de Peter Marshall
Tradução Angela Machado
Primeira Parte. Astrologia na China
1 Dentro da Boca do Dragão
A fronteira do deserto de Gobi, na antiga rota da seda, existe, próximo a Dunhuang, um oásis escondido entre dunas de cor castanho claro chamado Lago da Lua Crescente. Em 1900, um monge taoista chamado Wang Yuanlu chegou à entrada de uma caverna escavada em paredões de arenito. Com a luz bruxuleante de sua lamparina, ele iluminou umas estranhas pinturas budistas nas paredes de um grande complexo de templos. E, ainda mais surpreendente, descobriu uma vasta biblioteca escondida que permaneceu intocada por mais de um milênio. Chamada de a "Caverna dos Mil Budas", os templos tinham sido erigidos no século IV por monges budistas como um centro para meditação, estudo e criatividade artística.
As 750 cavernas, conhecidas atualmente como Grutas Magao, foram esculpidas no arenito. A biblioteca continha perto de 50 mil artefatos e sua descoberta foi tão importante quanto os Manuscritos do Mar Morto.1 Os trabalhos incluíam uma Bíblia escrita em siríaco, uma cópia do grande texto budista conhecido como Sutra do Diamante (o primeiro livro impresso) e um antigo mapa celeste.
Em 1907, o arqueólogo Sir Aurel Stein pagou ao monge taoísta que fizera a descoberta quatro peças de prata e retirou milhares de manuscritos e pinturas em rolos de seda, incluindo um mapa estelar. Eles estão agora nas Coleções Oriental e da Índia na Biblioteca Britânica.
O mapa estelar chinês, conhecido como mapa estelar Dunhuang, foi traçado em torno de 940 d.C. Quando fui vê-lo, o curador da coleção, Graham Hutt, me disse que era tão frágil que não poderia ser tocado. Trata-se de uma projeção cilíndrica, semelhante ao tipo que Mercator desenvolveu no século XVI, e representa o globo celeste projetado em uma superfície plana.
O curador informou que ele é um dos mais antigos mapas estelares do mundo.2 O mapa estelar Dunhuang representa o resultado de milhares de anos de paciente observação das estrelas na China.
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Foi traçado em uma época na qual a astrologia chinesa estava no auge, e deve ter sido utilizado por astrólogos na Corte imperial. Foi uma descoberta fabulosa.
Que esclarecimentos ele poderia trazer para a visão chinesa dos céus e qual a sua influência no destino e caráter humanos? Decidi ir até a China para descobrir.
Os Adivinhos de Hong Kong
Minha primeira parada foi Hong Kong, uma cidade futurista com muitos arranha-céus, onde hordas de homens e mulheres, vestidos imaculadamente de acordo com as últimas tendências da moda, corriam cheios de preocupações para o trabalho. É uma cidade frenética, enervante, surreal. É chamada de boca do dragão, com uma energia ígnea fluindo sobre a sua espinha dorsal ao longo das montanhas da China Continental, para ser interrompida somente pelas águas do mar do sul da China.
Mas, apesar de toda a arquitetura pós-moderna, do alto padrão de vida e dos sistemas de comunicação direta, as antigas crenças, superstições arcanas e costumes misteriosos ainda florescem por sob o brilho da superfície. Os bancos mundiais que ocupam quarteirões inteiros consultam especialistas na antiga arte do feng shui — uma forma de astro-ecologia —, para saber qual a melhor posição para seus arranha-céus e como decoram seus interiores de modo a ampliar seus lucros. Muitas firmas contratam especialistas em feng shui para desenvolver os projetos e a decoração de seus escritórios.
Executivos consultam almanaques chineses para descobrir o momento certo de tomar decisões importantes. Seus empregados visitam astrólogos para decidir sobre a compatibilidade de parceiros, as datas mais auspiciosas para casamentos e até a melhor época para conceber um filho.
Consultam o antigo I Ching, O livro das mutações, a fim de obter auxílio para decidir sobre mudanças de carreira ou quando viajar. Independentemente dos altos salários e das vidas automatizadas, buscam templos para perscrutar o futuro e curar a si mesmos. Usam a astrologia, muitas vezes combinada a outros métodos de divinação, com o objetivo de explorar suas próprias personalidades e resolver problemas difíceis em suas vidas. Com isso, entram em contato com uma antiga fonte de sabedoria que revela a natureza última do universo e sugere que devemos nos sintonizar com ela para viver em paz e harmonia.
O popular templo de Wong Tai Sin no continente, em Kowloon, foi fundado em 1915 por um pai e seu filho que trouxeram do interior da China um retrato do santo que deu nome à construção. Numa profusão de cores, com pilares vermelhos, treliças azuis e telhados amarelos, é um templo típico de Hong Kong, primordialmente taoista, porém misturado com elementos budistas e confucionistas.
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A Sala do Unicórnio, por exemplo, é devotada a Confúcio e freqüentada por alunos que querem se sair bem em seus estudos. Seus pavilhões e salas são dispostos de acordo com os princípios do feng shui; os principais representam os cinco elementos: metal, madeira, fogo, água e terra. Possui também um jardim chinês típico, com miniaturas desiguais de montanhas e árvores sempre-verdes pontiagudas. Contém uma réplica da famosa Muralha dos Nove Dragões do Templo Proibido que visitei em Pequim. Nos lagos silenciosos das carpas, várias tartarugas grandes levantam suas cabeças inquiridoras entre os lírios.
Wong Tai Sin tem a reputação de ser um ente imortal que cura doenças e traz boa sorte. Seu festival cai no 23° dia do oitavo mês lunar (geralmente em setembro). Segundo sua autobiografia, Wong Tai Sin era um pastor pobre nascido sob a Dinastia Tsun: "Aos 15 anos tive a grande sorte de ser abençoado por uma fada que me levou para uma caverna de pedra onde aprendi a arte de refinar o cinabre nove vezes e transformá-lo em uma droga imortal." Tornou-se adepto da alquimia taoista e viveu na caverna por quarenta anos até seu irmão, com a ajuda de um vidente, o capturar.
Quando lhe foi perguntado onde estavam seus carneiros, levou seu irmão até uns "amontoados de pedras brancas" que foram rapidamente transformadas em carneiros ao seu comando.3 Fascinado com esta demonstração, o irmão tomou as medidas necessárias para também se transformar num imortal. Isto requereu o desenvolvimento de uma "pílula da imortalidade", o equivalente chinês da Pedra Filosofal.
Dentro do templo segui os devotos em seus trajes vistosos, que deixavam suas oferendas sobre um pedaço de jornal no chão, diante do pavilhão que continha a imagem do santo. Oravam levantando e baixando as mãos, mantendo a cabeça curvada em frente ao altar. Antes de sair, deixavam varetas de incenso acesas e enfiadas em areia dentro de grandes urnas de bronze.
Notei que várias pessoas giravam cilindros ovais de madeira cheios de varetas de bambu até que caíssem no chão. Um amigo ou membro da família anotava o seu número. Então repetiam o mesmo processo várias vezes. Aprendi que existem grupos de 40, 75 ou 100 varetas, algumas das quais são pintadas de preto na parte intermediária significando o yin (princípio feminino no universo), enquanto outras, que não eram pintadas, representavam o yang (princípio masculino). Cada "vareta da sorte" corresponde a um ideograma chinês que faz uma previsão. Com frequência consulta-se um médium para conseguir uma interpretação final.
Os brilhantes financistas e magos da computação de Hong Kong mantêm indubitavelmente estas crenças supersticiosas e seguem práticas muito antigas de divinação que se originaram nos templos budistas. Sua prática com as varetas da sorte parecia ser uma versão simplificada do I Ching, o livro mais antigo do mundo e ainda hoje o mais amplamente lido na China.
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Mas isso faz sentido? É possível fazer uma previsão sobre o futuro com uma seleção de varetas aparentemente ao acaso? Ou o próprio processo por si ajuda o vidente a conseguir um esclarecimento sobre o cliente ou o seu futuro? Estas não são as únicas atividades que acontecem no tempo de Wong Tai Sin. Ligado ao complexo do templo existe uma fileira de quiosques superpovoados — cerca de 160 no total —, onde homens e mulheres, alimentados por anos de possível sabedoria, oferecem iluminação e socorro.
Como diz uma placa em inglês: esta é uma aldeia real de "adivinhos". Alguns são quiromantes, que praticam uma arte denominada quiromancia que existe há pelo menos três mil anos na China e na Índia. Já tinha visto esses leitores de mão trabalhando nos jardins fora do Palácio Proibido em Pequim. Os quiromantes levam em consideração o formato da mão da pessoa e as linhas da palma para descrever seu caráter e o futuro, especialmente seus relacionamentos, carreira e prosperidade. O tamanho dos dedos e seus montes indicam suas características.
Não surpreende sabermos que os taoistas foram os primeiros a utilizar as impressões digitais como meio de identificação na antiga China. Também fiquei intrigado ao descobrir que as impressões digitais recebem o nome de corpos celestes. Os planetas possuem as mesmas associações da astrologia ocidental: Sol, estabilidade emocional; Lua, emoção; Vênus, romance; Marte, agressão; Saturno, prudência; Júpiter, riqueza.
Outros "adivinhos" fora do templo eram leitores de rosto, especialistas em fisiognomonia. Novamente, esta arte foi desenvolvida na antiga China pelos taoístas. Era considerada uma ferramenta útil no "tao da supremacia", isto é, o domínio do ser e da própria situação. Um mapa taoísta da face foi traçado em 2500 a.C. De modo claro, nossos rostos fornecem um guia acurado dos nossos humores, em especial lábios e olhos, e nossas faces refletem nossa experiência. Contudo, os chineses acreditam que determinadas características faciais herdadas revelam nosso caráter: uma testa pronunciada, por exemplo, indica amabilidade, reflexão; uma testa curta, impulsividade; um queixo pontudo, descontentamento; um queixo com covinha, sensualidade.
Entretanto, os chineses estão também cientes de que as aparências enganam e que não existem dois rostos iguais. Uma pessoa sábia não julga somente pela aparência.
Embora quiromantes e leitores de rosto fossem fascinantes, eu estava mais interessado nos "astrólogos" chineses. Decidi me sentar na tenda 39, que tinha uma tabuleta na qual se lia: "inglês." Sentado atrás de uma mesa estava umhomem pequeno, de aparência agradável, na faixa dos seus sessenta anos.
Trajava um terno formal e gravata, e usava óculos com aros grossos. Deu-me um cartão cor-de-rosa no qual declarava: "Falo inglês."
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Enquanto discutíamos sobre o pagamento — seu inglês era certamente rudimentar —, uma jovem vestida em trajes da moda surgiu e falou rapidamente com ele em chinês. Dando uma pequena risada, ela saiu. Isto me fez pensar que a maioria dos clientes do astrólogo era de jovens mulheres.
Com o preço acertado (250 dólares de Hong Kong), meu astrólogo pediu a
hora e a data do meu nascimento, e colocou os detalhes em um laptop. Então,
anotou em um pedaço de papel cor-de-rosa hora, dia, mês e ano do meu
nascimento, cada um escrito em dois belos ideogramas chineses. Explicou que
cada um era um "broto celeste" e um "ramo terreno". Então fez o mesmo para
cada ano de 1960 a 2034. O pedaço de papel também tinha espaços para serem anotados os signos mais significativos para a minha vida em grupos de
dez anos, da idade dos seis até 76. Ele estava, na realidade, praticando a
astrologia tradicional conhecida como os "Quatro Pilares do Destino",
popularmente chamada de "oito signos", que liga um elemento, ou uma
combinação de elementos, a momentos diferentes do tempo.
Após analisar o mapa em silêncio por algum tempo e anotar os signos em
uma bela caligrafia com traços firmes, ele levantou a cabeça e disse com
gravidade:
— Você, cão.
Entendi que isto se referia ao ano do meu nascimento que, segundo o
zodíaco chinês, atribui 12 animais diferentes para cada 12 anos, girando em
um ciclo completo de sessenta anos.
— Você pertence à terra — continuou o meu astrólogo. — A posição da sua
esposa combinada, lado direito, lado esquerdo, água.
E a conclusão:
— Instável na vida amorosa. Terra, fraca; água, mais forte.
Tendo me divorciado há seis anos e iniciado um novo relacionamento com
Elizabeth, que estava viajando comigo, não eram boas notícias. O adivinho
olhou para mim meio de lado, como se dissesse: "Mulheres, problemas."
Mas nem tudo estava perdido. Ele sorriu e disse:
— A sorte para você está no fogo, terra, madeira.
Pelo menos eu poderia me relacionar com pessoas destes signos. Então
vieram as más notícias:
— A má sorte está no ouro, água. Ouro: regresso, doença. Água: perda de
capital.
