligência dominante pouco a pouco vão sendo transformados.
Inúmeras são as influências sempre presentes nessas mudanças revolucionárias, algumas produzidas por alteração das condições materiais e econômicas, por novas invenções ou súbitas
Inúmeras são as influências sempre presentes nessas mudanças revolucionárias, algumas produzidas por alteração das condições materiais e econômicas, por novas invenções ou súbitas
mudanças de climas. Contudo; enfocamos aqui apenas a transformação mental espiritual operada quando novos conceitos, novas maneiras de interpretar antigos fatos ou a descoberta de novos fatos estimulam profunda e irrevogavelmente, e de certa forma constrangem, as mentalidades dominantes de uma dada cultura a modificar radicalmente a visão do universo e da vida circundantes.
O que Copérnico, Galileu, Kepler e Newton realizaram entre os séculos XVI e XVIII, Roentgen, Curie, Planck e sobretudo Einstein e seus sucessores repetiram há menos de um século, quando verdadeiramente "desmaterializaram" para nós o universo em que implicitamente acreditávamos há cerca de três séculos. Um universo composto de sólidas esferas de matéria, separadas umas das outras por grandes distâncias e unidas por imutáveis leis da natureza, as quais expressam um
absoluto princípio 'de causalidade, transforma-se, após Einstein, num universo de campos de energia (ou campos de força) que, somente sob determinadas condições, apresenta ao observador o caráter de solidez material.
O antigo modelo "sensato" do universo desapareceu quase inteiramente sob o ar rarefeito de grupos algébricos, números irracionais e níveis de infinidade. Mais recentemente, a radiotelescopia
O antigo modelo "sensato" do universo desapareceu quase inteiramente sob o ar rarefeito de grupos algébricos, números irracionais e níveis de infinidade. Mais recentemente, a radiotelescopia
informou-nos sobre galáxias inacreditavelmente distantes, quasares, buracos negros e buracos brancos. Um universo em expansão, repleto de todos os tipos de vibrações intangíveis e de partículas indefiníveis, as quais tanto podem ser matéria como antimatéria, bem como ocorrer no tempo negativo ou positivo, é apresentado às nossas mentes bastante aturdidas. Realmente, aceitamos este universo? Podemos aceitá-lo?
Cerca de dois séculos foram necessários para que a Revolução Copernicana fosse oficialmente assimilada, sobretudo depois que os conceitos de Newton imprimiram-lhe maior finalidade. Com o grande aumento do número de cientistas e da velocidade na comunicação sócio-cultural, o novo modelo do universo — e do mesmo modo a desafiadora modificação dos conceitos mantidos durante muito tempo, referentes à natureza e às potencialidades inatas dos seres humanos — possivelmente estará concluído e inteiramente aceito até o fim deste século; conquanto ainda esteja sendo constantemente alterado e possa vir a ser reformulado sob bases radicalmente novas.
Talvez este modelo seja válido apenas parcialmente. Caso a atual crise da civilização leve a eventos cataclísmicos, tal modelo poderá mostrar-se apenas transicional — destruidor de antigas ilusões, mas ainda não verdadeiramente construtivo, por não ter encontrado a chave fundamental (ou, poderíamos dizer, os novos símbolos básicos) necessária para oferecer uma ordem significativa para uma crescente massa de dados, cuja correlação ainda não foi realizada, dados estes que consideramos como fatos.
Mas o que são "fatos"? A etimologia da palavra sugere que um fato é algo "feito" (jactam). Nossos meios de percepção permitem-nos, enquanto seres humanos, tomar consciência daquilo que denominamos um fato. Sabemos que, se fotografarmos uma paisagem com filmes sensíveis aos raias infravermelhos ou ultravioletas, obteremos uma fotografia inteiramente diferente da que nossos olhos vêem. Não vemos as nebulosas extremamente distantes, cujas vibrações são
detectadas pelos nossos radiotelescópios — tampouco divisamos num nevoeiro os objetos que nossos radares localizam para nós. Isto são fatos?
Em caso positivo, por que os espíritos da natureza e os deuses descritos pelos nossos antepassados não são considerados fatos? Por que não considerar as visões de místicos medievais fatos que pertencem à experiência deles, quando nós, mentes cientificamente treinadas,
Em caso positivo, por que os espíritos da natureza e os deuses descritos pelos nossos antepassados não são considerados fatos? Por que não considerar as visões de místicos medievais fatos que pertencem à experiência deles, quando nós, mentes cientificamente treinadas,
acreditamos em nebulosas há bilhões de anos-luz de distância — ou em partículas subatômicas cujos traços, na melhor das hipóteses, entrevemos com o uso de instrumentos sofisticados — como fatos da nossa experiência?
Nossos antepassados elaboraram sistemas religiosos e cosmologias complexas, a fim de interpretar seus fatos de modo a obter um sentido de ordem universal. Assim fizeram os santos católicos medievais e assim fazem nossos modernos astrônomos. Toda cultura constrói o modelo de universo que mais eficaz e convenientemente produz, na mente humana e no seu profundo sentimento de estar vivo e ser criativo, o tipo de ordem ao qual o estágio da evolução humana,
característico da cultura, possa corresponder mais significativamente.
Esta ordem expressa-se através de mitos e símbolos.
Os atuais símbolos são matemáticos. Nossos mitos são encontrados na teoria darwinista da evolução; na premissa básica da ciência moderna — não questionada até muito recentemente
Esta ordem expressa-se através de mitos e símbolos.
Os atuais símbolos são matemáticos. Nossos mitos são encontrados na teoria darwinista da evolução; na premissa básica da ciência moderna — não questionada até muito recentemente
— segundo a qual a materialidade e a mensurabilidade constituem as únicas chaves para a compreensão do mundo; e em nosso enfoque laboratorial da psicologia e da medicina. Até mesmo as verdades "evidentes por si mesmas" por nós entronizadas na Carta de Direitos nacional e internacional (embora em verdade envidemos todos os esforços para que sejam seguramente colocadas em segundo plano ou inteiramente ignoradas) constituem, no mais profundo sentido da palavra, um mito.
A implicação de tudo isto significa simplesmente que qualquer sociedade, qualquer grupo característico de seres humanos e, em sentido mais restrito, qualquer indivíduo que não constitua apenas um espécime indistinto de determinado tipo racial, econômico ou social, percebem o universo como cada qual necessita percebê-lo.
O homem projeta no mundo exterior o que ele é em potencial, embora ainda não saiba o que é, com o fito de descobrir e realizar seu potencial inato. O homem "cria" coletivamente o universo de que necessita apenas porque precisa do acaso para funcionar com a melhor eficácia possível; e assim age, seja ele um antigo xamã, um sufi ou um místico cristão, ou um cientista moderno em seu laboratório ou observatório.
Quando o homem antigo via deuses no céu, era porque precisava deles para comunicar-se e para recrutá-los como ajudantes. Se o homem europeu clássico percebia o sistema solar como um vasto mecanismo que trabalhava segundo leis quase ritualísticas (isto é, imutáveis) — as leis da natureza —, isto se devia à sua necessidade de um sentido material e exterior de segurança, a fim de ordenar e favorecer o desenvolvimento do seu individualismo social. Quando reis e imperadores eram destronados, uma constituição sacrossanta assumia o lugar deles — ou, em religião, "O Livro".
O que o homem percebe no universo, sendo uma projeção de suas necessidades mais características, constitui por esse motivo um símbolo do que ele é. É uma imagem cosmificada ou deificada de si mesmo; mas não é só isso.
Enquanto símbolo, contém, de maneira latente e "oculta", a resposta às necessidades humanas básicas. É uma resposta em termos impessoais— uma resposta formulada em linguagem simbólica, cuja decifração é difícil. Mas a linguagem dos sonhos e oráculos também é, e sempre foi, de difícil interpretação.
Atualmente testemunhamos o surgimento gradual de um modelo de universo que nos apresenta um problema especial, pois exige a aceitação de uma nova dimensão da realidade. Esta "quarta dimensão" pode ser definida com urna palavra evasiva, conquanto reveladora: INTERPENETRAÇÃO.
Nela está implícito que o universo e a totalidade de nossos seres se "interpenetram". A era de individualidades isoladas, irredutíveis e quase absolutas, bem como de objetos físico-materiais, inteiramente distintos e sem relação entre si, está no fim.
Tudo não mantém apenas relação com todo o resto; tudo o que existe interpenetra todo o resto. Permanecem as "particularidades", num espaço agora visto mais como plenitude do que como vazio; mas a realidade básica é esse espaço no qual cada particularidade interpenetra todas as demais "nas vizinhanças" — e vizinhança aqui pode incluir um vasto campo de atividades correlatas.
A humanidade como um todo, ou mesmo uma considerável minoria de seres humanos que representa a vanguarda evolucionária, ainda não tem uma experiência direta deste modelo de universo. Não existem ainda nos seres humanos "normais" órgãos de percepção que nos permitam perceber de maneira totalmente convincente o tipo de ordem, de relação e os processos de transformação invocados pela matemática abstrata na física moderna e na astronomia.
Os poucos sensitivos ou videntes capazes de "ver" ou de sentir o que a maior parte das pessoas não consegue perceber, com frequência não são muito confiáveis, em parte porque trabalham
Os poucos sensitivos ou videntes capazes de "ver" ou de sentir o que a maior parte das pessoas não consegue perceber, com frequência não são muito confiáveis, em parte porque trabalham
contra a pressão da mentalidade coletiva da sua cultura; falta-lhes um sistema de referência consistente para suas experiências. Percepções místicas, conquanto em geral apontem para a interpenetração, de certa forma idêntica, de uma realidade que transcende tempo e espaço, possuem um caráter absolutista e subjetivo que as tomam essencialmente incomunicáveis. A comunicabilidade implica a possibilidade de serem formulados alguns princípios de organização.
As novas experiências
As novas experiências
precisam submeter-se a um novo tipo de ordenamento, o qual envolve novas formas
de relacionamento entre os elementos de qualquer sistema que consideremos ou do
qual participemos.
As novas descobertas da física e da astronomia fornecem-nos dados
extremamente intrigantes, os quais, por sua vez, vêm sendo constantemente
modificados por novas observações. O cientista está de tal forma consciente da
necessidade de formular novas teorias gerais que, no exato instante em que se
percebe um novo fato desafiando algum aspecto do modelo até então aceito do
universo, ele tenta transformá-lo na base
de um novo modelo. Contudo, em geral falta-lhe imaginação ou coragem para
libertar-se completamente dos antigos paradigmas da sua cultura. A princípio, ele
sente dificuldade em deixar de lado o conceito tipicamente ocidental da
materialidade fundamental do mundo. Sob o pretexto de que as soluções devem ser
simples, não exigindo a introdução de qualquer fator desnecessário, nossos
criadores de teorias não reconhecem sua tendência cultural inata. É tão simples
dizer que o universo é um sistema organizacional caracterizado pela "vida", quanto
afirmar que ele é constituído de "matéria", e que aquilo que nós chamamos de vida
é um epifenômeno ou efeito secundário da química dos processos materiais.
Experimentamos a vida de maneira direta, tanto em nós mesmos quanto em nosso
meio ambiente. Tudo o que nos cerca nasce e morre — até mesmo, por exemplo, as
montanhas quando vistas em termos do longo processo evolutivo do planeta como
um todo. Hoje sabemos que até mesmo as estrelas nascem, amadurecem e morrem.
Entretanto, a duração da vida delas é tão ampla comparada à nossa ou até mesmo à
duração de uma sociedade, capaz de transferir de uma geração a outra o
conhecimento adquirido, que um processo cuja duração no sistema solar é de
muitos anos pode corresponder ao que num ser humano demora apenas alguns
segundos. Desse modo, H. P. Blavatsky, em sua obra A Doutrina Secreta, afirma
que o ciclo de onze anos da mancha solar corresponde a um único batimento
(sístole e diástole) do coração humano.
O conceito de hierarquia dos "níveis de organização" foi recentemente
endossado por eminentes cientistas; e deve ser compreendido em termos de uma
visão "holística" da existência. Tal enfoque holístico, inicialmente apresentado por
Jan Smuts, e que discutirei no próximo capítulo, atualmente vem superando, ou
modificando por completo, a visão de mundo "atomista" que, nos últimos quatro
séculos, transformou tudo em entidades separadas e fundamentalmente isoladas —
átomos, seres humanos, almas, sociedades e os próprios acontecimentos. Cada vez
mais, a relação entre essas entidades e sua participação numa totalidade mais
abrangente — que por sua vez é parte de uma totalidade ainda maior — é
considerada a essência mesma da realidade. O conceito de "campo" vem sendo
cada vez mais utilizado (existe uma excelente revista publicada por Julius Stulman,
fundador do World Institute Council de Nova York, intitulada "Fields Within Fields
Within Fields").
Já discuti esta questão em outros livros; mas deve-se acrescentar aqui que esta
visão holística, que vem transformando potencialmente nossa imagem do universo,
foi desenvolvida e está se difundindo neste momento histórico porque a
humanidade necessita dela agora. Os conceitos que emergiram da Grécia antiga,
após um período de obscureci. mento, tornaram-se as bases do universo europeu
clássico que a América herdou, não podem, na sua presente forma, ajudar-nos na
transformação imperativa da consciência e, em termos práticos, de nossas atitudes e
convicções sócio-culturais cada vez mais obsoletas. Precisamos repensar a maior
parte das aquisições do pseudo-iluminismo do século XVIII, se quisermos salvar o
que puder ser usado da nossa tradição ocidental construtivamente na nova situação
global com que nos defrontamos no momento. Para fazer isso de modo eficaz em
todos os níveis, e não apenas como uma operação provisória, necessitamos de um
novo e abrangente sistema de referência para nossas novas experiências, o qual
poderá ser encontrado no universo holístico e hierárquico, com o qual estamos
travando conhecimento. Esse tipo de universo nos está sendo revelado porque
constitui a imagem-espelho daquilo que, conquanto ainda num estágio de
potencialidade, está prestes a acontecer dentro de nós. O homem sempre descobre
fora de si mesmo aquilo no que está prestes a tomar-se. Infelizmente, a inércia da
tradição cultural do passado e do conhecimento congelado em teorias rígidas
impediu-o durante muito tempo de ver e aceitar o que representa o próximo passo no
seu desenvolvimento.
Não devemos nos esquecer de que a nova mentalidade que tomou forma
durante o Renascimento e estabeleceu-se ao longo da segunda metade do século
XVII na Europa, foi forjada na sua forma básica por astrônomos que estudavam o
céu. O homem europeu de então transpunha o conceito do universo como uma
máquina ao seu comportamento, e encontrava em um Sol central e irradiador de
energia a justificativa simbólica para o direito divino dos reis — Le Roi Soleil. Hoje,
a nova imagem do universo deve emergir a partir do que a ciência moderna começa
a perceber em ambas as extremidades da escala de grandezas cósmicas — o átomo e
as galáxias. O núcleo do átomo serve de espelho para a natureza complexa e
ambígua do eu mais íntimo do homem, enquanto as perspectivas que surgem ao
investigarmos o nível de organização representado pelas galáxias em espiral
indicam-nos a possibilidade — na verdade a inevitabilidade, em futuro mais ou
menos próximo — de uma
forma de organização da sociedade, baseada em novos modelos de relação
interpessoal e intergrupal. Contudo, o problema, repito, está em como interpretar as
recentes revelações da astronomia e da cosmologia sem permitir que nossas mentes
continuem funcionando segundo os velhos padrões de mecanismo e materialidade
—padrões evocados por nossa tendência inata à criação de entidades e nosso
individualismo egocêntrico e orgulhoso.
É aqui que a astrologia, a seu modo particular, nos oferece um quadro
simbólico do processo de expansão da consciência e do comportamento humano, do
estágio arcaico tribal ao individualismo euro-americano — estendendo-se além deste
último até uma civilização global, integrada conscienciosa e harmonicamente com
todas as atividades infinitamente variadas, conquanto interdependentes, que tomam
lugar nos diversos níveis do organismo planetário da Terra.
Na primeira parte de meu livro As Casas Astrológicas* mostrei que a astrologia
começou como um sistema de interpretação dos fatos revelados pela observação da
"cúpula do céu" estritamente centrado na localidade — antes um hemisfério celestial
do que uma esfera, já que não havia como observar o que ocorria abaixo do nível
terrestre plano, limitado pelo horizonte. Tribos antigas afastavam-se muito pouco do
solo do qual retiravam sua subsistência; eram ligados à terra como um ovo une-se ao
revestimento do útero materno. Suas culturas foram modeladas pelo clima e pelas
características do meio ambiente local, com tudo o que este continha. Os homens das
Eras Vitalistas sentiam-se fundamentalmente unidos à natureza; não haviam
desenvolvido um senso de separação de tudo o que se lhes afigurava como
manifestações variadas da Vida Única a preencher todo o espaço. Contudo, foram
levados, devido às experiências contrastantes de seu ambiente tropical e do céu, a
conceber esta Vida Única como bipolar em suas manifestações: terra e céu.
A "natureza celestial" para eles consistia no aspecto positivo e criativo da
Vida que se expressava em uma porção de grandes hierarquias espirituais de
Inteligências divinas. Algumas destas funcionavam diretamente através do Sol que,
em sua trajetória ao longo do céu, concentrava o poder das doze grandes
constelações zodiacais. Outras constelações ofereciam significados mais
transcendentes ou espetaculares (em geral altamente inquietantes) ao espaço que circundava algumas estrelas particularmente brilhantes. Para estes homens dos tempos arcaicos, a natureza
celestial era a polaridade fecundadora e ativa; e a natureza terrestre, o pólo passivo e reflexivo. Em essência os dois formavam um, por conseguinte os homens podiam comunicar-se com os seres celestiais. Tais comunicações aconteciam de inúmeras maneiras — em visões; em grandes sonhos, compartilhados por no mínimo dois membros de uma tribo, a fim de provar sua validade; em presságios e oráculos.
Assim, a astrologia constituía a linguagem dos deuses celestiais — uma linguagem misteriosa que precisava ser cuidadosamente interpretada, como os sonhos e pronunciamentos dos oráculos. Era a linguagem que os deuses utilizavam para fornecer-nos "informação".
Podemos comparar as informações fornecidas a nós pelas cartas astrológicas àquelas que as moléculas de ADN dão à célula. Interpretamos estas informações em termos químicos porque nossa mente precisa interpretar os resultados segundo um enfoque materialista, a fim de que possamos compreender os processos de vida no interior da célula.
Naturalmente as linguagens astrológica e química são diferentes, pois originam-se de diferentes enfoques do universo. Contudo, afirmar que todos os processos de vida por nós observados resultam de operações químicas materiais implica a aceitação de postulados indemonstráveis, do mesmo modo que a atribuição de tais processos de vida a Inteligências divinas. Evidentemente, para a mente materialista é difícil visualizar a possibilidade dos planetas constituírem manifestações visíveis de deuses comunicando aos seres humanos o tipo de mensagem e informação organizacional que os astrólogos acreditam que a carta natal de uma pessoa contém.
