domingo, 14 de agosto de 2011

Astrologia na Grécia, em Roma e no Islã por Peter Marshall

Astrologia no Mundo
de Peter Marshall
Tradução Angela Machado

Quarta Parte. Astrologia na Grécia, em Roma e no Islã.


23 A Harmonia das Esferas

Quando Orion e Sirius tiverem atingido o meio do céu, e Arcturus surgir com o Amanhecer, então, 6 Persas, colham tuas uvas. Hesíodo

Vários dos primeiros estudiosos europeus glorificaram os gregos como  racionalistas frios, esquecendo-se da sua profunda dívida com a Mesopotâmia e o Egito e os mistérios órficos. Típico desta atitude foi F. Cumont que declarou que:

"Devemos à sua eterna honra que, em meio a este emaranhado de observações precisas e ilusões supersticiosas que formaram a tradição sacerdotal do Leste, eles [os gregos] descobriram e utilizaram os elementos sérios enquanto negligenciaram o supérfluo."1 

Na verdade, na visão tradicional, a adoção pelos gregos da prática oriental da astrologia no século III a.C. foi vista como sintomática do seu declínio da grandeza da Era Dourada.2 Realmente, existem fortes evidências que sugerem que a Grécia clássica dos séculos V e IV a.C. conhecia e apreciava a astrologia praticada no Oriente Próximo e no Norte da África. Em The Origin of the Zodiac, Gleadow argumenta persuasivamente que: "A astrologia, como uma técnica eficaz, chegou à Grécia na segunda metade do século IV a.C."3

Desde os seus primeiros contatos com os egípcios, os gregos ficaram
profundamente impressionados com sua civilização. Clemente de Alexandria afirmou que os filósofos gregos adotaram muita coisa do Egito, e que Homero, Tales, Pitágoras e Platão foram instruídos nos templos egípcios.

Por volta do século V a.C. a antiga crença egípcia de que a alma dos mortos se conectava com as estrelas estava bem estabelecida na Grécia.4 A influência da Mesopotâmia havia atingido a Grécia ainda antes disto. A obra Theogony, do poeta Hesíodo, que data do século VIII a.C. contém versões gregas dos mitos babilônicos, e os gregos começaram a traduzir os nomes babilônicos das estrelas já no século VI a.C.

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Após as invasões da Grécia pelos persas, no primeiro quarto
do século V, os contatos culturais entre os dois povos continuaram, filtrando as idéias indianas, babilônicas e egípcias. Em um fragmento de uma história da Pérsia, que data do fim do século V a.C. Ctesias expressa sua admiração pela precisão surpreendente com a qual um sacerdote "caldeu", especialista em "astrologia e divinação", podia prever o futuro.5

Estas novas influências caíram em solo fértil. Os gregos há muito estavam interessados em presságios derivados de eventos celestes; seu primeiro grande escritor, Homero, cerca de 800 a.C. forneceu vários exemplos em sua Odisséia Ilíada. Ele menciona as constelações das Plêiades, as Híades e Orion que marcam o surgimento do inverno. Os primeiros gregos também mostraram grande interesse no movimento dos corpos celestes como indicadores de mudanças na Terra.

Em seu Trabalhos e dias, escrito antes de 750 a.C. Hesíodo descreveu o "céu estrelado" (ouranos) como o "lar sempre seguro dos deuses". Ele destacou os dias que eram mais auspiciosos para as diferentes atividades agrícolas, definindo-os pelo nascer e ocaso de determinadas estrelas. A poda, por exemplo, deveria começar no início da primavera, "quando se passaram sessenta dias do inverno após o solstício, e então Arcturus deixa a corrente sagrada do Oceano [a Via Láctea], o primeiro a brilhar no crepúsculo".6

E a época para a colheita? "Quando Orion e Sirius tiverem atingido o meio do céu, e Arcturus surgir com o amanhecer, então, ó persas, colham tuas uvas e levem-nas para casa."7 Com o mesmo espírito, ele também sugeriu que existiam momentos certos para importantes atividades sociais, como se casar.

Os Filósofos Gregos

Várias crenças astrológicas ocidentais, especialmente a respeito da natureza do cosmo, podem ser investigadas até chegar aos filósofos gregos. No passado houve uma opinião eurocêntrica preconcebida de que a astrologia ocidental tinha se originado na Grécia. Na verdade, o historiador de ciência O. Neugebauer afirmou que "a principal estrutura da teoria astrológica é sem dúvida helênica", enquanto o estudioso clássico Jim Tester declarou que a astrologia era "uma criação bem recente e principalmente grega".8 Contudo, os próprios gregos agradeceram pelas fontes de informação anteriores da Ásia Menor, Oriente Médio e Norte da África.

Diz-se que Tales de Mileto, cerca de 630-546 a.C. tido como o primeiro filósofo da história ocidental, caiu em um poço enquanto passeava e ficou observando as estrelas.

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Ele foi resgatado, assim conta a história, por uma bela serva. Entretanto, ele é geralmente lembrado como o fundador da escola jônica de filosofia (baseada em Mileto, na costa do Mar Egeu da atual Turquia) e pai da astronomia grega. Como materialista, Tales rejeitou a mitologia tão querida por Homero como fonte de conhecimento, e insistiu na observação cuidadosa dos fenômenos naturais. Concluiu que não somente o conteúdo do poço em que caíra, como também tudo no universo era feito de água. Aplicando seu conhecimento astrológico, diz-se que previu um eclipse, provavelmente em 585 a.C. o que evitou uma guerra entre os medas, um povo de um país montanhoso do Sudoeste do Mar Cáspio, e os lídios, que viveram na Ásia Menor, atual Turquia.

Anaximandro, cerca de 610 a.C. foi outro aluno jônico que argumentou que os céus consistiam de esferas separadas, através das quais os planetas viajavam em sua ronda eterna — uma visão astrológica que subsistiu até a Revolução Científica do século XVII. Ele descreveu o universo como contido dentro da borda de uma roda imensa preenchida com fogo, e as estrelas e os planetas como centelhas do fogo vistas por buracos na borda. Acreditou na noção da recorrência eterna que viria a se tornar um conceito-chave na astrologia ocidental. Retirando os olhos do céu e voltando-os para a Terra, Anaximandro também fez o primeiro mapa conhecido do mundo, que ele considerava esférico.

O filósofo jônico Anaxímenes, cerca de 550 a.C. acreditou ainda que as estrelas eram como pregos colocados em esferas cristalinas que giravam em torno da Terra como um chapéu sobre uma cabeça, crença que subsistiu até o século XVII. A noção astrológica central do microcosmo e macrocosmo — "Assim como é em cima, é embaixo" — foi muitas vezes investigada no seu trabalho, porém, como vimos, foi uma concepção defendida muito tempo antes pelos mesopotâmios e egípcios. Ele também é lembrado pela observação da obliquidade da eclíptica, que certamente também já deveria ser conhecida pelos egípcios.

Enquanto a escola jônica de filosofia tendia a ser materialista e mecânica, a colônia grega no Sul da Itália, em Eléia, formava um grupo bem mais místico de filósofos. A diferença entre as suas visões "científica" e "intuitiva" dos céus ainda divide os astrólogos modernos. Enfatizando a importância do Ser, os eleanos acreditavam que a mudança física era ilusória, defendendo que o universo era uma unidade criada e guiada por uma única inteligência:

"O Todo é o Um e o Um é o Todo." Rejeitando os deuses de Homero e Hesíodo, eles insistiam em: "Um deus, maior entre deuses e homens, diferente dos imortais em corpo e pensamento. Como um todo ele vê, como um todo ele pensa, como um todo ele ouve." O deus único dava vida e energia para a criação: "Mas sem labuta, pelo poder da sua mente, ele faz tudo vibrar."9

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Por outro lado, Heráclito de Éfeso, cerca de 500 a.C. como os antigos
chineses taoístas, enfatizou a importância do Vir a Ser. Tudo mudava; nada permanecia o mesmo: você não colocava o dedo do pé no mesmo rio duas vezes. Ao mesmo tempo, imaginou que a mudança ocorria pela reconciliação dos opostos, visão no cerne da noção astrológica dos signos positivos e negativos do zodíaco. Mas para todo o fluxo da vida havia a unidade na diversidade do mundo: "Ouçam não a mim, mas ao logos, é sábio concordar que todas as coisas são uma só."10

Enquanto esses primeiros pensadores gregos lançavam os fundamentos para a astrologia e astronomia ocidental posterior, havia pouca evidência para sugerir que tinham nesse estágio desenvolvido um sistema do tipo utilizado na Mesopotâmia e no Egito. Contudo, durante o século V a.C. os gregos começaram a anotar conceitos da astrologia da Mesopotâmia e do Egito. Os persas, que tinham conquistado estes países, atingiram a costa do Mar Egeu da Jônia por volta de 546 a.C. trazendo com eles suas próprias ideias e as dos povos por eles conquistados.

Pitágoras e os Pitagóricos

O filósofo grego mais influente a ser exposto a essas novas influências foi Pitágoras de Samos. Nascido por volta de 558 a.C. foi educado na escola jônica, e quando jovem conheceu tanto Tales como Anaximandro. Com vinte anos diz-se que viajou para o Egito, onde permaneceu por cerca de 25 anos estudando com os sacerdotes dos templos. Foi então capturado pelos persas e levado como cativo para a Babilônia. Lá recebeu ensinamentos de um sacerdote zoroastriano, Zaratas, e foi iniciado nas doutrinas esotéricas da
religião dele, que incluía a idéia da transmigração da alma.

Finalmente, convencido de que os números eram a chave para a compreensão do universo, atribuiu valores matemáticos às relações entre os corpos celestes.
Foi provavelmente na Babilônia que Pitágoras começou a se inteirar do conceito da "Harmonia das Esferas". Recorrendo ao seu amor místico pela matemática, este conceito assume que as distâncias entre as esferas planetárias possuem razões de números inteiros simples e espelha os intervalos da escala musical. As notas dos sete planetas criam desta forma um acorde enquanto giram nos céus — música que nós, em nosso estado grosseiro na Terra, somos incapazes de ouvir. Pode também ter sido na Babilônia que Pitágoras assimilou a idéia de que a Terra era uma esfera.

Por volta de 518 a.C. Pitágoras voltou para sua casa em Samos e dois
anos mais tarde estabeleceu-se na colônia grega de Cróton, no Sul da Itália.

Ali atraiu discípulos que formaram uma comunidade aberta para homens e mulheres baseada em rígidos princípios morais.

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Abstinham-se de comer carne (para evitar o sofrimento) e feijões (que excitam as paixões), deixavam crescer os cabelos e as unhas (rejeitando os padrões artificiais) e partilhavam todos os seus bens (praticando o amor fraternal). Adotando um código restrito de segredo, não ensinavam suas doutrinas fora do seu grupo. Combinavam o amor pela matemática com a visão mística do Absoluto.

Os pitagóricos desenvolveram a doutrina da recorrência eterna, de
Anaximandro, ao declarar que tudo voltaria na mesma ordem numérica. Como o tempo é medido pelo movimento dos planetas, este mesmo tempo retorna em virtude da repetição dos mesmos movimentos celestes. Quando todos os planetas retornam a uma posição similar em relação às estrelas fixas, o Grande Ano se completa — visão defendida pelos antigos mesopotâmios e egípcios.

Foi questionado que "os alvos da doutrina pitagórica estiveram sempre nas raízes da teoria astrológica". Na verdade, a maior contribuição de Pitágoras para a astrologia é a de que o universo pode ser explicado pelos números. Em seu esquema de numerologia sagrada, cada número é também simbólico: o 1, por exemplo, representa a unidade, o 2, a dualidade e assim por diante. A mitologia e a matemática são aspectos da mesma realidade indivisível. Na astrologia ocidental, a convenção de o 4 representar a "Casa" é devido ao fato de os pitagóricos considerarem o 4 como o número da estrutura. Sua influência no Ocidente foi profunda e duradoura: no século XVII, Galileuacreditou que o universo era reduzível a um número e Kepler baseou suas teorias dos movimentos planetários na geometria pitagórica.

O pitagórico Filolau de Crotona, cerca de 470-390 a.C. também exerceu uma influência duradoura na astrologia e na astronomia ocidental. Segundo autoridades antigas, seu trabalho ofereceu a primeira evidência mais firme sobre a astrologia na Grécia clássica. Ele conhecia a divisão duodecimal do zodíaco já por volta de 430 a.C. Também dedicou os ângulos de certas figuras geométricas a determinados deuses. Segundo Proclos, filósofo neoplatônico do século V, ele disse que "o ângulo do triângulo" era sagrado para quatro deuses masculinos, enquanto "o ângulo do quadrado" era sagrado para deidades femininas. Isto encontrava eco na astrologia, pois quatro triângulos podem ser inscritos nos 12 signos do zodíaco (um para cada elemento) e também três quadrados (um para cada qualidade).11

Filolau argumentou que a Terra e todos os planetas, incluindo o Sol, orbitavam um fogo central que ele chamou de "torre de vigia de Zeus". Isto explicaria por que as órbitas planetárias, que de acordo com a doutrina pitagórica da perfeição universal moviam-se em círculos perfeitos, parecem irregulares vistas da Terra.

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Além de romper com a visão geocêntrica do universo, Filolau foi o primeiro filósofo grego a compreender que a Terra se move no espaço, e a distinguir entre o movimento diurno e anual dos planetas.
Méton, um contemporâneo de Filolau, tentou reformar o calendário em Atenas, por volta de 432 a.C. baseado nos modelos babilônicos. Introduziu o Grande Ano de 19 anos para fazer coincidir os ciclos solar e lunar (19 anos solares = 235 meses lunares). Pouco antes de o estado ateniense enviar uma expedição para atacar a Sicília, diz-se que o astrônomos se fez de louco e queimou sua casa inteira para poder implorar a seu filho que ficasse em Atenas. Plutarco sugeriu que ele fora impelido "quer pelos cálculos (logismos) quer pelos resultados da divinação de algum tipo" — quase certamente o resultado de previsões astrológicas.12

O filósofo pitagórico mais influente foi Empédocles, cerca de 495-430 a.C., que veio de Agrigento, na Sicília. Foi ele quem popularizou a doutrina dos quatro elementos que está no núcleo da medicina antiga e medieval e na moderna astrologia. Os primeiros filósofos gregos argumentaram que o universo físico era formado por um elemento fundamental — Tales, por exemplo, optou pela água; Heráclito, pelo fogo. Empédocles, contudo, manteve que todas as coisas, incluindo os seres humanos, eram compostas pelos quatro elementos — terra, fogo, ar e água, que se encontram. Eles estão em um estado permanente de fluxo, combinando-se entre si de modos diferentes para montar a vasta diversidade do universo. Empédocles utilizou a analogia da pintura para explicar como os muitos podiam formar os poucos: "São como os pintores, que ao decorarem as oferendas dos templos tomam em suas mãos pigmentos de várias cores e depois, ao misturá-los em combinações diminutas — mais de alguns e menos de outros —, produzem a partir deles formas que lembram todas as coisas."13

Posteriormente, os astrólogos desenvolveram a teoria dos quatro
elementos de Empédocles e os associaram aos diferentes signos do zodíaco, planetas e Casas:

O conceito dos quatro elementos foi resgatado por Hipócrates (nascido em 460 a.C), que estudou medicina na Ilha de Cós. Ele associou os quatro elementos aos quatro "humores”

Element Signos Planetas Casas

Ar Gêmeos, Libra, Aquário Mercúrio, Urano 3,7,11
Fogo Áries, Leão, Sagitário Sol, Marte, Júpiter 1,5,9
Água Câncer, Escorpião, Peixes Lua, Vê nus, Netuno 4, 8,12
Terra Touro, Virgem, Capricórnio Saturno, Plutão 2, 6, 10

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ou condições do corpo, e argumentou que o desequilíbrio entre eles resultava em doenças. Em vários aspectos ele encontrou eco na medicina ayurvédica da Índia, que define a saúde como o equilíbrio entre os elementos. Os quatro humores como fluidos corporais foram associados, especialmente na Idade Média, a determinados tipos psicológicos: o sangü.neo (preponderância de sangue e associado ao ar), o fleumático (fleuma/ água), o colérico (amarelo/fogo) e o melancólico (bílis negra/terra).