Meu astrólogo então fez uma lista em seu cartão cor-de-rosa dos anos ruins em amarelo e dos bons em vermelho. Fiquei feliz ao ver que, à medida que ele marcava os trânsitos de dez anos, havia mais vermelhos que amarelos.
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— Nada especial antes dos 36, melhor depois dos 36 — declarou. Depois
acrescentou outros detalhes. — Muito especial entre 1964 e 1968 (quando deixei o internato, morei em Londres por um ano, velejei pelo mundo como cadete na P&O — Orient Shipping Company — e ensinei inglês na África Ocidental). — Regresso — reivindicou ele — ocorrera entre 1970 e 1972 (quando fazia pesquisas para o meu Ph.D.). Muito especial entre 1974 e 1979 (quando estava envolvido em estabelecer uma comunidade rural e minha filha nasceu) e entre 1980 e 1983 (quando estava escrevendo os meus primeiros livros e meu filho nasceu). Ficou silencioso sobre os anos 1992-1994, que foram os mais difíceis para mim: depois de circunavegar a África, rumei para o meu divórcio. Outro período não auspicioso foi o de 2000 a 2003. Durante este período me dediquei com afinco à alquimia e à astrologia, mudei de casa e iniciei uma nova vida com a minha atual parceira. Mas depois haveria águas calmas, até 2010, quando tudo deterioraria outra vez por outros três anos.
E quanto a minha velhice? O astrólogo enfatizou que o período de 2020 a 2021 será problemático para a minha saúde (eu estarei com 74-75 anos, então). Depois será favorável novamente, até 2030, quando atingirei os 84 anos. Não fez menção a datas posteriores a esta; presumi então que este seria o ano da minha morte.
Anos antes, no Sri Lanka, um astrólogo-quirólogo da família de um amigo predissera a mesma data. Não acreditei no momento, mas agora começava a admitir. Era extraordinário que astrólogos de tradições bem diferentes chegassem à mesma conclusão.
Quanto à minha situação em termos gerais, ele disse que minha sorte em geral é normal e que eu não serei nem rico nem pobre, mas estável. Minha saúde é boa e terei uma vida longa.
E a minha vida amorosa? Eu tivera, ele disse, mais duas "namoradas" no passado (verdade) e era instável na minha relação com as mulheres (possivelmente...).
As palavras finais do meu astrólogo chinês foram: "A sua sorte em geral, melhor antes dos 34!" Isto não foi particularmente bom de ser ouvido duas décadas depois. Eu teria de fazer o melhor com o que restara, mas pelo menos me fora dado uma vida longa para aproveitar e me preparar para a próxima.
Em razão do seu inglês deficiente e da natureza popular da sua abordagem, o meu astrólogo no templo de Wong Tai Sin em Hong Kong fez somente um relato superficial do meu caráter e destino. Contudo, ele fazia parte de uma tradição muito antiga que era repleta de significados profundos e que tinha uma longa história com raízes nos primeiros dias da civilização chinesa. Ele insistiu que o seu método não era uma superstição, mas uma ciência.
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O método que ele estava praticando é o mais popular atualmente em Hong Kong e Taiwan. Conhecido como Tzu P'ingy baseia-se nos "Quatro Pilares do Destino" (Ssu Chu), que são o ano, o mês, o dia e a hora do seu nascimento. É
algumas vezes chamado de "oito signos" (ba tze): cada pilar é representado por dois "signos" ou ideogramas chineses. Oferece um perfil detalhado da sua
personalidade e indica, entre outras coisas, sua disposição emocional e intelectual de nascimento, e também o tipo de vida melhor para você realizar o seu potencial.
2 O Cão e o Tigre
Quando o meu adivinho de Hong Kong disse: "você, cão", ele estava se referindo ao tipo de astrologia chinesa mais conhecida pelos ocidentais como Ming Shu, literalmente "Círculo de Animais". É a maneira mais fácil de se compreender como os 12 animais, com seus tipos associados de personalidade, são similares aos 12 signos solares na astrologia ocidental.
O Cão é o meu signo na astrologia chinesa, assim como o Leão é o meu signo solar na astrologia ocidental. Uma considera o ano solar, a outra, o mês lunar
como os fatores que definem sua personalidade. A natureza do cão é ser paciente, leal e vigilante.
Quase todos sabem que na astrologia chinesa cada ano está associado a um animal, cada um com suas características próprias. O que é menos conhecido é o fato de estarem dispostos em torno de um ciclo de 12 anos. Isto é algumas vezes chamado de "zodíaco chinês", mas os animais não estão diretamente relacionados a constelações específicas no céu como estão os signos do zodíaco ocidental.
De onde veio a idéia das 12 criaturas do Círculo de Animais?
Uma lenda popular na China credita a Buda a origem do sistema, sem dúvida graças a sua celebrada compaixão por todos os seres.
Diz-se que um dia ele convidou todos os animais na Terra para visitá-lo, mas somente 12 compareceram ao evento. Como mostra do seu apreço, ele deu a cada animal um ano ao qual ele estaria associado para sempre. A ordem do ciclo de anos reflete a ordem em que eles chegaram:
Rato, Búfalo, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Javali.
O ano de 2000, apropriado para o alvorecer de um novo milênio, foi o Ano do Dragão, o signo mais auspicioso e o mais respeitado por sua energia criativa.1
O problema com essa história é que Buda nasceu na Índia por volta de 563
a.C. O budismo chegou à China no século V d.C, onde se combinou com o
taoísmo para produzir o budismo cha'n, mais tarde conhecido como zen no
Japão. A astrologia chinesa, entretanto, é milhares de anos mais antiga.
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Outra versão das origens do "zodíaco" chinês dos 12 animais fala da sua
origem divina. Nesta versão diz-se que o Imperador de Jade no céu queria saber como eram os animais na Terra. Chamou o seu conselheiro-chefe e disse:
— Já estou reinando no céu há muito tempo, mas nunca vi os animais da Terra. Como eles se parecem? Como se comportam? São inteligentes? Como eles ajudam a humanidade?
O conselheiro-chefe respondeu que os animais na Terra eram incontáveis e que seria impossível ver a todos. Sugeriu convidar os 12 mais interessantes para uma visita ao céu. O Imperador de Jade prontamente concordou.
— E, agora, quais os animais que eu devo convidar? — perguntou-se o conselheiro-chefe. — Já sei, primeiro eu convido o rato e peço a ele que leve um convite para o seu amigo gato!
Depois de pensar mais um pouco, decidiu convidar também o búfalo, o tigre, o coelho, o dragão, a serpente, o cavalo, a cabra, o macaco, o galo e o cão, pedindo a eles que se apresentassem nos portões do céu às seis horas em ponto da manhã seguinte.
Quando o rato ouviu a novidade, ficou feliz e correu em busca do gato para contar sobre a sorte deles. Como o gato adora se enroscar e tirar uma soneca, seria difícil para ele se levantar cedo. Então pediu ao rato que o acordasse antes das seis. Quando o rato foi para a cama naquela noite, não conseguiu dormir. Ficou se virando e revirando e pensou que o gato era mais esperto se comparado a ele. "Talvez o Imperador de Jade o escolha antes de mim", gemeu. Foi demais, e ele decidiu finalmente não acordar o gato conforme o combinado.
Na manhã seguinte, às seis horas em ponto, todos os outros animais se reuniram nos portões do céu e foram recebidos no palácio imperial pelo conselheiro-chefe.
O Imperador de Jade a princípio ficou feliz com todos os animais, mas quando começou a contá-los, seu semblante se fechou.
— São todos muito interessantes, estou vendo, mas por que são somente 11 animais? Você disse que seriam 12.
O conselheiro-chefe tremeu e falou sem pensar: — Deve haver algum engano, majestade, espere um momento que eu vou verificar.
Correu para fora e ordenou ao seu servo que descesse até a Terra e pegasse o primeiro animal que aparecesse. E foi assim que o servo encontrou um velho fazendeiro que levava o seu javali para o mercado. Quando ouviu que o Imperador de Jade gostaria de ver o seu javali, o homem ficou feliz em
servi-lo.
Enquanto isso, o rato estava tão preocupado em não ser notado que pulou nas costas do búfalo e começou a tocar flauta. O imperador sorriu e ficou encantado. Quando chegou a hora de colocar os animais em fila, ele decidiu dar ao rato o primeiro lugar.
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O segundo foi dado ao búfalo, por ser tão generoso e ter permitido que o rato se
instalasse sobre as suas costas. O terceiro foi dado ao tigre, porque era muito
corajoso; o quarto coube ao coelho, porque tinha um pêlo lindo; e o quinto ao
dragão, por causa de sua energia ígnea. A serpente, com seu belo corpo sinuoso, recebeu o sexto lugar; e o cavalo, com sua postura bonita, o sétimo. A cabra ficou com o oitavo em razão de seus fortes chifres; o macaco recebeu o nono porque era muito ágil; o galo foi o décimo, por causa de suas esplêndidas penas; e o cão recebeu o 11° lugar, porque permanecia vigilante. E o javali ficou no fim da fila, perplexo, porém feliz por ter sido repentinamente convidado para ir até o céu. Recebeu o 12° lugar, o último, mas não menos importante.
Depois que o imperador havia inspecionado os animais e o desfile terminara, o gato repentinamente chegou ao céu e começou a bater no portão o mais alto que podia. Infelizmente, as patas de um gato não são muito boas para bater em portas, e passou muito tempo até que conseguisse chamar a atenção de alguém.
Quando o conselheiro-chefe finalmente abriu os portões, o gato exclamou
sem fôlego:
— Sinto muitíssimo, estou atrasado. Dormi demais, senhor. O rato deveria ter me acordado, mas não o fez.
— Eu também sinto muito — disse o conselheiro-chefe. — Mas o senhor perdeu a viagem. Nós já temos todos os animais de que precisamos, obrigado.
— E fechou os portões com estrondo no focinho do gato. Este ficou furioso. Nunca perdoou o rato, e é por isso que até hoje gatos e ratos não se dão um com o outro. Pobre gato! Mas ele não está sozinho em seu gosto para dormir e em suas fraquezas.
Cada animal tem seus pontos fracos e fortes. Alguns reagem mais e se impõem; outros são mais interiorizados e reticentes. Alguns logo se inflamam e ficam zangados; outros são mais pacientes. Alguns se relacionam bem com os demais animais, outros, não. A compatibilidade é um dos temas principais nesta forma popular de astrologia chinesa. E os relacionamentos se aplicam a amigos e colegas, assim como aos seres amados. O Rato e o Dragão, por exemplo, se dão em vários níveis diferentes: são bons parceiros no amor, colegas felizes e amigos constantes.
No meu caso, o meu signo animal é o Cão e a minha parceira é Tigre. Felizmente, Tigre e Cão se dão muito bem. O Tigre gosta de assumir riscos; o Cão é mais cauteloso e pode avisar sobre o perigo. O Tigre aprecia a vigilância do Cão, enquanto o Cão gosta da natureza impetuosa do Tigre. Mas ambos podem se dispor a agir se for necessário, e juntos se tornam aliados poderosos. Ambos são idealistas e defensores dos oprimidos. O Tigre deve lembrar que o Cão precisa de um apoio carinhoso para que a relação funcione bem.2 Embora sendo compatível com o Tigre, o Cavalo e o Javali, o Cão também se dá bem com o Rato, o Coelho e o Macaco. Não tenho conflitos com a Serpente e a Cabra, embora precisemos nos esforçar para isso. Não tenho simpatia pelo Búfalo e pelo Galo, e sou realmente hostil ao Dragão.3
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A compatibilidade não é a única preocupação. Cada animal está associado a
um elemento, cor, yin e yang, e a uma direção da bússola.
O Rato, por exemplo, está associado ao elemento água (que funciona em harmonia com madeira), à cor preta (ligada à honra), ao yin receptivo e à direção Norte. Ele ou ela está ligado ao solstício de inverno, quando o yin está no seu ponto mais forte.
Como Cão, meu elemento é metal, minha cor é preto ou azul-escuro. Sou mais yang do que yin (conhecido como "pequeno yang"), minha direção é Oeste e minha estação é outono.
Nesta forma popular da astrologia chinesa, sua sorte é influenciada não somente pelo seu signo animal, mas também pela sua posição segundo o ano de um ciclo de sessenta anos. A unidade utilizada para medir a passagem do tempo na China é o "Grande Ano", baseado no ciclo de Júpiter, que leva cerca de 12 anos para completar uma volta em torno do Sol (12 x 5 = 60).
Os grandes anos são freqüentemente agrupados em três, formando um ciclo de 180 anos.