A dificuldade surge primariamente porque a maior parte das mentes modernas enxergam qualquer coisa separada de todo o resto — e sobretudo não conseguem conceber qualquer conexão "real" entre movimentos planetários tão distantes da superfície terrestre e o destino, comportamento ou
Naturalmente as linguagens astrológica e química são diferentes, pois originam-se de diferentes enfoques do universo. Contudo, afirmar que todos os processos de vida por nós observados resultam de operações químicas materiais implica a aceitação de postulados indemonstráveis, do mesmo modo que a atribuição de tais processos de vida a Inteligências divinas. Evidentemente, para a mente materialista é difícil visualizar a possibilidade dos planetas constituírem manifestações visíveis de deuses comunicando aos seres humanos o tipo de mensagem e informação organizacional que os astrólogos acreditam que a carta natal de uma pessoa contém.
A dificuldade surge primariamente porque a maior parte das mentes modernas enxergam qualquer coisa separada de todo o resto — e sobretudo não conseguem conceber qualquer conexão "real" entre movimentos planetários tão distantes da superfície terrestre e o destino, comportamento ou
temperamento dos seres humanos, cada um dos quais acredita-se seja também um indivíduo distinto e autônomo.
Para a consciência primitiva, não havia separação entre céu e terra; constituíam as duas polaridades de uma existência resultante da interação contínua e ritmada de ambos — interação simbolizada pelo filósofo chinês como a influência recíproca de duas forças cósmicas, Yin e Yang.
Para a consciência primitiva, não havia separação entre céu e terra; constituíam as duas polaridades de uma existência resultante da interação contínua e ritmada de ambos — interação simbolizada pelo filósofo chinês como a influência recíproca de duas forças cósmicas, Yin e Yang.
Foi somente com a crescente individualização dos seres humanos — especialmente através da vida urbana, a qual encorajou a ambição do ego e a sede de poder — que um novo conceito veio substituir o de independência absoluta entre os dois aspectos da Vida universal — céu e terra,
deuses e homens: o conceito de uma analogia estrutural básica entre o universo e o homem. O primeiro considerado como macrocosmo, o segundo como microcosmo, e um "correspondendo-se" ao outro, cada qual desenvolvendo-se paralelamente ao outro; o macrocosmo visto como positivo e o microcosmo como receptivo.
Tal paralelismo estrutural, que faz uma ligação não muito clara entre dois grupos inteiramente diversos de acontecimentos e padrões de comportamento característicos, recebeu uma forma modernizada e restrita pelo psicólogo Carl Jung, sob o nome obscuro de "sincronicidade".
Tal paralelismo estrutural, que faz uma ligação não muito clara entre dois grupos inteiramente diversos de acontecimentos e padrões de comportamento característicos, recebeu uma forma modernizada e restrita pelo psicólogo Carl Jung, sob o nome obscuro de "sincronicidade".
Este princípio hermético de correspondência, "O que está acima é como o que está abaixo" provavelmente desenvolveu-se no Egito helenizado, embora sua origem possa ser mais antiga. Ele formou a base para um tipo de linguagem astrológica relativamente nova, transmitida à Europa cristã sobretudo por intermédio de Ptolomeu, da Alexandria, e também por alguns astrólogos do Império Romano, então em lenta desintegração. A Revolução Copernicana, que levou ao
modelo heliocêntrico clássico do universo, provocou profunda mudança na consciência do homem.
O que muitas pessoas não perceberam é que esta transformação heliocêntrica conduziu e, de certa forma, implicou — conquanto seus criadores provavelmente não se tenham apercebido disto — um enfoque não somente mecanicista, mas materialista de todas as formas de existência.
O fato importante não foi o de que a terra tomou-se um globo girando em tomo do Sol em
O que muitas pessoas não perceberam é que esta transformação heliocêntrica conduziu e, de certa forma, implicou — conquanto seus criadores provavelmente não se tenham apercebido disto — um enfoque não somente mecanicista, mas materialista de todas as formas de existência.
O fato importante não foi o de que a terra tomou-se um globo girando em tomo do Sol em
vez de ser o centro do universo, mas sim que a relação entre todas as partes desse
universo clássico vieram a ser interpretadas em termos de forças e trações entre
massas materiais, representadas como entidades isoladas no espaço vazio. O
universo tornou-se atomizado porque o homem ocidental havia atingido um estágio
na evolução humana que exigia poderosa acentuação do que quer que justificasse e
fornecesse uma base universal e lógica para o individualismo — ou poderíamos
dizer, para um enfoque "ultra-individualista" da existência, seja no nível pessoal ou
social.
A teoria heliocêntrica trouxe muitas complicações ao modelo astrológico. A
mudança no estudo do movimento dos corpos celestes de "centrada no local" para
"centrada no global" originou uma série de ambigüidades, no que se refere à
natureza do Zodíaco e das Casas astrológicas. E, mais importante, a nova imagem
do universo
essencialmente como uma máquina alterou o significado da informação que a
astrologia podia fornecer. O céu mecanicista, transformado num amplo relógio
cósmico, só podia dizer aos seres humanos a hora, — o tempo no qual podia-se
esperar que ocorressem os eventos — e, em termos de uma imprecisa Doutrina de
Correspondência, onde aconteceriam no microcosmo, isto é, no indivíduo. A
astrologia clássica deixa de lidar com a "vida" — e o Sol e a Lua, nos séculos
anteriores duas fontes dos processos de vida bipolares, logo tomaram-se, para o
astrólogo moderno, simples membros do grupo planetário. O indivíduo passou a ser
considerado exterior à sua carta natal — e a alma individual também exterior à
natureza terrestre. O homem era "sábio" na medida em que "governasse as estrelas".
A ruptura entre o indivíduo e o universo tomou-se mais acentuada no século
XIX. O homem inebriou-se de orgulho com o progresso, pelo qual em o único
responsável, e com o poder colocado em suas mãos, graças a seu intelecto analítico e
inventivo, porém limitado pelo materialismo. Somente após a conjunção de Netuno
e Plutão em 1891-92 — quinhentos anos depois de conjunção semelhante demarcar
os primórdios do Humanismo e do período da pré-Renascença — com a descoberta
da radiatividade, das teorias de Planck e Einstein, do uso de telescópios maiores e
posteriormente de radiotelescópios, chegou-se a um modelo quase totalmente
diferente do universo. As implicações de tal modelo ainda não foram
compreendidas, excetuando-se talvez uns poucos filósofos-cientistas, assim como os
efeitos a longo prazo da Revolução Copernicana só foram avaliados um ou dois
séculos mais tarde.
Hoje, com a criação dos instrumentos que possibilitaram uma nova imagem
do universo, o homem atingiu um estágio em que necessita terrivelmente da
integração das capacidades recentemente desenvolvidas por ele com as aptidões
complementares que precisara menosprezar (e até mesmo rejeitar) a fim de
concentrar-se na construção de seus novos poderes de análise, interpretação e
generalização. Os resultados da tecnologia que possibilitou ao homem construir
instrumentos capazes de aumentar mil vezes sua capacidade perceptiva,
constrangeram-no a desafiar a validade exclusiva do enfoque intelectual e social,
que tornou viável a criação de tais instrumentos. A tecnologia constitui importante
vitória, mas a próxima geração poderá morrer com a aplicação inexorável da mesma,
a menos que reconsidere e modifique completamente
os postulados sobre os quais nossa civilização ocidental baseia sua imagem clássica
do universo e do relacionamento do homem com esse mesmo universo. As recentes
descobertas científicas ainda não apagaram de fato esta imagem da consciência
coletiva da maioria das pessoas, incluindo grande parte dos lideres políticos,
religiosos e educadores.
Isto não significa que devamos voltar a um modelo antigo e ingenuamente
"vitalista" do universo; e, em astrologia, voltar a uma forma de interpretação
"centrada no local" em um céu repleto de hierarquias de deuses. Portanto, o abismo
entre o homem e o universo precisa ser sanado — pois constituía verdadeira
enfermidade, provavelmente destinada a levar o homem a um estado febril capaz de
forçá-lo a sobrepujar a inércia das antigas formas tribais de existência social. Deve
ser restabelecida a comunicação entre o universo e o homem.
Isso só ocorrerá quando o homem sentir-se parte funcional do universo e não
mais um estranho dentro do mesmo; quando a experiência que o homem tem,
primeiramente da vida, e em seguida da consciência e da inteligência deixar de ser
compreendida como um acidente casual em um universo sem sentido — no qual
massas de matéria passam sem rumo e a velocidades inconcebíveis — e sim como
constituintes básicos do cosmos. Neste cosmos, matéria, vida, mente e uma energiasubstância
supramental a qual denominamos vagamente espírito, irão ser
consideradas e (talvez) diretamente experimentadas como diferentes "níveis de
organização" da realidade. Esta realidade de múltiplos níveis permeia todo o espaço
e mantém-se ativa ao longo de um período de tempo infinito. Seu funcionamento é
cíclico, pois sua natureza é dual ou bipolar, e o que denominamos e
experimentamos como existência resulta da interação contínua de duas forças
cósmicas — interação esta que produz uma seqü.ncia rítmica de manifestações
cósmicas em campos de atividade espaço-temporal limitados — que retornam
periodicamente a um estado metacósmico de potencialidade infinita.
Os traços metafísicos essenciais deste modelo de mundo não são novos, mas o
modelo como um todo precisa ser radicalmente reformulado, a
fim de que possa responder melhor às necessidades de uma humanidade
que vem desenvolvendo um novo tipo de mente e de relações interpessoais.
Uma nova formulação implica novos símbolos, ou, para ser mais exato, um novo
nível de simbolização; e seguramente não é fácil atingir um
nível mais elevado, por conseguinte mais abrangente, de conceitualização e.
simbolização. Contudo, isto deve ser feito e os elementos para tal já
existem, fornecidos pelas novas descobertas da física nuclear e da astronomia
galáctica. O problema, repito, reside em como usar estes novos elementos sem
reduzi-los a padrões conceituais pertencentes ao modelo intelectual e mecanicista
da astronomia clássica. É uma questão de interpretação — interpretação com base
em nova dimensão da consciência, conferindo novo caráter a todas as realidades
básicas da existência humana. A palavra que já utilizei, interpenetração, afigura-se
a mais adequada para definir esse caráter.
Do ponto de vista de uma astrologia livre do fantasma de um tipo ainda mais
sofisticado e "científico" de adivinho, este novo enfoque quadridimensional da
existência e da consciência humana é melhor simbolizado pela galáxia — assim
como o enfoque clássico tipicamente europeu poderia, significativamente,
relacionar-se como modelo Copernicano e Newtoniano do sistema solar.
Conseqüentemente, estou falando de uma "dimensão galáctica da astrologia", a qual
também pode apresentar-nos um conceito "galáctico" da sociedade e da
humanidade, segundo o qual nossa Galáxia em espiral simboliza a lenta emergência
da "Comunidade Universal do Homem".
2 O Sol Visto como uma Estrela
a) Um Enfoque Galáctico do Sistema Solar
Segundo a visão holística da natureza do universo e da humanidade, o que chamamos existência consiste em um estado de atividade que funciona em termos de "totalidade". Uni ser humano constitui um todo. E um organismo, o que significa um campo organizado de atividades inter-relacionadas e interdependentes — por conseguinte funcionais. Classificamos essas atividades consoante seu funcionamento no nível físico-biológico, psicológico, mental e (na falta de um termo melhor) supramental ou nível da alma O homem, enquanto pessoa total, constitui um todo
que inclui todos estes níveis.
No homem, este campo organizado e orgânico de existência possui no mínimo o potencial para desenvolver um tipo único de inter-relação entre cada um de seus conteúdos; vale dizer, um caráter individualizado. Tal singularidade expressa-se na seguinte percepção: "Eu sou este ser particular." No homem, portanto, o campo de atividade adquiriu um centro com o qual suas atividades mais importantes se relacionam conscientemente. Ao menos é o que parece mais importante à mente daquele que experimenta tais atividades como suas.
A mente constitui a forma que a consciência, emergente do campo de atividades de determinada pessoa, assume e mantém. Em geral, esta forma é controlada pelo ego, o qual diz respeito ao modo específico com o qual o centralismo de todo o campo manifesta-se no nível do que
A mente constitui a forma que a consciência, emergente do campo de atividades de determinada pessoa, assume e mantém. Em geral, esta forma é controlada pelo ego, o qual diz respeito ao modo específico com o qual o centralismo de todo o campo manifesta-se no nível do que
denominamos "consciência desperta".
O ser humano, conforme é percebido por nossos sentidos "normais" no presente estágio da evolução humana, é acima de tudo um corpo — isto é, um sistema biológico. As partes constituintes deste sistema são as células, a maioria das quais funciona em comunidades chamadas "órgãos" (coração, fígado, cérebro, glândulas de vários tipos); outras, em subsistemas circulatórios ou agrupamentos intersticiais, cuja relação é mais livre, distribuem-se onde são
necessárias. Cada célula é uma totalidade bem definida e com propriedades características, contendo moléculas que também constituem sistemas estruturados de atividades, organizados para um tipo de trabalho específico — e as moléculas contem átomos, os quais contém diversas partículas indefiníveis de vários tipos.
Assim, percebemos, no nível de vida desta biosfera terrestre, uma série holárquica ou hierárquica de totalidades, cada qual com uma função determinada dentro da "totalidade maio?' da qual fazem parte. Por sua vez, todas elas constituem uma totalidade maior para suas próprias partes componentes.
Quando a mente moderna considera objetivamente estas séries, em geral toma
como certo que tais séries terminam no corpo vivo dos animais e seres humanos.
Contudo, todos estes corpos vivos funcionam dentro da biosfera de um planeta que
— finalmente começamos a compreender — em verdade é um sistema
admiravelmente bem organizado, composto de partes em constante inter-relação,
interação e interdependência. Tais partes são os vários "reinos" que conhecemos e
podemos observar (mineral, vegetal, animal, humano). A estes devemos acrescentar,
no mínimo, fatores telúricos ou planetários como os fatores atmosféricos,
estratosféricos, bem como as correntes oceânicas e as forças ou elos magnéticos (os
cinturões van Allen, por exemplo), os quais talvez representem papel fundamental
no funcionamento harmônico da totalidade planetária.
Além destas categorias de atividades, pode haver outros "reinos" ou centros
nodais de energia que nossos sentidos normais atualmente não conseguem perceber.
Tais reinos podem ser considerados "físicos" em um diferente nível vibratório, ou
suprafísicos. Todos os adeptos de antigas religiões, e muitos povos que até hoje
vivem em contato com a natureza, e a maioria dos sensitivos e videntes atuais
testemunham a existência de classes de entidades, via de regra não observáveis, que
coexistem conosco na biosfera terrestre, ou em outras esferas incluídas no campo
total da atividade planetária que denominamos Terra. Essas entidades recebem
diversos nomes: anjos, devas, espíritos da natureza dos mais variados tipos, que
podem ser personificações de campos dirigidos
de energia operando nos quatro reinos visíveis de vida. É possível que alguns destes
"campos de energia" relacionem-se diretamente com radiações solares ou outras
fontes cósmicas.
A crença na existência do que nos parecem formas de vida ou inteligência
habitualmente invisíveis era natural no homem primitivo. Tal crença jamais
desapareceu por completo, manifestando-se seja em forma religiosa ingênua e
dogmática, ou "paralógica" (isto é, oculta); entretanto, foi exorcizada pelos altos
sacerdotes de nossa física e cosmologia clássicas, em nome de um racionalismo
totalmente subserviente ao empirismo materialista. Se tal crença baseia-se ou não
em fatos indiscutíveis da experiência objetiva não é pertinente neste estágio de nosso
trabalho. O que é importante é que, aparentemente, não existe qualquer motivo justo
para finalizar as séries hierárquicas de campos cada vez mais abrangentes (embora
sempre rigorosamente organizados) de atividades com o corpo humano ou — de
acordo com o que Jan Smuts afirma em seu livro memorável, embora raramente
mencionado, Holismo e Evolução (1926) — com o indivíduo.1 Se concluímos a série
aí, significa que só conseguimos conceber três níveis de atividade cósmica: matéria,
vida e personalidade (a qual inclui a mente, inclusive em sua forma humana mais
superior) — o que constituiria sem dúvida notável manifestação do orgulho humano
("Ninguém é maior do que eu, o homem"), não fosse a fé num Deus onipotente,
diante do qual o homem deve curvar-se em profunda devoção e auto-entrega.
A imagem de Deus criada pela Cristandade, não obstante algumas exceções,
pode ser caracterizada simbolicamente como "heliocêntrica". O teocentrismo das
"grandes religiões" teístas — excetuando-se o Budismo na sua forma original —
corresponde ao heliocentrismo da visão de mundo clássica: um Sol radiante e todopoderoso
— única fonte de luz, calor e radiação — cercado de planetas sombrios e
subservientes; constituindo a Terra o único astro no qual, devido a alguma boa
1. As palavras holismo e holístico vêm sendo largamente utilizadas por filósofos, cientistas e
estudantes de artes, especialmente em oposição a atomismo e atomístico. Em meus últimos livros
Planetarização da Consciência e Podemos Recomeçar — juntos, cunhei os termos holarquia e holárquico,
a fim de me referir mais claramente ao princípio de hierarquia atuante num universo de totalidades, cada
qual parte de uma "totalidade maior", bem como receptáculo e síntese de uma multiplicidade de
"totalidades menores". Um universo holárquico apresenta inúmeros níveis de atividade e de consciência.
fortuna química fortuita, organismos vivos e, por fim, os homens conseguiram se
desenvolver.
Tal modelo representa sem dúvida um marco definido e funda. mental na
evolução da consciência humana — bem como o desenvolvimento do ego no
homem, pois esta parece ser a forma inevitável que o processo de emergência dos
indivíduos a partir da matriz da sociedade tribal assumiu. Um Deus pessoal,
soberano do universo e criador de imutáveis "Leis da natureza" — o Sol, grande
autocrata de seu próprio sistema, cuja totalidade (o "heliocosmo") controla como sua
propriedade particular — o ego do ser individualizado, também governante
(teoricamente) da personalidade e do corpo que deve ser seu escravo obediente:
nestes três níveis impera a mesma idéia. Essa idéia era necessária a fim de que o
processo de individuação pudesse funcionar e o homem pudesse sentir-se um
indivíduo "livre e responsável". Infelizmente, o ideal do individualismo — que
inspirou o conceito sócio-político de democracia — não conseguiu funcionar no
nível de um tipo espiritual de individualidade, individualidade esta integrada a uma
comunidade universal. Da mesma maneira, o modelo heliocêntrico do sistema solar,
durante muito tempo, não salientou a fato de que nosso Sol também é uma estrela
dentro de uma totalidade cósmica mais ampla, a Galáxia. E a adoração a um Deus
individual, um Senhor todo-poderoso provavelmente não constitui o enfoque mais
espiritual para o ideal da divindade — como tentaram mostrar inúmeros místicos,
sobretudo Meister Eckart.