Presume-se que Hipócrates não somente deu origem ao juramento para salvar vidas que até recentemente era assumido por todos os profissionais da área médica, como também lançou as bases da astrologia médica, conhecida pelos gregos como iatro-mathematica. Dizia que um médico sem o conhecimento da astrologia deveria se intitular melhor de tolo do que de médico. Antecipando a homeopatia e a medicina "holística", ele insistia que o paciente é que deveria ser tratado como um todo, não a doença.

Em algum momento, entre os séculos IV e III a.C. as partes do corpo
humano foram associadas aos signos do zodíaco, e se passou a dizer que eram "regidas" por eles:

Signo Zodiacal Partes do Corpo
Áries Cabeça
Touro Pescoço
Gêmeos Pulmões, ombros, braços, mãos
Câncer Membranas das mucosas
Leão Coração, coluna
Virgem Estômago, intestinos
Libra Rins, costas
Escorpião Cólon
Sagitário Quadris, coxas
Capricórnio Juntas, vesícula
Aquário Pernas, tornozelos
Peixes Pés

Posteriormente, disseram que os signos regiam as Casas do mapa natal na mesma ordem, começando com Áries na Casa 1 e terminando com Peixes na Casa 12.

No diagnóstico de uma doença acreditava-se que se um signo que regia determinada parte do corpo fosse afetado por um planeta maléfico ou por um planeta com um aspecto negativo, por afinidade aquela parte do corpo também seria afetada. O remédio era aumentar o poder do signo usando plantas, animais, pedras e cores associadas a ele. Esta abordagem "mágica" era há muito praticada na Índia, na Mesopotâmia e no Egito, com bons resultados.

24 A Imagem Mutante da Eternidade

No que diz respeito a todos os planetas e à Lua, aos anos, meses e a todasas estações, que outra consideração poderíamos fazer além de que as almas, plenas de todas as virtudes, apresentaram-se para ser responsáveis por elesque estas almas são deuses? PLATÃO

O filósofo Diógenes Laércio registrou que Sócrates, o grande filósofo grego, conheceu um "mago" babilônio que fora a Atenas. O estrangeiro exótico fez algumas previsões, inclusive a morte violenta de Sócrates.1

Sócrates não deixou registros escritos, mas seu discípulo Platão, cerca de 429-347 a.C. anotou todos os ensinamentos de seu mestre — e também os seus — sob a forma de diálogo. Embora não haja evidências de que Platão tenha visitado a Mesopotâmia, ele sem dúvida estudou sua linha de pensamento, não somente mediada por Pitágoras, mas também diretamente. Sabia do uso da astrologia para a divinação, e se a informação de Laércio estava correta, ela mostra que os horóscopos natais já eram traçados na Grécia no início do século IV2 Platão, provavelmente, visitou o Egito e com certeza teve enorme respeito pelos egípcios. Utilizando um sacerdote egípcio como porta-voz, ele declarou que, por comparação, os gregos eram "todos
crianças".3 Aclamou os "bárbaros" (isto é, não-gregos), chamando-os de "casta de filósofos".

O principal tratado da cosmologia de Platão, Timeu, cerca de 365 a.C. foi seu trabalho mais conhecido no Ocidente durante a Idade Média. Contém caracteristicamente doutrinas da Babilônia sobre a transmigração da alma e a harmonia das esferas, e expressa também a visão fundamental de mundo da astrologia ocidental, que desde então pouco mudou. Argumentou-se corretamente que: "Se Pitágoras lançou a base, Platão é então o principal construtor da teoria astrológica."4

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A Cosmologia de Platão

Segundo Platão, esse mundo mutante na Terra era uma cópia única de um "ser vivo" perfeito e eterno. Os objetos fugazes neste mundo do vir-a-ser assumiram sua forma das Formas, ou Idéias, eternas e imutáveis do mundo do Ser. O criador do universo (o bom "construtor") primeiro criou a alma.

Depois, compôs o corpo do mundo, a partir dos quatro elementos — terra, ar, fogo e água —, que formavam uma substância indeterminada em movimento confuso. A criação tomou a forma de uma esfera que revolvia em torno do seu eixo. O criador então colocou "a alma no centro e infundiu-a pelo todo e fechou
o corpo em si". A criação resultante foi um "deus abençoado".5

Para Platão e todos os gregos o movimento precisava ter uma causa: no universo criado a alma que se movia era a causa última do movimento. Os planetas não eram diferentes de um navio recém-construído que permanecia imóvel no cais até que fosse lançado ao mar. As regularidades observadas dos movimentos dos corpos celestes deviam, portanto, ser causadas pela ação de uma "alma do mundo" inteligente e divina. Essa alma auto locomotora era a fonte original do movimento e mantinha os corpos celestes girando em círculos perfeitos em velocidades perfeitas. O Sol, a Lua e os planetas eram então "criaturas vivas com seus corpos ligados por tiras da alma".6

Desde os primeiros tempos os gregos imaginaram os céus como um domo. Platão considerou a forma do universo como sendo esférica. A Terra estava no centro e as estrelas fixas no limite exterior. Os planetas circundavam em anéis entre os dois. Mas como ele foi criado? Platão argumentou que o "material da alma" do mundo era um tipo de matéria que era misturada, formando uma estrutura matemática. Ele a descreveu como um tecido cortado em tiras mais estreitas.

Havia dois estágios na operação. Primeiro, o material era cortado em duas tiras, que foram cruzadas e enroladas para formar dois círculos, um interno e o outro externo. A tira externa Platão chamou de "Círculo do Mesmo", no qual as estrelas fixas eram cravadas, e o segundo o "Círculo do Diferente", ao longo do qual os planetas se moviam. O Círculo do Diferente era estabelecido de modo inclinado em relação ao Círculo do Mesmo, representando a diferença no ângulo entre os eixos da eclíptica e o eixo das estrelas fixas. O Círculo do Mesmo revolvia da esquerda para a direita e o Círculo do Diferente da direita para a esquerda. O círculo interno era dividido em sete círculos desiguais — para o Sol, a Lua e os cinco planetas —, que revolviam em velocidades diferentes, mas que se relacionavam proporcionalmente.

Platão explicou desta forma e de maneira bem condensada os movimentos observados dos corpos celestes a partir da Terra. Embora difícil de ser imaginado, foi belamente ilustrado pelas esferas armilares que surgiram depois.

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Para explicar a relação entre o mundo eterno do Ser e o nosso mundo de tempo, mutável, Platão escreveu que quando o criador deste mundo viu que "estava vivo e em movimento, um santuário de deuses eternos, ficou feliz, e em sua alegria planejou fazê-lo ainda mais parecido com o seu padrão...". A natureza do Ser Vivo era eterna, e não era possível conceder este atributo inteiramente ao universo criado; mas ele determinou torná-lo "uma imagem mutante da eternidade".7 Antes de os céus existirem não havia o tempo. 

O Sol, a Lua e os cinco planetas foram, portanto, criados para definir e preservar a medida do tempo no Círculo do Diferente. O Sol nos proporciona a noite e o dia; a Lua, o mês; e o Sol, o ano.

Para explicar a observação da mudança das posições relativas dos
planetas em sua viagem pelos signos do zodíaco em um ano solar, como
corredores disputando uma corrida, Platão sugeriu que eles possuíam um poder de locomoção em sentido contrário ao do Sol. As velocidades variáveis e as irregularidades em seu movimento eram causadas pelo fato de serem almas divinas compostas de alma e corpo. Aqui ele estava se referindo ao conceito de retrogradação baseado na observação de que em determinados períodos os planetas externos pareciam se mover para trás em relação aos internos.

O movimento errante dos planetas (planeta em grego significa "caminhante, andarilho") era bem conhecido pelos pitagóricos, que o analisavam em uma combinação de dois ou mais movimentos reais. Ele foi aceito também por Eudoxo de Cnido, membro da Academia de Platão, que o explicou em termos de esferas concêntricas. A noção foi adotada por Aristóteles e mais tarde desenvolvida por Ptolomeu, e permaneceu como base da astronomia até Copérnico, no século XVII. E continua a formar a base da astrologia atual.

A teoria do Grande Ano também foi mencionada por Platão. Este é o período de tempo necessário para o Sol, a Lua e os cinco planetas andarilhos (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) completarem uma volta e retornarem, todos, a uma posição similar em relação ao fundo das estrelas fixas. Os egípcios sabiam da precessão dos planetas e calcularam a duração deste tempo em 26 mil anos. Escritos hindus o registram em 12 mil anos.

Platão observou que "o tempo de certa forma é as suas caminhadas".
Reconheceu que era possível "perceber que o número temporal perfeito e o ano perfeito ficavam completos quando todas as oito órbitas tinham atingido suas revoluções totais relativas entre si, medidas pela órbita do mesmo que se movia regularmente".8 Em A república, ele identificou o número "nupcial" como 12.960.000.

Em sua famosa discussão sobre a Atlântida em Timeu, Platão citou os
registros antigos dos egípcios, como registrado por Sólon, que mencionou devastações sucessivas em grande escala. Elas podiam ser interpretadas, Platão sugeriu, como inundações no inverno do Grande Ano e como conflagrações no seu verão.

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Elas não vinham como uma forma de retribuição divina, mas como resultado das configurações dos planetas nos céus que exerciam consequências inevitáveis na Terra. Isto, naturalmente, poderia explicar o Dilúvio mencionado na Bíblia, no Épico de Gilgamesh, na história do Deucalião (o Noé grego) e em vários outros mitos de inundação do mundo.
Platão sugeriu ainda em O estadista que "a flecha do tempo" poderia ser revertida periodicamente: "O próprio Deus assiste ocasionalmente o cosmo em seu desenrolar e auxilia sua rotação, em outros momentos deixa tudo prosseguir, quando os seus períodos atingiram a medida do tempo apropriada a ele, e ele volta na direção oposta por si próprio."9 Até a vida podia ser revertida neste desenrolar universal, com os velhos perdendo os seus cabelos brancos e os mortos emergindo da terra.

Outra suposição astrológica de Platão foi mencionada numa expressão poética em Timeu. Ele disse que, após o criador ter misturado a alma do universo, ele pegou a mesma tigela na qual tinha formado primeiro os deuses e depois os seres humanos e os animais que não eram tão puros e formou a mistura. Ele "a dividiu em tantas almas quantas eram as estrelas e designou cada alma a uma estrela. E, colocando-as em suas estrelas, como se fossem carruagens, ele mostrou a elas a natureza do universo e lhes revelou as leis do seu destino". Todas as almas foram então combinadas com corpos sujeitos ao tempo e "lançadas em seu instrumento apropriado de tempo". Quando as almas visitavam a Terra, elas transmigravam em uma hierarquia de vidas, dependendo do seu comportamento, mas "qualquer um que vivesse bem no seu tempo determinado retornaria para casa, para sua estrela nativa, e viveria uma
vida adequadamente feliz".10

Outras almas reencarnariam até que escolhessem viver bem. Esta doutrina da transmigração das almas, que foi mantida pelos pitagóricos, pode ter se originado de uma religião estelar da Mesopotâmia.

Longe de condenar a astrologia como superstição e trapalhada, Platão
claramente aprovou sua capacidade de prever eventos, através dos
movimentos dos planetas na seguinte passagem de Timeu:

Mas quanto à dança circular e dos casais destas deidades astrais, e
suas retrogradações e progressões; quanto a qual delas entrará em
conjunção e oposição entre si e em que ordem passarão uma diante da outra e em que épocas uma delas estará escondida da nossa visão para depois reaparecer e assustar aqueles que são capazes de calcular e de enviar para eles sinais do futuro — descrever tudo isso sem modelos visíveis teria sido um trabalho em vão.11

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A Roca da Necessidade

No fim de A república, seu trabalho sobre o Estado ideal, Platão expressou sua doutrina sob a forma de um mito, que utilizou para representar verdades religiosas e morais para as quais unicamente a prosa não era suficiente. O mito relata como, após ter sido morto em uma batalha, o corpo de Er permaneceu intacto. No 12° dia em sua pira funerária, voltou à vida novamente e descreveu o que tinha visto no outro mundo. Ele havia viajado com outras almas para um lugar do qual podia ver uma faixa de luz que lembrava um arco-íris, que se estirava acima como um pilar direto entre o céu e a Terra.

Do meio da luz surgia o vínculo do céu que sustentava toda a sua
circunferência unida, como "o cabo de um trirreme", um pedaço de corda atada das hastes para a popa num barco de madeira que sustenta seu casco no lugar.12

Uma "Roca da Necessidade" pendia das extremidades do vínculo que fazia todas as órbitas dos planetas revolverem. Com a Terra no centro, havia oito espirais ao todo: as estrelas fixas em uma esfera do lado de fora, depois Saturno, Júpiter, Marte, Mercúrio, Vênus, o Sol e a Lua. Os corpos celestes então giravam em torno da Terra em anéis concêntricos, cada um com cor e largura diferentes. A largura e o movimento relativo das faixas representavam as distâncias e velocidades relativas dos planetas. O todo revolvia num único movimento, porém, dentro, o movimento dos sete círculos internos dos planetas revolvia lentamente na direção oposta. Isto pretendia explicar por que o Sol e a Lua parecem se mover de Leste para oeste, enquanto os planetas se movem de Oeste para Leste, em relação às estrelas fixas.