O ciclo de sessenta anos desempenha um papel fundamental para a cultura chinesa. Existem sessenta deuses associados ao ciclo e a cada ano um deles ocupa o lugar principal. Nos templos taoistas as pessoas fazem oferendas de incenso, flores, frutas e até dinheiro ao seu deus de nascimento para atrair boa sorte. No Templo da Nuvem Branca, em Pequim, o centro do taoísmo no Norte da China, vi mulheres jovens e idosas queimando incenso diante de seu "divino protetor" — representado como um general sentado —, relativo ao ano do seu nascimento.
Como isto se adapta aos 12 signos animais? Dentro do ciclo de sessenta anos, cada signo animal aparece cinco vezes, mas a cada vez ele surgirá de uma forma ligeiramente diferente. Isto ajuda a explicar por que as pessoas que pertencem ao mesmo signo animal, porém nascidas em anos diferentes, terão um tipo de sorte diferente.
No caso do Cão, por exemplo, o ciclo começa com o ano do "Cão de Guarda" (Chia Hsü), depois vem o "Cão Adormecido" (Ping Hsü), por outros 12 anos, depois o "Cão Indo para a Montanha" (Mou Hsü), "Cão do Templo" (Keng Hsü) e, finalmente, o "Cão da Família" (Jen Hsü). O ciclo então recomeça novamente.4
Brotos celestes e ramos terrenos
Os dois ideogramas chineses para o meu ano de nascimento, escritos no alfabeto ocidental como Ping Hsü, representam o que é chamado de um "broto celeste" (neste caso, Ping) e "ramo terreno" (Hsü). Eles não somente unem céu e Terra, como são o núcleo da astrologia chinesa, mas juntos representam uma variação particular de um dos 12 animais.
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Existem 12 brotos celestes e dez ramos terrenos que se combinam como duas engrenagens no ciclo de sessenta anos. Elizabeth, por exemplo, nasceu no "Ano do Tigre". Segundo o seu par de broto e ramo no ciclo de sessenta anos, foi no "Ano do Tigre que Desce a Montanha". Embora existam traços gerais de personalidade sempre associados ao Tigre, esta variação em particular é importante para prever os relacionamentos familiares, o bem-estar futuro e as perspectivas de trabalho.
Para descobrir a variação particular do seu tipo animal você terá de encontrar sua posição no ciclo de sessenta anos. Para isso, consulte a tabela lunar em relação ao ano do seu nascimento.
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Segundo o calendário solar ocidental, minha parceira nasceu no dia 20 de julho de 1950. A tabela lunar me diz que foi o sexto mês lunar no 27° ano do ciclo de sessenta anos, isto é, Keng Yin. O broto celeste Keng está associado ao elemento metal, à cor branca e ao gosto picante, enquanto o ramo terreno yin está ligado ao Tigre, ao início da primavera e à direção Lés-nordeste. Diz-se que uma pessoa nascida no 27° ano do ciclo é forte, trabalhadora e generosa. Pode, como vários Tigres, ter mudanças súbitas de humor, reagir fortemente quando não é compreendido ou ficar ofendido, mas sua raiva se dissipa logo. A família e os amigos apreciam seu cuidado e sua energia. Por outro lado, quem nasceu no "Ano do Tigre na Floresta" ou no "Ano do Tigre Parado" será mais observador e menos instável.5
No meu caso, nasci no dia 23 de agosto de 1946, que é o sétimo mês lunar
do 23° ano do ciclo de sessenta anos conhecido como Ping Hsü, o "Ano do Cão
Adormecido". O broto celeste Ping está associado ao elemento fogo, ao vermelho e ao sabor amargo, enquanto o ramo terreno Hsü corresponde ao Cão, ao fim do outono e à direção Oés-nordeste. Dizem que eu tenho um modo tranqüilo que me predispõe a ouvir as pessoas e ajudá-las em seus dilemas. Mas, como um dorminhoco, não gosto de ser forçado a cumprir esquemas ou a tomar decisões quando não estou pronto para elas.
O Sistema de Horas
Uma dimensão maior do seu horóscopo, baseado no Círculo de Animais, é adicionada pelo animal associado à sua hora de nascimento. O dia chinês é dividido em 12 unidades, cada uma com uma "hora de começo" e uma "hora exata". Cada uma corresponde a duas horas ocidentais no dia de 24 horas, embora a primeira tenha início às 23h e vá até a l h e a última das 21h às 23h. A divisão é muito antiga, muito antes das primeiras horas registradas em um calendário chinês, que data do século V a.C. As 12 horas recebem o nome em relação aos chamados "ramos terrenos" que correspondem aos 12 signos animais. O primeiro período de duas horas é, portanto, Tzu, o Rato, e o último, Hai, o Javali.
Rigorosamente, para conseguir saber o signo animal para a hora do nascimento é preciso primeiro converter a hora para o Horário Universal (Hora Média de Greenwich) e depois adicionar nove horas para transformá-la no Horário Chinês da Costa.6 Contudo, os livros ocidentais mais populares sobre a astrologia Ming Shu não fazem esta segunda conversão. Como nasci por volta das 16h do Horário Britânico de Verão, se ele for convertido para o Horário Universal, o meu animal horário é Shen, o Macaco, mas se a conversão for feita para o horário chinês, eu sou Tzu, o Rato.
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Ter nascido em um horário Shen prevê que eu tenho sorte e acho fácil ganhar a vida, mas posso também ser extravagante. Preciso estar preparado para as dificuldades que podem surgir na minha vida amorosa. Elizabeth, nascida às 22h, e portanto correspondendo ao ramo terreno de Hai (o Javali), possui um talento natural para as artes manuais. Tendo começado alguma coisa, ela desejará terminá-la.
A maioria dos livros populares sobre astrologia chinesa utiliza os 12 animais como emblemas para o ano e a hora do nascimento. Embora seja dito que o animal do ano reflete sua personalidade dominante e suas implicações na sua vida amorosa e na carreira, diz-se que o animal da hora representa o seu "companheiro interno" e amplia, equilibra ou equipara o seu animal principal.7
Ele, portanto, confere o toque final à sua personalidade. De várias maneiras, os animais lembram bastante os totens animais dos xamãs que agem como guias e protetores em suas buscas por visões.
Sou Cão pelo ano e Macaco pela hora, segundo este sistema. Elizabeth é Tigre pelo ano e Javali pela hora. Tigres e Cães se dão bem, segundo as interpretações tradicionais, e me agrada a ideia de que sendo Javali, ela goste de cuidar de mim. Gostaria de ser fiel, leal e protetor como o Cão. Mas, então, o meu lado Macaco aparece com seus truques nocivos e prefiro pular de galho em galho em torno do globo sem me importar com coisa alguma... Assim como existe um simbolismo com os animais no Ocidente, os animais do zodíaco refletem as características a eles atribuídas no folclore chinês.
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O Javali, por exemplo, tem uma imagem muito mais positiva na China do que no Ocidente; o seu pictograma tem um telhado por cima sugerindo suas qualidades amorosas pelo lar.
Os 12 animais são também heróis das antigas lendas chinesas e, em suas diferentes apresentações, todos são considerados auspiciosos. O elo com os céus é estabelecido pela correspondência entre o ciclo de 12 anos dos animais e o ciclo de 12 anos de Júpiter.
O Círculo de Animais é muito antigo na China. Foi descoberta uma bela pedra decorada com suas figuras próximo a Sian, na tumba de uma princesa T'ang, Chang Huai, que morreu no século VII d.C. Outra princesa, Hun-shin Jun-ju (Kong Jo), que se casou com o rei tibetano Srang-Tsan Gampo, o introduziu por volta de 642 no Tibete, onde ele se tornou conhecido como jungtsi.
Existe uma forte evidência de que já no século VI a.C. a divisão dos anos em 12 era associada ao Círculo de Animais.8 Mas os animais, provavelmente, remontam a milhares de anos antes e uma lenda na China atribui o início do primeiro ciclo de 12 anos ao semilendário Imperador Hung Ti — o Imperador Amarelo — em 2637 a.C.
3 O Caminho e a sua Virtude
Dez mil coisas trazem o yin e incluem o yang.
LAO-TSÉ
Para compreender a Astrologia chinesa é essencial compreender as noções chinesas do Tao, o yin e yang e os cinco elementos. Todos têm suas raízes no taoismo, a mais antiga filosofia na China. Já fui estudante de taoismo. Sua maior escritura, o Tao Te Ching (O caminho e a sua virtude) é atribuída a Lao-tsé, que dizem ter morrido no século VI a.C. É um dos trabalhos mais belos, poéticos e profundos da literatura mundial.
Da mesma tradição surge o antigo livro de divinação conhecido como I Ching (O livro das mutações), que exerce forte influência sobre a astrologia. É importante compreender que o taoismo foi desenvolvido numa época em que a China era um país de agricultores. Diferente da sociedade pastoril, que pode comandar a vida dos animais, se necessário, os agricultores dependem de forças que não podem controlar. Se querem sobreviver, devem cooperar mais conscientemente com as leis da natureza.
Qualquer coisa que afete a ordem natural é negativa porque traz, inevitavelmente, consequências desastrosas. Para atingir esta harmonia pacífica, os chineses desenvolveram um amor pelo compromisso. O objetivo final é atingir a paz interior e em torno de si. É, portanto, primordial evitar os extremos: o caminho do meio, como seguiram Buda e os antigos gregos, é a essência da sabedoria.54
O Tao
A ordem natural é chamada de Tao. Ele é mais bem traduzido por "o Caminho", mas existe um problema. Como observou o grande sábio Lao-tsé:
"O Tao que pode ser falado não é o Tao eterno."1 O Tao não pode ser explicado ou descrito; mas somente sentido. A mente humana, que é só uma parte do todo, não consegue conceber o Um melhor do que um sapo em uma lagoa consegue compreender a vastidão do oceano. Porém, embora não possa ser conhecido, seus efeitos dinâmicos podem ser sentidos. Eles surgem como um tipo de energia ou força de vida que os chineses chamam de chi.
Chi permeia tudo e é responsável pelo crescimento e pela regeneração. Empresta também estrutura e qualidade aos objetos físicos. O Tao produz chi a partir do nada e depois revela a si mesmo por meio de duas forças opostas e complementares — o yin e o yang —, que agem emtodo o universo. A obra taoista Huai Nan Tzu> de cerca de 120 a.C. descreve como o Grande Começo foi a fonte de todas as coisas:
Antes de o céu e a Terra assumirem uma forma, tudo era vago e amorfo. Por isso foi chamado de o Grande Começo. Ele produziu o vazio, e o vazio produziu o universo. Este produziu as forças materiais que possuíam limites. O que era claro e leve se juntou para formar o céu, enquanto aquilo que era pesado e túrgido solidificou-se para se tornar a Terra.
As essências combinadas do céu e da terra tornaram-se yin e yang, as essências concentradas do yin e yang tornaram-se as quatro estações e as essências espalhadas das quatro estações tornaram-se a miríade de criaturas do mundo. Após um longo tempo, as forças quentes do yang acumulado produziram o fogo e a essência da força ígnea tornou-se o Sol; a força fria do yin acumulado tornou-se a água e a essência da água tornou-se a Lua.
A essência do excedente da força do Sol e do excedente da força da Lua tornaram-se as estrelas e os planetas. O céu recebeu o Sol, a Lua e as estrelas, enquanto a Terra recebeu a água e o solo.2 O yin e o yang vão e vêm e fluem como uma onda no oceano. O Tao Te Ching diz que as criaturas vivas são rodeadas pelo yin e engolfadas pelo yang, e a harmonia de suas vidas depende da harmonia dos dois princípios:
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O Tao gerou o um.
O um gerou o dois.
O dois gerou o três.
O três gerou as dez mil coisas.
As dez mil coisas carregam o yin e abraçam o yang.
Elas atingem a harmonia ao combinar estas forças.3
O processo pode ser comparado ao crescimento de uma árvore. Da terra emerge
um broto que se divide em duas folhas (yin e yang). A haste cresce entre as duas folhas combinando-se para formar os três corpos em um só. Destes crescem todos os outros ramos e folhas.
O famoso símbolo taoísta mostra como as forças do yin e yang estão interligadas, uma crescendo e a outra decrescendo e vice-versa. Podem ser comparadas a dois golfinhos brincando ou ao abraço de dois seres que se amam. O ponto preto na parte branca e o ponto branco na parte preta mostram que não são forças separadas, mas aspectos da mesma realidade. Como diz o antigo texto Nei Ching: "No yin existe o yang e no yang existe o yin."
O nome chinês para o símbolo do yin-yang é T'ai Chi T'u. É algumas vezes traduzido como "Grande Final". T'ai significa "supremo"; chi aqui significa "pólo" e t'u, "projeto". Combinados, os três caracteres chineses designam o Pólo Norte, o eixo sobre o qual gira o universo. O praticante da arte marcial do t'ai chi copia, assim, o universo enquanto ele gira sobre seu próprio eixo. Ele também se move do yin para o yang e volta novamente ao começo.