A questão básica, por mim enfatizada, é que o modelo heliocêntrico clássico
do mundo constituiu uma projeção celestial da necessidade humana de um centro
individual dentro da sua personalidade — necessidade inadequadamente formulada,
a qual transformou o centro "Eu sou" do homem como um todo em um ego
autocrático, arrogante, ciumento e belicoso. Inevitavelmente, este ego representa o
primeiro passo no desenvolvimento do centro "Eu sou"; mas a este passo deve
seguir-se outro. Uma forma de compreender objetivamente a diferença entre ego e
núcleo espiritual, do qual o primeiro constitui no melhor dos casos somente um
aspecto, está em perceber que, como já disse, o Sol não é apenas a potência
dominante em seu sistema de planetas, mas também um dos bilhões de estrelas da
Galáxia. Em outras palavras, o Sol pode ser considerado segundo dois papéis
distintos; da mesma maneira pode funcionar o núcleo do ser humano, tanto como
ego
quanto como um dos bilhões de núcleos "Eu sou" da comunidade humana universal.
Adquirir a percepção plena, vívida e inevitável de que o Sol-ego nada mais é
que uma estrela galáctica constitui, essencialmente, o primeiro estágio de
transformação do homem, e na maioria dos casos ele é, hoje, um "mais-do-quehomem"
— simbolicamente um ser galáctico, uma "estrela". Esta transformação fazse
necessária para o estabeleci. mento de uma "Revolução Galáctica."
Quando o Sol é visto como a estrela que fundamentalmente é, um plano de
referência galáctico toma forma na consciência do homem, conferindo
potencialmente um novo significado a todos os padrões e eventos de nosso
tradicional sistema solar. A princípio, os fatos planetários permanecem o que são. As
órbitas, a velocidade de revolução e a inter-relação cíclica entre suas posições no céu
parecem aos olhos humanos não mudar; mas a interpretação desses fatos se altera.
Os termos tradicionalmente usados adquirem significado diferente — o que
infelizmente causa problemas semânticos. Todo o sistema solar é visto sob nova luz,
a luz da relação deste com a Galáxia. Este novo enfoque põe em relevo a diferença
entre os planetas que giram na órbita de Saturno — incluindo o próprio Saturno — e
os planetas transaturninos, Urano, Netuno e Plutão.
O que eu quero dizer com essa relação que o sistema solar guarda com a
Galáxia, segundo o ponto de vista "holárquico" que apresento, é que dentro do nosso
sistema solar duas forças estão ativas: a atração gravitacional exercida pelo Sol e
outra força, cuja natureza ainda não chegamos a compreender, o "poder galáctico". E
este termo, poder galáctico, deve ser entendido como poder do tipo das energias —
melhor ainda, de qualidade de existência — o qual permeia todo o espaço galáctico.
A potência relativa destas duas forças muda segundo a região do sistema solar
considerada. Na região limitada pela órbita de Saturno, o poder do autocrata solar é
dominante, além de Saturno, o poder galáctico sobrepuja o poder solar. Contudo, as
duas forças são ativas em todo o sistema; são ativas dentro do homem, pois cada
célula humana existe no espaço galáctico, bem como no espaço heliocósmico e
biosférico. O espaço de qualquer "totalidade maior" inclui os espaços mais
diferenciados de todas as "totalidades menores", que ele contém e cujas atividades
organiza funcionalmente, no que se refere
a suas necessidades. Na maior parte dos casos, as "totalidades menores" não têm
conhecimento das necessidades das "totalidades maiores", conquanto seus padrões
de vida globais (seus "destinos") estejam sujeitos às mesmas necessidades.
Se compreendermos verdadeiramente este modelo do universo, perceberemos
como fundamental o conceito de hierarquia dos espaços; e na verdade espaço
representa, durante um período de manifestação cósmica, o modo como todos os
sistemas organizados de atividades operantes em qualquer região do universo se
relacionam e interagem. O espaço não é um recipiente vazio no qual são despejadas
substancias materiais; mas sim a intercorrelação de todas as atividades. Com o
funcionamento destas atividades em diferentes níveis de organização — ou planos
de existência — a qualidade de sua interação e interdependência varia segundo cada
nível. Existe uma hierarquia de níveis ou extensão e ritmos de atividades, por
conseguinte uma hierarquia de qualidades de existência. A existência no nível
biosférico do campo terrestre possui uma qualidade ou caráter diverso, comparado
com os níveis heliocósmico e galáctico.
Assim, quando falo de um espaço galáctico estou me referindo ao caráter
especial da relação entre entidades (isto é, campos de atividades organizados) que
denominamos "galácticos" pois percebemos suas atividades como essencialmente
diferentes e superiores àquelas das entidades existentes nos planetas sombrios que
não irradiam luz. A tais entidades cósmicas irradiadoras de luz chamamos "estrelas";
e nosso Sol é uma delas — de nenhuma forma uma das maiores, mais brilhantes ou
mais centrais.
No interior do espaço galáctico as estrelas relacionam-se entre si. No interior
do espaço heliocósmico planetas e outras entidades materiais relacionam-se entre si.
No interior do espaço biosférico organismos vivos relacionam-se entre si. Estes
espaços diferem no caráter ou qualidade dos relacionamentos que se processam em
seu interior, conquanto o espaço maior contenha o menor; portanto, o homem que
habitualmente atua dentro do espaço biosférico também é impregnado pelo espaço
galáctico e afetado pela relação entre as estrelas — embora normalmente não tenha
consciência disto. Sua consciência não funciona no nível galáctico; e menos ainda
pode ele atuar fisicamente nesse nível. Contudo, a consciência está sempre adiante
da atividade concreta, atuando esta última segundo uma base coletiva.
Enquanto fisicamente limitados ao nível tribal de atividade sócio-cultural no
interior de um meio ambiente local, ainda assim os seres humanos conseguiam ter
consciência do significado da "vida" em sentido geral; e projetavam este
significado para o céu, o qual divisavam repleto com a Vida Una, diferenciando-se
por meio de hierarquias celestiais criativas. Quando a humanidade deu-se conta,
através de viagens, da natureza esférica da Terra e da biosfera como um todo, a
consciência das mentes mais evoluídas passou a considerar o universo em termos
heliocêntricos — e surgiu o modelo clássico do universo, o qual os astrólogos
passaram a interpretar em termos individualistas e orientado para os
acontecimentos, para homens que buscavam agir como autocratas solares — ou ao
menos como indivíduos autônomos. Hoje, cada vez mais é possível aos homens
superar a atração gravitacional de nossa Terra e viajar no espaço heliocósmico. Tal
realização física torna-se então o símbolo da possibilidade, para qualquer mente
sintonizada a uma qualidade da existência mais ampla e abrangente do que a norma
coletiva de atingir o nível de existência galáctica.
A astronomia forneceu-nos material visual, sobre o qual podemos começar a
construir um modelo do que ocorre no espaço galáctico. Tal quadro no momento
ainda é vago e cheio de mistérios. Contudo, a astrologia pode começar a interpretar
em termos simbólicos as relações entre as estrelas em movimento neste espaço
galáctico.
Seres humanos não são estrelas, mas o que ocorre na esfera dos astros, e em
termos de uma qualidade galáctica da existência, pode ser utilizado como símbolo
de um tipo de consciência humana em lento desenvolvimento, cujo caráter mais-doque-
individualista — e por conseguinte, simbolicamente, mais-do-que-heliocêntrico
— pode relacionar-se com a qualidade de existência da dimensão galáctica do
espaço.
O fator essencial nesta transformação da consciência humana reside na
transmutação do eu "solar" num nós "galáctico". Nesta consciência-Nós atua o
principio de interpenetração. Esta é a dimensão galáctica da existência, onde
desaparece o senso de separatividade de entidades isoladas (i-sol-adas!) — as quais
são única e exclusivamente o que são. Tudo não apenas se relaciona com todo o
resto mas, repito, toda entidade — bem como toda mente — interpenetra as demais.
Quando a consciência de um indivíduo é capaz de funcionar segundo esta dimensão
espiritual, ela começa a participar de maneira ativa e
transformadora do processo de integração da humanidade em um nível no qual a
formação de um "pleroma" (ou plenitude) toma-se possível — o nível da mente
espiritual, ou superconsciência. Nesse nível, predomina a unanimidade da
consciência, conquanto cada participante do pleroma — ou como diria um
verdadeiro ocultista da "Loja Branca" — detenha a capacidade de atuação.
Este nível de diferenciação funcional equivale simbolicamente ao do
heliocosmo — o Sol e os planetas. Os dois níveis — galáctico e heliocósmico —
relacionam-se não só pelo fato do Sol heliocósmico ser também (e primariamente)
uma estrela galáctica, mas pelo fato menos óbvio de que os planetas além de
Saturno (Urano, Netuno, Plutão e provavelmente pelo menos outro planeta que há
muito tempo denominei Prosérpina) estão no sistema solar mas não fazem parte
dele. Submetem-se Galáxia. São agentes da disseminação da qualidade galáctica da
existência. Designei-os por "Embaixadores da Galáxia" — mas são o tipo de
embaixador cuja função ao menos parcialmente consiste em levar a consciência
humana em direção Galáxia. São radicalmente transformadores, na verdade são
forças subversivas operando no sistema solar.
Um tipo de atividade transformadora sempre ocorre em qualquer sistema
formal de organização humana pessoal ou coletiva — e simbolicamente na
organização de qualquer tipo de ordenação centrada no Sol. Tampouco está ausente
no nível biológico, onde manifesta-se segundo a capacidade de mutação em cada
organismo vivo. Está presente no universo da biosfera, pois no âmago do planeta
Terra deve haver um ponto onde se faz sentir a ação da Galáxia. Como o espaço
galáctico permeia todos os organismos vivos, o âmago misterioso da Galáxia pode
refletir-se sobre ou dentro do seu espaço mais íntimo, o qual vibra, ao menos
potencialmente, na qualidade do espaço galáctico — a qualidade de interpenetração
e radiância solar.
Enquanto mutações biológicas ocorrem apenas na substância celular ou
molecular do núcleo da semente, no nível da consciência humana, o processo de
transformação da mente de heliocêntrica em galáctica parece ocorrer numa região
central da cabeça. Tal região relaciona-se diretamente com o "centro cardíaco",
onde o Sol espiritual do homem — atman, Krishna, ou Cristo — pode ser
simbolicamente localizado. Ambos os centros constituem um só, assim como o Sol
também é uma estrela.
b) Planetas de Funcionamento Orgânico
Quando percebemos que o Sol é uma estrela, participando como tal, enquanto átomo ou célula, da totalidade galáctica e está firmemente arraigado na mente humana, toma-se fácil compreender como o sistema solar se divide naturalmente em duas áreas.
A área limitada pela órbita de Saturno e a que se estende externamente a ele, incluindo os planetas transaturninos, Urano, Netuno e Plutão — assim como a vida de um participante ativo de um organismo nacional se divide entre os lados público e particular. Na área limitada pela órbita de Saturno e governada pelo poder do Sol, tudo se refere organização de um sistema de atividade capaz de funcionar como um organismo estável e relativamente permanente. São três os princípios básicos de funcionamento:
1) o princípio de exclusão formal, o que estabelece a forma específica do organismo vivo e o caráter auto-regulador de suas operações: "Sou o que sou, e nada mais";
2) A capacidade de autoconservação e crescimento por meio de expansão e assimilação metabólica;
3) o princípio de auto-reprodução e de automultiplicação biológica — e, no nível humano, também de auto-expressão na atividade criativa simbólica num ambiente sócio-cultural.
A área limitada pela órbita de Saturno e a que se estende externamente a ele, incluindo os planetas transaturninos, Urano, Netuno e Plutão — assim como a vida de um participante ativo de um organismo nacional se divide entre os lados público e particular. Na área limitada pela órbita de Saturno e governada pelo poder do Sol, tudo se refere organização de um sistema de atividade capaz de funcionar como um organismo estável e relativamente permanente. São três os princípios básicos de funcionamento:
1) o princípio de exclusão formal, o que estabelece a forma específica do organismo vivo e o caráter auto-regulador de suas operações: "Sou o que sou, e nada mais";
2) A capacidade de autoconservação e crescimento por meio de expansão e assimilação metabólica;
3) o princípio de auto-reprodução e de automultiplicação biológica — e, no nível humano, também de auto-expressão na atividade criativa simbólica num ambiente sócio-cultural.
Estes três princípios (ou poderes) são representados na astrologia pelo que no passado denominei "planetas de vida orgânica" (conf. A Prática da Astrologia, 1970) ou "planetas do consciente" (conf. Astrologia da Personalidade, 1936).2
Destes planetas, três giram em torno do Sol fora da órbita terrestre: Saturno, Júpiter e Marte. Três deles, se incluirmos o Sol como origem energética que possibilita a vida em nosso planeta, atuam dentro da órbita terrestre; os outros dois são Mercúrio e Vênus.
Enquanto o Sol é o centro do campo de vida orgânica, Saturno, na linguagem
astrológica, representa a circunferência — os limites de qualquer campo de vida.
Os anéis de Saturno constituem um símbolo visualmente claro do caráter limitante e
convergente de sua atividade. É o princípio da Forma dividindo o campo de
experiência em áreas
2. Consultar também dois outros livros, New Mansions for New Men (1937) e o Tríptico
Astrológico (1968) para enfoques diferentes a uma compreensão dos planetas e do sistema solar.
externa e interna. Tal atividade estabelece limites que a princípio, e durante muito
tempo, funcionam em termos de exclusão rígida e ampla. Contudo, a exclusão é
necessária enquanto não se estabilizam as funções do organismo, nem tampouco está
estabelecido um senso de segurança segundo a capacidade do organismo em isolarse
de matéria externa que não deve absorver, pois não consegue assimilá-la.
Assimilar o que quer que seja é tomá-lo "semelhante" ao que está sendo usado
funcionalmente na área interna do campo orgânico de atividade.
Entre o centro-Sol e a circunferência-Saturno estende-se o campo da vida
orgânica. Júpiter, o maior planeta do heliocosmo, representa a capacidade de
assimilação e, através desta, de expansão. Para que o tipo de expansão jupiteriana
seja saudável, deve funcionar dentro dos limites saturninos. Contudo, quando estes
últimos tomam-se excessivamente rígidos ou restritos, como resultado de medo ou
de experiências chocantes, a força jupiteriana tenta fluir pelos portões dos muros de
Saturno, seduzindo ou corrompendo o guarda dos portões; ou, caso isto não seja
possível ou seguro, tenta compensar a rigidez saturnina construindo na imaginação
alguma forma de campo celestial, no qual a força do Sol pode disseminar-se pelo
espaço infinito sem limitações ou (no nível da atividade mental) sem definições
rigorosas e exclusividade lógica. Entretanto, imaginar semelhante forma de extensão
do espaço-campo jupiteriano é muito diferente de realmente transformar o poder de
Saturno. A mente pode recusar-se a ver ou admitir a existência dos muros
fortificados; ainda assim, eles existem, e permanecem como obstáculo ainda mais
forte à transformação galáctica, pois o desejo jupiteriano de expansão, buscando
ignorar ou negar todas as limitações, acentua ainda mais o aspecto estritamente solar
do Sol. Como Júpiter considera o Sol apenas enquanto fonte de abundância sempre
crescente, o otimista ou devoto religioso jupiteriano toma-se de fato cada vez mais
incapaz de ver o Sol como uma estrela.
Júpiter encontra em Mercúrio um aliado, e com freqü.ncia um escravo
conivente. Juntos formam uma união, entretanto, como funcionam em um nível
diferente do par Sol-Saturno, o significado do relacionamento de ambos também é
diferente. O poder jupiteriano de assimilação e metabolismo necessita de um sistema
regulador do sistema nervoso. Júpiter pode ser o empresário bem-sucedido, mas
estaria desamparado sem uma eficiente secretária executiva, ou uma burocracia bem
integrada, e hoje, sem uma bateria de computadores — todos
referentes função de Mercúrio em qualquer campo complexo de vida orgânica ou
organização socioeconômica. Contudo, se Júpiter tenta expandir-se por meio de
atividades compensatórias e falsamente sonhadoras — as quais podem referir-se a
experiências pseudomísticas ou exageradamente devocionais, porquanto Júpiter
relaciona-se com a atividade religiosa — Mercúrio pode confundir e perturbar a
consciência jupiteriana ao ocultar a qualidade de sonho dessa compensação da rigidez
saturnina, sob o glamour da autojustificação intelectual e das palavras
magníficas e vazias, ou dos argumentos especiosos.
A dupla Marte-Vênus funciona segundo outro tipo de função orgânica. Marte
representa o desejo freqüente, conquanto não necessariamente agressivo, de
reproduzir a forma pessoal e especifica da personalidade que imprime suas linhas
gerais reiteradamente em alguma entidade receptiva ou pouco definida que esteja
próxima. Marte busca preencher o espaço cósmico com uma réplica do que o
indivíduo sente ser. No nível biológico, este desejo representa a ânsia de progenitura
abundante. O que podemos constatar na história bíblica de Abraão, que imaginou a
terra repleta de gerações de povos, todos descendentes da semente-modelo de seu
ser físico e intelectual. Isso é imortalidade biológica, que identificamos como
realidade física na linhagem autêntica e ininterrupta de descendentes masculinos
diretos de Confúcio, abrangendo quase oitenta gerações. Tal imortalidade também
pode ser exemplificada pelos numerosos descendentes de Maomé.
Tal autoprojeção biológica toma-se possível através de Vênus, que
tradicionalmente "governa" as glândulas produtoras de espermatozóides e óvulos, os
testículos e os ovários. Em seu mais elevado significado, Vênus relaciona-se com a
criação de arquétipos, os quais são "sementes de consciência". Os ocultistas via de
regra citam Vênus como a fonte de onde emergiu o Homem arquetípico. Este
arquétipo concretizou-se em nossa Terra que, enquanto planeta, movimenta-se entre
Vênus e Marte, por conseguinte representa simbolicamente o fruto da atividade
conjugada de ambos. Marte distribui os bens engendrados por Vênus. Como
soberano de toda atividade expansiva, portanto do sistema muscular em todas as
suas manifestações sutis e evidentes, Marte depende de Vênus para suas diretrizes;
isto ê, depende de julgamentos de valor (bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis,
ser amado por ou fugir de) fornecidos por Vênus.
Na astrologia moderna, a Lua em geral é relacionada com Saturno, pois ambos
representam respectivamente a imagem da mãe e do pai na consciência da pessoa,
mas não necessariamente o caráter real da mãe e do pai físicos. A Lua deve ser
considerada o símbolo da capacidade de adaptação de um organismo ás condições
em constante mudança na vida diária e da capacidade de renovação. A Lua representa
a mãe porque, ao nascer, o bebê humano é indefeso e a mãe — ou a babá — é
quem providencia para que viva nas melhores condições possíveis. Mais tarde, a
criança deve desenvolver sua própria capacidade de ajustamento e adaptação, o que
faz através dos "sentimentos". Estes representam os aspectos mais elevados e
conscientes dos instintos inconscientes e compulsivos do organismo puramente
animal. A Lua também pode relacionar-se com o tipo de inteligência espontâneo que
também constitui um aprimoramento do instinto animal, quase exclusivamente
destinado à sobrevivência.