Entretanto, a analogia de Platão não explica a inclinação do eixo da
eclíptica na qual O Sol, a Lua e os planetas se movem em relação à posição das estrelas fixas. Embora obscura e imperfeita, esta foi a tentativa de Platão de formar um quadro das operações do universo, uma visão de mundo adotada mais tarde pela astrologia.

Platão via ainda os signos do zodíaco regido por deuses e deusas. Contudo, uma sereia, algumas vezes traduzida como "demônio", ficava no alto de cada círculo de planetas e estrelas fixas, que formavam um sistema de oito espirais concêntricas. A medida que a sereia passava em torno do círculo, ela pronunciava "uma nota de intensidade constante e oito notas juntas formavam uma escala única".13 Esta é, sem dúvida, a doutrina da "Harmonia das Esferas", que Platão provavelmente aprendeu com os pitagóricos, a quem visitou no Sul da Itália em 388-387 a.C.

Em distâncias iguais, em torno da Roca da Necessidade (onde estão
localizados os planetas), estão sentadas três figuras enfeitadas vestidas de branco, cada uma em um trono, cantando a música das sereias. Elas são as Três Parcas, as filhas da Necessidade: "Lachesis cuida do passado; Cloto, do presente; e Átropos, das coisas que acontecerão."

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Cloto ajuda, de tempos em tempos, a girar o anel mais externo da roca; Átropos, os anéis internos; e Lachesis destina cada alma ao guardião escolhido. Cloto, a "tecelã", ratifica o destino (moira) da alma, enquanto Átropos tece a urdidura sobre a qual Cloto tece e fixa o destino. Para Platão, a existência da necessidade — as regularidades ou leis da natureza — era um sinal de um projeto racional e proposital no universo.

A Transmigração das Almas

Do ponto de vista astrológico, um dos aspectos mais interessantes do mito de Er de Platão é sua doutrina de que a alma dos mortos, após passar um período no submundo ou no céu (dependendo do seu comportamento em suas vidas anteriores), pode escolher sua sina na próxima vida na Terra.

Esta doutrina servia para explicar a importância que os astrólogos dão ao momento da concepção ou nascimento, dependendo do momento que eles acham que a alma penetra no corpo. As almas devem ir direto para Lachesis, e um Intérprete coloca várias "sinas e padrões de vida" em seu colo. Então, ele anuncia:

Almas do dia, agora vocês devem iniciar uma nova rodada da vida
mortal cujo fim é a morte. Nenhum Espírito Guardião será destinado a vocês; vocês devem escolher o seu. E aquele a quem o lote cair primeiro será o primeiro a escolher a vida cuja necessidade será a dele. A excelência não conhece um mestre; um homem deve ter um pouco dela, segundo o valor que ele atribui a ela. As falhas não cabem a Deus, mas à alma que faz a escolha.14

Cada padrão concebível de vida é oferecido, seja animal ou humano. A passagem principal para a astrologia é: "Não há escolha de qualidade de caráter, uma vez que a necessidade de cada alma deve assumir um caráter apropriado à sua escolha; porém riqueza e pobreza, saúde e doença estão todas misturadas em graus diferentes nas vidas a serem escolhidas."15

Isto explica por que mais tarde os astrólogos dariam ênfase ao mapa natal na formação do caráter da pessoa e na direção da sua vida. Mas isto não é fatalismo. Platão faz uma distinção importante entre as qualidades "natas e as adquiridas". Cada alma é livre para escolher entre uma vida boa e má. O caminho do meio entre os extremos seria recomendado como o guia mais seguro para uma vida boa e para a felicidade humana mais elevada. E o amor é o dirigente da carruagem do ser que dirige a razão, os apetites e as paixões.

275

Em uma discussão do que é chamado de "número nupcial", Platão imagina os guardiões da sua república ideal usando um conhecimento aritmológico e astrológico para escolher os momentos mais auspiciosos para a concepção, a fim de assegurar que a prole crescerá como bons cidadãos do Estado. Isto mostra que Platão não somente conhecia as práticas astrológicas, como de fato encorajava sua utilização.16

Em Fedro, seu diálogo sobre o amor, Platão desenvolve ainda mais sua noção da trans-migração das almas. Descreve como as almas viajam com os deuses para além da abóbada do céu. Os imortais podem até ficar "nas costas do universo" e contemplar o que fica fora dos céus — a realidade absoluta que só é compreensível pelo intelecto, o "piloto da alma".17 Contudo, algumas almas perdem suas asas e caem na Yerra e se encarnam como seres humanos. Antes de assumir um corpo, cada alma pode escolher seu lote, de acordo com seu próprio prazer: algumas escolhem ser tiranos, guerreiros, financistas, médicos, videntes, poetas, artesãos ou agricultores, mas todas têm uma rápida visão do "plano da verdade e da beleza" e podem colher as coisas que suas almas já perceberam. A pessoa que tem maior probabilidade de ter sucesso e reconquistar suas asas é o filósofo, o amante da sabedoria.

Para Platão, a filosofia era um processo de relembrar as verdades, às quais ficamos expostos antes de nascer neste mundo. A ajuda nesta colheita trazida pela filosofia forma então "uma iniciação contínua na visão mística perfeita".18

O mesmo pode ser dito da astrologia em sua forma mais elevada. Um
papel similar ao do filósofo pode se encontrado no astrólogo, se ele ou ela nos lembrar das origens divinas da nossa alma e nos encorajar a realizar nosso potencial como seres racionais e espirituais.

Em Fedro, Platão apresenta, por intermédio de Sócrates, a alma como uma carruagem alada, com a razão como cocheiro e o espírito e o desejo como os cavalos. As carruagens dos deuses rodeiam o perímetro do céu para sempre, e antes do nascimento as carruagens das almas humanas viajam em sua companhia, observando "o que está além dali" — o mundo do ser verdadeiro e da realidade absoluta. Os grupos humanos, entretanto, colidem com a Terra e assumem vidas humanas. Porém, mesmo sob a forma humana, ainda é possível lembrar a natureza do verdadeiro conhecimento e da virtude, adquirindo novamente suas asas e retornando às suas origens celestiais.

Antes de ler Fedro e o mito de Er em A república, eu não compreendia bem por que os astrólogos deveriam dar ênfase ao momento do nascimento, como uma chave para a compreensão da nossa personalidade futura. Parecia ser muito determinista. Mas depois de ler Platão, isso começou a fazer sentido. O que acontece antes do nosso nascimento é tão importante quanto o que virá depois. Embora não acreditasse nisto, o filósofo Bertrand Russell reconheceu que a preexistência é tão lógica quanto a vida depois da vida.

276

Embora não seja uma ideia familiar para os cristãos, era óbvia para os antigos gregos e sempre o foi para hindus e budistas. É a escolha da nossa alma no momento do nascimento que influencia o tipo de caráter que desenvolvemos. Podemos decidir o tipo de corpo que gostaríamos de habitar, o tipo de pessoa que gostaríamos de ser, o tipo de pais que nos apoiarão e o tipo de sociedade na qual gostaríamos de crescer.

Podemos escolher se desejamos levar uma vida boa ou má, de riqueza ou de pobreza, sabedoria ou estupidez. Podemos tentar rememorar a visão mística ou viver uma vida de ignorância e esquecimento. Se for o caso, a posição das estrelas e signos apontará para o tipo de escolha original que fizemos. Se nascermos sob a influência de Marte e nos tornarmos um tirano, será uma escolha pessoal. Não é aconselhável lamentar nosso quinhão, pois ele foi escolha nossa. Como aconselha o Intérprete, o homem que culpa "o destino e o céu e não a si próprio" não deveria se esquecer de que os "seus infortúnios são culpa sua".19

O Movedor Imóvel de Aristóteles

maior discípulo de Platão, Aristóteles (384-323 a.C), foi mais cético do que seu mestre e exerceu um impacto menor sobre os astrólogos.

Defendeu uma visão mais biológica e colocou ênfase maior sobre o valor da observação e da experiência, como fonte de conhecimento. Mas é meio desconcertante dizer que Platão era racionalista e Aristóteles empírico. Aristóteles aceitou a visão ampla do universo geocêntrico de Platão com seu movimento perfeito e ciclos planetários. Continuou o trabalho do aluno de Platão chamado Eudoxo, o primeiro a desenvolver a astronomia matemática, que explicou as órbitas irregulares dos planetas, afirmando que eles se moviam em 26 esferas e que havia uma esfera para as estrelas fixas, perfazendo um total de 27. Aristóteles propôs um padrão ainda mais complexo, de 54 esferas.

Como Homero e Hesíodo, Aristóteles acreditou na existência eterna dos céus e dos seus movimentos. O movimento é imperecível. Mas para colocar todo o universo e seus corpos celestes em movimento, devia ter existido um movedor imóvel. Considerou o aither (éter) como existente antes dos quatro elementos de Empédocles; nele estão "os mais divinos dos corpos visíveis": o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas.20 Estava também totalmente convencido do seu efeito sobre a Terra: reivindicou que o movimento anual do Sol e o crescer e minguar mensais da Lua governavam os processos biológicos e também a extensão das vidas animadas. Eles também controlavam vários processos físicos inanimados na Terra, como a força dos ventos.

277

Simultaneamente, Aristóteles colocava o criador fora do universo como um movedor imóvel, um deus que era a causa primeira e final do universo.

Não separou a alma do corpo e argumentou que quando o corpo morria, a alma também morria. Na verdade, a alma na sua visão era meramente um grupo de capacidades que manifestavam a vida. Rejeitou também a crença de Platão de que os planetas eram inteligências divinas. Contudo, as estrelas e planetas não eram corpos ao acaso; eram vivos, e sua atividade tinha uma direção e propósito final, ou telos, descrito como "aquilo que está em melhor estado". A esfera das estrelas, envolvida no movimento menor,
chegava mais próxima do telos.

Aristóteles ainda era pitagórico o suficiente para acreditar que a
natureza de um objeto estava contida na sua forma e destinava um papel central para a matemática na compreensão do universo. Dava uma explicação engenhosa sobre o motivo de não ouvirmos a música das esferas.

Na sua visão, corpos tão imensos produziam inevitavelmente um som com o seu movimento, assim como os corpos menores na Terra. Como as velocidades das estrelas, julgadas por sua distância, estavam em razões das consonâncias musicais, elas só poderiam revolver produzindo um som harmonioso. Sustentava que o som estava conosco desde o nascimento, mas que não existia um silêncio contrastante para revelá-lo: "Pois a voz e o silêncio são percebidos por contraste entre si, por isso toda a humanidade está passando por uma experiência como a do caldeireiro, que se torna pelo hábito indiferente ao barulho à sua volta."21 A música da harmonia das
esferas estava ali, e nós não conseguíamos ouvi-la graças à cacofonia deste mundo.

O Deus Abençoado

Para os aristotelianos posteriores, a vontade divina originava-se além das estrelas fixas e era filtrada através das esferas planetárias para a Terra, que ficava no centro. Esta visão de mundo cedia mais espaço para o livre-arbítrio humano, mas também conduzia a um desencantamento do universo.

No lugar do "deus abençoado" e organismo vivo de Platão, o universo surgia cada vez mais como uma máquina sem alma. A tensão entre a abordagem espiritual de Platão e o acesso mais físico de Aristóteles a respeito do mundo tem reverberado desde então entre nós.

Diz-se que toda a filosofia ocidental não passa de notas de rodapé de
Platão e Aristóteles. Como todas as bon mots, isto é um exagero, mas os astrólogos sem dúvida seguiram mais Platão do que Aristóteles. Para os cientistas aristotelianos modernos que atacam a astrologia será melhor rememorar que para Platão o mundo da percepção comum não era de fato real.

278

O mundo real, o mundo do Ser, contém formas que são os objetos da compreensão racional e as operações da matemática e da lógica.
Podem ser intuitivamente percebidas. Por outro lado, o mundo do vir-a-ser, com o qual os cientistas lidam, é uma cópia corrupta e imperfeita do ideal.

Ele contém todas as coisas percebidas pelos nossos sentidos, sobre as quais não é possível um conhecimento final. Desta forma, Platão traçou uma clara distinção entre o acesso racional e empírico do conhecimento — aquele, baseado no raciocínio e na intuição; este, na observação e na experiência.

Como os sentidos não são confiáveis e este mundo é uma ilusão, o único guia, seguro é o intelecto (no sentido mais amplo da palavra). Onde a lógica e a matemática se validam por si mesmas e, em termos finais, se baseiam na intuição, a ciência física centrada nos sentidos pode somente ser algo como uma "provável história". A astrologia se inclui na primeira categoria, a astronomia, na última. Não surpreende portanto que a astrologia seja apresentada como a ciência suprema no trabalho Epinomis, que pretende ser
um apêndice a As leis, de Platão, e que foi provavelmente escrito por um de seus alunos.

A rejeição por parte de Platão da ciência empírica como um guia seguro para o conhecimento exerceu uma influência duradoura sobre a astrologia e a astronomia até o século XVII. A abordagem geral foi primeiro no sentido de construir um modelo simbólico do universo e depois de refazer os movimentos observados dos corpos celestes — como as órbitas irregulares dos planetas —, ajustados no sistema preconcebido. Tanto os astrônomos árabes quanto os da Europa medieval seguiram esse método, mantendo o modelo geocêntrico do universo porque parecia ser mais racional e perfeito.

Quanto mais anomalias eram descobertas, mais complicadas se tornavam as explicações. Apesar da evidência científica mostrar o contrário, os astrólogos modernos continuam com a tradição platônica e acreditam que o cosmo, com seus movimentos regulares de estrelas, é na verdade um "deus abençoado".

25 O Mundo Helênico

mundo inferior era aprisionado pelo medo e ansiava, diante da
extraordinária beleza e eterna estabilidade, pelas coisas acima.
ESTOBEU

Diz-se que um astrólogo estava presente quando o general macedônio Alexandre, o Grande, nasceu, em 357 a.C. Segundo Ebenzer Sibly, astrólogo inglês do século XVIII, o astrólogo Nectanebus "suplicou a ela [mãe de Alexandre] que não permitisse que a criança saísse antes que ele pronunciasse a palavra".1 Presumivelmente, este conselho foi seguido, porque Alexandre se tornou o conquistador mais famoso do mundo antigo.

Mas teve uma vida curta e diz-se que sua morte aos 33 anos foi prevista por astrólogos quando ele entrou na Babilônia.