O símbolo do T'ai Chi T'u é muitas vezes rodeado por oito trigramas que, acredita-se, representam todas as combinações possíveis do yin e do yang. As linhas retas no alto representam o céu e o Sul, e as linhas interrompidas embaixo, a terra e o Norte.
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Quando ligadas em pares, elas formam os 66 hexagramas do I Ching, que supostamente contém o segredo de "todo o vir a ser". Descobrir o que está de acordo com a ordem natural do Tao, encontrar o que está em harmonia com o universo, é o objetivo central da astrologia e divinação chinesas.
As raízes dos caracteres chineses para "yin" e "yang" revelam seu significado. O ideograma para yin significa o escuro, ou lado norte de uma montanha; yang, o ensolarado, ou lado sul. Ampliado para cobrir virtualmente toda a gama de assuntos humanos, o yin representa o feminino, o submisso, o princípio receptivo e os números pares, enquanto o yang simboliza o masculino, o dominante, o princípio expansivo e os números ímpares. Yin é interno e introvertido, yang é externo e extrovertido. Nem o yin nem o yang são bons ou maus por si; somente o excesso de um deles é potencialmente perigoso e prejudicial. Isto se aplica tanto à acupuntura quanto à astrologia. Uma mulher deve ter algum yang, embora não demais.
Até na arte de fazer amor um homem não deve exaurir o seu yang enquanto assimila o yin da sua parceira.
Este dualismo é evocado pelas imagens do yin do Tigre Branco (a cor da morte), associado ao Oeste e ao entardecer, e pela imagem do yang do Dragão Verde (a cor do crescimento), associado ao Leste e à manhã. Estas imagens são algumas vezes pintadas nas paredes das casas. Na religião taoista, o sistema de crença mais antigo na China, a Rainha Mãe do Oeste é equilibrada pelo Imperador de Jade que habita no pico da montanha do Leste. Conscientes do dualismo do yin e yang em si mesmos, os taoistas buscam recuperar a unidade e a harmonia original do Tao.
Os Cinco Elementos
O chi do Tao é primeiro manifestado pela interação do yin com o yang, mas estes são posteriormente subdivididos em cinco forças — madeira, fogo, terra, metal e água. São conhecidas como hsing, que é geralmente traduzido como "elementos". Mas em chinês o termo hsing significa "marchar" ou "progredir". Ele reflete a delicada concepção taoista da natureza que não é de todo captada pelo conceito grego dos quatro elementos que se combinam para formar a substância de todas as coisas. Alguns preferem chamá-los de "fases", "agentes" ou até "atividades".4 Prefiro usar o termo "elemento", pois para mim é mais familiar, porém é preciso não esquecer que no chinês original ele sempre implica um processo dinâmico.5
Os cinco elementos são energias poderosas e invisíveis que interagem em um movimento cíclico permanente. Acredita-se que não somente tempo, espaço e natureza podem ser explicados em termos dos cinco elementos, mas também o caráter e o destino da pessoa.
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Cada elemento possui uma "virtude" particular. Água dissolve e penetra; fogo aquece e sobe; madeira é viva e pode ser afiada por uma ferramenta; metal é inerte e pode ser moldado. Terra dá origem aos outros quatro; ela é o principal ponto de referência, sendo identificada com o centro.
Os elementos possuem poder para criar e poder para destruir cada um, dependendo da sua virtude natural particular. Eles interagem segundo regras fundamentais. Do ponto de vista astrológico, sua interação indica a boa ou má sorte que pode acontecer a uma pessoa ou lugar. O padrão previsto é:
Segundo a doutrina compilada por Chou Yen (305-270 a.C), cada elemento corresponde a uma das cinco estações do ano (primavera, verão, canícula, outono e inverno), das cinco direções da bússola, uma cor, um número primo, um sabor, energia yin e/ou yang, eras e a uma ou mais partes do corpo.6
Como tudo está conectado ao Tao, não surpreende que existam certas relações e afinidades entre os elementos e outros aspectos da natureza e do corpo humano.
Madeira rege o fígado, sua cor é verde, seu sabor é ácido e seu número é 8. O fogo rege o coração, sua cor é vermelha, seu sabor é amargo e seu número é 7.
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Terra rege o baço e está associado ao amarelo, ao sabor doce e ao número 5.
Metal rege os pulmões e está ligado ao branco, ao sabor picante e ao número 9.
Água rege os rins e está ligado ao preto, ao sabor salgado e ao número 6.
Os cinco planetas visíveis a olho nu, chamados de Cinco Estrelas, também estão associados aos elementos. A Estrela Cronológica é Mercúrio, cuja quintessência é a água; o Grande Branco é Vênus (metal); o Enganador Cintilante é Marte (fogo); a Estrela do Ano é Júpiter (madeira) e a Estrela Dominante é Saturno (terra).
Como se acredita que cada planeta possui seu próprio tom, dançando juntos eles criam a música das esferas e revelam a harmonia inerente do universo. E os cinco elementos intrínsecos de um ser humano são a essência, o sentido, a vitalidade (ching), o espírito (shen) e a energia (chi). Os dois primeiros fazem surgir a consciência, enquanto os outros três são conhecidos como os três tesouros.
A interação dos elementos é descrita em um dos textos chineses mais antigos. O Huang Ti Nei Ching Su Wen (Pequeno livro de medicina do Imperador Amarelo), que chegou à forma atual por volta do século II a.C. descreve sua ação.
Fogo, associado ao verão e ao Sul, simboliza o "grande Yang"; água, associado ao inverno e ao Norte, simboliza o "grande Yin"; madeira, ligado à primavera e ao Leste, é o "pequeno Yin"; metal, associado ao outono e ao Oeste, é o "pequeno Yang"; terra, situado no centro, contém todos os outros elementos e está ligado a todos eles.
A teoria dos cinco elementos forma a base da medicina e da acupuntura chinesas, assim como da astrologia. Se os cinco elementos atribuídos pela medicina chinesa a cada um dos órgãos vitais estiverem equilibrados em uma pessoa e interagirem de acordo com os ciclos de nascimento e destruição, a pessoa terá boa saúde. Por outro lado, se um elemento estiver muito forte ou muito fraco, ele alterará o equilíbrio e o resultado será a doença. Se o rim for fraco, por exemplo, água não será capaz de manter fogo sob controle. O resultado será uma doença ligada ao coração, como pressão sanguínea alta ou batimento cardíaco irregular. O remédio seria usar a medicina ou a acupuntura para conseguir novamente o equilíbrio dos elementos dentro do corpo.
Os cinco elementos permeiam a cultura chinesa e seu modo de vida. Eles representam, por exemplo, as cinco ações ou gestos utilizados nos tradicionais exercícios de qigong. Estão também associados aos estados feudais da China, e têm sido usados por sociedades secretas para mostrar a relação entre seus membros: a cabeça é metal, enquanto a fraternidade é água.
Os cinco elementos exercem um efeito durante o ano inteiro e, com exceção do quinto elemento, terra, possuem um fluxo alto e um baixo como a maré. Madeira, por exemplo, tem sua influência máxima no equinócio da primavera e a mínima no equinócio do outono.
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Yin e yang também se alternam durante o dia, começando às 23h com o primeiro elemento, água, que é yang, seguido à 1h por terra, que é yin, e assim por diante.
Por meio da interação criativa do yin e do yang e da transformação dos elementos um no outro, o universo está em um estado constante de fluxo. Entretanto, a mudança não é ao acaso ou arbitrária, pois faz parte de um padrão geral. No momento da criação, todas as coisas receberam o chi e uma natureza particular por um princípio chamado li. Isto é geralmente traduzido como ordem, mas é uma ordem espontânea e não imposta por uma lei. O filósofo Chu Hsi expressou bem esta interação:
No céu e na Terra existem o li e o chi. Li é o Tao (organizando) todas as coisas de cima, e a raiz do qual todas as coisas foram produzidas. Chi é o instrumento (que compõe) todas as formas de baixo, e as ferramentas e matérias-primas das quais todas as coisas são formadas. Desta forma os homens e todas as outras coisas devem receber este li no momento do seu vir a ser, obtendo assim sua natureza específica; então, devem receber também este chi, e assumir sua forma.7
Os Oito Trigramas
O processo constante de mudança e ordem emergente ocorre dentro de uma estrutura universal que é expressa desde os tempos antigos por oito trigramas (pa kuan). O Grande Comentário do I Ching os descreve:
Está nas Mudanças do Grande Começo Primário. Isto gera as duas forças primárias (yin e yang). As duas forças primárias geram as quatro imagens (yin e yang maiores e menores). As quatro imagens geram os oito trigramas. Os oito trigramas determinam a boa sorte e a má sorte, e ambas criam o grande campo da ação.8
Cada trigrama é formado de três linhas, que podem ser linhas yin interrompidas (—) ou linhas yang contínuas (—). Os trigramas formam a base do I Ching, que tem, pelo menos, cinco mil anos. Embora o Grande Comentário seja tradicionalmente atribuído a Confúcio (571-479 a.C), as partes mais antigas do texto assumiram sua forma atual um século antes dele, e seus alunos sem dúvida adicionaram suas interpretações posteriormente.9 Isto remonta a um tempo antes do primeiro milênio e foi escrito com comentários e apêndices na época da Dinastia Han (206 a.C-220 d.C). Como um grande clássico da cosmologia chinesa, ele apresenta o céu, a Terra e a humanidade em um sistema orgânico espelhando correspondências.
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Diz-se que o trabalho principal veio do lendário Fu Hsi, que é também lembrado por inventar o calendário chinês. Ele viu os oito trigramas desenhados nas costas de um "cavalo dragão'', que emergiu do Rio Amarelo.
Sua configuração é chamada de "Mapa do Rio" (Ho T'u). Entretanto, a inspiração real pode ter vindo dos escudos córneos que revestem a carapaça dorsal das tartarugas que eram usados para prever o futuro e aquecidos para se verificar a forma em que eles se partiam. No Grande Comentário do I Ching está escrito:
Quando no princípio da Antiguidade Pao Hsi (Fu Hsi) governou o mundo, ele olhou para cima e contemplou as imagens nos céus; olhou para baixo e contemplou os padrões na Terra. Ele contemplou as formas dos pássaros e dos animais bravios e as adaptações às regiões. Prosseguiu diretamente a partir de si mesmo e diretamente a partir dos objetos. Assim, ele inventou os oito trigramas para entrar em ligação com as virtudes da luz dos deuses e para regulamentar as condições de todos os seres.10
Isto demonstra claramente a íntima correspondência entre o céu e a Terra no pensamento e na astrologia chineses, expressos no Ocidente pelo aforismo hermético: "Assim como é em cima, é embaixo."
Cada trigrama representa um aspecto essencial da natureza: céu, água, montanha, trovão, vento, fogo, terra e lago. Juntos, são considerados como um modelo simplificado do universo. Servem também para simbolizar os relacionamentos humanos, os órgãos do corpo humano, vários animais, formas, cores e até tipos de comércios.
A primeira ordenação dos oito trigramas foi chamada de "A Primeira Sequência do Céu", com três linhas yang no alto indicando o Sul e três linhas yin embaixo indicando o Norte. Elas representam o ciclo anual do yin e do yang e como eles crescem e decrescem através das estações, do solstício de inverno, quando o yin está no seu máximo, ao solstício de verão, quando o yang está no seu máximo, passando pelos equinócios, quando eles estão equilibrados.
Os trigramas sofreram nova arrumação atribuída a Kin Wen, cerca de 1160 a.C. em "A Sequência Posterior do Céu". Ficou claro que os oito trigramas eram insuficientes para representar as complexidades e sutilezas da vida. Então, pares de trigramas foram colocados juntos para formar hexagramas (kua).
Esgotando todas as configurações possíveis de trigramas, descobriu-se que podiam ser formados 64 hexagramas. Eles espelham o movimento gradual no universo do yin absoluto ao yang absoluto, retornando novamente em um ciclo sem fim.
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O sistema fornece claramente um modelo bem mais refinado tanto do universo quanto das relações humanas. Forma a base do I Ching, que se tornou uma ferramenta para a divinação, pois se achava que os hexagramas continham, de forma codificada, toda a informação a respeito do universo. No início, ele foi utilizado principalmente como um oráculo para se tomar decisões sobre política e guerra, mas hoje é usado primordialmente para responder a perguntas sobre o futuro, a fim de se decidir um curso de ação. É um trabalho consultado por especialistas do feng shui e também por astrólogos.