Mais um fator importante é encontrado no campo heliocósmico que se estende
entre o centro solar e a circunferência saturnina: o anel de asteróides. Recentemente,
os asteróides chamaram a atenção dos astrólogos e foi calculada uma efeméride para
o maior deles.3 Contudo, já discuti a importância dos asteróides em New Mansions
for New Men e, de maneira diferente, em artigo publicado na revista American
Astrology em outubro de 1936. Para o astrônomo, os asteróides são uma grande
quantidade de pedaços relativamente pequenos de matéria girando entre as órbitas de
Marte e Júpiter no local onde, segundo a Lei de Bode, deveria haver um planeta.
Esta lei, popularizada durante a última parte do século XVIII, mas em verdade
descoberta por David Titius em 1751, estabeleceu uma relação bastante misteriosa
entre as distâncias dos planetas e o Sol. Ela estimulou os esforços no sentido de
identificar o que quer que se localizasse na região do sistema solar em que deveria
ser encontrado o suposto planeta; e em 1° de janeiro de 1901 o maior asteróide,
Ceres, foi observado por Giuseppe Piazzi num observatório na Sicília. Muitos outros
foram descobertos ao longo do último século, e pode haver milhares de outros muito
pequenos. Os quatro maiores parecem ter diâmetros que vão de 180 a 720
quilômetros
3. Cf. o livro de Eleanor Bach, Ephemerides of the Asteroids Ceres, Pallas Juno and Vesta (Nova
York, 1973).
O tamanho dos asteróides não é fundamental na tentativa de descobrir o
significado dos mesmos dentro da estrutura total do heliocosmo. O significativo
reside no grande número de asteróides e no fato de enxamearem o espaço entre as
órbitas de Marte e Júpiter. Na verdade, é o espaço ocupado por cada planeta no
sistema solar — a região do espaço heliocósmico em que gira — o que lhe confere
a significação abstrata ou arquetípica na linguagem celestial da astrologia,
sobretudo quando esta região também é interpretada tomando-se como referência a
órbita da Terra. Da mesma maneira, o significado funcional de qualquer órgão do
corpo humano origina-se em grande medida da posição por ele ocupado, ao menos
na forma humana arquetípica.
De acordo com o ponto de vista holístico (ou gestáltico), parece bastante
ilógico escolher alguns asteróides do enxame por eles formado apenas porque são
um pouco maiores e mais facilmente detectáveis, mesmo se individualizados com
nomes mitológicos gregos. Desta maneira, cometas cujo aparecimento parece ser
periódico. devem ter um significado astrológico. Os satélites de todos os planetas
também deveriam ser considerados. O que é importante nos asteróides é o fato de
constituírem uma classe definida de corpos celestiais; por conseguinte, devemos
entendê-los em seu conjunto como a manifestação de algum fator básico ou
principio estrutural existente em no mínimo algum tipo de sistema solar,
constituindo assim uma "palavra" significativa na linguagem planetária simbólica
da astrologia.
Tal palavra foi revelada consciência do homem durante o século XIX, na
mesma época em que duas outras grandes palavras, Urano e Netuno, também
entravam em uso, já que elas eram necessárias para uma melhor compreensão de
um aspecto recentemente desenvolvido na personalidade humana. No que se refere
ao ocorrido no século passado, esta palavra celestial pode ser traduzida, na nossa
linguagem racional-cultural, como "fragmentação".
A idéia de que os asteróides foram produzidos pela explosão de um planeta
foi desafiada aparentemente há bem pouco tempo; contudo, continua a constituir a
hipótese mais provável. Mesmo se esses milhares de fragmentos não resultaram de
uma explosão planetária, ainda assim podem ser relacionados com um estado
fragmentário de existência e consciência — estado de atomização, de nãointegração.
Mas se agora considerarmos a série de planetas, que a partir do Sol se
dirigem para fora, o fato desta condição "asteroidal" da existência ser vista
como conseqü.ncia do tipo de atividade vital simbolizada por Marte fornece-nos
uma pista bastante óbvia do seu significado. A atividade marciana manifesta-se de
modo impulsivo e emocional. Nela a natureza-desejo do homem e seus músculos
tencionam-se para uma ação agressiva, visando a obtenção do que quer que deseje.
Mas a agressão sempre atinge seu objetivo? Nosso meio ambiente é repleto de
outros agressores, os quais podem ressentir-se e lutar contra a nossa atividade
externa Mesmo que não precisemos combater a fim de obter o que queremos, com
frequência desperdiçamos nossas energias na perseguição de tantos objetos
desejados, de interesses e anseios excêntricos em demasia; tomamo-nos febris com
tanta atividade e rapidez, e nosso corpo e/ou psique sucumbem.
Penso ser este o simbolismo do cinturão de asteroides como um todo.
Contudo, a condição desintegrada ou desintegradora por ele retratada pode ser
curada, sendo a cura fornecida por Júpiter, que nos diz que a atividade individualista
de Marte na busca de satisfação emocional, ou mesmo de necessidades biológicas,
pode ser transformada em cooperação grupal, através da qual é possível obter
sucesso, onde a agressividade pessoal desapiedada e implacável só redundaria em
autofragmentação e servidão cármica. O cinturão de asteróides pode constituir o
símbolo do carma de atividades passadas desarmoniosas ou espiritualmente
desintegradoras. Situado como uma espécie de ponto médio entre o Sol e Saturno,
representa um lembrete das implicações materiais da consciência heliocêntrica. Os
asteróides parecem constituir entidades estritamente materiais, sem atmosfera,
magnetismo ou combustão interna — desprovidos de qualquer tipo de vida. Não
podemos considerá-los o reflexo sombrio — a sombra — da Galáxia, cujos bilhões
de estrelas irradiam luz? Todo organismo material vivo forma uma sombra. Toda
ação marciana muscular gera toxinas nas células contraídas. A Revolução Industrial
não tem lançado profundas sombras sobre a consciência coletiva dos povos
ocidentais?
O fato de Urano e Netuno terem sido localizados no mesmo período das
descobertas dos asteroides é significativo, pois ambas as descobertas relacionam-se
com a percepção, ao menos para algumas mentalidades livres e abertas, das
possibilidades positivas e negativas inerentes a Revolução Industrial, e de tudo o que
esta trouxe à humanidade.
Os planetas Urano e Netuno abriram caminho para uma alteração radicai de todas as implicações da existência humana, tanto individualmente como em grupos sócio-culturais e políticos — alteração esta capaz de levar a um tipo de consciência e organização galácticas, pois o que quer que representem estes dois planetas, em última análise eles apontam para a "galactização" da humanidade.
Os planetas Urano e Netuno abriram caminho para uma alteração radicai de todas as implicações da existência humana, tanto individualmente como em grupos sócio-culturais e políticos — alteração esta capaz de levar a um tipo de consciência e organização galácticas, pois o que quer que representem estes dois planetas, em última análise eles apontam para a "galactização" da humanidade.
Por outro lado, os asteroides simbolizam a fragmentação e a atomização da sociedade ocidental e sua tradição religiosa e cultural outrora homogênea. Quanto Plutão foi descoberto no século XX, assim como uma grande quantidade de asteróides cada vez menores foram identificados, o caráter centrifugo e a explosividade das ambições e reivindicações individualistas atingiu um nível tão perigoso que precisou ser ou brutal ou sutilmente reprimido por alguma forma de totalitarismo plutoniano — Fascismo e Comunismo, ou, no mundo "livre", grandes 'negócios, direcionando mentes e sentimentos humanos através da utilização de propaganda implacável, limitadora e produtora de uma paralisante ilusão de liberdade.
Na linguagem astrológica, Urano, Netuno e Plutão, enquanto agentes da Galáxia, podem constituir palavras bastante perturbadoras, porque, onde quer que o poder saturnino — inerente a tudo o que tem forma e limites — se materializa e se transforma em cidadela fortificada do ego humano, estas palavras remetem a desafios de vida e a revoltas de todo tipo. Todavia, crises assim induzidas são meios catárticos que conduzem para um fim basicamente construtivo e potencialmente glorioso. Urano, Netuno e Plutão são agentes de transformação; e, no nível humano, processos de transformação constituem partes integrais do organismo da personalidade como um todo, constituindo um quarto nível de atividade funcional, cujo propósito é permitir o funcionamento de uma quarta dimensão da consciência — a dimensão galáctica.
Quando esta dimensão se manifesta em número de seres humanos suficiente, opera-se uma transformação contagiante e, no devido tempo, alteram-se os alicerces coletivos da cultura e da sociedade. Testemunhamos hoje a disseminação de uma epidemia de mudanças, com seus fervilhantes altos e baixos e o sofrimento resultante. Tais mudanças devem abrir uma porta ao influxo de forças galácticas — a "descida" do poder espiritual e transformador que impregna o espaço global da Terra, bem como a humanidade enquanto um todo. Em seguida, poderá
tomar forma uma civilização global, a qual refletirá simbolicamente o caráter essencial da Galáxia como um todo. Então a Galáxia será compreendida pelo que é em seu próprio nível de atividade,
e não mais apenas segundo nossas atuais percepções heliocêntricas e conceitos materialistas.
A Galáxia será vista e sentida como uma totalidade cósmica de estrelas radiantes e interpenetrantes em perpétua transformação — um pleroma de centros dinâmicos da consciência galáctica, os quais, não importa como sejam em seu próprio nível cósmico, podem ser utilizados como símbolos magníficos, capazes de inspirar os homens a se tomarem mais do que homens.
A Galáxia será vista e sentida como uma totalidade cósmica de estrelas radiantes e interpenetrantes em perpétua transformação — um pleroma de centros dinâmicos da consciência galáctica, os quais, não importa como sejam em seu próprio nível cósmico, podem ser utilizados como símbolos magníficos, capazes de inspirar os homens a se tomarem mais do que homens.
c) Planetas de Transformação e Transcendência
Qualquer processo de transformação completo precisa lidar diretamente com as energias produtoras das formas que exigem alteração radical. Como vimos anteriormente, as três funções fundamentais em corpos vivos (ou mesmo em sistemas sócio-culturais estáveis) são simbolizadas no sistema heliocósmico por Saturno, Júpiter e Marte: isto é:
- Saturno - o princípio que produz limitações e determina a definição das formas e das estruturas;
- Júpiter - o princípio de assimilação e expansão dentro dos limites definidos por Saturno
- Marte - o poder de atividades expansivas que servem ao propósito do organismo e, no homem, do ego.
Saturno, Júpiter e Marte, planetas que giram fora da órbita terrestre, regulam as relações do organismo com outros organismos e com o meio ambiente como um todo.
O Sol, Mercúrio e Vênus, que se situam dentro da órbita terrestre, relacionam-se com funções internas:
O Sol, Mercúrio e Vênus, que se situam dentro da órbita terrestre, relacionam-se com funções internas:
- O Sol é a origem da força vital (prana) e determina o ritmo específico do organismo individual — fornecendo assim energia, a cuja expansão Saturno estabelece os limites.
- Mercúrio simboliza todos os processos mentais, graças aos quais o sentido social jupiteriano pode produzir uma linguagem e cultura transferíveis de geração em geração.
- Vênus gera valores arquetípicos e fornece julgamentos morais, os quais guiam a impetuosidade e agressividade marcianas.
Cada um destes três pares de funções — sobretudo Saturno, Júpiter e Marte —constituem os alvos para um desafio galáctico tridentado representado por Urano, Netuno e Plutão. Trata-se de um desafio de transformação e de transcendência, fundamentalmente de uma repolarização das harmonizações psíquicas da atividade orgânica e uma reorientação da consciência e de seu princípio central, o ego.
Falamos anteriormente do fato de toda área do sistema solar também ser parte
do espaço total da Galáxia, e por conseguinte de estar ela impregnada de energias
galácticas. Contudo, em qualquer sistema rigidamente limitado pelo principio
saturnino de formação sobre bases de exclusivismo e separatividade, estas energias
galácticas são de natureza que transcende a possibilidade normal de ressonância do
sistema.
Estas energias existem dentro do campo heliocósmico em estado basicamente latente, enquanto as operações diárias e a consciência do ego nos seres humanos se ocupam com o atual estágio evolutivo do nosso planeta. Tudo o que se encontra dentro da órbita de Saturno gravita na direção do Sol e é biologicamente orientado e condicionado pelas forças compulsivas e instintivas da biosfera e das esferas ainda mais materiais de nosso globo.
O desafio fundamental lançado por Urano, Netuno e Plutão reside na percepção da existência de outro tipo, oposto, de gravitação — a atração exercida pelo centro galáctico. É o desafio de concordar em ser reorientado e repolarizado.
Portanto, os planetas transaturninos exigem uma mudança de lealdades. O que também implica uma nova perspectiva de vida e de todas as suas atividades orgânicas, um novo sentido de relacionamento com tudo o que existe e com o simples fato de existir. Por fim, um novo sentido de tempo e um novo potencial de ação no espaço — espaço galáctico, em vez de espaço heliocósmico— tomará forma na consciência.
Estas energias existem dentro do campo heliocósmico em estado basicamente latente, enquanto as operações diárias e a consciência do ego nos seres humanos se ocupam com o atual estágio evolutivo do nosso planeta. Tudo o que se encontra dentro da órbita de Saturno gravita na direção do Sol e é biologicamente orientado e condicionado pelas forças compulsivas e instintivas da biosfera e das esferas ainda mais materiais de nosso globo.
O desafio fundamental lançado por Urano, Netuno e Plutão reside na percepção da existência de outro tipo, oposto, de gravitação — a atração exercida pelo centro galáctico. É o desafio de concordar em ser reorientado e repolarizado.
Portanto, os planetas transaturninos exigem uma mudança de lealdades. O que também implica uma nova perspectiva de vida e de todas as suas atividades orgânicas, um novo sentido de relacionamento com tudo o que existe e com o simples fato de existir. Por fim, um novo sentido de tempo e um novo potencial de ação no espaço — espaço galáctico, em vez de espaço heliocósmico— tomará forma na consciência.
Transformação tão radical pode ser interpretada pela mente moderna como um
despertar de vibrações que possibilita ao organismo ressoar junto ás energias
galácticas. Também pode ser encarada como a remoção de uma variedade enorme de
obstáculos produzidos pela consciência saturnina do ego e sua submissão a
conceitos estreitos e lealdades emocionalmente limitantes, o que ocorre no nível do
indivíduo, e também em qualquer tipo de sociedade, cultura e religião, seja ela tribal,
provinciana ou nacional. Uma vez removidos estes obstáculos e transcendidas as
limitações, o homem é capaz de responder a energias, sentimentos e pensamentos
num nível de maior abrangência e de valor mais espiritual.
Esse processo de transformação e repolarização não exige nossa saída da
Terra rumo a algum outro lugar. A "nova vida" não está em outro lugar; o espaço
galáctico não está distante ou acima de nós, em algum paraíso mitológico e
transcendente. O espaço galáctico permeia-nos a todos. Vivemos dentro dele, mas
não compreendemos
verdadeiramente tal fato, pois Saturno e o ego nos tomam cegos e insensíveis a ele.
Os fatos de Saturno obliteram os fatos galácticos; contudo, ambos são
essencialmente a mesma coisa. Mas o homem, com uma consciência transformada,
os vê sob luz diferente. Nada é negado; tudo é transfigurado. Uma vez empreendida
a transformação, o Sol biológico torna-se mais radiante do que nunca, pois passamos
a vê-lo não apenas como o nosso Sol autocrático, mas também como uma estrela
galáctica. Enquanto nossa consciência e identidade vincularem-se a um corpo físico,
este Sol nos conservará biologicamente; entretanto, feita a transformação, o Sol
deixará de cegar-nos com sua glória. Não mais nos impedirá de perceber o fato
galáctico de que, enquanto um centro individual da consciência, nós somos a
expressão física de um astro na Galáxia. Este astro é nosso astro-pai, nossa
identidade espiritual dentro da vasta companhia de estrelas galácticas. Tomar
conhecimento desse fato de maneira incontestável e irrevogável proporcionará
nossa vida segurança e paz interiores. É a verdadeira "salvação."
Hoje, esse processo de transformação e de transfiguração pode ser visto
ocorrendo em dois níveis. Em seu aspecto mais essencial, atua dentro do indivíduo,
processo este a que os ocultistas referem-se como "o caminho". Este leva
gradualmente — as verdadeiras e grandes Iniciações — consciência supramental e,
possivelmente, ao renascimento consciente em uni self imortal. Contudo,
atualmente, a humanidade como um todo — e provavelmente o planeta Terra — está
envolvida num processo de mudança acelerada, a que alguns esotéricos4 denominam
Iniciação planetária. Tal mudança pode relacionar-se com a transição entre duas
grandes Eras, em geral denominadas Era de Peixes e Era de Aquário — e talvez
entre ciclos ainda mais amplos do que o da precessão dos equinócios. Devido a esta
mudança e ao desenvolvimento dos poderes intelectuais que possibilitaram a Revolução
Industrial e a tecnologia moderna, foram descobertos os três planetas
transaturninos e determinadas a existência e estrutura da Galáxia (e outras nebulosas
em espiral). Estes planetas forneceram-nos novas "palavras" para a linguagem
celestial da astrologia, que auxiliaram-nos na formulação das principais fases
históricas da transformação planetária.
4. A filosofia esotérica relaciona-se com a Teosofia, o Rosacrucianismo e todas as demais formas
de Ocultismo sério.
A primeira fase ocorreu em fins do século XVIII, quando o direito divino dos
reis e o valor das formas rígidas da religião institucionalizada foram desafiados. Este
foi chamado o século do Iluminismo, porque trouxe à civilização ocidental novos
ideais sociais, psicológicos e intelectuais, abrindo caminho para a Revolução
Industrial, que viria modificar o modo de vida da humanidade. A descoberta de
Netuno em 1846 simboliza o caráter de tudo o que acontecia no mundo ocidental e,
através do colonialismo, em todo o globo. Se o uraniano século XVIII destruiu em
termos revolucionários os modelos aristocráticos e dogmáticos estabelecidos na
Europa, libertando o potencial de liberdade humana e a verdadeira democracia —
infelizmente apenas o potencial! —, o netuniano século XIX, de muitas formas, e
tanto quanto o presente estágio da evolução humana permitiu, veio dissolver as lealdades
fortemente arraigadas dos seres humanos nas rígidas estruturas de classe e nos
provincialismos, forçando as nações mais industrializa. das a se expandir por todo o
globo, a fim de satisfazer sua necessidade de matérias-primas e de operários
estrangeiros. A variedade da mistura racial/cultural assim produzida devia,
idealmente, ter formado retortas alquímicas para a transformação de consciência
nacional e de classe, e a emergência de organizações humanistas, não-exclusivas e
internacionais, tanto no nível sócio-político como no religioso; mas falharam
grandemente em suas tentativas, em razão do poder arraigado do privilégio
jupiteriano e da ganância de homens ambiciosos.