As conquistas de Alexandre mudaram a face do mundo conhecido no
Mediterrâneo e no Oriente Próximo. Após seu pai ter conquistado as
cidades-estado da Grécia, Alexandre prosseguiu para atacar o Egito em 331 a.C. o Império Persa (incluindo a Mesopotâmia), em 328 a.C. e depois abriu caminho para o Leste, até a Índia. E, ao respeitar as culturas e crenças locais, ele ajudou a unir Oriente e Ocidente. O resultado foi um fértil cruzamento de ideias: enquanto estendia a influência grega para terras estrangeiras, seus soldados retornavam para casa com várias crenças diferentes, incluindo a da astrologia.

O próprio Alexandre empreendeu uma marcha perigosa ao oráculo de
Amon no deserto, em Sihaw, no Egito, onde declarou ser ele próprio filho divino de Amon. O irmão de Alexandre reconstruiu o santuário interno do templo em Karnak, enquanto o próprio conquistador erigia uma sala anexa na qual ele foi representado nos relevos fazendo oferendas aos deuses egípcios.

280

Seu general, Ptolomeu, fundou uma dinastia que durou até a derrota final de Cleópatra e Antônio, em 30 a.C. O período testemunhou um florescimento único da civilização helênica que aproximou a sabedoria dos sacerdotes egípcios do templo da filosofia clássica grega.

Alexandria, com sua biblioteca e museus sem par, não somente se tornou um dos maiores centros de aprendizagem do mundo antigo, como também um viveiro para a astrologia. A cidade permaneceu como um centro dinâmico e cosmopolita por novecentos anos, até cair sob os muçulmanos invasores em 640 d.C.

Milhares de gregos também se estabeleceram na Mesopotâmia após as conquistas de Alexandre e ficaram sob a influência dos astrólogos locais.

Dois astrólogos que residiam na Babilônia foram mencionados mais tarde pelos gregos como Cidenas (Kidinnu) e Naburianos (Nab-rimannu). O fato de os astrólogos mesopotâmios terem se tornado destacados e influentes na Grécia no século IV a.C. é atestado pela conhecida dispensa de Eudoxo:

"Nenhuma confiança deve ser depositada nos astrólogos caldeus quando professam o futuro de um homem através da posição das estrelas no dia do seu nascimento."2 Do período da regência selêucida grega na Mesopotâmia (353 a.C. a 42 d.C.) chegam as primeiras representações conhecidas das figuras e constelações zodiacais. Elas representam o boi como Touro, Virgem como uma mulher segurando espigas, Leão e Júpiter como uma estrela de oito pontas.3

Os gregos adotaram muitos conceitos da astrologia dos caldeus, mas
fizeram melhorias. Aplicando sua matemática, eles a tornaram uma
disciplina muito mais sistemática. Com uma estrutura de mente mais
filosófica, os gregos não se contentavam simplesmente em observar e registrar o movimento dos corpos celestes; queriam também saber por que os planetas se moviam de determinada forma. E sua preocupação com o indivíduo provocou uma mudança da astrologia mundana, que lidava com os fatos e as nações, para os horóscopos natais que representavam o caráter e o destino da pessoa.

Um ponto fundamental para a disseminação da astrologia da Mesopotâmia para o Ocidente foi a ilha grega de Cós, onde Hipócrates estabelecera sua escola de medicina. Após 281 a.C. o Sacerdote Berosus, da cidade de Bel, na Babilônia, se estabeleceu na ilha, levando consigo o conhecimento acumulado da astrologia de milhares de anos. Sua reputação quanto às previsões cresceu a tal ponto que os atenienses erigiram uma estátua em seu louvor. Plínio, o Velho, também comentou que ele dizia que as observações na Caldéia (Babilônia) tinham sido realizadas há 490 milanos.4

Vitruvius, escritor romano do século I a.C. em seu tratado sobre a
arquitetura, reconheceu a importância de Berosus ao levar a astrologia natal
para a Grécia:
A astrologia no mundo * 281
Deve ser admitido que nós agora sabemos quais efeitos os 12 signos, e o
Sol, a Lua e os cinco planetas exercem no curso da vida humana, através
da astrologia e dos cálculos dos caldeus. Pois a arte genetlialógica é
certamente deles, por intermédio da qual são capazes de desvendar o
passado e os eventos futuros pelos seus cálculos astronômicos. E muitos
vieram daquela raça de caldeus para nos deixar suas descobertas que
são repletas de precisão e conhecimento. O primeiro foi Berosus, que se
estabeleceu na Ilha de Cós e ali ensinou, e depois dele o erudito
Antipater, e depois Aquinapolus, que entretanto estabelecia os seus
cálculos genetlialógicos não a partir da data do nascimento, mas do
momento da concepção.5
Os Estóicos
O período imediatamente após as campanhas de Alexandre viu a astrologia
ficar sob a influência do estoicismo. O movimento foi fundado pelo sírio
Zênon que foi para Atenas em 313 a.C. e morreu em 264 a.C. Ele fundou
uma escola em Stoa Poikile (Coluna do Pórtico), daí o nome de "estóico". Os
estóicos, que estavam entre os maiores lógicos e físicos do seu tempo,
integraram totalmente a astrologia em seu sistema. Mantiveram a tradição
platônica de um sistema de mundo esférico, com a Terra no centro do
universo e os corpos celestes movendo-se em torno dela em movimentos
circulares. Reafirmaram também a crença de Platão de que os céus
revelavam a presença divina e que os deuses habitavam os planetas.
A cosmologia dos estóicos não é materialista nem idealista; não faziam
distinção entre matéria e espírito. Deus é imanente em todo o universo como
logos. O universo é também permeado por uma forma de energia que
chamavam de pneuma ("alento morno"), uma noção similar ao chi chinês e
ao prana indiano. Tudo no universo funciona de acordo com as mesmas leis
universais. Como resultado, tudo está unido por um tipo de afinidade
cósmica: uma mudança em uma parte afeta todas as outras partes. Mentes e
corpos são feitos do mesmo material e o homem é um microcosmo do
macrocosmo, um universo em miniatura.
O ensinamento dos estóicos influenciou a astrologia em vários pontos
importantes. Primeiro, como tudo estava inter-relacionado por afinidade e
era governado pelas mesmas leis, seguia-se que tudo que acontecia nos céus
inevitavelmente afetaria o que acontecia na Terra e vice-versa. Segundo, os
estóicos assumiram a idéia da antiga Mesopotâmia da eterna recidiva
baseada na natureza cíclica do universo. Supunham que o Grande Ano
terminaria com uma conflagração cósmica (ekypyrosis, um "incêndio"),
quando todos os
282 * Peter Marshall
planetas voltariam ao mesmo ponto na longitude e latitude onde estavam
quando o cosmo foi formado pela primeira vez. Como uma fênix, o fogo
continha em si os quatro elementos a partir dos quais um novo universo
poderia nascer. Tudo seria exatamente o mesmo (o ser viveria de novo,
embora talvez não tivesse as mesmas marcas na próxima vez). Terceiro:
talvez inspirados pelo novo contato com povos diferentes na Ásia, advogavam
uma comunidade mundial baseada na fraternidade dos homens.
A crença dos estóicos de que o indivíduo poderia ser o mestre da sua
própria vida encorajou a mudança da astrologia mundana para a astrologia
natal, na qual o horóscopo capacita o indivíduo a compreender seu destino e o
ajuda a se libertar dele. Mas como seria isso se o que acontecia não podia
ocorrer de outra forma? Uma crença estóica na lei universal não significa
necessariamente que não temos livre-arbítrio. É possível escolher a forma de
agir, ou de não agir. Contudo, significa que, se seguirmos contra a natureza,
inevitavelmente sofreremos desapontamentos, enquanto, se agirmos em
harmonia com ela, com certeza atingiremos o contentamento. A qualidade da nossa vida está portanto em nossas mãos. O estoicismo partilha com o taoísmo o desejo de atingir um estado ideal de auto-suficiência, de modo que nada possa perturbar a paz da mente. Isto é conseguido com mais facilidade se vivermos de acordo com a natureza.

Astrônomos Matemáticos

Enquanto isso, a astronomia matemática grega, que tinha se iniciado com o
Êxodo no século IV a.C. atingiu seu zênite nos séculos III e II no mundo
helênico. Herakleides (morreu em 310 a.C.) tinha desenvolvido o trabalho de
Filolau e propôs o que chamou de sistema "egípcio". Ele ainda imaginava que
a Terra estava no centro do universo, mas que girava sobre seu próprio eixo,
causando o movimento diário dos céus. Marte, Júpiter e Saturno orbitavam a
Terra, mas para explicar as órbitas erráticas de Mercúrio e Vênus ele
sugeriu que eles orbitavam o Sol.
Foi necessário somente um pequeno passo para Aristarco (310 a.C.) levar
adiante a idéia revolucionária de que a Terra e todos os planetas orbitavam o
Sol. A bela simplicidade desta teoria explicou de uma só vez o antigo
problema das órbitas erráticas dos planetas. Porém, graças à influência
dominante de Platão e de Aristóteles, o conceito de um universo geocêntrico
permeou a Europa entre a maioria dos astrônomos até o século XVII, e
continua a ser o modelo simbólico dos astrólogos modernos.
O último grande astrônomo grego foi Hiparco, cerca de 190-120 a.C. Ele
concebeu as coordenadas de latitude e longitude utilizadas para mapear os
céus e também a Terra.

283

A ele também é creditada a "descoberta" da precessão dos equinócios mas,
como vimos, é provável que os mesopotâmios e os egípcios já tivessem
trabalhado com este conceito. Entretanto, ao chamar a atenção para o
movimento do ponto vernal pelas constelações, ele precipitou separação
entre o uso do zodíaco sideral baseado nas constelações e o uso do zodíaco
tropical ligado às estações.
Enquanto os astrólogos no Oriente continuaram a usar o primeiro, os
astrólogos árabes e europeus optaram pelo último. O resultado é que,
atualmente, o equinócio vernal não nasce no início de Áries, como acontecia
na época de Hiparco, mas em Peixes. A última utilização do zodíaco sideral
na Europa foi em Constantinopla, no século VI d.C.
Escrita Hermética
No século I, a cidade de Alexandria na orla do Mediterrâneo tornou-se o
centro astrológico de todo o mundo helênico. Era um local de mesclagem
intelectual, onde o Oriente encontrava o Ocidente, onde a Europa encontrava
a África e onde os sacerdotes egípcios discutiam religião e filosofia com
gregos, romanos, sírios, persas e judeus entre outros. O deus egípcio da
sabedoria, Thoth, era chamado de Hermes pelos gregos, e os astrólogos que
escreviam em grego cultivavam deliberadamente um estilo "hermético" e
reivindicavam deter o conhecimento dos escritos herméticos. Viam a si
mesmos como parte de uma longa tradição de sabedoria antiga que poderia
ser remontada até o Reino Antigo do Egito antigo.
A literatura hermética surgiu durante a era ptolomaica no Egito
"helenizado", após a conquista de Alexandre. Os ptolomeus falavam grego,
mas adotavam os costumes e crenças locais. Os primeiros colonizadores
gregos que chegaram depois de Alexandre ainda identificaram os deuses
egípcios com os seus, não somente Thoth com Hermes, mas Osíris com
Dioniso, Ísis com Ceres, Perséfone com Atena e Hórus com Apoio. Associaram
também Ísis com Tiche, a deusa da fortuna. Ela não representava o destino
implacável, mas o tipo de destino que poderia ser alterado pelo conhecimento
prévio.
Os primeiros textos verdadeiramente astrológicos são do Egito helênico e
são escritos em grego. Um dos escritos mais importantes — o
Salmeschiniaka — só existe em fragmentos. Vários outros fragmentos estão
escondidos em 12 volumes do Catalogus Codicum Astrologorum Graecorum
(Bruxelas, 1898-1936). No meio da literatura que sobreviveu, os horóscopos
são raros. O primeiro horóscopo preservado em um texto
284 * Peter Marshall
literário trata de um nascimento em 72 a.C. enquanto o primeiro horóscopo
em papiro lida com um nascimento em 10 a.C.6
Os astrólogos também se aproveitaram dos escritos dos lendários
egípcios Petosiris e Nechepso, que diziam ter recebido seu conhecimento de
Hermes. As revelações de Nechepso e Petosiris foi um manual popular de
astrologia, provavelmente escrito em Alexandria por volta de 150 a.C.
Petosiris representa o prestígio dos sacerdotes egípcios; sua tumba,
anterior a 341 a.C. tornou-se o centro de um culto. Nechepso (663-522 a.C),
rei da 26a dinastia, simboliza a sabedoria dos faraós. Seus supostos
trabalhos existem somente em fragmentos e em citações mencionadas por
escritores posteriores. Eles revelam uma preocupação com os presságios
astrais (incluindo os eclipses e o nascer helíaco de Sirius) e também com os
horóscopos (com referências ao método de calcular a extensão da vida, os
períodos bons e maus na vida baseados nos períodos planetários e a
descoberta do regente do ano). Plantas e pedras eram associadas a certas
influências astrais. Reivindicavam também que o signo onde a Lua se
encontrava no momento da concepção seria o Ascendente no mapa natal.
Segundo Firmicus Maternus, astrólogo do século IV, Nechepso e Petosiris
ganharam de Hermes a doutrina do horóscopo mundial, conhecido como
thema mundi.7
Vários escritos astrológicos foram atribuídos a Hermes. Enquanto eles
eram considerados pelos primeiros estudiosos como fundamentalmente
gregos, a descoberta da biblioteca de Nag Hammadi no Alto Egito, em
1945, que continha escritos herméticos e gnósticos, sugere que a literatura
hermética era uma fusão do modo de pensar egípcio com o grego. O texto
estava em copta, isto é, a língua egípcia escrita no alfabeto grego.
A autêntica voz do hermetismo chegou pela seguinte passagem:
A ordenação dos corpos celestes é superior àquela do nosso mundo
embaixo. É imóvel por todo o sempre, e transcende a compreensão
humana. E por isso o mundo inferior foi tomado pelo medo e anseia
diante da beleza extraordinária e estabilidade eterna das coisas acima
(...) os mistérios se moveram várias vezes nos céus segundo os
movimentos fixos e períodos de tempo, ordenando e nutrindo o reino
inferior através de determinadas emanações secretas.8
A tradição hermética foi considerada tanto mística quanto secreta.
Clemente de Alexandria argumentou que o ensinamento da sabedoria do
Egito era ocultado dos profanos e somente revelado aos puros e dignos:
A astrologia no mundo * 285
Razão pela qual, de acordo com o método de ocultação, a Palavra
verdadeiramente sagrada, verdadeiramente divina e muito necessária
para nós, depositada no altar da verdade, foi pelos egípcios indicada pelo
que foi chamado entre eles de adyta [o Sagrado entre os Sagrados], e
entre os hebreus de o véu. Somente os consagrados — isto é, aqueles
devotados a Deus, circuncidados no desejo das paixões pelo bem do amor,
pois somente ele é divino — foram permitidos ter acesso ao santuário.
Pois Platão também pensou que não era legítimo para "os impuros tocar o
puro". Por isso as profecias e oráculos são falados em enigmas, e os
mistérios não são exibidos incontinentimente a todos, mas só após certas
purificações e instruções prévias.9
Em um trecho de escritos herméticos, Firmicus Maternus confirma o segredo
da ciência sagrada guardada pelos sacerdotes dos templos egípcios: "No
momento da minha revelação dos augustos segredos desta doutrina, segredos
que os antigos divinos comunicaram somente com temor, e os quais
envolveram em profunda escuridão, temerosos de que a ciência divina, uma
vez trazida para a luz do dia, seria conhecida pelos profanos."1" Acreditava-se
que o segredo era necessário para evitar que o poderoso conhecimento fosse
mal utilizado ao cair em mãos erradas.
Qual foi a mensagem escondida dos escritos herméticos que emergiu na
Alexandria? Eles ofereceram um caminho para a iluminação, um método de
salvação por meio do conhecimento, ou gnosis. Os escritos principais são o
Corpus Hermeticum, escrito originalmente em grego, e o latino Asclepius
(conhecido também como Hermética), e também a antologia de Estobeu. Eles
continham material tanto filosófico quanto técnico — juntamente com magia, detalhes técnicos da astrologia eram tidos como um prelúdio apropriado para a gnose.