Para consultar o I Ching era preciso ter prática para lançar as cinquenta varetas de milefólio, de modo a formar o hexagrama relevante. Mas atualmente utiliza-se um método mais fácil jogando-se três moedas por seis vezes para formar as seis linhas do hexagrama. O significado e a interpretação do hexagrama podem então se dar por uma consulta ao I Ching.
Contudo, para conseguir uma resposta significativa, primeiro é necessário formular uma pergunta clara dentro de uma estrutura específica de tempo. É também uma boa idéia tirar da cabeça toda a sua desordem, meditando antes em um ambiente tranqüilo para conseguir ficar totalmente voltado para a pergunta ao lançar as moedas. Para interpretar o I Ching na linguagem atual é bom lembrar que os comentários originais foram escritos no contexto da China feudal. Qualquer interpretação requer imaginação e intuição, como também um pensamento claro e um ambiente calmo.
O I Ching é não somente uma das obras mais antigas da metafísica chinesa, como encerra uma sabedoria profunda. Jung considerou-o corretamente como uma obra "profunda e singular" para os amantes do autoconhecimento.11 Ele ainda é visto no Oriente como um guia para as relações sociais e também como um oráculo. No Ocidente, o dualismo yin e yang impressionou Leibniz, filósofo e matemático do século XVII, que desenvolveu a lógica binária que deu origem à tecnologia do computador.
Encontra também eco na ciência moderna. O sistema de combinar pares de trigramas para formar os 64 hexagramas é similar às configurações do DNA. Sua compreensão dinâmica e fluente da natureza antecipou a mecânica quântica e sua visão do Ser Único inspirou a busca por uma teoria do campo unificado do universo.
4 Observando o Infinito
A Estrada Vermelha circunda o coração do céu. O planisfério de Suchow.
No anoitecer em Pequim, o sol poente ilumina contra a linha do horizonte os anéis das grandes esferas armilares montadas nas ameias de uma torre de vigia, parte das primeiras muralhas da cidade. Conhecido como o Antigo Observatório, data da época de Kublai Khan. O Grande Khan, e posteriormente os Imperadores Ming e Qing, se apoiava fortemente na astrologia antes de tomar qualquer decisão importante. O observatório atual foi construído entre 1437 e 1446, visando as previsões astrológicas e também o traçado de mapas estelares para guiar os navegantes pelos mares.
E não era só em Pequim que os chineses possuíam observatórios. O Jesuíta Matteo Ricci fez o seguinte comentário sobre uma sala elevada dentro das muralhas da cidade em Nanking, em 1600: "Existe um amplo terraço adaptado principalmente para observações astronômicas e rodeado de construções magníficas erigidas há muito tempo. Aqui alguns dos astrônomos vêm a cada noite para fazer suas observações sobre tudo que surge nos céus, sejam fogos meteóricos ou cometas, e registrá-los em detalhes para o imperador."1
O uso de instrumentos astronômicos pelos astrólogos chineses data da Antigüidade. Foram encontrados anéis de jade de 1000 a.C. que eram usados no braço e possibilitavam o seu usuário a se orientar entre as constelações nos céus.2 Os recortes dos bordos externos dos gabaritos circulares de jade marcavam o padrão das estrelas em torno da Estrela Polar.
Um dos artefatos mais surpreendentes que descobri nos jardins do Antigo Observatório em Pequim foi um entalhe em pedra de um eclipse solar datado da Dinastia Han (206 a.C - 220 d.C).
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Ele representa um pássaro encoberto por um sapo — o símbolo interior utilizado para o Sol é um pássaro com três pernas e para a Lua um sapo, ou algumas vezes uma lebre. O Sol e a Lua, como todos os astros nos céus, possuem um significado interior. Assim como acontece com o yin e o yang, cada um encerra em seu interior uma semente essencial ao outro. O Sol e a Lua representam os dois tipos diferentes de alma. O Sol é a alma alegre, volátil conhecida como hun, que é a "alma enevoada", enquanto a Lua simboliza a alma fria, receptiva, p'o, chamada de "alma branca". O astrólogo Chang Kuo, do século VIII, explica:
E a alma enevoada (hun) do Sol e a alma branca (p'o) da Lua são yang e yin — yang e yin são o Sol e a Lua. O Sol é a classe da alma yang e enevoada, e a Lua é a classe da alma yin e branca. Existe uma ave no Sol: é a representação do Quadrante Ocidental, o metal, os pulmões. É da classe yin, e portanto a alma enevoada do Sol abriga a alma branca da Lua — e a alma branca é preenchida pela alma enevoada. Portanto, o Sol é clareado por ela. Existe uma lebre na Lua: é a representação do Quadrante Oriental, a madeira e o fígado. O fígado é da classe da alma enevoada e yang, e portanto a alma branca da Lua abriga a alma enevoada do Sol — e a alma enevoada é preenchida pela alma branca. Portanto, a Lua é iluminada por ela.3
A passagem parece opaca como reflexo do luar sobre a água, mas demonstra as correspondências escondidas que percorrem toda a literatura astrológica chinesa em relação ao céu e à Terra, o macrocosmo e o microcosmo, yin e yang, os cinco elementos, os cinco planetas e os órgãos do corpo.
No Antigo Observatório em Pequim encontrei também um gnômon datado da Dinastia Yuan (1271-1368), trazido do Observatório da Montanha Púrpura em Nanking. Era um instrumento grande, em formato de L, com cerca de seis metros de comprimento e três metros de altura, e media o comprimento da sombra solar projetada ao meio-dia sobre uma tábua de pedra em sua base. O gnômon era usado para determinar os solstícios e equinócios, e a extensão do ano solar (tropical) — dados essenciais para os astrólogos estabelecerem um calendário, fazerem seus cálculos e determinarem as épocas para os rituais. Vários observatórios antigos chineses eram gnômons gigantes por si próprios. Um deles era o Observatório Gao Cheng, próximo a Kaifeng, construído pelo astrônomo Gao Shoufing no século XIII. Com a ajuda de um gnômon gigante, ele calculou com precisão que a Terra leva 365,2425 dias para fazer uma volta completa em torno do Sol.
As esferas armilares foram feitas para estabelecer a posição de corpos celestes, e a palavra armilar vem do latim armilla, que significa bracelete. Esses instrumentos já eram utilizados na época Han, mas foram aperfeiçoados no ano 125 pelo astrônomo ZhangHeng, que também inventou o primeiro sismógrafo para registrar os terremotos.
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Seu engenhoso instrumento girava utilizando a força da água que pingava de uma clepsidra (relógio de água). As esferas eram montadas segundo o que é conhecido como sistema "equatorial" de astronomia, um sistema tradicional chinês que remonta pelo menos a 2400 a.C. O equador celeste é representado pelo círculo horizontal amplo externo em torno do instrumento e o pólo pelo ponto no topo. Na tradição européia inicial, a eclíptica, isto é, o círculo descrito pelo
movimento do Sol no céu contra o fundo das constelações do zodíaco, era de
importância primordial. Foi somente no século XVII que os astrônomos europeus compreenderam que o sistema chinês do equador celeste era mais conveniente.
Adotado pelo astrônomo e astrólogo dinamarquês Tycho Brahe, tornou-se a base da astronomia moderna.4
A principal esfera armilar no Antigo Observatório em Pequim foi construída há mais ou menos quinhentos anos, durante o período Ming. Embora pareça complicada, é comparativamente fácil de ser usada. É dividida em três ninhos de anéis. O ninho mais externo compreende o círculo fixo do horizonte, o círculo equatorial externo e o círculo do meridiano (o grande círculo celeste que passa diretamente sobre nossa cabeça e também através do pólo). O ninho do meio consiste do círculo equatorial, o círculo da eclíptica e dos dois grandes círculos (conhecidos como círculos de coluro), que passam através dos pólos celestes e dos equinócios e solstícios, todos girando em torno do eixo polar. O tubo de visão
e o círculo do ângulo horário estão no ninho interno.
Quando olhamos um corpo celeste através do tubo de visão e lemos as graduações nos anéis, podemos obter coordenadas para fixar sua posição.
Para os antigos chineses, os anéis mais importantes da armilária representam a "Estrada Vermelha" (o equador celeste), a "Estrada Branca" (a órbita lunar) e a "Estrada Amarela" (a eclíptica).
O telescópio moderno, inventado por Galileu no século XVII, tornou as antigas esferas armilares inúteis. Mas será que os chineses teriam um telescópio antes de ele ter sido projetado no Ocidente? A primeira referência em chinês ao telescópio foi encontrada na tradução de 1615 da Explicatio Sphaerae Coelestic (Thien Wên Lüeh), de Emanual Diaz (Yang Ma-No), onde é dito que Galileu o inventou porque "lamentou a limitação de um olho sem instrumentos".5 Robert Temple, autor de The Genius of China e The Crystal Sun> não tem tanta certeza. Quando eu o encontrei em Londres, ele me disse que no museu de Xangai havia visto bronzes antigos da Dinastia Han (entre os dois primeiros séculos a.C. e os dois primeiros séculos d.C.) que tinham adornos tão minuciosos que não poderiam ter sido feitos a olho nu. Parece que os chineses usavam lentes de cristal desde o início. Certamente no texto taoista Huai-Nan Tzu, que data do século II a.C. existe uma
referência a um espelho côncavo para provocar a combustão {fu-sui) em uma discussão sobre a criação do mundo que mostra que os antigos chineses
possuíam um conhecimento avançado de instrumentos ópticos.6
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Cosmologia Chinesa
Com seus instrumentos avançados e observação cuidadosa dos corpos celestes, o que os antigos chineses concluíram sobre as origens, a natureza e a estrutura do cosmo?
Claramente, sua visão do universo tinha implicações importantes para a astrologia e para a sua compreensão das influências celestes sobre a Terra. O relato mais conhecido a respeito das origens do cosmo emerge da tradição taoista, primeiro no Tao Te Ching e depois em mais detalhes no Huai-Nan Tzu.
No início havia o Tao. Embora não possa ser descrito, ele parece um vácuo, e foi seguido pelo caos. Do caos emergiram o yin e o yang, que finalmente fizeram surgir os cinco elementos que produziram a miríade de formas do universo. Acredita-se que "O caminho para o céu deve ser redondo, enquanto o caminho para a Terra deve ser quadrado. O quadrado domina a escuridão, enquanto o redondo domina a luz".7
Esta visão inspirou a mais popular das três principais escolas de cosmologia que evoluíram na China por volta do século II. Conhecida como a Escola do Domo Hemisférico (Kai Thien), ela imaginou os céus sendo redondos como uma bacia voltada para baixo e a Terra quadrada como um tabuleiro de xadrez.8 Mas havia um problema: como os dois eram ligados?
Diziam que os céus eram sustentados por oito pilares, como um pavilhão, sobre a Terra achatada. Mantendo essa visão, a maioria dos antigos palácios e templos da China foi construída como um domo redondo sobre uma base quadrada para imitar o universo.
Este modelo do cosmo parece ter inspirado um jogo astrológico fascinante chamado "xadrez de imagem" (hsiang hsi), inventado por Chou Wu Ti, o
Imperador Chou do Norte (561-578). As peças representam as estrelas. Como
escreveu Wang Pao:
O primeiro [grande significado] do xadrez de imagem é astrológico, pois [entre as peças estão representados] o céu, o Sol, a Lua e as estrelas. O segundo representa a Terra, pois [entre as peças representadas] estão terra, água, fogo, madeira e metal. O terceiro diz respeito ao yin e ao yang; se começarmos por um número par, ele significa yang e o céu; se começarmos por um número ímpar, ele significa yin e a Terra. O quarto representa as estações (...) O quinto diz respeito ao seguimento das permutas e combinações, segundo as mudanças de posição dos corpos celestes e os cinco elementos. O sexto está ligado aos tons musicais,
seguindo a dispersão do chi.9
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Como o modelo do domo não podia explicar todos os fenômenos astronômicos,
ele foi gradualmente substituído pela Escola da Esfera Celeste {Hun Thien). O principal expoente da escola, Zhang Heng, do Período Han Posterior (25-
220), argumentou que os céus são como o ovo de uma galinha e que a Terra
dentro dele é como a gema em seu centro. Era dito que os céus eram sustentados pelo chi (vapor) enquanto a Terra flutuava sobre as águas.