A descoberta de Plutão em 1930, época da Grande Depressão que atingiu todo
o mundo ocidental, ofereceu ao homem um símbolo do que inevitavelmente ocorre
quando nações, grupos e indivíduos insistem, inflexíveis, em buscar o caminho da
agressividade do ego, da sede de poder e do sensacionalismo, recusando-se a
renunciar aos velhos privilégios e às crenças obsoletas. A cegueira interior explode
em violência e crueldade externas. O Terror "vermelho" responde ao Terror
"branco" com crueldade ainda maior. A fraude e a destruição são aceitos como
princípios de conduta. Tudo tende a ser reduzido à mera essência, mas na escuridão
espiritual o essencial toma-se o absurdo. Desaparece o encanto dos ideais, deixando
inteiramente ã mostra o que não correspondeu ao ideal. Contudo, Plutão abre
caminho para o eventual renascimento, onde o caos aceita ser fecundado por uma
nova revelação do cosmos, e uma nova visão da ordem universalista toma forma no
interior da consciência purificada.
Ainda não atingimos uma situação de caos suficientemente generalizada, a
ponto de tomar possível uma aceitação coletiva de uma nova ordem em larga
escala; contudo, certos indivíduos sempre conseguem distinguir-se da massa da
humanidade ainda apegada 'a compulsões, violência e padrões repetitivos
característicos da biosfera terrestre. Os indivíduos podem deixar a estrada de
rodagem da evolução, onde o processo de transformação é lento. e hesitante, e
adentrar "o caminho". Esta é sempre, de alguma maneira, a Senda do Discipulado
— mesmo se o guru não é fisicamente ativo — pois implica tanto boa vontade
quanto disponibilidade do indivíduo em "elevar-se" rumo a um nível espiritual de
consciência e existência mais elevado, como também a "descida" de um ser que
trabalha naquele nível transcendental e, por compaixão, está pronto a ajudar (e a
realmente envolver-se com) aquele que envida esforços sinceros e consistentes no
sentido de tomar o Caminho do esclarecimento espiritual acelerado.
No simbolismo astrológico, este Caminho leva de um tipo de consciência e
atividade planetária e heliocósmica a um tipo galáctico. Ao trilhar este Caminho
perigoso e tortuoso, ele deve enfrentar os desafios representados pelos três planetas,
Urano, Netuno e Plutão. Enquanto na estrada da vida o homem caminha junto com
os demais seres humanos que, mais ou menos, estão em seu próprio estágio
evolutivo — desta forma fazendo parte de uma maré sócio-cultural coletiva que o
impulsiona por entre cristas e depressões —, no Caminho da Iniciação o indivíduo
caminha sozinho, rodeado de presenças invisíveis e estranhas e defronta-se com um
teste de sinceridade, coragem, paciência e discernimento atrás de outro. Ele caminha
"sobre os passos" de muitos que seguiram este caminho antes dele. Pode encontrar
vestígios de alguns que deixaram-se cair na beira da estrada. Em meio à escuridão,
talvez seja preciso sentir o solo sob seus pés para ter certeza de que ainda é "o
caminho e a vida", e não algum desvio que leva apenas a ilusões cheias de encanto
ou a desertos intelectuais e áridos. Ocasional. mente, ele pode ter um vislumbre de
uma estrela cuja radiância repercute no âmago do seu ser, ou pode ter a visão fugaz
de um ser que zela por ele e aponta para algum cume ainda distante. Aconteça o que
acontecer, ele precisa prosseguir a caminhada — grande injunção oferecida pelo Zen
Budismo. Precisa manter-se em movimento, pois mobilidade é saúde e santidade; e
o movimento parece em constante aceleração, o caminho mais árduo. As exigências
aumentam em intensidade e dificuldade.
Por que buscar este Caminho? Essa busca pode dar-se de duas maneiras:
positivamente, porque o indivíduo teve uma visão — embora imprecisa — de um
objetivo super-humano ao qual o seu ser como um todo respondeu, e de um estado
de ser que fascinou sua consciência. Pode ter experimentado a presença ou o
chamado interior de um ser radiante que era ele mesmo e também algo muito além
de si mesmo. Ou o indivíduo pode ter buscado a entrada do Caminho
negativamente, devido à rebelião emocional, à inquietação, à insatisfação divina ou
ao total descontentamento com a estrada repleta da massa de homens — ou talvez
apenas porque, sem razão consciente, teve de fazê-lo. Bem, não importa o que o
tenha levado a iniciar-se no Caminho, ele precisa corresponder, repetidamente e em
diferentes níveis, à exigência uraniana de transformação, ao chamado netuniano
para a transmutação e ao chamado plutoniano profundamente inquieto para a
transubstanciação; isto é, uma mudança radical em sua estrutura mental — na
qualidade das suas respostas a cada aspecto da vida diária e das relações
interpessoais — e por fim na própria substância do seu ser interior, e talvez do
exterior.
Esta tríplice mudança na forma, na resposta em termos de sentimentos e na
substância psicomental constitui um redirecionamento, uma repolarização e uma
reavaliação das lealdades do indivíduo, tradicionalmente simbolizadas pela
metamorfose da lagarta em borboleta. Isso implica uma mudança no nível de
existência — do biológico para o espiritual-mental, do planeta sombrio para a
estrela galáctica. Um novo quadro de referência deve ser organizado e inteiramente
testado por meio de experiências cruciais. O antigo campo heliocósmico governado
pelo Sol e limitado por Saturno deve ser transfigurado pela percepção de que é uma
pequena parte do vasto espaço galáctico. O indivíduo governado pelo ego deve
deixar de se considerar o centro de um universo que é estruturado por seus desejos
e medos, suas ambições e frustrações. Ele precisa aceitar seu papel de servo de um
todo maior. Externamente, este todo maior é a humanidade, denominada por alguns
ocultistas "a Grande órfã". Em sentido mais elevado, é a fraternidade de "seresastros"
radiantes, que percorreram o Caminho com sucesso e agora orientam a
evolução humana.
A mudança constitui verdadeira metamorfose radical, envolvendo
inevitavelmente profundas crises. Isso. significa, em termos da prática astrológica,
que a presença de Urano, de Netuno e de Plutão numa
carta natal relaciona-se com processos de vida e acontecimentos que podem ser
considerados desafios construtivos à transformação no "novo homem", ou
transtornos drásticos para o "velho homem" dentro de cada um de nós, e são com
freqü.ncia totalmente destruidores de tudo o que se refira, em termos sociais, velha
ordem ou, biologicamente, à saúde física ou psicológica. As avaliações positiva e
negativa aplicam-se ao que o planeta representa numa carta, segundo sua posição
no Zodíaco e no círculo de casas, e ambas as possibilidades ou apenas uma das
duas podem ser experienciadas. Como estes três planetas transaturninos desafiam
especificamente uma dupla trindade de planetas cis-saturninos (Saturno, Júpiter,
Marte — e Sol, Mercúrio, Vênus), o problema de determinar se de fato se referem a
acontecimentos construtivos ou destrutivos, ou a ambos, só pode ser solucionado —
e apenas experimentalmente — considerando-se também as posições dos planetas
que estão sendo desafiados.
Urano desafia mais especificamente Saturno e o Sol e, conseqüentemente, a
circunferência e a fonte central de energia que atua no campo heliocósmico
limitado por esta circunferência. Urano recusa-se a aceitar as limitações impostas
por Saturno ao poder radiante do Sol, seja no nível biológico (estrutura óssea) ou no
nível psicológico do ego e seu exclusivismo. Tirano não afeta o Sol enquanto
estrela mas, ao dominar ou ao menos ao perturbar profundamente os poderes de
Saturno, transforma o modo de funcionamento da energia solar. Urano atua através
de súbitas liberações de energia, que com freqü.ncia provocam impacto altamente
destrutivo sobre o que quer que se interponha em seu caminho. De certa forma
constitui uma ação semelhante do raio ou, em outros casos, do vento violento. É
capaz de atingir inesperadamente as fortificações saturninas e assim as defesas
longamente acumuladas ou cuidadosamente engendradas pelo ego.
Quando o poder de Saturno e os velhos modelos que garantem a segurança
do ego e os privilégios sociais vão abaixo, Urano pode atuar como inspirador e
como capacidade de adaptação aos novos ritmos da consciência orientada pela
galáxia. Acima de tudo, sua função consiste em manter aberto o caminho para o
centro galáctico, o que induz a um estado de total disponibilidade para o que quer
que tenha de acontecer. Tal estado de abertura e disponibilidade está em agudo
contraste com a condição saturnina, inerte, dominada pelo hábito e adoradora da
tradição.
NETUNO é o "solvente universal" de que falam os alquimistas.
Dissolve tudo o que Urano estilhaçou. Enquanto Júpiter relaciona-se com o processo
de expansão inerente a todos os organismos vivos — e também com modernas
corporações de negócios — e com a ânsia pelo tipo de poder que parece jamais
satisfazer inteiramente a ambição pessoal, Netuno representa a atitude de desapego a
todo objeto mensurável quantitativamente, ou a ganhos e prestígio social, qualidade
necessária a todo aspirante a uma existência espiritual. A não-possessividade e a
compaixão caracterizam este planeta, cujo símbolo é o mar. Mas em seu aspecto
negativo, Netuno representa a fascinação por todas as formas, e a intoxicação com
tudo o que reflete, constituindo por vezes a caricatura da consciência cósmica e do
estado de união que os grandes místicos freqüentemente tentam descrever por meio
de alegorias confusas. Mercúrio, que representa a mente condicionada por impulsos
biológicos ou sócio-culturais, é mestre em oferecer-nos reflexos em vez de
realidades. Netuno desafia nossa dependência de meras abstrações intelectuais e de
modelos de pensamento social-jupiterianos.
A característica de PLUTÃO — que poucos astrólogos compreendem — é
a pureza. Água pura é água que não contém material estranho; por conseguinte, uma
combinação pura de hidrogênio e oxigênio, H20. Plutão é a força que impulsiona e,
muito freqüentemente, compele qualquer organismo vivo e qualquer ser humano a
abandonar tudo aquilo que não seja parte da sua natureza essencial — da sua
"verdade de ser", do seu dharma. Portanto, é um agente fortemente catártico. Ele
limpa e purifica, e em geral não o faz de. maneira suave. Se Plutão desafia
Marte, é porque este último representa o desejo amiúde imoderado de
lançar-se na direção que Vênus dentro de nós faz-nos considerar atraente. As ações
"marcianas", entretanto, muito freqüentemente resultam em reações que fornecem ao
organismo. ou ego emocionalmente expansivo materiais e idéias estranhas à sua
natureza. Esse tipo de atividade é. obsedado pelo anseio de auto-expressão,
expressão esta condicionada, se não inteiramente determinada, por padrões sociais
ou simples modismos. Plutão impõe nossa consciência egocêntrica a compreensão
da futilidade e o perigo de expansões emocionais e ambiciosas. Destrói
impiedosamente todo o encanto, descondicionando-nos e deixando-nos expostos e
vulneráveis, mas — caso tudo de certo. — simples e purificados.
Com o progresso do discípulo pela Senda e sua repolarização pelas forças
galácticas atuantes nos três planetas transaturninos,
começam a surgir suas aptidões no campo ampliado e elevado da existência. O que
era apenas latente, enquanto parte do vasto potencial inerente à natureza humana,
toma-se real.
URANO relaciona-se com uma nova aptidão de visão — ou seja, com a
clarividência. O verdadeiro clarividente é capaz de "visualizar", em geral na forma
de símbolos ou de mensagens proféticas, o caráter e o significado de qualquer
situação para a qual dirija sua atenção. O símbolo por ele percebido possui uma
qualidade abrangente. Em princípio, ao menos, revela a essência de toda a situação
— não somente parte dos aspectos superficiais da situação ou do que a pessoa, sob
domínio do ego saturnino, pensa ser (ou, até mais, quer que seja).
NETUNO proporciona ao discípulo na Senda ao menos o prenúncio do significado da verdadeira compaixão e santidade. Amplia a consciência de forma a capacitá-la a responder a todas as condições da existência e a aceitar tudo o que existe simplesmente do jeito que é. Transcende categorias intelectuais e preconceitos de cor ou classe, pois atua com total abrangência e amor incondicional — agape (Amor do Cristo) ou com a compaixão do Bodhisattva, que fez voto de ajuda a todos os seres sencientes até que atinjam a liberação dos complexos de separatividade e de existência espiritualmente obscura do tipo Júpiter-Saturno.
PLUTÃO, no indivíduo espiritualmente desenvolvido, simboliza sua "preocupação última" com aquilo que sustenta toda existência, o suprema realidade que transcende todos os movimentos da existência e que não são mais que o resultado de desejos limitados e limitantes e de avaliações momentâneas ou transitórias. Relaciona-se com o poder gerado pela verdadeira concentração oculta, vale dizer, a ioga e todas as formas correlatas de autodisciplina e de meditação
transcendente do ego, concentra todas as energias do organismo vivo num centro fixo de consciência. Nesse centro, o poder do centro galáctico — o divino que se encontra dentro de nós e, não obstante, além de nós — pode ser experienciado.
Neste ponto, o astro — que todo indivíduo humano é em potencial — pode concentrar a sua luz. E o ritmo galáctico da estrela pode ser sentido em todo o organismo, agora capaz de abrir-se a ele, no silêncio de todos os movimentos e emoções neutralizados.
Quando Urano, Netuno e Plutão fazem seu trabalho, os limites do heliocosmo — as camadas externas protetoras mas isolantes da aura do discípulo — tornam-se translúcidos. A luz galáctica pode jorrar através deles sem qualquer resistência. As energias químicas da "vida" foram
transmutadas em forças nucleares do "espírito". O homem, embora ainda "dentro" do mundo, não mais "pertence" ao mundo.
Quando um número suficiente de pessoas houver atingido este estado, inevitável conquanto gradual, ocorrerá a transformação do aspecto físico de nosso planeta. A comunidade galáctica do Homem, com a qual sonharam alguns visionários do século XVIII, poderá tomar-se um fato.
3 A Polaridade Urano-Netuno
Muitas são as formas de se fazer um estudo detalhado dos planetas transaturninos, pois simbolizam tipos complexos de atividades. É inevitável ocaráter complexo de tais atividades, pois precisam superar formas de resistência extremamente variadas desenvolvidas pelo ser humano a qualquer processo radical de transformação. Tanto Saturno quanto Júpiter, no nível social, ético e religioso, bem como Marte e Vênus no nível das respostas mais pessoais aos desafios da vida
diária, atuam segundo o princípio da inércia; isto ê, da resistência à mudança.
Uma vez estabelecidos, padrões (hábitos) de comportamento e de sentimento e pensamento (tais como complexos psicológicos) raramente permitem transformações suaves, quando a validade de crenças fundamentais, paradigmas ou postulados científicos dados-como-certos é seriamente questionada. Diante do que é exaltado como "o bom", o que é "melhor" surge como inimigo potencial, senão real, sendo as decisões mais difíceis aquelas em que o homem deve escolher entre um melhor, desconhecido, e o bom, tradicional. A característica essencial do homem
Uma vez estabelecidos, padrões (hábitos) de comportamento e de sentimento e pensamento (tais como complexos psicológicos) raramente permitem transformações suaves, quando a validade de crenças fundamentais, paradigmas ou postulados científicos dados-como-certos é seriamente questionada. Diante do que é exaltado como "o bom", o que é "melhor" surge como inimigo potencial, senão real, sendo as decisões mais difíceis aquelas em que o homem deve escolher entre um melhor, desconhecido, e o bom, tradicional. A característica essencial do homem
reside na capacidade, consciente e deliberada, de melhoria contínua. Esta é a
majestade humana (do Latim major, significando "grandioso"); tal capacidade de
autotransformação progressiva — renunciando ao grande simplesmente em prol do
grandioso — é representada pelos planetas Urano, Netuno e Plutão.
Neste capítulo e no seguinte, serão discutidas algumas das manifestações mais
significativas do poder de transformação representa do por estes planetas. Poderiam
ser acrescentadas outras, mas essas são suficientes para fornecer uma base para um
estudo aprofundado das experiências que, conquanto possam perturbar o equilíbrio e
a atuação normal do corpo e da mente, sempre devem ser interpretadas
como processos de crescimento pessoal, de expansão da consciência e de
desenvolvimento espiritual — mesmo que para a mente incapaz de ir além da
normalidade saturnina e dos conceitos jupiterianos de comodidade e sucesso, elas
pareçam redundar em fracasso, enfermidade e morte. Resultados aparentemente
negativos, quando reinterpretados em termos da consciência galáctica e da relação
entre os eventos em nosso planeta sombrio e a evolução da estrela que representa o
ser essencial de um indivíduo, serão compreendidos como catárticos, neutralizadores
de carma e. Por conseguinte, como fatores liberadores no processo global de
evolução da alma, o qual redundará por fim em perfeição e participação consciente
nas atividades galácticas.
Nos estudos das ações dos planetas transaturninos, deve-se em primeiro lugar
perceber que Urano e Netuno se estabelecem como opostos polares. Igualmente
significativo é o fato de os dois séculos que testemunharam a descoberta desses
planetas também possuírem significados históricos opostos, conquanto de certa
forma complementares — o século XVIII caracterizou-se pela intelectualidade
brilhante mas abstrata, o XIX pela emotividade romântica e as mudanças sociais
caóticas, resultantes da Revolução Industrial e da liberação de energias novas e
transformadoras, tanto psíquicas como materiais. Em suma, Urano é o profeta do
individualismo e da unidade social do homem ',livre" e autodeterminado. Netuno
simboliza a pressão, amiúde compulsiva e indistinta, de fatores coletivos e
movimentos de massa sobre o indivíduo, pressão essa que tende a diluir a
integridade da. personalidade nas correntes oceânicas das emoções ou sentimentos
indefinidos, universalistas e utópicos que são estimulados por visões. fascinantes ou
personalidades carismáticas.
O Individual e o Coletivo constituem dois pólos entre os quais oscilam as
totalidades existenciais, cada qual fortalecendo-se e enfraquecendo-se
alternadamente.1 Dentro do campo heliocósmico de atividades limitado por Saturno,
o fator individual é ressaltado por Vênus e Marte; o coletivo por Júpiter e Saturno,
planetas sociais. Em seu aspecto mais essencial, Vênus representa o tipo de
atividade que
1. Cf. Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar, no capítulo "Individual, Coletivo e Criativo";
também, com referência ao ciclo do zodíaco e das estações, The Pulse of Life (1942).
constrói as formas arquetípicas definidoras da individualidade de sistemas
específicos — espécies-biológicas ou personalidades humanas individualizadas.2 No
nível do processo transformador que conduz à modificação do senso do "eu" em
percepção estável da consciência espiritual "nós", Urano libera a luz espiritual que
por um instante pode iluminar a limitada mente saturnina; e quando a luz
transcendental toma-se mais constante, a consciência libertada começa a perceber as
linhas gerais dos vastos e abrangentes modelos de organização, que são de caráter
netuniano. Com o aumento do poder de Netuno, prepondera igualmente a
fraternidade espiritual sobre o participante individual. A unanimidade (literalmente,
estado de alma) suplanta a individualidade (ou a regra da maioria) em todas as
decisões fundamentais de grupo. Como resultado dessas decisões, modelos cósmicos
(em vez de leis) são estabelecidos ou postos em funcionamento, o que se relaciona
com o aspecto galáctico de Plutão.