A antologia de Estobeu menciona especialmente os decanos e seus "filhos",
os "demônios" que habitam as estrelas. Eles descrevem as funções da alma à
luz das suas origens astrais, e também as diferenças entre as almas
personificadas, causadas por suas constituições astrológicas e elementares. A
citação mais longa, o Kore Kosmou (Filha do Cosmos), afirma que "nenhum
profeta que ouse levantar as mãos para os deuses jamais ignorou qualquer
dessas coisas que existem, de que a filosofia e a magia podem nutrir a alma e
a medicina curar o corpo".11

Qual é o ensinamento hermético a respeito da astrologia? Ele insiste que
"o divino é a combinação total da influência cósmica renovada pela natureza". Não foi deus, mas um artífice criado por deus que montou os corpos celestes: "A mente que é deus, sendo andrógina e existindo como vida
e luz, pela fala deu à luz uma segunda mente, um artífice que, como deus do
fogo e do espírito, criou sete governantes; eles englobam o mundo sensível em círculos e seu governo é chamado de destino.

286

"12 Os "sete governantes" são, naturalmente, os cinco planetas e os dois luminares, Sol e Lua. Os deuses são visíveis sob a forma de estrelas e todas as suas constelações.


Em uma passagem a respeito do renascimento, Hermes diz a seu filho Tat que a "tenda" do corpo foi feita do círculo zodiacal.13 Em outra passagem, o artífice (criado pelo deus superior) é o Sol e o cosmo o instrumento da sua arte. Na ordem decrescente da Cadeia do Ser, o céu governa os deuses, enquanto os "demônios", nomeados pelos deuses, governam os humanos. Cada estrela possui um demônio e segue suas ordens. 


Parece que os demônios agiam como anjos da guarda, mas eles eram bons ou maus ou de uma natureza mista segundo suas energias, pois a energia é a essência de um demônio e "as energias são como raios de deus".14


Os demônios ganharam autoridade sobre a Terra e causam mudanças nas
cidades, nações e também nos indivíduos. É o Sol que organiza as tropas de
demônios sob os regimentos das estrelas — os raios do Sol são uma
manifestação de heka, o poder mágico que energiza o universo. Sua presença
explica também a importância do horóscopo na determinação do caráter e
destino de uma pessoa:


Os demônios que estão de prontidão no momento do nascimento, ordenados sob cada uma das estrelas, tomam posse de cada um de nós quando passamos a existir e recebemos uma alma. De momento a momento eles mudam de lugar, e não permanecem na mesma posição por causa do movimento de rotação. Aqueles que penetram através do corpo em duas partes da alma torcem a alma, cada uma em torno da sua própria energia. Porém, a parte racional da alma permanece sem
domínio dos demônios, apropriada para ser um receptáculo para deus (...) Portanto, com nossos corpos como seus instrumentos, os demônios governam este governo terreno. Hermes chamou este governo de "destino".15


Para mim isto explica belamente a maneira como a influência das estrelas penetra com a nossa alma em nosso corpo no nascimento ou concepção (inclino-me para este último). Mostra também como escapar do nosso destino usando a "arte racional" — não a razão como ferramenta analítica, mas a razão como parte sublime da nossa formação que nos capacita para atingir a salvação através da gnose.
Também reconhecido na Hermética é Esculápio, que cedeu o nome ao
tratado em latim. O Esculápio egípcio era Imhotep, um oficial da terceira
dinastia cuja reputação como arquiteto, curador e astrólogo era tão grande
que foi deificado por gerações posteriores como filho de Ptah e filho divino do
próprio Thoth. Em Alexandria, uma estátua o representa com roupas gregas
e o babuíno sagrado de Thoth. O povo de fala grega do
A astrologia no mundo * 287
Egito identificava Imhotep com Esculápio, filho de Apoio e deus da cura.
Seus atributos eram o cajado do viajante e a serpente do rejuvenescimento.
Em uma discussão sobre o motivo de a humanidade ter uma forma só
enquanto cada indivíduo humano é diferente, Hermes diz a Esculápio que:
É impossível para qualquer forma estar em grande similaridade com
outra em pontos distantes de tempo e latitude. As formas mudam com a
mesma freqü.ncia que a hora possui os momentos no círculo móvel onde
deus reside, a quem temos chamado de Omniform. A classe persiste,
procriando cópias freqüentes de si, tantas e tão diversas quantas a
rotação do mundo possui seus momentos. A medida que ela gira, o
mundo muda; mas a classe não muda nem gira. Então, as formas de
cada um persistem, embora dentro da mesma forma existam diferenças.16


A passagem é obscura, porém repleta de referências à astrologia hermética.
Enquanto o horóscopo fornecia o destino do indivíduo, acreditava-se que a
"latitude" modelava o destino dos povos e das nações. Os demônios que regiam as sete zonas celestes estavam associados às sete regiões geográficas definidas pela latitude. O "círculo que gira" é o zodíaco. Seu deus Omniform produz as formas dos humanos por intermédio de 36 decanos, três de cada um residindo em cada signo do zodíaco. Os "momentos" referem-se às estrelas que regem cada um dos 360° do círculo do zodíaco; portanto, nenhum instante do tempo existia sem que um deus o presidisse.

26

A Poesia das Estrelas

Por que maravilhar-se com o fato de o homem conter o céu, quando o céu
existe em seu próprio ser e cada um é, em uma escala menor, uma semelhança da imagem do próprio Deus?
MANILIUS


Após a derrota de Cleópatra em 30 a.C, o Egito tornou-se parte do império 
Romano, porém Alexandria permaneceu como um centro cosmopolita de
aprendizagem. Os romanos respeitaram a cultura local e os sacerdotes egípcios continuaram a escrever em copta e os filósofos em grego. O templo de Dendera, por exemplo, foi finalmente terminado na época do imperador romano Augusto (30 a.C.-14 d.C). Como um símbolo da continuidade, uma "casa de nascimento" — um santuário dedicado ao nascimento de um faraó —, foi construído no mesmo local de templos antigos sob o comando de Nero, com relevos adicionados pelos troianos e hadrianos no século II d.C. Os imperadores romanos sem qualquer dúvida valorizavam e respeitavam a ciência sagrada do Egito e desejavam reconhecê-la como parte de sua própria tradição. Alexandria permaneceu como principal centro de astrologia em todo o Império Romano e vários imperadores romanos consultaram astrólogos egípcios.


Os signos do zodíaco apareciam regularmente nos caixões do Egito romano. No Museu Britânico existe uma bela pintura da deusa do céu, Nut, rodeada pelos signos do zodíaco, no interior do caixão de madeira pintado de Sóter de Tebas, datando do século I d.C. Papiros mágicos greco-romanos também incluem listas do tipo de magia que funcionaria melhor sob cada signo estelar. As energias das estrelas individuais continuaram a ser ligadas a partes do corpo humano, plantas e pedras preciosas.