A terceira versão da cosmologia era conhecida como Escola do Espaço Vazio Infinito (Hsüan Yeh). Ela visualizou um espaço vazio infinito no qual os corpos celestes flutuavam livremente. Yang Quan no Período dos Três Reinos (221-265) acreditou ainda mais que as estrelas apareciam espontaneamente na Via Láctea. Embora mais próxima da compreensão atual dos cosmólogos ocidentais, ela permaneceu somente como uma tendência secundária na China.10
As Primeiras Observações Astronômicas
Com suas visões cada vez mais aperfeiçoadas, seus instrumentos sofisticados e sua observação prolongada e cuidadosa, os chineses tornaram se os primeiros grandes astrônomos do mundo, bem como os primeiros astrólogos. Nenhuma outra nação montou registros tão completos e abrangentes dos fenômenos celestes. Eles também fizeram uma lista surpreendente das primeiras descobertas. E como a astronomia e a astrologia não eram consideradas disciplinas separadas, todas tiveram um significado astrológico. Aquilo que ocorria no céu, inevitavelmente, afetava o que acontecia na Terra — e vice-versa.
O registro astronômico mais antigo no mundo foi encontrado na China: um eclipse solar registrado em ossos de oráculo em 1300 a.C. durante a Dinastia Shang. Acreditava-se que em uma remota Era Dourada, quando tudo era paz, não havia eclipses. Seu aparecimento foi, portanto, um sinal de declínio generalizado do mundo. Dizia-se que os eclipses eram causados por um dragão celeste que comia o Sol; então, a primeira palavra para eclipse foi shih, que significa "comer". No século I a.C. foi compreendido que os eclipses solares aconteciam quando uma Lua cheia cobria o Sol — como o entalhe em pedra de um sapo cobrindo o corvo no Antigo Observatório em Pequim ilustra com grande beleza.
Um osso de oráculo do mesmo período da Dinastia Shang registra uma nova estrela aparecendo próximo a Antares na constelação de Escorpião — o registro mais antigo de uma estrela tipo nova no mundo. O aparecimento dessas "estrelas convidadas" era visto como um presságio de grande significado.
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Existe um relato maravilhoso de uma estrela nova interpretado por um astrólogo da corte em 1054: No quinto mês do primeiro ano do período do reinado de Chi-Ho, Yang Wei-Tê (Computador Calendárico Chefe) disse: "Eu me curvo, eu
observei o aparecimento de uma estrela convidada; na estrela havia um pequeno brilho de cor amarela. Respeitosamente, segundo a disposição para os imperadores [a cor imperial era o amarelo], fiz um prognóstico e o resultado foi: “A estrela convidada não infringe Aldebarã [uma das estrelas mais brilhantes]; isto mostra que o Abundante é Senhor e que o País possui o Grande Valor.' Requisito que este prognóstico seja enviado ao Bureau de Historiografia para ser preservado."11
E para nosso prazer e conhecimento ele foi preservado! Os chineses foram os melhores observadores de cometas na história. Fizeram o primeiro registro do cometa de Halley em 613 a.C. Os cometas naquela época eram considerados como mensageiros da destruição: a cauda de um cometa podia varrer o céu, porém essa limpeza também significava morte na Terra. Os primeiros escribas os viam como sinais de perturbação e desarmonia nos céus. Em 1973, em Mawangui de Changsha, na China, os arqueólogos desenterraram o corpo perfeitamente preservado da Sra. Tai e descobriram também um livro de páginas de seda no qual havia um desenho registrando 29 cometas sob formas diferentes. Há 2.200 anos os astrólogos chineses faziam, portanto, observações cuidadosas dos cometas e interpretavam seu significado. No século VII eles estabeleceram o princípio de que a cauda sempre apontava na direção oposta ao Sol, confirmando sua antiga crença de que o espaço era povoado por forças poderosas, talvez até
um verdadeiro "vento solar".12
Na literatura chinesa existe também uma extensa informação a respeito dos meteoros, que eram conhecidos como liu hsingy estrelas "cadentes", ou pên hsing, estrelas "energéticas".13 Eram com frequência considerados mensageiros da guerra. Para conferir a força dos céus, faziam espadas com o ferro meteórico, ambicionadas pelos guerreiros chineses da Dinastia Chou.
Acreditava-se também que os meteoros eram almas que desciam para penetrar em determinados corpos — dizia-se que o grande mestre do taoísmo, Lao-tsé, fora concebido por um meteoro que penetrou no corpo de sua mãe.
Eclipses, cometas, meteoros, o que mais? Os primeiros dados sobre uma
mancha solar encontrados no mundo foram registrados na China em 165 a.C. embora algumas fontes apontem para 28 a.C. Os registros chineses de
observações de manchas solares são certamente os mais antigos e de série
contínua mais longa no mundo. As manchas são muitas vezes chamadas de wu, que significa "corvo" ou "preto".
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O nome foi provavelmente inspirado no antigo mito do corvo de três pernas que habita o Sol. Vi essa figura na bandeira de seda colocada sobre a tumba da Sra. Tai.
As manchas solares foram em princípio observadas através de um cristal de rocha acinzentado ou de um jade semitransparente. Como era sabido que o ciclo de 11 anos das manchas afeta o tempo atmosférico e as colheitas, os antigos astrólogos chineses tinham uma boa razão para acreditar que as mudanças nos céus afetavam a Terra.
O Astrólogo Kan Te, do período dos Reinos Combatentes (480-221 a.C), foi o primeiro a reconhecer que as manchas solares são características na superfície do Sol, visão rejeitada até a invenção do telescópio no Ocidente no século XVII.
Entretanto, a descoberta mais formidável feita pelos astrólogos chineses foi a percepção, por volta do século IV, da precessão dos equinócios, um dos
fenômenos mais complexos dos céus. Foi uma revelação que alterou a visão
da harmonia cósmica, separando o calendário das estrelas fixas.
Tal descoberta foi revelada pela observação de que a "Estrela Imperador" perdia gradualmente seu lugar e brilho como estrela polar da antiga China.
Um ano era definido como o tempo que o Sol levava para completar um ciclo
ao longo da eclíptica (o movimento aparente do Sol contra o céu), começando
e terminando no ponto do solstício de inverno. Por um longo tempo
acreditou-se que a posição era constante. Ao comparar as posições do Sol
sobre a eclíptica, no solstício de inverno, como fora registrado durante o
período dos Reinos Combatentes, com as anotações do período Han Posterior
(25-220 a.C), o astrólogo Yu Xi da Dinastia Chin (265-317) descobriu que
sua posição estava continuamente se desviando para a direção Oeste ao
longo da eclíptica no solstício de inverno. O mesmo se aplicava ao equinócio
da primavera.
Esta precessão dos equinócios é decorrente do ligeiro balanço no eixo da Terra. Graças à influência gravitacional do Sol, da Lua e dos planetas, o eixo da Terra se inclina no formato de um cone em um período de cerca de 26 mil anos. É este movimento precessional que causa o desvio para a direção Oeste dos pontos dos solstícios e equinócios, e altera o pólo celeste no céu. Por isso a Estrela Imperador foi destronada como uma brilhante estrela polar três mil anos atrás, passando atualmente para a posição da estrela mais baixa no retângulo da Ursa Menor. A Estrela Polar é agora a estrela alfa na Ursa Menor; daqui a 13.500 anos, ela será substituída por Vega na constelação de Lira.
O primeiro calendário no mundo a considerar a precessão dos equinócios foi O grande calendário do brilho traçado por Zu Chongzhi da Dinastia Chin. É um testemunho permanente da capacidade dos antigos astrólogos chineses.
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Os Primeiros Catálogos e Mapas Estelares
Com seus instrumentos avançados e observação prolongada dos corpos celestes, não surpreende que os chineses tenham traçado os primeiros mapas estelares no mundo a serem projetados sobre o papel — que também foram os primeiros a inventar.
Os primeiros seres humanos devem ter se sentido oprimidos pela vastidão e esplendor dos céus e fascinados pelos ritmos profundos dos céus noturnos. Não devem ter demorado muito a descobrir os misteriosos, porém sutis, elos entre as estações e os movimentos dos corpos celestes e que as mudanças periódicas no tempo eram causadas pela jornada que o Sol e a Lua realizavam durante o ano.
Foi estabelecida a ligação entre o ritmo da menstruação e o ciclo da Lua. E foi até observado que os moluscos, ouriços do mar e outros animais marinhos engordavam e definhavam em resposta às fases da Lua.
Desde cedo os astrólogos chineses notaram que o grupo familiar de estrelas conhecido como o Arado ou Grande Mergulhador (parte da Ursa Maior) mudava de lugar após o pôr-do-sol juntamente com a mudança das estações. Durante o período dos Reinos Combatentes, cerca de 400 a.C. foi escrito: "Quando a alça do Mergulhador Boreal (como era conhecido na China) apontava para o Leste, era primavera; quando apontava para o Sul, verão; quando apontava para o Oeste, era outono; e quando apontava para o Norte, inverno."
Os chineses se orientavam pela Estrela Polar e pela bússola que eles inventaram há mais de 2.500 anos. No Antigo Observatório em Pequim comprei uma réplica exata da primeira bússola conhecida no mundo, que consiste de uma colher feita de estrela-guia sobre um quadrado de bronze. O cabo da colher aponta para o Sul (os mapas chineses são orientados para o Sul), enquanto a concha é voltada para o norte magnético. Os símbolos dos pontos cardeais da bússola são os mesmos do I Ching e foram idealizados em torno de 1400 a.C: o Norte é representado pelo Guerreiro Escuro (um ser fabuloso, parte tartaruga, parte serpente) e o Sul pelo Pássaro Vermelho. O Dragão Verde simboliza o Leste e o Tigre Branco o Oeste. Os mesmos símbolos foram aplicados às quatro direções das regiões nos céus e também na Terra.
Os primeiros mapas estelares chineses, conhecidos como gaitu, surgiram
durante o período dos Reinos Combatentes, quando Kan Te (Gan De) e seus
contemporâneos Shih Shen (Shi Shen-fu) e Wu Hsien (Wu Xian) criaram os
seus próprios mapas para montar um calendário e fazer cálculos astrológicos. Projetados sobre uma superfície plana, eles lembram os modernos planisférios. Kan Te e seu grupo de astrólogos foram responsáveis por notar as correlações entre os elementos e os planetas, os chamados "brotos celestes" e "ramos terrenos", as "mansões lunares" e os períodos quinzenais que eram
importantes na principal escola astrológica conhecida como "Quatro Pilares
do Destino".14
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O primeiro catálogo estelar foi montado por Shih Shen em 350 a.C. Posteriormente, no período dos Três Reinos, Chen Zhuo, cerca de 230-320,
combinou três mapas estelares para formar um novo catálogo estelar
compreendendo 283 asterismos e 1.464 estrelas.
Um dos planisférios chineses mais famosos, preparado em 1193, foi gravado em pedra em 1247 num templo confuciano em Suchow (Suzhou). Oferece uma exposição maravilhosamente resumida, talvez críptica, do sistema astrológico e
astronômico chinês.
Diferente dos antigos babilônios, egípcios e gregos que focalizavam o nascer e o morrer heliacais das estrelas (i.e., seu nascer e morrer em relação ao sol), os chineses concentravam sua atenção nas constelações circumpolares que percorriam um caminho em torno da Estrela Polar com visão total durante as horas de escuridão. O círculo mais interno do mapa estelar de Suchow é portanto um círculo de estrelas circumpolares, dentro do qual as estrelas nunca se põem. O círculo mais externo é o que os astrônomos chamam de círculo da "ocultação perpétua", isto é, o limite além do qual as estrelas nunca são vistas nascendo acima do horizonte. O círculo mediano é o equador celeste. As linhas irradiam do círculo central, indicando as divisões das 28 "mansões lunares" (hsiu). Elas são separadas por círculos horários em segmentos horários, lembrando uma laranja.
O texto descreve a esfera celeste, com suas estradas "vermelha" e "amarela" (o equador celeste e a eclíptica): "A Estrada Vermelha circunda o coração do Céu, e é utilizada para registrar os graus das 28 hsiu."15
A parte planetária é astrológica, e o texto termina com a correlação entre as regiões no céu e as cidades e províncias chinesas que eles achavam que eram
afetadas pelos fenômenos celestes ocorridos dentro dessas regiões. Com esta compreensão fenomenal dos céus, como os chineses aplicavam o seu conhecimento astronômico às suas interpretações astrológicas? Como entendiam que os três grandes poderes do universo — céu, Terra e humanidade — interagiam? Para responder a estas perguntas, precisamos mergulhar mais fundo na história e na literatura astrológica da antigaChina.
5 Assim como É em Cima, É Embaixo
A Grande Branca (Vênus) conversará comigo, Ela abrirá a Barreira do Céu para
mim. Li Po
No museu de historia chinesa, no quarteirão Tianamen em Pequim, encontra-se
uma bandeira de seda pintada que foi achada sobre o caixão da Sra. Tai. Ela morreu por volta de 186 a.C. mas o seu corpo, perfeitamente conservado, só foi descoberto em 1972.