Via de regra, quando os planetas transaturninos começam a atuar na esfera da
consciência humana — seja do indivíduo ou do organismo nacional-cultural — sua
ação assume a princípio um caráter destrutivo. Em termos junguianos, atuam em seu
aspecto de "sombra". Urano cria cataclismas revolucionários na mente ou na psique,
à medida que o "conteúdo do inconsciente" aflora na consciência, esmagando as
barreiras protetoras do bom senso e das nacionalidades construídas pelo ego,
segundo as tradições coletivas. O que no nível espiritual-galáctico é individual e
conscientemente a unanimidade aceita pela Fraternidade Uni. versai (Loja Branca),
transforma-se em poder coercitivo, irracional e compulsivo para uma multidão,
compelida facilmente ao simplismo emocional de ação violenta através de um líder
carismático. Neste nível de sombra, Urano é o revolucionário, Netuno a emoção de
massa insuflada por ele e Plutão a impiedade e a crueldade. da lei totalitária ou de
grupo.
Na vida de uma pessoa tocada pela liberação uraniana de poder galáctico,
Netuno relaciona-se com o aflorar de idéias e impulsos até
2. Inúmeros ocultistas afirmam que a semente espiritual do self humano consciente e
independente foi semeada sobre a terra há cerca de onze milhões de anos por grandes seres provenientes
de Vênus, os Kumaras - correspondendo este processo, na mitologia grega, ao ousado feito de Prometeu,
doador do fogo divino da consciência si mesmo à humanidade.
então inconscientes ou reprimidos, os quais invadem-lhe a consciência, e em alguns
casos provocam uni estado de êxtase. O indivíduo é arrancado de seu estado mental
racional-cultural normal pelo impacto provocado por Urano, e ele se vê numa
condição psíquica totalmente desconhecida, talvez assustadora, talvez estimulante.
Nesse estado, o senso de "ser eu e apenas eu" tende a dissolver-se no que
possivelmente ele interpretará como consciência cósmica. Ele parece ter atingido o
"estado unitivo" do qual grandes místicos falaram alegoricamente; ou ao menos
uma experiência culminante, tal como a descreveu o psicólogo Maslow.
Infelizmente, a experiência não perdura; e em geral o indivíduo se vê mais
urna vez sentado, possivelmente atordoado e duvidando da própria sanidade no
interior da familiar fortaleza saturnina do ego. É o que ocorre nesta etapa — a
maneira como ele interpreta ou percebe em profundidade o significado da
experiência transcendente — que lhe confere um caráter construtivo ou
temporariamente destrutivo. Se a consciência individual conseguir assimilar o
conteúdo da experiência - e, conscientemente ou não, não temer o ressurgimento da
mesma, ela será eminentemente construtiva. E o será apenas na medida em que o
que ela revela puder relacionar-se com uma visão de mundo filosófica ou com um
ensinamento religioso que permita ao indivíduo aceitar a possibilidade desta
experiência reveladora ser parte de um legitimo processo de evolução espiritual.
Se a experiência for compreendida segundo um esquema que, embora raro na
vida das pessoas comuns, pode ser dotado de significado fundamental e talvez de
grande valor, poderá então ser interpretada como tal — tomando-se, por
conseguinte, um passo na Senda da auto-transformação. Por esse motivo, quando o
homem moderno é colhido num turbilhão de forças radicalmente transformadoras,
toma-se fundamental um sistema de referência no qual essas forças possam ter um
significado construtivo. Este livro foi escrito como uma resposta a essa
necessidade. Astrólogos atribuem a Urano, Netuno e Plutão as transformações
sociais cada vez mais intensas que atingem indivíduos, grupos e nações; contudo a
maior parte deles é incapaz de interpretar esses planetas segundo um sistema de
referência realista e galáctico, por não compreenderem a relação entre eles e a
Galáxia. Consideram que eles são simples membros do sistema solar, assim como
os demais planetas, e não percebem como o nível de interpretação muda quando os
planetas transaturninos são considerados "agentes" da Galáxia, e o Sol apenas uma
estrela entre bilhões de outras estrelas galácticas.
Urano é essencialmente o que desperta. Há cerca de três mil anos, na antiga
Índia, um grupo de filósofos-místicos da Floresta lançaram um poderoso brado:
"Despertem! Ascendam! e busquem o Mestre." Suas experiências espirituais
subjetivas fizeram-lhes perceber a identidade do self individual e do Self universal,
de atman e Brahman; e buscaram compartilhar essa percepção com aqueles que
pudessem ser retirados de seu caminho tradicional, pois acreditavam na viabilidade
deste compartilhar. Hoje, a astronomia permite-nos perceber que nosso heliocosmo
(do qual a Terra é uni componente planetário sombrio) não passa de uma totalidade
orgânica relativamente pequena dentro da totalidade cósmica vastamente maior da
nossa Galáxia, e encontramos aí uma maneira simbólica de conferir um significado
construtivo às experiências traumáticas tão freqüentes na vida de homens e nações
modernas. Podemos integrar tais experiências em um processo ordenado e
racionalmente explicável — processo este que se inicia através das diversas formas
de despertar uraniano capazes de incitar a humanidade a uma percepção nova dos
poderes imensos — poderes galácticos — latentes dentro de si.
O que os antigos profetas hindus previram e os iogues buscaram atingir
através de complexas técnicas de controle biopsíquico pode hoje receber uma
formulação nova e cósmica. O despertar da consciência galáctica encontra-se acima
de nós. Podemos aceitá-lo e a todas as suas conseqü.ncias, luminosas ou sombrias,
segundo uma astrologia em expansão, sob a condição de interpretarmos o que
provocou nosso despertar em termos de um sistema de referência que se baseie no
conceito da evolução espiritual humana do planeta sombrio à estrela galáctica
radiante.
Ser despertado por Urano não basta; temos de aprender a usar nossas
verdadeiras percepções netunianas. Precisamos ir além da mente apenas
especulativa, analítica e discursiva e chegar à mente "que vê". Denominei-a mente
claripensante, a mente do profeta, capaz de ter a experiência direta de idéias,
símbolos e arquétipos que se interpenetram e cuja extensão é universal, ou no
mínimo galáctica Diante dessas realidades galácticas, a consciência pode expandirse
e perceber talvez não somente a identidade do self individual e do Self universal
— pois talvez isso não seja necessariamente o fato último da existência —
mas também a interpenetração de todos os selves e de todas as formas dentro de
uma totalidade cósmica abrangente. Esta é a grande experiência netuniana. O
homem deve despertar espiritualmente como indivíduo; precisa nascer "sozinho" em
todas as novas esferas de existência e atividades — mesmo se cercado de presenças,
para ele invisíveis, que o ajudam em caso de emergência. Mas a consciência
(literalmente, "saber junto"; con-scio) depende da inter-relação. O pensamento
consciente exige certo tipo de linguagem de símbolos ou imagens; e todas as
linguagens são. criadas através da comunicação entre participantes de atividades
grupais — ainda que o grupo seja formado apenas por um par de transmissores.
A comunicação e todas as formas da informação — dos gritos e gestos
animais às formas mais complexas da astrologia e da matemática — implicam como
fundamento a atividade grupal; e no nível mais metafísico e universalista, a
emergência de um novo universo resulta da ação da relação que se desenvolve
ciclicamente entre o Par Espírito e Matéria, ou, de acordo com a filosofia chinesa,
entre Yin e Yang. No nível do processo de transformação analisado neste livro; o
relacionamento entre os dois princípios máximos de existência pode ser simbolizado
pelas interações cíclicas de Urano e de Netuno. No nível sócio-cultural, é a relação
entre indivíduos inspirados (avatares, gênios, heróis)3 e a comunidade social de onde
emergiram. O caráter deste relacionamento é manifestado por Plutão. O caráter da
atividade plutoniana é determinado peia natureza da relação Urano-Netuno.
Plutão costuma finalizar e tomar irrevogável o que Urano iniciou. Sobretudo
quando, durante cerca de vinte anos, fica mais próximo do Sol do que Netuno -
período de fecundidade "espiritual" da mentalidade netuniana coletiva; estamos
agora prestes a ingressar nesse período. Contudo, aqui "espiritual" pode significar
tanto destruição como construção; assim como na mitologia hindu, Shiva é ao
mesmo tempo transformador e destruidor, símbolo do processo universal de
morte/renascimento. Se a mentalidade coletiva netuniana de uma sociedade, de uma.
classe ou grupo abre-se prontamente ' nova visão fornecida pelos seus personagens
criativos (criativos num ou noutro nível),
3. Ver Occult Preparations for a New Age; de Dane Rudhyar (Quest Books, 1975), capítulo 8,
"Two polarities of Me spiritual life".
Plutão revela um novo centro de integração vibrando com consciência e poder
galácticos. Se Netuno nos trouxer muito pouco ou nada exceto falácias, ilusão,
confusão e degeneração, Plutão reduz tudo ao caos, amiúde após um período mais
ou menos breve de subserviência coletiva compulsiva a um sombrio líder totalitário
e poderoso.
Entre estes dois extremos de espiritualização e queda, inúmeras são as
possibilidades da atividade plutoniana — como, por exemplo, a administração
Nixon, altamente plutoniana, e sua ruína após Watergate. Em seus aspecto catártico
e desintegrador, Plutão opera sobre os alicerces do medo produzido pelas
manifestações netunianas, por exemplo, o temor social ao comunismo ou o medo
pessoal da doença ou do fracasso. Este medo, que atualmente deve ser evidente, com
bastante freqü.ncia é despertado por forças que o utilizariam em seu próprio favor.
Urano: O Valor Construtivo da Inconsistência
A atuação dos acontecimentos e dos fatos interiores que podem ser caracterizados como uranianos pode ser melhor elucidada se os relacionarmos com o que em geral denominamos de "inconsistência". Inúmeros eventos revelam uma tendência "consistente" (do latim con-sisto, que significa "manter-se unido") quando todos se ajustam harmoniosamente e nenhum deles aponta claramente uma nova direção. Da mesma maneira, esses eventos são contínuos quando não há ruptura, hiato.
Contudo, diz-se que a consistência é o bicho-papão das mentes estreitas; e este ditado tem sido usado com frequência por mentalidades desengrenadas por impulsos emocionais a fim de justificar suas mudanças de atitude ou de política. Como ocorre com muitas palavras, inconsistência pode ter um significado positivo ou negativo, ou mesmo pejorativo. Evidentemente, numerosos são os exemplos nos quais uma ruptura súbita (uraniana) numa política estabelecida e firmada possui um valor bastante construtivo, contanto que essa ruptura — essa "solução de continuidade" —
seja necessária. O motivo de sua necessidade não precisa ser conscientemente
percebido pelo protagonista ou pensador inconsistente; ele pode atuar intuitiva e/ou
espontaneamente, e só mais tarde perceber o que legitimou o ato ou pensamento —
ou mesmo, em alguns casos, o sentimento — aparentemente
inconsistente quanto ao seu comportamento, processo de pensamento ou sentimentos
anteriores. Aqui, a justificativa significa que aquilo que pareceu inconsistente, visto
sob um modelo de consciência estreito (saturnino-jupiteriano), em verdade era
relevante e lógico quando compreendido em termos de um modelo de referência
mais amplo.
Todo ato verdadeiramente criativo implica certo grau de descontinuidade. O
que pode significar, coloquialmente falando, sair dos trilhos, a chamada mutação.
Contudo, para o conservador limitado por uma tradição obsoleta e que se recusa a
reconhecer a necessidade de mudanças fundamentais, o ato criativo e transformador
pode parecer inconsistente. Diz-se que conservador é aquele que não acredita que
tudo tem sua primeira vez e não consegue aceitar o fato de que, em qualquer ciclo de
crescimento, sempre deve haver uma primeira vez. Sempre existem auroras que não
parecem consistentes diante do que era conhecido até a noite anterior, pois durante a
noite alguma experiência — a qual muito provavelmente a consciência desperta não
recorda — introduziu uma acusação de contato ainda-não-experienciado com uma
realidade maior, ou a percepção de um objetivo de vida e ação mais amplo e
abrangente.
O que ocorre ao longo da "noite da consciência" pode parecer, durante o dia,
um mistério incompreensível para a mente tomada pelas atividades saciais
estruturadas segundo modelos coletivos tradicionais; contudo, se o fato interno
recordado puder ser visto à luz da possibilidade de se dar um passo adiante na
própria evolução, um novo senso de ordem e significado emerge gradual e
inevitavelmente. Nova orientação — isto é, uma virada em direção a um novo
oriente, a um novo alvorecer — será experimentada e a resistência do passado
superada. A inconsistência uraniana será encarada como o prelúdio ou o alvorecer
de uma nova consistência mais elevada, uma consistência galáctica.
Essa descontinuidade, e provavelmente súbita mudança de nível, pode exigir
que a pessoa dê um passo ousado no limiar do novo campo de atividade. Assim,
devido à impaciência, ao medo ou à ambição espiritual, ela pode calcular mal a
amplitude do passo e cair inconsciente sobre o limiar ou mesmo mergulhar no
abismo aberto pelo próprio despreparo.
A inconsistência também pode ser simbolizada por uma cachoeira —
profunda "solução de continuidade" no fluxo normal do rio em direção ao mar.
Entretanto, esta passagem descontínua ou
inconsistente pode ser usada pelo engenheiro a fim de gerar eletricidade, levando
luz à cidade e possibilitando aos homens trabalhar conscientemente durante o que,
de outra forma, seriam noites de consciência — permitindo assim um passo à frente
na evolução da mentalidade humana coletiva. Aqui temos um símbolo da
transferência do centro humano da consciência do nível de atividade e consciência,
do puramente "natural" para o "mental-criativo" — símbolo também da descida do
poder galáctico buscando atingir, através de Urano, o nível terrestre de consciência
no homem. Urano concentra o poder da Galáxia, de certa forma como uma lente
concentra a energia difusa dos raios solares, gerando uma área de calor
relativamente intenso, no qual matérias combustíveis podem ser inflamadas. O
trabalho de grandes gênios, de homens de vontade heróica e de grandes
manifestações avatáricas da vontade e propósito divinos, consiste basicamente em
se tomarem agentes concentradores, por meio dos quais aquilo que constitui, em
qualquer tempo, o "passo seguinte" para a humanidade toma-se visível e fascinante.
Este princípio de concentração de energia e liberação de palavras criativas
(logoi) encontra-se na raiz de qualquer modo de vida, seja no nível macro ou
microcósmico. Os físicos modernos revelaram-nos que a liberação de energia não
acontece ininterruptamente, mas, ao contrário, em pequenos "pacotes" ou quanta. A
vida é cíclica e descontínua, conquanto o homem insista em enfatizar sua aparente
continuidade, por temer o desconhecido e tudo o que desafia aquilo que seu ego
obcecado por segurança obriga sua consciência a aceitar como normal.
Na Ásia, onde o processo de interiorização através da meditação geralmente
é aceito como um meio de autotransformação e de exorcização da sombria vontade
egóica, enfatiza-se muito os momentos fugazes que podem ocorrer entre as
seqü.ncias de pensamento contínuas e consistentemente causais. Estas são as
cachoeiras simbólicas no fluxo da consciência, as pausas inesperadas na melodia da
mente pensante. Através destes breves momentos, alguns deles aparentemente
"infinitos", a consciência pode libertar-se do cativeiro do universo de causa e efeito
e da vida repetitiva. Nestes "buracos" no pão da vida — buracos produzidos pelo
"fermento" do contágio espiritual de professor a aluno, às vezes mesmo de amante a
amante, ou de amigo a amigo — atuam as energias transformadoras da Galáxia. E
atuam porque
somente o que se tomou vazio do conteúdo, menos superior, da natureza pode ouvir
a voz da Galáxia. Esta voz ressoa clara e continuamente em cada célula do nosso
ser; pois verdadeiramente "vivemos, nos movemos e temos o nosso ser" no espaço
galáctico. Contudo, não poderemos ouvi-la enquanto nossa atenção estiver
totalmente voltada para o Sol, nosso senhor e mestre. A fim de conseguirmos
levitar em direção ao nosso astro, precisamos neutralizar por um instante a
gravitação solar. Não é preciso ir a parte alguma ou gerar qualquer poder. Todo
poder de que necessitamos encontra-se aqui. Basta destruir nossos vínculos com as
formas inferiores de gravitação — terrestre e solar. O que significa em primeiro
lugar deixar de crer na inevitabilidade de nossa subserviência a essas formas,
aquietar-se interiormente e permitir que as vibrações do espaço galáctico se
imprimam na nossa consciência com toda a sua pureza, simplicidade e
transcendência.
Deixar que aconteça: eis a chave. Devemos permitir que a luz invisível de
Urano tome-se radiante em nosso silêncio. Devemos aceitar a descontinuidade, a
inconsistência, os paradoxos da existência espiritual. Devemos consentir em ser
"cachoeiras", conquanto isto implique ser profundamente ferido pelas rochas e
receber o impacto do mergulho na profundidade, pois aquilo dentro de nós que cai
pode ser resgatado em forma de luz, iluminando as mentes de todos os homens.
Urano exige-nos o sacrifício da "cachoeira", e temos de deixar que isso aconteça.
Esta a suprema inconsistência: o troar e a violência da cachoeira, aos ouvidos
galácticos, é o silêncio onde o Divino pode enfim semear. No olho do furacão,
existe o silêncio e a quietude — assim como no âmago de todas as crises
verdadeiramente aceitas e acolhidas. Bem-vindo Urano, cerne de todas as crises de transformação!
Netuno: O Sonhador Descondicionador de Grandes Sonhos
A maioria das pessoas não percebe suficientemente como somos condicionados desde o nascimento pelo ambiente que nos cerca, pelo sentimento que há nas palavras que ouvimos, pelos exemplos que instintivamente imitamos, pela linguagem necessária ao desenvolvimento de nossa inteligência potencial e por todas as tradições da nossa sociedade, aceitas explícita ou implícita, consciente ou inconscientemente.
A fim de libertar-nos deste impacto proteiforme do nosso ambiente físico, emocional, psíquico e intelectual, precisamos passar por um processo de descondicionamento, freqüentemente longo, tedioso ou catártico.
Netuno, que, num dê seus aspectos, representa o poder da coletividade sobre o indivíduo, também simboliza, em seu aspecto mais elevado, o processo de descondicionamento. O que
A fim de libertar-nos deste impacto proteiforme do nosso ambiente físico, emocional, psíquico e intelectual, precisamos passar por um processo de descondicionamento, freqüentemente longo, tedioso ou catártico.