290

O verdadeiro início da astrologia em Roma permanece obscuro, mas parece ter chegado à cidade por meio do aprendizado grego do século III a.C.
em diante. A influência da Mesopotâmia também foi sentida: Cato,
escrevendo um tratado sobre lavoura em 160 a.C. avisa que um bom
supervisor não deve consultar os videntes caldeus. Por volta de 138 a.C.
durante um período de agitações, a astrologia foi vista como uma ameaça, o
que bastou para os astrólogos serem expulsos de Roma e da Itália romana.
O historiador Plínio, o Velho, chamava o escravo Manilius Antioco de
"fundador da astrologia em Roma".1 Entretanto, foram os filósofos estóicos
gregos que a tornaram primeiramente respeitável. O filósofo Posidônio, cerca
de 135-50 a.C. que possuía uma esfera armilar, exerceu influência decisiva
sobre a elite culta em favor da astrologia. Provavelmente de origem síria, ele
racionalizou a divinação para as classes superiores romanas.
Cícero (106-43 a.C.) esteve presente em algumas conferências de
Posidônio. Embora não tivesse sido persuadido, registrou com precisão as
crenças dos astrólogos da época:
Eles dizem que um círculo estrelado, que os gregos chamam de zodíaco,
contém tal poder que cada parte separada do círculo move e muda o céu
de maneira diferente, segundo as posições das estrelas nestas e nas
regiões vizinhas a qualquer tempo; e eles dizem que o poder é modificado
pelos planetas, seja quando entram naquela parte do círculo que contém
o nascimento de alguém ou naquela parte que possui alguma
familiaridade ou harmonia com o signo do nascimento — eles chamam
isso de triângulos e quadrados (...) Acham que não somente é plausível,
mas também verdadeiro que de alguma forma a atmosfera é modificada
para que os nascimentos dos filhos sejam animados e formados, e por
esta força são moldadas suas mentalidades, hábitos, mente, corpo, ação,
sorte na vida e experiência.2
Em sua obra República, Cícero desenvolveu sua crença na religião estelar em
uma versão latina do mito faraônico conhecido como O sonho de Scipio. "Os
humanos", ele declarou, "foram dotados de almas feitas de fogos
imorredouros chamados estrelas e constelações." Em sua visão, o caminho de
volta para a "habitação para toda a eternidade", particularmente nas
constelações da Via Láctea, era através do serviço desinteressado pelo país
natal.3
Durante o período da república romana, havia divinadores do Estado
conhecidos como haruspisces, eram devotados a interpretar os presságios. Os
senadores formavam o
A astrologia no mundo * 291
colégio dos augúrios, buscando os presságios em pássaros e nos guardiões de
livros da profecia sibilina. Mas a astrologia emergiu com um florescimento
no século I d.C. com a fundação do Império Romano. Contudo, nem todos
ficaram impressionados com o novo interesse pela astrologia. Plínio, o Velho,
lamentou: "A mais fraudulenta das artes [magia] permeou o mundo inteiro
por várias eras (...) tendo sucesso [com a medicina] adicionando a astrologia
porque não existe qualquer um que não tenha interesse em saber sobre o
seu destino ou que não acredite que o mais verdadeiro relato dele seja obtido
por meio da observação das estrelas."4
Suetônio, o cronista da vida dos Césares, registra as profecias feitas para
todos os imperadores. Diz ele:
Em Apolônia, Augusto e Agripa visitaram juntos a casa de Teógenes, o
astrólogo, e subiram as escadas até o seu observatório; ambos
desejavam consultá-lo a respeito de suas futuras carreiras. Agripa foi
primeiro e ouviu a profecia da sua quase incrivelmente boa sorte,
enquanto Augusto, esperando uma resposta bem menos encorajadora,
sentiu receio em revelar o momento do seu nascimento. Quando, enfim,
após muita hesitação, suplicou murmurando a informação pela qual
ambos o pressionavam, Teógenes levantou-se e voou até seus pés; e isto
deu a Augusto uma fé tão implícita em seu destino que até se aventurou
em publicar seu horóscopo, e lançou uma moeda de prata com o
Capricórnio, o signo sob o qual nascera.5
Augusto adotou o Capricórnio como emblema pessoal. Como era o signo no
qual o Sol começa a subir após o solstício de inverno, ele o apresentou como
o signo de uma nova era após as guerras civis romanas.
Outro entusiasta imperial foi Septimius Severus, que lançou mão da
astrologia para legitimar sua regência. Teve seu horóscopo traçado no teto
das salas do seu palácio, mas foi cuidadoso ao fazer com que seu Ascendente
fosse colocado em um local diferente em cada sala para que ninguém
pudesse fazer seus próprios cálculos, particularmente sobre o momento da
sua morte!
As mulheres do Império Romano se sentiam particularmente atraídas
pela astrologia. O satirista romano Juvenal, cerca de 60-140 d.C, ofereceu
um retrato do freqüentador de astrólogos que hoje é logo reconhecido:
292 * Peter Marshall
Sua esposa, sua Tanaquil,
Sempre consulta essa tradição. Por que sua mãe,
dominada pelo ciúme, está a tanto tempo morrendo? Quando ela se despedirá de
sua irmã ou de seus tios? (Ela fez todas as perguntas a seu respeito algum tempo
atrás.) Seu amor atual
Sobreviverá a ela? (Que favor maior poderia ela pedir aos Deuses?)
Embora pelo menos ela não possa dizer o que a sombria
Conjunção de Saturno pressagia, ou sob qual constelação
Vênus estará mais propícia; quais meses trarão perda, quais trarão ganhos.
Quando você encontrar essa mulher, agarrada aos seus almanaques
Muito folheados como uma corrente de contas de âmbar gastas,
Deixe bem claro para ela. Ela não está especulando
Em busca de um bom conselho; ela mesma é especialista...
Quando deseja sair da cidade, em até um quilômetro, ou menos,
Encontra um momento propício em suas tabelas. Se ela esfrega
Um canto do olho, e ele coca, ela não deve nunca
Colocar ungüento sem primeiro consultar o seu horóscopo; se
Estiver doente na cama, ela somente se alimentará
Nos momentos em que Petosiris, o egípcio, recomendar.6
Astronômica de Manilius
Foi durante os reinados de Augusto e Tibério que a astrologia moderna
assumiu sua forma reconhecível. O primeiro tratado astrológico conhecido
é o poema latino Astronômica de Manilius. Escrito no início do século I d.C,
seus cinco livros foram dedicados ao Imperador Augusto. Eles foram
estimulados por uma retórica apaixonada de fatalismo que revela as
crenças estóicas do poeta. No início vislumbramos o reconhecimento do
legado das "nações obscuras" dos babilônios e dos egípcios e ele chama o
deus de Cilene (Mercúrio, o mesmo Hermes grego e o Thoth egípcio), o
"primeiro fundador desta grande e sagrada ciência".7
Em seu relato dos fenômenos celestes, Manilius apresenta a Terra como
uma esfera composta de quatro elementos no centro do universo. As
estrelas eram fogos que revestiam o telhado do universo, que era sagrado e
permeado pelo espírito formando um todo harmonioso em suas diversas
partes:
A astrologia no mundo * 293
Este tecido que forma o corpo do universo ilimitado, juntamente com seus
membros compostos dos diversos elementos da natureza, ar e fogo, terra
e o mar da superfície, é regido pela força do espírito divino; pela isenção
sagrada a deidade traz harmonia e governa com propósito escondido,
arrumando elos mútuos entre todas as partes, de modo que cada uma
possa suprir e receber a força da outra e que o todo possa permanecer
firme em afinidade, apesar da variedade de suas formas.8
Na Terra, tudo estava mudando continuamente, porém o céu permanecia o
mesmo. Deus e a "razão que a tudo controla" criaram os seres terrenos dos
signos do céu. Deus obrigou o reconhecimento das influências das estrelas
distantes, de modo que essas deram aos povos suas vidas e destinos e a cada
homem seu próprio caráter.
O estóico Manilius lamentou a insensatez dos seres humanos que
passavam suas vidas preocupando-se e atormentando-se com medos e desejos
sem sentido, gastando-as em busca de ganhos: "Cada um é o mais pobre em
posses porque busca mais: ninguém considera as bênçãos, mas somente os
luxos que lhes falta." As pessoas deveriam conseguir compreender que nada
podiam fazer a respeito de seus destinos, pois eles estavam escritos nas
estrelas. Em espírito verdadeiramente estóico, exclamou: "Libertem suas
mentes, ó mortais, livrem-se das suas preocupações soltem suas vidas de
todas essas queixas vãs! O destino rege o mundo, todas as coisas estão
fixadas por leis imutáveis, e as grandes eras estão reguladas por um curso
predestinado dos eventos. Ao nascer, nossa morte está selada, e o nosso fim é
conseqüente ao nosso início."9
No primeiro livro da sua Astronômica, Manilius descreve os signos do
zodíaco com um estilo característico:
Resplandecente em sua face dourada, o Carneiro (Áries) abre o caminho e
olha para trás maravilhado com a chegada do Boi (Touro), que com a face
e torso abaixados convoca os Gêmeos; a estes segue o Caranguejo
(Câncer), e o Leão ao Caranguejo, e a Virgem ao Leão. Depois a Balança
(Libra) equilibra a luz do dia com a extensão da noite; puxa o Escorpião,
ansioso com sua constelação cintilante em cuja cauda o homem com corpo
de um cavalo (Sagitário) visa com um arco retesado uma flecha alada,
sempre pronta a disparar. Em seguida vem o Capricórnio, enrolado
dentro do seu asterismo comprimido, e depois dele, com um vaso virado
para baixo, o Aguadeiro (Aquário) verte a água necessária aos Peixes,
que nadam ligeiro nela; e desta forma chegamos à retaguarda dos signos
que são reunidos pelo Carneiro.10
O segundo livro focaliza as características dos signos do zodíaco. Manilius
menciona as partes do corpo associadas aos signos do zodíaco e como as
plantas e pedras associadas
294 * Peter Marshall
aos planetas podem se usadas para a cura. Ele trata também do chamado
dodecatemoria (dodeca é a palavra grega para 12; morion, para parte). Este
se refere às 12 partes dos signos de 30° do zodíaco. Cada dodecatemório
consiste de 2,5° e está alocado em um signo na mesma ordem do zodíaco.
Desta forma, as interpretações tornam-se mais sutis e complexas. Enquanto
um planeta poderá estar no signo de Leão, seus dodecatemórios poderão
estar em Sagitário, dependendo portanto de análise. Manilius considera os
dodecatemórios zodiacais — isto é, a divisão por 12 dentro de cada signo
distribuídos para signos diferentes —, como também os dodecatemórios
planetários, dos quais cinco, consistindo de um grau destinado aos planetas,
formam cada dodecatemório zodiacal.
A divisão do horóscopo em quatro pontos conhecidos como quadrantes é
também explicado. Estes eram chamados de cardines em latim. O primeiro e
mais importante é o ponto da eclíptica (o grau ou signo do zodíaco) que está
surgindo no horizonte no momento em questão, conhecido em latim como
horoscopus ou ascendens e agora chamado de Ascendente (muitas vezes
abreviado como ASC). O segundo ponto, onde o meridiano (o arco da
longitude que passa sobre o zênite do observador) corta a eclíptica (isto é, o
ponto culminante acima da sua cabeça) é o Meio do Céu, ainda conhecido pelo
nome latino de Médium Coeli (MC). O terceiro é o ponto de ocaso do
Ascendente, conhecido como Occasus ou Descendente (DESC). E o quarto,
que está diretamente oposto ao segundo (onde a outra metade do meridiano
corta a outra metade da eclíptica), ainda é conhecido pelo nome latino de
Imum Coeli (Fundo do Céu — IC).
Foram, provavelmente, os astrólogos egípcios que inspiraram a divisão do
horóscopo em quadrantes. O Sol é forte e jovem no Leste, atinge seu poder
máximo no Meio do Céu e declina em idade e fraqueza no Oeste. Esta é a
viagem diária do deus sol Ra pelo céu que espelha claramente nossa viagem
sobre a Terra. Aplicada à vida humana, não surpreende que o primeiro
quadrante, do ASC ao MC, deva reger a juventude da pessoa; o quadrante
seguinte, a meia-idade; o terceiro, a velhice; e o quarto, a velhice extrema e a
morte.
Foi um pequeno passo até a próxima divisão de cada um dos quadrantes,
de modo que cada ponto cardeal tivesse duas Casas. Uma área particular da
vida humana, como o casamento, filhos, trabalho ou saúde, foi destinada a
cada uma das oito Casas. Sem dúvida influenciado pelo número de signos no
zodíaco, a mudança seguinte foi projetar um sistema de 12 Casas, cada uma
com um espaço igual sobre a eclíptica. Isto deve ter sido fácil, já que os
diagramas antigos dos horóscopos eram quadrados, como ainda existe na
Índia. A posição das Casas em torno da eclíptica era determinada — e ainda
é — pelo Ascendente. O signo do zodíaco que corresponde à Casa depende
desta forma do tempo e lugar do horóscopo. O zodíaco, então, revolve dentro
da estrutura das Casas.
A astrologia no mundo * 295
Manilius define o significado das 12 hei (Casas), de maneira a refletir os
aspectos da vida considerados mais importantes na época: 1 — lar e
propriedade; 2 — guerra e viagem; 3 — negócios e vida social; 4 — lei; 5 —
casamento e amizades; 6 — condições e prosperidade; 7 — perigos; 8 — classe
e reputação; 9 — filhos; 10 — modo de vida e caráter; 11 — saúde e doença; e
12 — sucesso para atingir os objetivos.
O terceiro livro do trabalho de Manilius se refere às 12 partes (sortes em
latim), os pontos do mapa natal que indicam áreas particulares da vida. A
mais importante ê a Roda da Fortuna (geralmente representada por uma
cruz dentro de um círculo), cuja posição determina as outras partes. Se o
nascimento ocorre durante o dia, a Roda da Fortuna é calculada pela medição
dos graus entre o Sol e a Lua e depois dispondo-se a mesma medida ao longo
do zodíaco a partir do Ascendente. Se for à noite, o procedimento é inverso,
contando da Lua para o Sol.
A Roda da Fortuna era chamada algumas vezes de "Horóscopo da Lua".
Outras partes foram desenvolvidas, como a Parte do Demônio, a Parte da
Necessidade e a Parte do Eros, porém havia com freqü.ncia uma confusão
considerável entre as partes e as Casas, com várias autoridades antigas
dando indicações diferentes. A Roda da Fortuna foi a única que sobreviveu.
O quarto livro da Astronômica de Manilius descreve os decanos, a divisão
tripla dos signos do zodíaco designados a planetas diferentes, que foi
adaptada pelos gregos a partir dos egípcios. Manilius então fez um mapa do
mundo juntamente com os regentes do zodíaco para cada região. O último
livro trata da paranatellonta, as estrelas que nascem e se põem ao mesmo
tempo em que as seções da eclíptica, porém ao Norte e ao Sul delas. Talvez
um tratamento das influências planetárias tenha ficado perdida. Enquanto
vários dos detalhes mais complicados como partes, dodecatemórios e
paranatellonta tenham sido subseqüentemente deixados para trás, os
elementos principais do trabalho de Manilius tornaram-se parte da astrologia
mais aceita.
O Fio d'Água Torna-se uma Corrente
Outro trabalho escrito no século I que foi descoberto recentemente é o de
Doroteu de Sidon. A princípio em grego, foi preservado em uma versão árabe
do século VIII feita a partir de uma tradução persa do século III. É um
tratado completo sobre astrologia, abarcando a astrologia horária e a natal.
Situando-se firmemente dentro da tradição hermética, Doroteu chamou a si
mesmo de Rei do Egito e dedicou seu livro a seu filho Hermes. Durante as
suas viagens ao Egito e à Babilônia, reivindicou ter reunido os melhores
296 * Peter Marshall
ensinamentos das primeiras autoridades. Seu quinto livro trata das
"interrogações" (katarchai), que dependem em sua maior parte do
Ascendente, da Lua e dos aspectos que fazem entre si. O capítulo sobre o
casamento e os sete capítulos que tratam da medicina são baseados
principalmente na Lua. Se a Lua estiver se afastando de Saturno, por
exemplo, indicará "uma febre que o acomete e um mal escondido por causa
da sua dieta".11
O gotejar da literatura astrológica logo se tornou uma torrente. Maneto,
em seu Prognósticos, utilizou Doroteu como fonte. Usando seu próprio
horóscopo datado de 27 de maio de 80, celebrou em verso "aquilo que o
Destino me garantiu ensinar, a sabedoria e a bela poesia das estrelas".12
Vettius Valens reuniu os novos trabalhos na sua Anthologies, que
continha cerca de 130 exemplos de natividades. Apesar de seu nome latino,
o autor veio de Antioquia, na Síria, e provavelmente residiu em Alexandria
durante o século II e escreveu em grego com alguma dificuldade. Menciona
com regularidade os "divinos egípcios" e com freqü.ncia se refere ao
trabalho de Nechepso e Petosiris, e ao lendário Livro de Hermes.
Pertencendo à tradição hermética, afirma que está revelando mistérios e
que o leitor deveria jurar não revelar os segredos a pessoas erradas. Seu
trabalho se tornou um dos textos antigos mais populares e foi muito copiado
mais tarde, muitas vezes com emendas e acréscimos.
Valens listou os quatro trígonos e ligou-os aos planetas e aos quatro
elementos como segue:
Trígono Planetas Elemento
Áries, Leão, Sagitário Sol, Júpiter, Saturno Fogo
Touro, Virgem, Capricórnio Lua, Vênus, Marte Terra
Gêmeos, Libra, Aquário Saturno, Mercúrio, Júpiter Ar
Câncer, Escorpião, Peixes Marte, Vênus, Lua Água
Como Doroteu, Valens enfatizou a necessidade do segredo: "Eu te suplico,
honorável irmão, e a todos os seres iniciados nesta arte sistemática,
aprendendo com a abóbada estrela dos céus, e o zodíaco, e o Sol e a Lua e os
cinco planetas e também com a presciência da sagrada Necessidade, de
manter todas estas coisas ocultas e de não partilhá-las com os não
instruídos, exceto aqueles que são dignos e capazes de guardar e recebê-los
corretamente."13
Fica claro com estas palavras que, por volta do século II d.C, as
principais coordenadas da astrologia já estavam estabelecidas. Foi deixado
para o autor grego Luciano de Samosata fazer a defesa mais clara da
astrologia:
A astrologia no mundo * 297
Se admitirmos que um cavalo a galope, um pássaro em vôo e homens
caminhando fazem pedras deslocar ou impulsionam pequenas partículas
flutuantes de poeira com a agitação do ar ao seu passar, por que negar que
as estrelas do céu exercem seu efeito? O menor dos fogos nos envia suas
emanações, e embora não seja para nós que as estrelas ardem, e pouco se
importam quanto aos avisos que nos enviam, por que não receber suas
emanações? A astrologia, é verdade, não pode tornar bom o que é mau.
Não pode afetar o curso dos eventos, mas serve àqueles que a cultivam
anunciando a eles grandes fatos que acontecerão: ela produz alegria com a
antecipação, ao mesmo tempo em que os fortifica contra o mal.14
Foi contudo Ptolomeu, escritor de língua grega, um dos pensadores mais
brilhantes na história da ciência, que reuniu o trabalho dos seus antepassados
para fornecer um relato definitivo da astrologia que se tornou a base da
tradição ocidental.