O pavilhão em forma de T apresenta um mapa de fenômenos celestes. É dividido em três níveis: o céu dos imortais no alto, o mundo terreno no meio e o submundo embaixo. O Sol com seu corvo de três pernas está no alto à direita e à esquerda está a Lua com seus sapo e coelho, representando as forças cósmicas do yin e yang. Logo abaixo deles vem um grande dragão, transportando Chang O com seu elixir para o Palácio da Lua e a árvore Fu-Sang com seus dez sóis. No centro está Fu Hsi, o deus organizador, com sua cauda de serpente que se diz ter descoberto os trigramas do I Ching e introduzido o primeiro calendário.
Nos portões do céu estão dois guardiões imortais. Mais para baixo a Sra. Tai, recostada em um galho e servida por três criadas, discursa com dois mensageiros imortais. No submundo, criaturas estranhas, todas as formas de Thu Po, o Senhor da Terra, guerreiam contra as forças do mal.1 A Sra. Tai é claramente destinada a se tornar um ser imortal nos céus, destino que todos os chineses taoistas esperam atingir. Na verdade, os taoistas vêem as estrelas como almas dos seres imortais. Acreditam também que existe uma passagem cerimonial chamada Ch'ang-ho, por onde os seres humanos iluminados entram.
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Mas qual a natureza exata da relação entre o céu e a Terra no esquema
chinês das coisas?
Em toda a sua história, os chineses acreditaram que a Terra espelhava os céus e que existia uma correspondência direta entre o macrocosmo do universo e o microcosmo do indivíduo. Na verdade, os seres humanos eram considerados como o universo em miniatura, com os diferentes órgãos do corpo associados a diferentes corpos celestes.
A palavra chinesa que descreve a relação entre o céu e a Terra é hsiang, que tem o sentido de uma imagempintada.2 Os eventos celestes eram, portanto, vistos como uma "contraparte" ou "simulacro" dos eventos terrestres. Os dois reinos eram intimamente harmonizados; na verdade, já que o universo era visto como um todo dinâmico e orgânico, um evento em um lugar ressoaria em outro em algum lugar. E o processo funcionava em duas vias: eventos no céu não apenas
influenciavam os da Terra, como acontecimentos terrenos ressoavam nos céus. Era tarefa do astrólogo determinar a exata repercussão disso no destino das nações e dos indivíduos.
A astronomia na China era sempre praticada para definir a ordem temporal. Os assuntos na Terra deveriam espelhar a harmonia no céu. Solstícios e equinócios eram, portanto, momentos-chave em cada ano e marcavam a época de cerimônias e rituais importantes. Para assegurar a ordem cósmica, era crucial que aquilo que acontecesse na Terra estivesse em harmonia com o que ocorrera no céu. Como observou Su Song em 1092:
"Aqueles que fazem observações astronômicas com instrumentos não somente
estão organizando um calendário correto para que possa ser realizado um bom governo, como também [em certo sentido] prevendo a boa e má sorte [do país] e estudando [as razões] para os ganhos e perdas resultantes."3
Para acompanhar a íntima correspondência entre o céu e a Terra, os antigos chineses projetaram a hierarquia da sua sociedade feudal no céu. Um Imperador de Jade nos céus espelhava o Imperador da China, que era chamado de Filho dos Céus.
Dando Nome aos Céus
O céu era dividido em quatro grandes recintos, algumas vezes chamados de palácios, nomeados segundo os animais simbólicos que presidiam as direções cardeais: Dragão Verde no Leste, Guerreiro Negro no Norte, Tigre Branco no Oeste e Pássaro Vermelho no Sul. O céu era então subdividido em três grupos de divisões menores, um de nove, um de 12 e um de 28 divisões. Todos estes números eram significativos na numerologia sagrada da astrologia chinesa.
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O astrólogo Wang Xi-ming, da Dinastia T'ang, finalmente dividiu o céu em 31 regiões chamadas Três Recintos e 28 Mansões. Os Três Recintos eram chamados de Recinto Proibido Púrpura, Recinto do Palácio Supremo e Recinto do Mercado Celeste.
O Recinto Proibido Púrpura era um quadrado que cobria a região das
constelações circumpolares. A Estrela Polar era chamada de Estrela do Imperador; há três mil anos ela era a estrela beta da Ursa Menor, embora seja agora insignificante por causa da precessão dos equinócios. As estrelas do Recinto Proibido Púrpura representavam os membros da casa imperial, como a imperatriz, o príncipe coroado e as concubinas, enquanto as do Recinto do Palácio Supremo representavam os nobres e oficiais sêniores do governo.
Assim como a Estrela Polar era conhecida como Estrela do Imperador, as outras estrelas eram consideradas como símbolos dos oficiais sêniores da corte. A estrela Thian-Yang Shou, por exemplo, era associada ao comandante em- chefe e se acreditava que governava a prontidão do país para resistir a um ataque, bem como a preparação dos armamentos. Segundo o texto astrológico Chin Sim, do século VII: "As duas estrelas de Hsu (Vazio, a 11ª mansão lunar) denotam os oficiais responsáveis pela adoração dos ancestrais.
Elas governam as cidades e os templos do Norte e todos os assuntos que pertencem ao ritual e à oração. Governam também a morte e a lamentação."4
O Recinto do Mercado Celeste era como uma cidade de pessoas; não somente continha estrelas que representavam os pauzinhos para comer, como também lavatórios e até fezes. Os céus refletiam toda a gama de vida na Terra, do mais humilde ao mais elevado.
As divisões numéricas dos céus eram parte da antiga numerologia sagrada chinesa. Vinte e oito é um número-chave: os chineses observaram 28 mansões lunares em torno da eclíptica (diferente das 12 no Oriente Médio e no Ocidente) e o equador celeste era dividido em 28 mansões. Dividiram também as estrelas visíveis dos céus em 28 zonas ou constelações, com sete estrelas em cada uma das quatro direções (Norte, Sul, Leste e Oeste). Todas as zonas estelares eram regidas por deidades de igual número: as 28 constelações possuíam 28 deidades.
Na antiga astrologia chinesa, cada estrela no céu era regida por uma
deidade que também exercia alguma influência na vida das pessoas sob a sua direção. Acreditava-se que o deus do Arado, por exemplo, controlava a morte dos seres humanos, e aqueles que oravam a ele poderiam prolongar suas vidas. Também se supunha que a estrela do Pólo Sul — o Imperador da Longevidade do Pólo Sul — determinava a duração da vida de uma pessoa.
Ele era um dos quatro Guardas Imperiais que cumpria as ordens do
Imperador de Jade no céu.
Acreditavam que algumas estrelas davam mais sorte que outras, especialmente as amarelas. A mais celebrada de todas as estrelas amarelas propícias era uma das fixas, Canopo, que não é muito conhecida no Hemisfério Norte, pois não é visível acima de 37° de latitude.
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A segunda estrela mais brilhante no céu, deixando o primeiro lugar somente para Sirius, que é quase no extremo norte, Canopo
era chamada de "Estrela do Velho Homem" e algumas vezes "Estrela da Longevidade".5
O Conhecimento das Estrelas e os Adeptos Taoistas
Existem várias histórias de mensageiros das estrelas na astrologia chinesa e no folclore taoista. Um sinal da chegada deles à Terra era a visão de uma estrela flutuante entrando no Mergulhador Austral. Uma história do período Sung menciona quatro indivíduos misteriosos que apareceram em uma loja de vinhos em Szechwan. Após consumirem grandes quantidades da melhor bebida local, começaram a conversar calorosamente com o alquimista do século VII, Sun Ssu-Mo. Um magistrado local tentou descobrir quem eram, mas eles desapareceram de repente, deixando uma pequena pilha de cinzas.
Quando o príncipe da região perguntou ao erudito alquimista a respeito do incidente, este respondeu: "Eram Transcendentes da Grande Branca (Vênus) e do Asterismo do Vinho."6 Dizia-se também que o poeta Li Po era um espírito das estrelas, produto de um caso de amor malfadado entre Vênus e a Lua. Ele descreveu sua jornada para as estrelas em termos de um retorno ao lar:
A Grande Branca conversará comigo;
Ela abrirá a Barreira do Céu para mim.
Então eu deverei cavalgar o vento frio,
Direto entre as nuvens flutuantes,
E elevando a minha mão eu poderei me aproximar da Lua.7
As estrelas visitantes femininas eram muitas vezes chamadas de Mulheres de Jade e tinham um papel importante nos cultos Taoistas das estrelas, nos quais apareciam como guias e protetoras divinas. As Mulheres de Jade da Estrela Luminosa aguardavam os adeptos habilitados no Monte Hua, o apoio ocidental sagrado do céu, oferecendo xícaras de um "líquido pálido" (o elixir supremo dos alquimistas), que proporcionava vida eterna. Poderiam também
se envolver diretamente com os seres humanos. Uma lenda diz que a "Mulher de Jade dos Milagres Ocultos" sonhou que fora visitada por uma "estrela com cauda" (um meteoro?), que ela engoliu. Oitenta e um anos depois se diz que ela deu à luz ao maior dos filósofos Taoistas, Lao-tsé.8
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Algumas Mulheres de Jade eram especialistas no saber astral, como as "Mulheres de Jade do Hua Ocidental" que estão nas "Metrópoles Transcendentais" onde recebem títulos assombrosos como
"Cânones das Mercadorias do Céu e Criptas da Lua" e "Tiras de Seda Brancados Dragões Voadores".9
Essas figuras semelhantes a fadas são tão frágeis como flocos de neve, congelamentos do sopro cósmico, embora claras e luminosas como o jade brilhante. Mas como era possível identificá-las? Fácil. Elas se distinguiam dos mensageiros fantasmas por um pedaço de jade amarelo do tamanho de um grão de painço colocado sobre seus narizes!
Desde a época Han, os adeptos do taoísmo viviam em monastérios em montanhas sagradas onde podiam retirar energia das estrelas. O nome original para monastérios era kuan, cuja melhor tradução seria "local de observação" ou "observatórios". Eram muitas vezes visitados por leigos atrás de sabedoria e também por imortais que desciam do céu. O poeta do século X, Li Cung, que viveu no estado de T'ang Sul descreve assim uma visita:
Vim por prazer ao Convento dos Transcendentes - chamado por Hsi-i;
Nuvens cobriam o altar das estrelas — a água encheu o lago. Os "visitantes emplumados" não sabiam para onde ele tinha ido. Era a estação em que, de uma só vez, as flores caem em abundância diante da gruta.10
Dentro das montanhas sagradas há cavernas do céu. No extremo oeste da China existe uma montanha que é um local de iniciação, iluminação e renascimento, onde se diz que Huang Ti recebeu instruções sobre a natureza da realidade.
A natureza da adoração taoista de uma estrela e planeta é vividamente ilustrada em uma invocação à Estrela do Ano (Júpiter) em torno de 900 d.C. Escolhendo o dia cíclico certo na primavera, o celebrante primeiro "purifica seu coração" na meditação, depois fixa o olhar no planeta e declara: "Desejo que a estrela luminosa no quadrante oriental apóie minha alma-nuvem, una-se com minha alma-branca e torne minha longevidade como a dos pinheiros e ciprestes — uma vida estendida por mil outonos, uma miríade de
anos."11
Vários adeptos Taoistas voavam além deste mundo, como antigos xamãs em suas viagens da alma — às vezes com suas próprias asas desabrochadas; vez por outra com um chapéu de uma "estrela errante distante" e "sapatos de nuvem voadora"; e algumas vezes numa balsa estelar para atravessar um portal para o reino dos imortais. O filósofo taoísta Chuang Tzu conta a história de um sábio no Monte Ku Shê que se alimentava de vento e orvalho e que montou em um dragão e salvou pessoas da fome e da doença. Existe
uma pintura maravilhosa em seda do período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.) com uma figura humana montada em um dragão no espaço interestelar.
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Esses adeptos também eram capazes de retirar energia das estrelas
andando e dançando entre estrelas simbólicas traçadas no chão. Um
surgimento repentino de energia sobrenatural era a recompensa do iniciado que conseguisse dançar no "ritmo de Yü", algumas vezes chamado de "passo do xamã". Diz-se que a mãe do grande Yü o concebeu após ter visto uma estrela cadente na constelação de Orion.
Ouve-se que os Grandes Homens Perfeitos Supremos (Vai shang chen jen), a classe mais enaltecida de superseres taoístas, podem convocar a alta deidade polar Grande Mônada (T'ai i) "caminhando na
estrada das Nove Estrelas". O adepto avançado pode também escolher completar um circuito dos Cinco Planetas pulando ao longo da eclíptica. Foram até traçadas linhas de orientação para a navegação nos céus.