Netuno, que, num dê seus aspectos, representa o poder da coletividade sobre o indivíduo, também simboliza, em seu aspecto mais elevado, o processo de descondicionamento. O que
pode parecer paradoxal, embora, como já foi exposto, todo processo espiritual envolva paradoxos e a transmutação de uma ordem inferior em superior. Essa transmutação pode resultar de repúdio — ou, negativamente, de fuga — ao que nos condicionou; entretanto, como ensina o caminho de vida tântrico em parte da Índia e do Tibete, também podemos consentir em viver alguns dos fatores condicionadores de uma maneira ritualística e não-egocêntrica (isto é, impessoalizada), percebendo que só somos totalmente livres de tudo quando formos capazes de viver sem qualquer apego ou motivação pessoais; assim, ao mesmo tempo, não somos mais escravos e também "sabemos" integral e existencialmente seu significado e força, combinando esta força à nossa e superando suas compulsões.
Esse processo tântrico sem dúvida é perigoso e já redundou em completo fracasso. Para que seja bem-sucedido, exige muita habilidade para visualizar a realidade ideal, transpessoal e cósmica do que está oculto atrás' do condicionamento. Exige habilidade notável e rara para distinguir o todo na parte, o universal no particular que dele deriva e para identificar o eu interior e a consciência ao futuro transcendente no exato instante em que se experimenta o legado do passado — aceitando esse passado como prelúdio necessário ao futuro e não se esquivando à experiência, pois interiormente se está livre do seu poder limitador.
Para associar a própria consciência ao futuro é preciso fazer uma imagem
extremamente vigorosa desse futuro; ou melhor, essa imagem deve ser intensa e
irreversivelmente estampada na mente consciente pelo poder do "todo maior"
dentro do qual vivemos, nos movemos e existimos. O processo de impressão toma
amiúde a forma de um "grande sonho" — o qual, para a consciência desperta,
assume o caráter de realidade transcendente, de revelação "divina". Neste sentido,
Netuno relaciona-se com os grandes sonhos dos homens que não apenas previram,
mas se sentiram interiormente compelidos a tentar implantar, dentro ou no limiar da
nossa sociedade, o que as pessoas comuns rejeitam como "utopias". Contudo, essas
utopias, embora possam não resistir
às pressões da sociedade atual e ao desprezo de adeptos acomodados ou predadores
ambiciosos, são as precursoras de um futuro mais ou menos distante. O grande
sonho dos visionários netunianos toma-se a realidade de amanhãs mais livres e
gloriosos. Eles servem a um poderoso propósito, pois a humanidade jamais poderá
transformar-se naquilo que alguns homens sequer imaginaram. Nada ocorre na
realidade concreta e palpável que no mínimo dois ou três homens não tenham
imaginado e formulado anteriormente, ao menos em linhas gerais.
O paradoxo netuniano está em que, com freqü.ncia, a liberdade deve ser
alcançada através da experiência do cativeiro — e não fora dele. Em outras
palavras: a coletividade mais elevada já está implícita, conquanto latente e
irreconhecível, no grupo social inferior. A primeira atua com uma liberdade que na
verdade transcende o que, no nível social, consideramos liberdade, pois é realmente
uma forma mais elevada de inevitabilidade ou necessidade, enquanto o que hoje
chamamos "liberdade" é servidão ao mundo dualista de alternativas entre as quais a
mente consciente e a vontade do ego precisam escolher após hesitações e conflitos
internos. O ser verdadeiramente livre situa-se além da escolha pois, total e
irrevogavelmente identificado com uma forma de vida, ele simplesmente não
consegue optar por outra. O Bodhisattva que atingiu um estado de consciência
puramente espiritual e abrangente não consegue deixar de ser compassivo. Ele é
compaixão. Num nível evolutivo inferior, o sonhador de utopias cuja vida é
totalmente consagrada a seu sonho grandioso, deve procurar realizá-lo. De fato, ele
não tem outra escolha, pois tomou-se agente do sonho netuniano. Ele é o sonho que
se toma ação. É Maria recebendo a Anunciação; a vida avatárica no interior de seu
útero não poderia ser ignorada, muito menos descartada. Netuno é Maria — ou
mare, o mar. É o mar humano insuflado inevitavelmente pelos ventos galácticos do
destino, o qual devasta as estruturas saturninas de "simples homens", homens
colhidos entre as pressões do passado determinante do que denominamos hoje, e
incapazes até mesmo de sonhar com "o amanhã que canta”.4
Netuno foi descoberto quando a Revolução Industrial mostrava seu poder de
transformar simples camponeses em proletários cujas
4. Esta frase outrora famosa foi dita por um membro da Resistência francesa pouco antes de ser
fuzilado, proclamando desafiadoramente que sua morte anunciaria "les demains quí chantent".
vidas desde a infância foram arruinadas pela escravidão salarial. Uns poucos
visionários passaram então a alimentar os sonhos utópicos de uma sociedade
regenerada, impregnada de amor crístico. Os sonhos, praticamente em todos os
casos, não se tomaram realidades duradouras; contudo, a visão permanece e hoje
vem sendo revivida de muitas maneiras; conquanto malograda, ela persiste e de fato
está destinada a multiplicar-se enquanto testemunha do potencial de realizações galácticas
na natureza humana. Contudo, não haverá realização concreta e duradoura
enquanto não for total e irreversível o processo de descondicionamento em
indivíduos cujas consciências foram iluminadas pelo sonho netuniano. E Plutão
contribui para esta irreversibilidade. Ele pode auxiliar na purificação de maneira
fanática e ditatorial, levando a algum tipo de totalitarismo; também pode redundar
em pio. fundas catarses, após as quais não há volta ao passado opressivo e
egocêntrico.
Netuno é denominado o planeta do êxtase, por referir-se aparentemente eterna
ânsia humana por algo capaz de tirá-lo de seu self limitado e isolado e de sua postura
definida de ego. O caminho netuniano pode levar-nos ao estado de união do
verdadeiro místico, no qual todas as diferenciações separadoras cessam ou são
esquecidas, e tudo é — ou parece ser — "um". O homem quer esquecer tantas coisas
que o confinam, oprimem ou saturam. Descobriu muitas formas de fazê-lo. Mas
esquecer não significa estar livre da pressão ou da solidão temporariamente
olvidadas. Todas as drogas usadas pelo homem desde tempos imemoriais, do álcool
aos psicodélicos, oferecem apenas uma pausa temporária ou liberação ilusória. Onde
há existência há dualidade. Toda vida exige polarização. A unidade é um "sonho
grandioso", se a buscarmos no universo manifesto. Contudo, esse sonho é necessário
a fim de polarizar e estimula nossa existência se quisermos prosseguir, passo a
passo, rumo a uma consciência e realidade sempre mais elevadas — galáctica,
metagaláctica, universal. O termo universo é revelador, pois significa "voltado para
a unidade".
Recentemente, tomou-se comum o uso da expressão "unidade na diversidade";
na verdade, deveria ser "diversidade buscando unidade". Muitos anseiam pelo estado
de unidade; mas falar de um estado de unidade implica entregar-se à ilusão
netuniana. O homem só pode alcançar a consciência da unidade; o dualismo
permanece o fato real,
exceto talvez no nível mais metafísico. No que respeita à existência, podemos falar
de totalidade, não de unidade. A vida ascende do todo menor ao todo maior, do
átomo e células ao homem e às galáxias; e este movimento é iluminado pelo grande
sonho da unidade. Para tudo o que se encontra em movimento, a unidade não passa
de um sonho grandioso, um conceito não-conceituai, um "isto não, isto não... ". Até
mesmo o sistema filosófico mais metafísico, de Sankaracharya, falava da condição
máxima como admita, que significa "não-dual" — ou seja, uma declaração negativa.
Significa o impulso dinâmico de ir além da dualidade na medida em que a dualidade
é vivida em qualquer nível de existência. O que implica a convocação para que se dê
um passo à frente no caminho rumo a uma percepção sempre mais ampla da
totalidade do ser universal. Jamais se poderá "atingir" a unidade e permanecer "um".
Neste sentido, a unidade é uma "ilusão" (do Latim, tudo "Eu jogo") e o
universo é a Diversão de Brahma, o Deus Criador. Mas Brahma não é unidade; ele é
apenas o uno — o imenso Um de onde se origina o nosso universo na sua
multiplicidade. Entretanto, para tudo o que pertence ao domínio da multiplicidade, a
unidade é a ilusão necessária, sem a qual não haveria progresso, nem evolução
material ou espiritual. Sem as formas de ilusão inacreditavelmente variadas que a
vida oferece a seus organismos vivos, não se chegaria além da totalidade não
criativa e restrita da unidade orgânica governada por Saturno, limitada pelo
esqueleto e pela pele.
A ilusão humana mais característica da vida é o sexo ou (no sentido mais
amplo do sexo) o que chamamos de amor. Sem esta ilusão, não haveria evolução. A
ilusão do amor humano e da maternidade possibilita a perpetuação da espécie.
Netuno é o símbolo da ilusão — por conseguinte, do acompanhamento do processo
evolutivo, da totalidade menor para a maior. O que denominamos "compaixão"
também é ilusão na sua forma mais elevada; pois os grandes compassivos são seres
que, atingida a perfeição de seus ciclos de existência — o começo do Nirvana — são
"iludidos" a recusar esse Nirvana e a identificar-se compassivamente com os
fracassos e escórias do ciclo. Assim pode ser alcançada uma forma mais elevada de
totalidade — um novo universo na espiral sem fim concebível.
A ilusão do Cristianismo! Se Cristo, como assegurou Rudolf Steiner, era um
"Arcanjo Solar", não veio Ele redimir a humanidade e impregnar
a Terra com a mais alta vibração de Seu sangue vertido, a fim de possibilitar a
transformação do Sol em estrela galáctica, permitindo ao homem abrir sua
consciência dimensão galáctica da existência?
Atualmente, falamos muito de carisma. Mas o que vem a ser esta misteriosa
capacidade que alguns seres humanos possuem de impressionar e fascinar outros se
não a poderosa habilidade de evocar grandes imagens que inspiram a imaginação
humana? Certa vez, falei de Netuno como "extraordinário evocador", O indivíduo
netuniano evoca imagens que têm o poder de transformar. Palavras podem ser
imagens com poder de transformação, assim como sementes de mutação. Toda a
vida psíquica do ser humano é envolvida e movimentada por imagens. A psicologia
moderna de tipo junguiano — sobretudo de acordo com o modo como foi
desenvolvido por Ira Progoff e mesmo por Fritz Kunkel e Erik Berne — trata das
imagens psíquicas. Mas existem imagens de todos os tipos: imagens que embalam e
levam ao sono e a sonhos sem objetivo, bem como imagens que incitam à ação e à
consciência mais elevada; imagens intoxicantes e até mesmo enlouquecedoras para
os incautos, ou reveladoras de nova 'ordem ou de novos valores e sentimentos;
imagens concentradas de desgosto ou alegria. Imagens que dissolvem o ego na
morte exaustiva da ausência de sentimentos, ou provocam um êxtase capaz de levar
o sentimento ao auge da intensidade criadora.
Nossa vida interior depende inteiramente de imagens e símbolos. A religião
usa imagens como grandes mitos inspiradores da coletividade; é um todo integrado
de imagens centradas em torno de um criador altamente imaginativo cuja
consciência "eidética" consegue abranger a totalidade da existência de um ponto de
observação ainda inatingível para a maioria dos seres humanos. Imagens, mais
ainda do que idéias, governam o mundo, pois, a fim de alcançar poder convincente,
uma idéia transformadora deve ser envolvida por um imaginário capaz de evocar
nos seres humanos a quase-possibilidade de desenvolvimento novo e inspirador.
Enquanto a consciência intelectual saturnina lida com conceitos unidos pela
lógica, o tipo de consciência netuniana é "eidética", porque baseia-se em seqü.ncias
de imagens freqüentemente a-lógicas e, talvez, irracionais — imagens que se
interpenetram, imagens do estado de sonho ou do estado entre o sono e o despertar.
Alguns psicólogos atuais utilizam de maneira significativa os revés éveillés (sonhos
despertos), que ocorrem num estado limiar à consciência desperta – no qual as
imagens fluem seguindo seu próprio impulso, conquanto possam responder à
orientação externa ou consciente. Tal estado é tipicamente netuniano na sua abertura
e na sua freqüente confusão e ausência de forma.
A astrologia pode ser usada de maneira semelhante, lançando mão da carta
natal como meio de evocar imagens mentais na pessoa em questão – como fez o Dr.
Raaum, com significativo sucesso.5 Técnicas asiáticas de meditação com freqü.ncia
utilizam as imagens complexas, conquanto centradas, denominadas mandalas, a fim
de estimular o processo de integração pessoal. As cartas do Tarô servem a propósito
semelhante, evocando imagens arquetípicas de significado universal para os seres
humanos. Os Símbolos Sabeus em astrologia constituem uma série cíclica de
imagens mais modernas, as quais podem relacionar-se com fatores encontrados na
carta natal, ou usados com significado oracular de forma semelhante à do ancestral I
Ching chinês.6
Para o homem que vive em uma esfera de atividades inteiramente limitada por
Saturno e animada pelas energias de Júpiter e Marte – com Mercúrio e Vênus, suas
polaridades internas de vida – as imagens evocadas por Netuno constituem um
constante desafio à transformação e à percepção dos valores transcendentes ao ego e
à tradição. E amiúde um desafio sutil, sempre que a ilusão de Netuno se defronta
com a atração magnética de Vênus, ou qualquer brincadeira de Mercúrio com os
conceitos e recordações familiares. Enquanto a ação das forças
5. Uma das idéias estranhas desavisadamente aceitas pela maioria das atuais astrólogos, é a de
que a astrologia é governada pelo planeta Urano. Considerando-se o caráter súbito e violento das
sublevações uranianas, tal orientação parece totalmente injustificada; enquanto a natureza bastante
confusa e imprecisa — por ser ampla e abrangente — dos conceitos e símbolos astrológicos, mais do que
a fascinação ilusória que com tanta freqü.ncia exercem sobre o aspirante idealista, ajustam-se muito bem
ao caráter de Netuno.
Ocorre que as pessoas de certa forma confundiram a Musa, Urânia, a quem foi atribuída a
astronomia, com o grande deus, Uranos, símbolo do espaço indiferenciado e universal anterior ao
surgimento de Saturno e de Júpiter, que o destronaram. O Urano moderno não tem relação direta com o
Uranos mitológico — exceto se associarmos tiranos à Galáxia, da qual Urano é apenas um agente. Contudo,
tal associação trairia o significado essencial do mito cosmológico grego.
6. Cf. Dane Rudhyar, An Astrological Mandala, The Cycle of Transformation and its 360
Symbolic Phases (Nova York: Rendo, nome, 1973).
de Urano pode relacionar-se com "soluções de continuidade" e "cachoeiras" no fluxo
de nossos sentimentos, pensamentos e comporta-mento, Netuno evoca a profunda
ansiedade, não obstante atemorizante, da experiência do mar.
Todos os rios deságuam no mar. Tudo retoma à vasta extensão fleumática do
ser oceânico. Ansiamos por este retomo, quando não mais ansiamos pela volta ao
útero materno. Pode ser o mesmo profundo desejo da consciência individualizada e
do ego bastante golpeado e alienado, mas é um desejo em dois níveis inteiramente
diversos; não passa de insensatez reduzir o primeiro ao último. Se aos assim, como
fez a forma reducionista da psicologia, com resultados desastrosos para algumas
gerações de ocidentais, é porque nos recusamos a aceitar a possibilidade de nos
elevar acima do nível de uma sociedade desintegradora e fundamentalmente
destruidora, que proclama nas palavras ideais netunianos mais que os desdenha na
prática diária — sociedade esta extremamente bem simbolizada pela tragicomédia
de Watergate, que se reproduz em um sem-número de semelhantes, embora não tão
públicas, formas de comportamento hipócrita.
Contra semelhante situação Plutão age com vigor implacável; e parece
particularmente bem-sucedido quando — como ocorre atualmente — iguala-se à
velocidade de Netuno no sistema solar e adentra a órbita deste, causando estragos
com ilusão e mitos — talvez até mesmo a ilusão da vida e o mito da morte.
4 Plutão e a Experiência da Profundeza, do Vácuo e da Recentralização
Inúmeros astrólogos consideram Plutão o símbolo do materialismo ou do poder destrutivo e desintegrador. De certo modo, eles estão certos, ao menos na maioria das atuais situações. Contudo, essa interpretação não revela o caráter essencial do complexo e universal processo simbolizado pelo planeta anunciado e descoberto neste século por astrônomos americanos. Este processo deflagra o que é necessário a fim de reduzir ao essencial o que quer que tenha atingido o fim de um ciclo; e o fim de um ciclo também é o momento em que pode ocorrer a reintegração
como parte de um ciclo maior. Plutão lida, portanto, com a possibilidade do renascimento; o que naturalmente implica a experiência do que, para pessoas de estreita compreensão, costuma assumir a forma de "morte".
Plutão não garante o renascimento. Simplesmente está ligado aos pré-requisitos para o renascimento, um deles o que testemunhamos como um corpo que morre, ou como a desintegração psicomental de uma personalidade ou de toda uma cultura.
Plutão não está preocupado com o que pode resultar do processo. Ele não lida com resultados finais, mas apenas com o que precisa ser enfrentado caso se queira produzir resultados fundamentais, na forma de alicerces necessários a uma nova vida em nível mais elevado — ou, em casos trágicos, menos elevado — na espiral da evolução. Estou certo de que Plutão não constrói os alicerces, pelos quais é responsável a atividade simbólica de um planeta transplutoniano, o qual batizei experimentalmente como Prosérpina. Mas a possibilidade desses alicerces está implícita na ação plutoniana; em verdade, ela nos proporciona tudo quanto Plutão representa na vida de uma pessoa ou de uma nação quanto ao seu propósito verdadeiro e essencial.
À luz dessa compreensão astrológica de Plutão, podemos reunir as várias peças do quebra-cabeças que este planeta oferece à mente de não poucos estudiosos da astrologia. Também podemos descartar a maior parte das declarações radicalmente negativas feitas a respeito de Plutão, considerando-as interpretações relativamente tendenciosas, e que podem causar inúmeros danos psicológicos quando incorporadas à interpretação da carta natal de uma pessoa.
Entretanto, deve ficar claro que existe na manifestação de Plutão e em seus efeitos astrológicos diversos aspectos atemorizantes e rígidos, e com frequência igualmente impiedosos, de maneira impessoal e "cármica". Contudo, Plutão atua bastante diferentemente de Saturno, em geral considerado o símbolo do carma vigorante.
O carma saturnino funciona de maneira bastante precisa e automática, de certa forma segundo a velha fórmula: "Olho por olho, dente por dente." Esta atuação cármica também pode ser expressa segundo o principio cósmico daharmonia universal. Qualquer coisa capaz de gerar um desequilíbrio à esquerda, deve ser equilibrado automaticamente — no tempo e espaço — por uma ação à direita, e vice-versa.
Tudo vai bem se a pessoa que experimenta as conseqü.ncias cármicas de atos anteriores aprende com isso; mas a força cármica não faz caso disso. Uma sociedade que pune o criminoso segundo uma lei estabelecida com um caráter impessoal via de regra não se preocupa com a consequência da punição naquele que desrespeitou a lei e foi pego. Por este motivo, diz-se que a justiça é "cega". Raros são os casos em que a "punição" é propositalmente aplicada a fim de criar uma
situação de controle que deflagre profunda catarse e a possibilidade de renascimento moral e social — embora o conceito de justiça na atualidade esteja evoluindo, de modo hesitante e desigual, nessa direção. Quando isto ocorre, ela tenta incorporar o espírito plutoniano.
Não esqueçamos que Saturno possui caráter semelhante ao de um autocrata solar — em outras palavras, um código legal rígido e tradicional, semelhante ao código napoleônico. Saturno relaciona-se com a justiça de um rei absoluto incapaz de aceitar desafios ao seu poder, muito menos ver suas leis desdenhadas; exceto nos raros casos em que lhe agrada mostrar — ou por motivos tortuosos vê-se forçado a mostrar — sua magnanimidade, perdoando o ofensor.
Por outro lado, Plutão nunca "perdoa", pois não "pune" nem exige automaticamente paga proporcional à ofensa. Plutão percebe ter chegado o momento em que há a possibilidade de passar de um nível de consciência e atividade a outro; então produz as condições necessárias a essa passagem ou transmutação.
Quanto mais limitada for a consciência, segundo os padrões e memória saturninos, mais duras serão essas condições. Se Urano e Netuno não são bem sucedidos em iniciar bem o processo de transformação, Plutão pode ser verdadeiramente cruel e implacável. Se, por outro lado, as forças de Urano e de Netuno realizam seu trabalho transformador e o indivíduo aceita a mensagem de
ambos, preparando-se para a "descida ao inferno" final — a Noite Escura da Alma —, poderá encontrar, com calma e força, o processo plutoniano de total desnudamento e o vácuo consequente. Esta pessoa já leva no coração a visão da Nova Vida, não mais resistindo transformação, cujo propósito tomou-se seu conscientemente. A punição transforma-se em purgação — destruição dos obstáculos ao fluir do poder espiritual dentro do seu ser como um todo, ou ao menos a parte do ser total capaz de suportar o influxo sem ser destruído pela energia
galáctica.
A ação do carma pode estar presente, mas a retribuição cármica totalmente
aceita e com significado de liberação de recordações passadas, conscientes e
inconscientes, deixa de ser saturnina; toma-se o preço que se deve pagar para
adentrar a esfera galáctica da consciência espiritual. Em casos emocionais extremos,
temos o êxtase feliz dos mártires cantando enquanto são torturados, porque estão
certos de ser aquele o caminho para a união absoluta com o Bem-Amado Divino, o
Avatar. No simbolismo da descida de Cristo aos infernos durante os três dias após a
Crucificação, percebemos um exemplo particularmente significativo da atividade
plutoniana, pois a evolução da consciência galáctica exige uma experiência total do
significado da desintegração e do fracasso ao longo do ciclo em que se alcança o
estado de Consciência Crística. Tudo o que faz parte deste ciclo deve ser englobado
pela consciência, agora com um caráter totalmente holístico, por conseguinte divino
ou eônico. O Adepto Branco de alguma forma deve tomar consciência e sentir
enfaticamente o trágico estado do Adepto Negro, pois em sua compaixão ele inclui
as trevas e a luz. Não mais consegue sentir ódio ou honor ao mal, porquanto para o
Bem supremo não existe o mal, apenas a sombra da Luz divina sobre a memória não
redimida do passado ancestral. Contudo, deve ser o verdadeiro Bem supremo a
revelar
incontestavelmente sua natureza, e não o pequeno bem encapsulado nas pálidas
virtudes religiosas ou sociais do homem.
Profundamente significativo é o fato de a Crucificação e seu resultado, os
três dias de "descida ao inferno", serem celebrados no período do equinócio da
primavera; pois este momento do ciclo anual relaciona-se, ao menos
simbolicamente, com o processo de germinação; e germinação é a crucificação da
semente. A primeira porção a emergir da semente lacerada é a radícula, e esta
radícula "desce" ao humo, produto da queda das folhas e de tudo o que já foi vivo. O
solo escuro é o inferno da esfera da vida, mas é também o alicerce de todos os
processos vitais — a "mãe sombria", que é o passado, mas que será redimida quando
seu corpo em desintegração for levado em direção ao ar e luz, dentro da nova vida,
alcançando finalmente o estado de flor.
A germinação é um processo plutoniano; por isso, na astrologia Plutão deve
"reger" Áries, o signo zodiacal do equinócio da primavera, símbolo do impulso
criativo iniciador de todos os novos processos de vida. Contudo, Plutão associa-se a
Áries, em vez de regê-lo; pois o conceito de regência sucumbe por completo quando
percebemos que os planetas transaturninos estão no sistema solar, mas não são parte
dele. Conceito inteiramente válido no mundo ptolomaico do Sol-a-Saturno, pois
expressava uma profunda filosofia de vida. Entretanto, não mais deve ser aplicado a
um heliocosmo, no qual o Sol é primordialmente compreendido como uma estrela,
uma entre bilhões dentro do vasto organismo cósmico da Galáxia. Pode-se afirmar
apenas que o novo enfoque galáctico dos planetas e do zodíaco — o zodíaco
tropical, pano de fundo onde assinalamos a relação em cíclica mudança da Terra
com o Sol — os signos que se seguem a Capricórnio (ápice do poder saturnino)
correspondem ás fases básicas do processo de transformação simbolizado por
Urano, Netuno e Plutão. Assim, Urano associa-se a Aquário, Netuno a Peixes,
Plutão a Áries e um suposto Prosérpina a Touro. Plutão, contudo, desafia tudo o que
Marte representa no sistema Sol-a-Saturno. A impessoalidade de Plutão desafia o
caráter essencialmente pessoal-emocional de Marte. O desafio ocorre em Escorpião
e também em Áries, assim como o desafio netuniano a Júpiter acontece em Peixes
(símbolo do instante final de um ciclo cultural) e também em Sagitário (que
representa a obtenção, por uma cultura, de seu caráter fundamental, filosófico e
legal); e Urano desafia Saturno em Capricórnio, assim como em Aquário, pois
quando os dias começam
a se alongar, o poder de Saturno está condenado, mesmo que no auge do seu poder.
Todos os desafios lançados pelos planetas agentes da Galáxia constituem
causas inatas de sofrimento para a consciência encarcerada pelos processos
saturninos; contudo, a aceitação do sofrimento é essencial ao processo de
transformação. A "descida ao inferno' é, de certa forma, a dramatização da
inevitabilidade do sofrimento nesse processo. De maneira ainda mais geral, sempre
que há a experiência da profundidade, inevitavelmente ocorre a experiência
concomitante do sofrimento. Entretanto, em nosso mundo global, a direção da
profundidade nos leva ao centro; e a experiência do centro é essencial ao
desenvolvimento espiritual. Todos os centros — sejam eles dos átomos, das células,
dos sóis ou das galáxias — não apenas relacionam-se com a quarta dimensão de
"interpenetração", mas em verdade existem no que se poderia denominar quinta
dimensão. Tal é o milenar conceito hindu de identidade do Atman individual e o
Brahman universal, expresso na saudação iogue "Eu sou Tu", a qual evoca o
sentimento de identidade essencial dos centros de todos os seres humanos. Devo
acrescentar que tal saudação distingue a espiritualidade hindu da hebraico-cristã,
pois esta última fala em "Eu e Tu" (ver o famoso livro de Buber com este título),
substituindo a identificação por um "diálogo" entre entidades fundamentalmente
diferentes — diálogo que relaciona Deus, o Criador, ao homem, a criatura.
A isto podemos em seu conjunto denominar de propósitos de psicologia
profunda, sob seu aspecto mais significativo, em proporcionar à consciência
humana a experiência da profundidade — e, em alguns casos (sobretudo com Carl
Jung e Assagioli), a experiência do centro. O processo de "individuação", principal
tema da psicoterapia junguiana e da psicossíntese, leva não apenas a uma
experiência de centramento — pois o ego individual é também o centro do campo
de consciência limitado por Saturno — mas à transferência do centro, do ego
essencialmente limitado e temporário esfera mais ampla e permanente do "self'.
Este último não é apenas mais abrangente, pois inclui tanto a consciência quanto as
áreas inconscientes da psique como um todo, mas é também uma esfera
qualitativamente diferente, possuidora de contrastante abrangência com o
exclusivismo básico da consciência governada pelo ego.
Marte desperta e concentra as energias soli-lunares da personalidade em
direção ao objetivo emocionalmente desejado.
Ele representa a saída na superfície do globo, a biosfera. O que envolve uma
disseminação, mais ou menos "horizontal", de energia, em termos de sua relação
com algum objeto; relação que pode ser negativa, distanciando-se por conseguinte
deste objeto. Plutão, ao contrário, relaciona-se basicamente com a concentração de
poder (ou atividade) de alguma forma de "grupo" (concreto ou transcendental),
através do indivíduo que se considera investido de tal poder, poder este que expressa
ou busca uma finalidade centrante. À atuação marciana profunda. mente pessoal,
Plutão responde com uma ânsia de atividade coletiva, de busca de uma mente ou
vontade que, fornecendo uma concentração consciente, irá fornecer um centro do
qual possa disseminar-se o propósito.
No nível mais elevado, Plutão concentra as energias galácticas sobre a
humanidade por meio de indivíduos prontos a assumir firmemente seu papel de
destino; neste sentido, a ação de Plutão é "vertical" e não "horizontal". No nível
sócio-cultural, Plutão representa o ímpeto mais recôndito da coletividade — nação,
grupo social, profissão — em formular, através das pessoas especialmente dotadas, a
qualidade característica ("estilo". ou modo de viver) do estágio evolutivo histórico
no qual atua o grupo ou nação. Enquanto Netuno representa a pressão geral da
coletividade sobre os indivíduos a ele pertencentes — indicando assim, por
exemplo, a subserviência do indivíduo mo. da e propaganda de todos os tipos —
Plutão, em uma carta natal, indica a possibilidade de o indivíduo tomar-se arauto
ativo do espírito de grupo, por meio de ação criativa e positiva.
Esta concentração plutoniana de energias sociais ou biológicas sobre o
indivíduo capaz de expressar o caráter e objetivo grupais resulta, via de rega, em
ações aparentemente inspiradas pela ambição ou autogratificação pessoal; contudo,
por trás desta fachada pessoal, existe um tipo mais abrangente de motivação
inconsciente ou semiconsciente. Por exemplo, no nível psicológico, a atração
emocional entre um homem e uma mulher assume habitualmente formas
aparentemente pessoais e possessivas; contudo, por trás dessa aparência é a espécie
humana, e com freqü.ncia a cultura ou religião do casal, que os impele ou compele à
união. Superficialmente, tudo parece pessoal e marciano, mas nas profundezas
inconscientes dos dois jovens, é o propósito coletivo da raça ou da cultura que busca
expressão. Qualquer concentração de energia e propósito social ou genérico
através das ações dos indivíduos, amiúde inconscientes do que os incita a agir, é
plutoniana.1
Esse desafio plutoniano a Marte ocorre arquetipicamente em Áries. A própria
vida, no seu sentido genérico, é o verdadeiro ator em todos os primórdios cósmicos
ou raciais. Este o significado, nas mitologias mais ancestrais, do grande deus Eros
(ou Kama deva, na Índia); só bem mais tarde essa força primordial da vida universal
foi reduzida ao caráter "humano, demasiado humano" das concepções populares e da
linguagem familiar (vide a vulgarização do termo erótico). Na antiguidade, o Eros
grego e o Kama deva hindu foram os primogênitos entre os deuses. Representavam
o desejo cósmico de criar um novo mundo; e tal desejo implica inevitavelmente uma
"descida" ao caos. O caos representa a condição primeva e indiferenciada da
matéria, resíduos das formas de energia extintas, "solo negro" ou cinzas de universos
passados. Toda atividade criativa, em seu caráter fundamental, constitui uma descida
à matéria. O Um universal, no Seu estado difuso e indiferenciado, dissemina-se pelo
Espaço infinito, buscando concentrar-se no Específico, fonte de nova manifestação;
e para tal deve centrar-se na matéria. Interpretamos simbolicamente este ato falando
de uma "descida" às profundezas e às sombras. Todas essas descidas são motivadas
por um desejo de experiências novas e mais abrangentes sob alguma forma de vida,
em qualquer nível no qual essas formas sejam imaginadas como expressões ou
receptáculos de um processo cósmico (micro ou macrocósmico).
No nível da nossa atual sociedade ocidental e, em sentido mais geral, do que a
filosofia hindu denominou Kali Yuga (a Idade do Ferro Grega, a Idade da Mãe
Negra, Káli), a descida plutoniana possui um caráter trágico, pois indivíduos e
nações devem sempre. defrontar-se com inúmeras memórias sombrias e
assustadoras. Essas memórias devem ser conhecidas nas trevas subterrâneas para
que haja novos inícios criativos. Em termos junguianos, este é o encontro com a
Sombra.
1. Neste sentido, uma força policial constitui manifestação da ação plutoniana no poder social (e
às vezes político). O policial que abusa do poder comete crime maior do que o indivíduo que ofende outro
— atitude marciana. Contudo, em nossa sociedade ilegal, freqüentemente ele é apenas repreendido ou
despedido. O abuso do poder coletivo de que um homem é investido devia constituir o maior crime que
uma pessoa pode cometer.
Entretanto, se tal encontro é corajosa e resolutamente vivido, a Sombra transformase
no Deus-em-profundidade, o Deus dos mistérios, o Deus "vivo", que polariza o
Deus-mais-elevado, revelando assim a unidade fundamental da matéria e do espírito,
e também de fracasso e vitória — ou, melhor ainda, da Harmonia do Ser e do Não-
Ser, ou Potencialidade e Realidade2 abrangentes, imutáveis e inefáveis.
Na maior parte dos contos de fadas, a Fera horrenda em busca de amor
transforma-se em Príncipe maravilhoso, quando a donzela sente em seu coração
compaixão pela feiúra deformada. Na mitologia grega esotérica, Plutão não apenas é
o senhor dos subterrâneos, como também símbolo de abundância e riqueza. É
igualmente simbolizado pela "Pérola de alto preço" que, oculta no interior da
substância viscosa da ostra, só é encontrada pelo mergulhador corajoso das
profundezas marinhas do inconsciente; para ser vitorioso em sua busca, o
mergulhador deve desenvolver ampla capacidade respiratória — simbolizando a
respiração o aspecto mais essencial ao processo de realização espiritual. Pérolas são
produzidas pela ostra após a introdução de alguma substância irritante no seu espaço
vital aparentemente protegido pela concha. O sofrimento é necessário para que seja
experimentado um certo grau de transmutação e transubstanciação; mas tudo
depende da atitude para com o sofrimento e a dor. A tragédia deve ser aceita. Deve
ser compreendida; e compreender não significa apenas "submeter-se" e suportar
todo o fardo do que se compreende, sentindo assim todo o seu peso e conteúdo; mas
também tomar-se consciente do porquê do fardo colocado sobre os seus ombros — o
propósito desse fardo e da experiência dentro do amplo ciclo da existência, e se
possível da existência da humanidade e do mundo.
Plutão, mais do que qualquer outro planeta, pode conduzir à realidade do que
demasiado freqüentemente denomina-se "consciência cósmica"; não obstante, não
precise necessariamente fazê-lo. A Sombra dispõe de maneiras mais sutis de ocultar
a realidade sob as inúmeras formas de ilusão netuniana. Como já foi dito, a ação de
Plutão é grandemente condicionada pela resposta do indivíduo às forças e eventos
uranianos e netunianos. O revolucionário uraniano pode ser facilmente arrancado do
seu caminho pela intensidade de sua paixão aos fatores opressivos e arrasadores, não
aceitando concessões;
2. Ver Planetarization of Consciousness, cap. 5.
o idealista netuniano pode ser enganado pela ilusão de experiências pseudomísticas
as quais fazem-no perder-se em meio à névoa densa, embora iridescente; e o
humanista netuniano pode afundar na areia movediça do sentimentalismo. A suposta
consciência cósmica talvez não passe de uma experiência-sentimento,, em vez da
clara percepção da Mente cósmica-divina em sua atuação impessoal cíclica e
infalível — o que Sri Aurobindo denomina superconsciente, ou mesmo o aspecto
mais elevado da superconsciência.
Uma relação significativa e contrastante pode estabelecer-se entre Plutão e
Mercúrio. Mercúrio simboliza a mente no estágio em que sua influência é
condicionada pela necessidade de sobrevivência, expansão e reprodução do
organismo vivo, e também pelas ambições sócio-culturais do ego. Por outro lado,
Plutão representa a Mente cósmica totalmente impessoal — a Mente que lida com
princípios e arquétipos universais, a mente holística e eônica. Em nível mais inferior,
relaciona-se com o estilo de uma época mais do que à contribuição pessoal de
determinado artista ou escritor, via de regra apreciado inicialmente por suas
características superficiais e supostamente "originais". Por este motivo, a posição de
Plutão numa das Casas da carta natal revela o tipo de experiência por meio da qual o
indivíduo contribuirá proveitosamente para o estilo do seu tempo; como podemos
ver atualmente, a posição de Plutão em determinado signo zodiacal fornece a chave
para o estilo de vida de uma geração.
Resumindo o que foi dito anteriormente, percebemos que o significado
fundamental de toda influência plutoniana reside em forçar-nos, amiúde
inexoravelmente, a depreciar ou abandonar tudo o que constitua manifestação de
vida superficial, e mergulhar tão profundamente na experiência humana quanto
possa suportar a nossa condição mental, afetiva e espiritual. A vida superficial pode
ser interpretada no nível sócio-cultural, em termos de nossas habituais respostas e
padrões de comportamento e sentimento da, nossa sociedade ou classe. No nível
mais pessoal, Plutão representa, como já vimos, todas as formas de psicologia
profunda; ou seja, qualquer tentativa determinada de descobrir nossa "natureza
intrínseca" — no sentido em que a filosofia zen utiliza estas palavras.
Afirma-se igualmente que Plutão leva a mente humana à percepção da
existência, subjacente a. inúmeras práticas e convicções religiosas,
de uma essência de "grandes verdades". Os teosofistas referem-se a ela como "a
Sabedoria-Religião Universal". Originam-se daí todos os cultos institucionalizados
que, sob seus aspectos externos e populares, buscam conhecer as necessidades
locais e relativamente transitórias de determinadas coletividades humanas
encontradas nas diversas regiões da superfície terrestre. Ela se baseia no que é
essencial à natureza humana.
Neste sentido, Plutão é o planeta mais intimamente relacionado com o verdadeiro Ocultismo — seja sob forma construtiva ou destrutiva (isto é, a linha Branca ou Negra) — não só porque o verdadeiro Ocultismo ensina-nos a atuar na esfera das forças (o mundo astro-mental), da qual os corpos materiais não passam de manifestações externas, mas também por afirmar que o conhecimento humano fundamental chegou à humanidade nascente através de uma "Revelação Original" concedida por Seres extraterrestres que eram a "semente" de um ciclo planetário
anterior, sendo tal conhecimento, sob seu estado puro, compartilhado em

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