Existe um relato extraordinário dos taoístas que podiam ler mensagens na cor das estrelas sem mesmo olhar para o céu noturno. Sentado em um local escuro e pressionando os globos oculares, o adepto podia ver os poderosos asterismos como pontos de luz colorida. Destacada entre eles estava a Estrela Estabilizadora, que sustentava o Mergulhador Boreal. Se o seu brilho fosse vermelho, significava virtude; amarelo, alegria; branco, homens armados; azul,
aflição; preto, malignidade. Essas estrelas internas eram chamadas de "luzes do espírito" (shen kuang).12
Estas histórias mágicas de proezas sobrenaturais dos antigos astrólogos chineses e dos taoístas são notadamente semelhantes às descrições ocidentais da projeção astral, nas quais pessoas dizem deixar seus corpos e viajar no espaço. A experiência da viagem estelar pode ter ocorrido durante longos períodos de meditação e jejum, ou sob a influência de elixires poderosos e
cogumelos mágicos. Independente disto, muitos chineses continuam a acreditar na possibilidade de retirar energia das estrelas. Até templos, como eu descobriria em Beijing, tinham esta finalidade.
6 O Templo do Céu
O astrólogo prediz quais serão os efeitos dos fenômenos celestes sobre o homem; o sábio prediz quais serão os efeitos das ações do homem nos céus. YAN HSIUNG
O primeiro dever do Imperador chinês era realizar os ritos principais do ano de acordo com o calendário astrológico. Isto asseguraria boas colheitas nas quais se baseava toda a civilização chinesa. Durante a
Dinastia Ming eles foram realizados no Templo do Céu, no Parque
Tiantan, no centro da moderna Pequim. É um local extraordinário, projetado de acordo com a geometria, numerologia e acústica sagradas, e decorado com símbolos astrológicos.
O Templo do Céu (Tiantan) está situado em 267 hectares de terras bem cuidadas com fileiras de árvores retas, com quatro portões dispostos nas quatro direções da bússola. Consiste de três templos que representam o casamento do céu com a Terra: vistos de cima, os templos são redondos sobre bases quadradas, simbolizando a antiga crença de que o céu era redondo e a Terra, quadrada.
No Sul está o Altar Redondo, uma magnífica construção circular de mármore branco de três níveis que fica a cinco metros de altura em um grande cercado quadrado. Os níveis representam os três grandes poderes no universo: o céu, a Terra e a humanidade. Foi primeiramente construído em 1530, demonstrando a fascinação dos chineses pelos números sagrados e pela relação harmoniosa entre o céu e a Terra. Seus três níveis giram em torno do sagrado número 9. Números ímpares são yang, e portanto celestes, e o maior número ímpar de um dígito é o 9. O nível de cima, que representa o céu, possui nove anéis de pedras.
Cada anel é composto de múltiplos de nove pedras, de modo que o nono possui 81 pedras.
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O nível O do meio — a Terra — possui os anéis de dez a 18, e o nível inferior — a humanidade — os anéis de 19 a 27, perfazendo um total de 243 pedras no anel maior, ou 27 x 9. Se você ficar no centro do terraço superior e emitir um som, as ondas atingem as balaustradas de mármore, fazendo sua voz soar mais alta.
Diretamente na direção Norte do Altar Redondo, circundado por uma
parede redonda, está um templo octogonal chamado de Abóbada Imperial do Céu. A mestria dos engenheiros de acústica foi tão grande que no pátio encontram-se as pedras do Eco Triplo: se você ficar de pé sobre a primeira e bater palmas, o som ecoa uma vez; na segunda, ele ecoa duas vezes, e na terceira, três vezes. O templo costumava conter as tábuas do Deus do Céu que os ancestrais do imperador empregavam na cerimônia do solstício de inverno, quando as preces eram oferecidas no altar do "Grande Espírito que reside no Céu". O fato de ser realizada no dia do solstício de inverno, o dia mais curto e o ponto de virada do ano, mostra como o calendário astrológico era importante na vida da nação chinesa.
Caminhei diretamente na direção Norte do templo, ao longo de um
impressionante caminho de mármore — alinhado com perfeição segundo a minha bússola no eixo Norte-Sul — até uma obra de arte da arquitetura Ming e uma das maiores construções astrológicas. Ela é chamada de Salão da Oração para as Boas Colheitas. Erigida a princípio em 1420 em um terraço de mármore com três níveis, foi reconstruída como uma reprodução exata após um incêndio desastroso em 1889. Embora tenha 38 metros de altura e 24 metros de diâmetro, não foram usados pregos para manter a estrutura de madeira. Como os outros dois templos no Parque Tiantan, é uma construção circular sobre uma base quadrada, unindo céu e Terra.
No centro do teto do salão vemos o baixo-relevo de uma fênix dançando com um dragão torcido, os dois grandes símbolos do yin e do yang. Como tal, o salão é astrologicamente uma construção muito auspiciosa, um local perfeito para orar por boas colheitas e para assegurar o bem-estar do povo chinês.
O salão é um magnífico símbolo arquitetônico dos Quatro Pilares do
Destino: o ano, mês, dia e hora do nascimento de uma pessoa. Os quatro imensos pilares de madeira no centro do salão simbolizam as estações do ano; os 12 no próximo anel, os meses do ano; e os 12 externos representam a hora do dia que forma par com os 12 "observadores". Os três anéis de 12 também representam as 36 constelações principais.
Como demonstra belamente o Templo do Céu, a astrologia mais antiga da China estava mais preocupada com o destino coletivo do império do que com o destino dos indivíduos. Era utilizada para fazer prognósticos sobre os assuntos do império, a ocorrência de guerra e as perspectivas da colheita.
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O famoso Shi Chi (Registro Histórico) de Ssuma Chien, escrito no século I a.C. e sem dúvida contendo um conhecimento muito anterior, registrou as seguintes previsões astrológicas:
"Se a Lua for eclipsada próximo a Ta-Chio (Arcturo), isto trará
conseqü.ncias funestas ao Dispensador dos Destinos (o Regente)."
Por outro lado: "Quando Mercúrio aparecer em companhia de Vênus no Leste, quando ambos estiverem vermelhos e emitirem raios, então os reinos estrangeiros serão conquistados e os soldados da China serão vitoriosos."1
Em uma forma invertida de astrologia, os confucianos Han desenvolveram a crença de que qualquer lapso moral na Terra causaria também perturbações no céu. Se a fala do imperador não fosse racional, os metais não seriam maleáveis, podendo ocorrer tempestades terríveis. Até irregularidades dos oficiais locais poderiam perturbar os movimentos dos planetas. A dependência mútua entre céu e Terra está bem clara em uma passagem de Yang Hsiung do século V:
Alguém perguntou se um sábio poderia fazer uma divinação. [Yang
Hsiung] respondeu que um sábio certamente faria a divinação sobre o Céu e a Terra. Se assim é, continuou o questionador, qual a diferença entre o sábio e o astrólogo?
[Yang Hsiung] respondeu: "O astrólogo prevê quais os efeitos que
os fenômenos celestes terão sobre o homem; o sábio prevê quais serão os efeitos das ações do homem nos céus."2
Novamente, o elo causai não é mecânico, mas um caso de ressonância difusa. Qualquer má conduta perturbará a harmonia do cosmo, o que causará conseqü.ncias no céu bem como na Terra.
O Filho do Céu
A astrologia chinesa era portanto parte integrante da religião do Estado. Como "Filho do Céu", o imperador era considerado uma figura cósmica, o equivalente da Estrela Polar na Terra e principal canal para o influxo de energia celeste vinda de cima. Os ditames desta religião astrológica afetavam até a vida sexual dele. Para a saúde do império e do imperador, era importante que as forças yin e yang estivessem equilibradas para manter as harmonias celeste e terrestre. O primeiro propósito das classes mais baixas de concubinas seria alimentar a poderosa força yang do imperador com o seu yin. No ciclo mensal, as concubinas mais comuns acompanhariam o imperador na época da Lua Nova. Quando a Lua crescia, a quantidade de concubinas diminuía, mas sua classe subiria.
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Mulheres da classe mais elevada deveriam se aproximar do imperador no período mais próximo à Lua Cheia, quando a influência yin estaria no seu auge. Pai Hsieng-Chien observou no século IX: "Nove concubinas comuns [dormiam com o imperador] a cada noite, e a imperatriz por duas noites na época da Lua Cheia — essa era a regra antiga (...) Mas, oh, atualmente todas as três mil [mulheres do palácio] competem em confusão..."3
Uma das tarefas mais importantes do astrólogo era registrar a posição dos corpos celestes na época de cada consumação, de modo que, se a união produzisse um filho, o momento exato da concepção seria conhecido.
Acreditava-se que crianças concebidas próximo à Lua Cheia teriam as mais altas virtudes. Mais para o fim do reinado de um imperador, a natureza dos asterismos que teriam culminado no momento da concepção de um príncipe seriam levados em consideração na escolha final de um sucessor.
Como se acreditava que a influência dos corpos celestes sobre a vida dos seres humanos e os assuntos de Estado se interpenetravam, o
conhecimento das estrelas na China feudal tornou-se um segredo
cuidadosamente guardado. Possuir mapas das estrelas e controlar os dados revelados pelas esferas armilares equivalia, portanto, a controlar um grande poder oculto. No período T'ang (618-907), o equivalente chinês ao astrônomo real era chamado de "O Quadro da Galeria da Escrita Secreta" e os membros do quadro imperial eram informalmente conhecidos como "oficiais da estrela". Sua tarefa era observar os movimentos dos céus para descobrir presságios felizes e predizer desastres. Este último consistia de todo um campo de estudo chamado de fen yeh, traduzido como "geografia desastrosa".4 A principal responsabilidade dos astrólogos-astrônomos da corte era a compilação de um almanaque que era promulgado pelo próprio imperador, o Filho do Céu.
Estas práticas ainda aconteciam no século XVII. Nicolas Trigault observou, desaprovando, durante as suas viagens à China:
Eles possuem também algum Conhecimento de Astrologia e
Matemática (...) Consideram quatrocentas Estrelas a mais do que os nossos Astrólogos mencionam, numerando certas menores que nem sempre aparecem. Dos Aparecimentos celestes, eles não têm regra: estão mais ocupados em prever Eclipses e os cursos dos Planetas, porém nesse particular muito errados; e toda a sua Habilidade com as Estrelas é de tal maneira que chamamos de Astrologia Judicial, pois imaginam que estas coisas embaixo dependem das Estrelas.5
Os horóscopos individuais só se tornaram realmente populares no século XI, embora o grande cético Wang Chhung já tivesse reconhecido, no século I, que influências emanavam das estrelas sobre o destino dos indivíduos.
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Para ele, o destino humano não era um decreto inexorável do céu, visto que dependia de três fatores: da essência espiritual (ching shen) de cada indivíduo, das influências específicas que
emanavam das estrelas e dos efeitos do acaso. Ele acreditava que as estrelas faziam parte das influências mais importantes que recaíam sobre os seres humanos durante a sua formação.
Quanto à transmissão de riqueza e honrarias, isto depende do chi que a natureza obtém; ela recebe uma essência (ching) que emana das estrelas.
Seus anfitriões estão no céu, e o céu possui os seus sinais. Se um homem recebe [no seu nascimento?] um sinal celeste que implica riqueza e honrarias, ele obterá riqueza e honrarias. Se recebe [no seu nascimento] um sinal celeste que implica pobreza e miséria, ele será pobre e miserável.
Por isso é dito que [todas as disposições dependem] do céu. Mas como isso ocorre? O céu tem suas centenas de oficiais e suas multidões de estrelas. O céu envia o seu chi, e as estrelas enviam suas essências, e as essências estão no centro do chi. Os homens absorvem este chi e nascem. Enquanto desfrutarem dele, eles crescem.6
O primeiro livro conhecido a considerar os horóscopos das pessoas foi o Yü Chão Shen Ying Chen Ching (O manual verdadeiro das determinações dos brilhantes de Jade), atribuído a Kuo Pho do século III. O interesse nesta área se desenvolveu rapidamente. Em 732, durante a Dinastia T'ang, surgiu a volumosa enciclopédia Hsing Tsung (A companhia das estrelas) de Chang Kuo.
Ainda havia importantes trabalhos astrológicos sendo produzidos no fim da Dinastia Ming, e em 1739 foi publicado um compêndio astrológico. Estes trabalhos aperfeiçoaram os princípios fundamentais dos Quatro Pilares do Destino (Ssu Chu), que fora estabelecido por Kan Te e seu grupo de astrólogos no período dos Reinos Combatentes. Porém, eu fui apresentado ao método mais popular de astrologia na China sob uma forma adulterada pelo adivinho do templo em Hong Kong. Estamos agora em uma posição melhor para voltar ao assunto, com uma compreensão maior sobre sua origem e importância.





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