27
O
Ambiente
Para qualquer visão deve haver um olho adaptado para aquilo que existe para ser visto.
PLOTINO
NQUANTO PLATÃO FORNECEU A BASE FILOSÓFICA DA ASTROLOGIA, PTOLOMEU A
desenvolveu em um sistema que sofreu poucas mudanças subseqüentes
no Ocidente. Claudius Ptolemaeus, cerca de 100-178 d.C, nasceu em
Ptolemais no Egito, viveu em Alexandria e escreveu em grego. Ele é
lembrado pelo seu Almagest, que é uma exposição completa da astronomia
matemática e o clímax de séculos das cosmologias mesopotâmica, egípcia e
grega. Ainda na Renascença, seu nome continuava destacado na astronomia
e na geografia. Embora acreditasse firmemente que a Terra estava no centro
do universo, ele utilizou modelos excêntricos e epicíclicos para explicar o
comportamento errático observado dos planetas.
O volume que acompanha o Almagest é o Tetrabiblos (Quatro Livros),
que tem sido chamado de "Bíblia da astrologia". Ele fornece a orientação
fundamental, ao longo da qual foi desenvolvida grande parte da astrologia
ocidental. As visões de Ptolomeu sobre a natureza da causalidade
astrológica e as origens do caráter humano foram aceitas como princípios
básicos. A principal corrente da astrologia atual ainda é "totalmente
ptolomaica", como foi nos últimos dois milênios.1
Embora o Almagest trate do que chamamos atualmente de astronomia e
Tetrabiblos da astrologia, Ptolomeu viu as duas como partes da mesma
questão. Na verdade, as palavras astronomia astrologia continuaram a ser
usadas de modo mais ou menos indiscriminado até a Idade Média. Na
abertura do Tetrabiblos, Ptolomeu faz uma distinção entre dois meios de
previsão: "Um, que é o primeiro tanto em ordem quanto em eficácia, é
aquele por meio do qual apreendemos os aspectos dos movimentos do Sol, da
Lua e das
E
300 * Peter Marshall
estrelas e entre si em relação e à Terra, como ocorrem de tempos em tempos; o
segundo é aquele no qual, por meio do caráter natural destes próprios aspectos,
investigamos as mudanças que eles trazem para aqueles nos quais
circundam".2
O primeiro, naturalmente, é o que chamamos agora de astronomia e o
segundo, de astrologia. Para Ptolomeu, a astrologia era uma disciplina que
seguia com cuidado as regras desenvolvidas, mas, como a medicina, era
também uma arte de conjecturas que poderia levar a erros, causados pelo
número de variáveis envolvidas. Isto, talvez, tenha propiciado o surgimento de
inúmeros astrólogos charlatões, porém não quer dizer que o próprio assunto
não deve ser considerado: não desacreditamos da habilidade do piloto apesar
de seus erros. Ao mesmo tempo, Ptolomeu desejava explorar o assunto de
"maneira adequadamente filosófica''. Sem possuir a certeza de "ciência
invariável" da astronomia, a astrologia é o tipo de investigação que está
"dentro das fronteiras da possibilidade, quando fica evidente que a maioria dos
eventos de natureza geral deve suas causas aos céus que os revestem".3
Ptolomeu acreditava que um "ambiente", ou éter (o quinto elemento de
Aristóteles), permeava todo o universo. Mudanças no ambiente afetavam o
reino sublunar formado pelos quatro elementos, primeiro fogo e ar e depois
terra e água. Os elementos explicavam o papel benéfico e maléfico dos
planetas. As qualidades do calor e da umidade eram férteis e ativas, enquanto
as secas e frias eram destrutivas e passivas. A mistura dos elementos também
servia para classificá-los. A umidade era uma qualidade feminina, e portanto
Vênus e a Lua eram femininas, enquanto o Sol, Júpiter e Marte eram secos e
masculinos. Mercúrio, sendo seco e úmido, era hermafrodita.
Existia uma influência celeste contínua sobre os eventos terrestres. Para
fornecer evidências para o efeito dos corpos celestes sobre a Terra, Ptolomeu
mencionou as mudanças nas marés, as estações do ano e as alterações nos
animais e nas plantas. Se um homem podia prever o tempo atmosférico,
Ptolomeu perguntou: "Não poderá ele também, com respeito ao homem
individual, perceber a qualidade geral do seu temperamento a partir do
ambiente [cenário celeste] na época do seu nascimento?"4
A previsão por meios astronômicos era não somente possível, como também
benéfica: "Pois se observarmos os bens da alma, o que poderia ser um condutor
melhor para o bem-estar, prazer e satisfação geral do que este tipo de previsão,
através da qual obtemos uma visão total das coisas humanas e divinas?"
Fazendo eco aos sentimentos dos estóicos, Ptolomeu manteve que o
conhecimento prévio "acostuma e acalma a alma pela experiência dos eventos
distantes como se estivessem presentes e a prepara para receber com calma e
firmeza tudo que vier".5 Também nos capacitava a tomar medidas preventivas
"bem de acordo com o destino e a natureza", de modo que os eventos previstos
não ocorressem ou fossem pouco considerados. Podíamos, portanto, aliviar e
talvez até
A astrologia no mundo * 501
alterar nosso destino como indicado pelas estrelas ao nascimento. Além
disso, nem todas as coisas estavam sujeitas ao destino; o acaso também tinha
seu papel.
Enquanto o primeiro livro do Tetrabiblos trata dos signos, aspectos e
Casas, Ptolomeu inicia o segundo com a astrologia geral ligada a raças,
países e cidades. Com a sua tendência alexandrina, ele vê o Mediterrâneo
como o berço da civilização. Os gregos, estando sujeitos a Júpiter e Mercúrio,
são amantes da liberdade e do aprendizado. Por outro lado, a Grã-Bretanha,
a Gália (França) e a Alemanha, tendo mais familiaridade com Áries e Marte,
são "ígneas, mais voluntariosas e bestiais" que os europeus do Sul. Quanto
aos egípcios, que são mais chegados a Gêmeos e Mercúrio: "São pensativos e
inteligentes e têm facilidade com todas as coisas, especialmente na busca
pela sabedoria e religião; são magos e realizam os mistérios secretos e são
habilidosos com a matemática em geral."6 Em outro ponto Ptolomeu
reivindica que os egípcios uniram inteiramente a medicina à previsão
astronômica.
Considerando os poderes ativos dos planetas, Ptolomeu observa que
quando Saturno obtém um domínio único, isto em geral significa causa de
destruição pelo frio; Júpiter produz aumento em geral; Marte é o motivo da
destruição pela seca; Vênus exerce resultados similares aos de Júpiter,
porém com o acréscimo de uma "certa qualidade agradável". Mercúrio possui
o poder ativo do planeta que estiver associado a ele. Nas combinações, deve
ser considerada não somente a mistura dos planetas entre si, mas também
sua combinação com outros corpos celestes que partilham da mesma
natureza, sejam estrelas fixas ou signos do zodíaco.
Embora estivesse ciente da precessão dos equinócios, Ptolomeu, como os
astrólogos modernos do Ocidente, trabalhou com um zodíaco fixo e não com o
natural. Independente da constelação na qual ocorresse o equinócio vernal,
ele ficava simbolicamente a 0o de Áries, que é tido como o início do ciclo
zodiacal. Ele também dividiu o círculo em quadrantes iguais, definidos pelo
Ascendente, o Médium Coeli, o Descendente e o Imum Coeli. Não se
preocupou com o problema da desigualdade dos quadrantes causada pela
obliqüidade da eclíptica, e por isso não a mencionou.
No segundo livro, Ptolomeu trata do que chamou de "arte genetlialógica",
isto é, a arte do prognóstico ligada ao indivíduo. Ele define a arte como a
"observação científica" da mudança nas "naturezas subjetivas que
correspondem aos movimentos paralelos dos corpos celestes através dos céus
circunvizinhos".7 Insiste, contudo, que em todas as questões genetlialógicas
um destino mais geral, isto é, do país de nascimento, deve ter precedência
sobre as considerações particulares, como a forma do corpo, o "caráter da
alma" e as variações dos modos e costumes. Isto visava evitar uma
caracterização involuntária do etíope branco e de cabelo liso e dos gregos
"selvagens de alma e sem controle da mente".8
302 * Peter Marshall
Para ele as características gerais do temperamento de um indivíduo são
"determinadas" pelo "primeiro ponto inicial". Mas o que é este ponto inicial?
É o momento da concepção ou o momento do nascimento? Cronologicamente,
é o "momento verdadeiro da concepção, porém potencial e acidentalmente o
momento do nascimento". Se o primeiro puder ser determinado, será "mais
adequado" à determinação da natureza do corpo e da alma pelo exame do
"poder efetivo" da configuração das estrelas naquele momento: "Pois à
semente são dadas de uma só vez no início tais e tais qualidades pela dotação
do ambiente; e ainda que ela mude à medida que o corpo cresce, pelo processo
natural um se mescla com o outro no processo do crescimento só importando
o que é afim a si mesmo, lembrando portanto ainda mais intimamente o tipo
da sua qualidade inicial."9
O momento da concepção pode ser chamado de "gênese da semente
humana" e o momento do nascimento "gênese do homem". Mas, como é difícil
calcular o primeiro, Ptolomeu aceitou trabalhar com o último. Na verdade, a
maior preocupação dos terceiro e quarto livros do Tetrabiblos é o horóscopo
do nascimento como a origem da natureza humana. O signo no qual a Lua se
encontra no momento da concepção deveria ser o Ascendente; no caso do
nascimento, o Sol.
Em geral, os planetas determinam a aparência física dos indivíduos,
enquanto Mercúrio indica a "razão e a mente". Além disso, os signos que
contêm Mercúrio e a Lua, os planetas que os regem e seus aspectos com o Sol
contribuem muito para a "qualidade da alma", indicam a índole, o perfil
moral de uma pessoa. Em uma seção que trata das "doenças da alma" ou das
desordens mentais, ele sugere que se os planetas benéficos Júpiter e Vênus
exercerem alguma influência, as aflições poderão ser curadas. Com Júpiter, a
doença poderá ser curada com dietas ou drogas; com Vênus, com os oráculos e
a ajuda dos deuses.
Ptolomeu foi a fonte de grande parte da lista rebuscada dos traços de
caráter tão estimado pelos astrólogos que chegaram mais tarde. Temos a
seguir um discurso típico:
Aliado a Vênus em posições de destaque, Saturno torna seus súditos
inimigos das mulheres, amantes da antigüidade, solitários,
desagradáveis de encontrar, sem ambição, detestando o belo, invejosos,
rígidos nas relações sociais, nada amistosos, com opiniões fixas,
proféticos, inclinados à prática de ritos religiosos, amantes dos mistérios
e das iniciações, realizadores de ritos sacrificiais, místicos, viciados em
religião, mas dignos e reverentes, modestos, filosóficos, fiéis no
casamento, controlados, calculadores, cautelosos, rápidos em ficar
ofendidos e facilmente levados pelo ciúme de suas esposas. Em posições
contrárias a esta, ele os torna preguiçosos, lascivos, de ações básicas, sem
discriminação e sujos nas relações sexuais, impuros, enganadores de
mulheres.
A astrologia no mundo * 503
Resumindo, "trapaceiros que pararão por qualquer motivo!".10
Quanto à "perversão mórbida da parte ativa da alma", é preciso considerar
a relação entre o Sol e a Lua e a relação deles com Marte e Vênus. Se os
luminares não forem apoiados pelos signos masculinos, "os machos se
excederão no natural e as fêmeas se excederão na qualidade não natural". Se,
da mesma maneira, Marte ou Vênus, ou ambos, estiverem em um signo
masculino, os machos serão "adúlteros, insaciáveis e prontos em todas as
ocasiões para atos básicos e ilegais de paixão sexual, enquanto as fêmeas serão
libidinosas nos atos sexuais, lançando olhares convidativos, e são o que
chamamos tribades [traduzido como 'fêmeas pervertidas']; pois lidam com
fêmeas e realizam a função dos machos".11 Os homens podem vir de Marte e as
mulheres de Vênus, mas estes planetas deverão estar nos signos corretos se
eles quiserem ter uma vida sexual "normal".
No casamento, para os homens é necessário observar a posição da Lua em
seus genitores; quanto às mulheres, a posição do Sol. Se a Lua se relacionar
com planetas benéficos, os homens terão boas mulheres; se forem maléficos,
será o oposto. Se a Lua se ligar a Saturno, "ele tornará as esposas
trabalhadeiras e resistentes; Júpiter, dignas e boas administradoras; Marte,
brutas e indisciplinadas; Mercúrio, inteligentes e astutas". Além disso, Vênus
com Júpiter, Saturno ou Mercúrio as torna parcimoniosas e dedicadas aos
maridos e filhos, mas, com Marte, "facilmente tomadas pela raiva, sendo
instáveis e insensíveis". Da mesma forma, se o Sol formar aspecto com
Saturno, as mulheres se casarão com "maridos tranqüilos, úteis e
trabalhadores; se Júpiter estiver aspectado, eles serão dignos e magnânimos;
Marte, homens de ação, com falta de afeto e indisciplinados; Vênus, asseados e
bonitos; Mercúrio, parcimoniosos e práticos; Vênus com Saturno, preguiçosos e
fracos nas relações sexuais; Vênus com Marte, ardentes, impetuosos e
adúlteros; Vênus com Mercúrio, apaixonados por rapazes".12
Fiquei particularmente interessado no que Ptolomeu disse a respeito de
viagens ao exterior. Para descobrir sobre este assunto é preciso observar a
posição dos luminares em relação aos "ângulos", particularmente a Lua (o
maior viajante dos céus). Quando estiver saindo ou declinando nos ângulos,
isto é, quando a Lua estiver nas Casas 7, 3,6,9 e 12, ela pressagia grandes
viagens. Se Júpiter e Vênus forem os regentes das Casas que governam as
viagens, eles as tornarão seguras e agradáveis. Se Saturno e Marte
controlarem os luminares, e em particular se estiverem em oposição, eles
envolverão o assunto com grandes perigos: "por meio de viagens infelizes e
naufrágios se estiverem em signos de água, ou novamente viagens difíceis e
lugares desertos; e se estiverem em signos sólidos, por meio de quedas de
lugares altos e rajadas de ventos."13
No final do quarto livro, Ptolomeu faz um elo eloqüente entre os planetas e
as sete fases da vida do homem, que dependem da ordem dos sete planetas,
começando com a Lua, a primeira esfera, e terminando com Saturno, a mais
afastada das esferas planetárias.
304 * Peter Marshall
A Lua rege da infância até os quatro anos e produz a maleabilidade do corpo.
Nos dez anos seguintes após a infância, Mercúrio começa a moldar a parte
inteligente e lógica da alma. Vênus assume a terceira fase da juventude e
implanta "um impulso para o envolvimento com o amor". O senhor da esfera
do meio é o Sol, período do início da maturidade que dura 19 anos e implanta
a mestria dos atos e ambições. Na quinta fase Marte assume o comando por
15 anos e introduz a severidade e a miséria na vida. Júpiter, na sexta, é
responsável pelo início da velhice num período de 12 anos, trazendo a
renúncia do trabalho manual e das atividades perigosas e introduzindo o
decoro, a previsão e o consolo. Finalmente, Saturno tem sua parte na velhice,
que dura pelo restante da vida. Agora os movimentos tanto do corpo quanto
da alma ficam mais frios e gastos pela idade e a pessoa se torna "sem ânimo,
fraca, ofendendo-se com facilidade e difícil de ser agradada em todas as
situações".14 Este quadro sombrio antecipa o famoso diálogo de Jacques na
obra de Shakespeare, As You Like It, a respeito do último cenário da vida: "A
segunda infância e mero esquecimento:/ Sem dentes, sem olhos, sem paladar,
sem tudo."
Como tudo não pode ser governado somente por um planeta, ou estrela,
maléfico ou benéfico, e muitas variáveis estão envolvidas, Ptolomeu observa
que a sorte da vida na Terra está inevitavelmente misturada: "Pode-se, por
exemplo, perder um parente e receber uma herança, ou de repente ficar
prostrado por uma doença e ganhar alguma honraria e promoção, ou no meio
do infortúnio ser pai."15 Estas são as excentricidades do destino neste cenário
sublunar.
Plotino e a Alma do Mundo
Enquanto Ptolomeu lançou as bases técnicas da astrologia ocidental, foi
outro alexandrino quem reforçou a dimensão mística. Seguindo a tradição de
Pitágoras e Platão, o filósofo Plotino (204-270 d.C.) tem sido chamado de
fundador do "misticismo especulativo" no Ocidente.16 Nascido em Alexandria,
ele finalmente se estabeleceu em Roma com a idade de quarenta anos.
Segundo seu discípulo Porfírio, Plotino era particularmente interessado nos
"métodos persas e no sistema adotado pelos indianos".17 Ele também
recorreu à antiga sabedoria dos templos da sua terra natal; participou de
uma sessão com um sacerdote egípcio que estava visitando o Templo de Isis
em Roma para invocar seu "espírito", que foi declarado como sendo de um
deus. Conhecia a viagem astral e experimentou "estar suspenso fora do corpo
e em mim mesmo; fora de todas as coisas e centrado em mim; contemplando
uma beleza extraordinária".18
No esquema de Plotino, do Uno emerge a Mente Divina e a Alma
Universal, que são responsáveis por toda a vida. Os "deuses" e os "demônios"
menores são expressões do
A astrologia no mundo * 305
Uno. Os seres humanos possuem duas almas: a "alma intelectual" superior
intocada pela matéria e a "alma racional", a natureza normal da humanidade.
Como os estóicos, Plotino estava convencido de que o mundo não era
somente um, como também harmonioso e bom. Rejeitava, portanto, os
gnósticos que identificavam o mal com a matéria neste mundo sublunar. Para
Plotino, a matéria era, em última análise, uma pálida sombra do Ser. O
homem não era o centro do universo; mas o próprio universo. E como os
animais participavam da Alma do Mundo, Plotino declinou do ato de comê-los.
Como Deus era todo-permeante, falando em termos precisos o mal não
existia. O que era comumente compreendido como mal era apenas a meiaexistência
do Bem na matéria. Os maus atos provinham do desnorteamento e
da preguiça: "A doença é um esforço mal calculado da Inteligência [o princípio
mais elevado no homem]."" O corolário disto é que a salvação não deveria ser
buscada: já estávamos salvos. Precisávamos somente estar conscientes do que
já éramos em nossa natureza mais íntima. O caminho místico era portanto
uma ascensão e um retorno à sua origem. Todos podiam experimentar a união
do êxtase da alma com o Uno, que habitava dentro de cada um como uma
presença divina. Plotino chamou esta experiência de "visão":
Quando você está centrado na pureza do seu ser, nada mais restando
agora que possa quebrar esta unidade interna, nada que não seja o
homem autêntico, quando você se achar inteiramente verdadeiro à sua
natureza essencial, íntegro de modo que somente a Luz verdadeira que
não é medida pelo espaço, não limitada a qualquer forma circunscrita nem
novamente difusa como algo vazio de substância, mas sempre imensurável
como algo maior que toda medida e mais que toda quantidade
— quando você perceber que cresceu para isto, você agora se tornou
verdadeiramente uma visão: reúna agora toda a sua confiança, prossiga
em frente passo a passo
— você não precisa mais de um guia — amplie-se e veja.20
Plotino revelou-se conhecedor da arte do astrólogo. Forneceu uma
interpretação tradicional da influência dos planetas:
A estrela conhecida como Júpiter inclui uma certa medida de fogo (e
calor), no que lembra a Estrela Matutina [Vênus] e portanto parecendo ser
aliado a esta. No aspecto do que é conhecido como Estrela ígnea [Marte],
Júpiter é benéfico por virtude de misturar as influências: em um aspecto
com Saturno é não amigável por golpe da distância. Mercúrio, parece, é
(em si mesmo) indiferente a qualquer estrela com a qual esteja em
aspecto; pois adota qualquer caráter.21
506 * Peter Marshall
Plotino também teve uma expressão suprema da visão astrológica de mundo
que ainda hoje é admitida. A influência dos planetas na Terra era trazida
pela afinidade cósmica: "Todas as coisas devem estar encadeadas; e a
afinidade e correspondência obtidas em qualquer organismo intimamente
unido devem existir, primeiro, e com maior intensidade, no Todo." O circuito
dos céus não operava por acaso, mas sob a direção da Alma do Mundo, do
todo vivente do universo. Portanto, devia existir "uma harmonia entre a
causa e o que foi causado (...) todas as configurações dentro do Circuito
devem estar acompanhadas de uma mudança na posição e nas condições das
coisas a ela subordinadas". Plotino viu isto acontecendo através "das
emanações materiais dos seres vivos do sistema celeste".22
Contudo, não era um quadro determinista. Plotino comparou a situação a
uma dança. Os membros coordenados do dançarino se moviam em certo
ritmo, mas não era a mente do dançarino que decidia seu propósito geral. De
maneira similar, as estrelas não eram a causa direta dos eventos na Terra;
ele afirmou: "a causa é o Todo coordenador." Assim, todas as estrelas
serviam ao universo "em harmonia, como aquela observada nos membros de
qualquer forma animal".25 Assim como a bile não existia meramente para
sua função imediata mas para o corpo como um todo, as estrelas existiam
para o propósito geral da Mente Divina.
Contrário à opinião geral dos seus contemporâneos, Plotino afirmou que
"o circuito das estrelas indica os eventos definidos a existirem, porém não
sendo a causa". Pela perfeição do universo, cada estrela — um deus da esfera
celeste — deveria ser "continuamente serena, feliz no bem que desfruta e
pela Visão diante delas". Embora sem defender causas precisas, Plotino
imaginou as estrelas como "cartas sendo perpetuamente inscritas nos
céus".24 Se pudermos ler os símbolos de forma correta, poderemos ler o
futuro.
Utilizando a metáfora da Roca da Necessidade que aparece em Timeu de
Platão, que explica como "a nossa personalidade está ligada às estrelas",
Plotino argumentou que não somos escravos das ordens das estrelas. Como
somos mais que "um corpo com alma", podemos, por meio do
desenvolvimento da nossa mente, trabalhar nossa liberação da esfera
celeste.25 Deste modo, conquanto as estrelas anunciem ou encubram o futuro,
elas não causam realmente o que ocorre na Terra e o que fazemos de nossas
vidas. E uma concepção estritamente moderna partilhada por vários
astrólogos contemporâneos.
28
Miriogênese
Seja modesto, correto, moderado, coma pouco, contente-se com alguns bens
para que o vergonhoso amor pelo dinheiro não possa macular a glória da
sua ciência divina.
FlRMICUS MATERNUS
ASTROLOGIA NÃO SOMENTE SE TORNOU PARTE DA CULTURA DIÁRIA, COMO FOI PARTE
integrante da medicina, da magia e de vários cultos influentes no
mundo egípcio e greco-romano no início da era cristã.
Galeno, cerca de 129-199 d.O, estudou na Grécia e em Alexandria
antes de se tornar médico da corte na Roma de Marco Aurélio. Inspirado por
Platão e Hipócrates, sua versão da teoria médica permaneceu como modelo
principal até a Idade Média. Baseava-se na noção dos quatro humores
associados aos quatro elementos misturados em partes diferentes do corpo.
Para os seus seguidores, a "astrologia era a parte previsiva da sua arte e, se
não no todo, pelo menos a maioria deles tinha aceitado esta parte da astrologia
como uma parte da medicina".1
A magia estava intimamente interligada com a astrologia médica na época.
Flores e pedras eram associadas a planetas e utilizadas para neutralizar o
efeito danoso de um planeta ou aumentar uma influência benéfica. Como
ilustra a receita a seguir, a astrologia e a magia faziam claramente parte da
medicina preventiva, como também da curativa:

308

Um contraceptivo, o único no mundo: tome tantas sementes de ervilhaca quantos forem os anos que deseja permanecer estéril. Mergulhe-os no líquido da menstruação de uma mulher. Faça com que ela as mergulhe em sua própria genitália e pegue um sapo que esteja vivo e atire as sementes de ervilhaca em sua boca de modo que o animal possa engoli-las, e solte o sapo vivo no local onde você o capturou. E tome uma semente de meimendro negro, mergulhe no
leite de égua; e tome o muco nasal de um boi, com sementes de cevada, coloque isto em uma [vasilha] de pele feita de uma corça nova e use como amuleto durante a fase minguante de uma Lua [que esteja] em um signo feminino do zodíaco em um dia de Saturno ou Mercúrio. Misture os grãos de cevada com o cerume da orelha de uma mula.2


A fase minguante da Lua está ligada ao declínio da fertilidade, Saturno está associado ao frio e secura e Mercúrio representa a volatilidade.


A magia e a astrologia andaram de mãos dadas além do jardim da medicina. Em um procedimento para decifrar um sonho, as instruções
foram dadas quanto ao uso do cinabre para inscrever todos os signos do
zodíaco, assim como também os seus nomes mágicos em cada folha de um
ramo de louro e depois dormir sobre ele.3
Um papiro mágico fornece ainda um esquema horário astrológico
baseado na órbita da Lua através dos signos do zodíaco em momentos
auspiciosos para os encantamentos. Ele ilustra bem as preocupações dos
clientes dos astrólogos na época:
A Lua em Virgem: tudo se torna possível. Em Libra: necromancia.
Em Escorpião: tudo que inflige o mal. Em Sagitário: uma invocação
das invocações ao Sol e à Lua. Em Capricórnio: diga o que quiser
para os melhores resultados. Em Aquário: para um encantamento de
amor. Peixes: para o conhecimento prévio. Em Áries: divinação pelo
fogo ou encantamento de amor. Em Touro: encantamento para uma
lamparina. Gêmeos: encantamento para ganhar um favor. Em
Câncer: filactérios. Leão: encantamentos para ligações ou laços.4
Não somente a astrologia era usada para ampliar a magia, como esta
podia, por sua vez, ser utilizada como um remédio para anular previsões
não auspiciosas. Ao invocar um deus na maneira correta, o indivíduo
poderia dispensar os serviços de um astrólogo ligado à Terra. O deus
poderia então lhe falar sobre sua estrela, que tipo de demônio a pessoa
possuía, seu horóscopo e onde deveria viver e poderia morrer. Além disso,
alguns magos reivindicavam o controle das forças astrais e até de se
dirigir diretamente à deusa da necessidade, assegurando portanto "o bemestar,
a prosperidade, a glória, a vitória, o poder, o apelo sexual" —
qualidades ainda procuradas pelos gananciosos, mas não pelo sábio.5
A astrologia no mundo * 309
Mitra e o Sol Invictus
Com sua aura mágica e as raízes na religião estelar, não surpreende que até o
fim do Império Romano a astrologia tenha influenciado vários cultos. Na
fronteira Norte do grande império, em um local na Muralha de Adriano em
Housesteads, na Grã-Bretanha, existe um relevo dedicado a Mitras, o deus da
luz que emergiu primeiro no Oriente Próximo. No santuário em Housesteads
os signos do zodíaco estão arrumados no formato de uma ferradura, com os
dois do alto — Câncer e Leão (associados à Lua e ao Sol) — separados pela
espada e tocha de Mitras. Acredita-se que a pintura, como um todo, represente
seu aniversário. O culto pode ter se originado na Pérsia e ter sido influenciado
pelos filósofos estóicos de Tarso que acreditavam que cada Era do Mundo
terminaria em uma conflagração.
O culto a Mitras, que floresceu no século II, teve muitos seguidores no
exército romano. Suas crenças permanecem obscuras, mas parece que Mitras
fez uma aliança com o Sol após um teste de força e matou um touro misterioso
cujo corpo se transformou em plantas úteis. Os ritos mitráicos ocorriam em
cavernas artificiais, onde os touros eram mortos em rituais sobre altares e o
seu sangue ainda quente corria sobre os iniciados que ficavam embaixo. O
deus mitráico Aion (eon, ou eternidade) tem uma cabeça de leão, que devora a
todos, como o próprio Tempo.
Nas ruínas dos templos mitráicos encontra-se muito simbolismo astral. Os
signos do zodíaco eram muitas vezes colocados em um círculo ou em nichos; os
sete planetas eram representados sobre a figura de Mitras e o Sol e a Lua
personificados como estátuas. O neoplatonista Porfírio observou: "A região
equinocial eles atribuíam a Mitras como um local apropriado. E por esta
razão, ele porta a espada de Áries, o signo de Marte; ele também monta um
touro, o Touro de Vênus."6 Os sete graus da iniciação eram associados aos sete
planetas na seguinte ordem: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Lua, Sol e
Saturno. Isto era provavelmente um produto da combinação dos dias da
semana com a ordem tradicional caldaica dos planetas baseada na sua
distância da Terra.
Mitras era às vezes chamado de Sol Invictus (o Sol Não Conquistado). Em
uma câmara subterrânea recentemente descoberta, sob o altar de São Pedro
em Roma, no coração da cristandade, vi uma pintura em uma parede dos
deuses egípcios Hórus, Isis e Osíris e outra de Jesus representado como o Sol
Invictus, com os raios do Sol saindo da sua cabeça. Possivelmente de origem
síria, mas auxiliado pela identificação grega de Apoio com Hélios (o deus sol
egípcio Ra), o culto do sol tornou-se a religião do Estado em Roma no ano de
218 d.C, quando o sacerdote Elagabalus (que recebeu o nome do deus sol sírio)
tornou-se imperador e declarou-se o 5o/ Invictus. O deus Sol teve um templo
310 * Peter Marshall
magnífico construído em sua honra no Campus Agrippae. Foi o ápice de um
culto menor do Sol e da Lua do início do império. Septimius Severus não
somente chamou a si mesmo de Sol Invictus em moedas, como construiu um
templo de Septizonia que retratava os sete planetas. O Imperador Juliano,
dedicando um hino ao Sol, lembrou que: "Na minha infância eu era
consumido por uma paixão ansiando pelos raios do deus, e a minha mente
ficava totalmente absorvida desde os meus mais tenros anos em sua luz
etérea (...) Eu já era considerado um astrólogo ainda bem pequeno."7
O culto permaneceu como forma oficial de culto até Constantino se
converter ao cristianismo em 312. Na legislação antipagã que se seguiu, a
astrologia foi associada à divinação e magia, que foram declaradas ofensas
punidas com a morte. A Igreja Católica baniu a astrologia no Conselho
Ecumênico de Nicéia em 325. Constantino utilizou a astrologia para escolher
o momento da fundação de Constantinopla, porém seu filho Constâncio
avisou em 358: "Se qualquer feiticeiro (...) vidente, adivinho (...) profeta, ou
até astrólogo (...) for preso em meu séquito ou no do César, ele não escapará
da punição ou tortura pela proteção da sua posição social elevada."8

Mathesis de Firmicus

Essa atmosfera de perseguição sem dúvida impeliu o astrólogo Julius
Firmicus Maternus, provavelmente um senador da Sicília, a aconselhar seus companheiros astrólogos em 334: "Estudem e busquem todas as marcas que distingam a virtude (...) Sejam modestos, corretos, calmos, comam pouco,
contentem-se com poucos bens para que o vergonhoso apreço pelo dinheiro
não empalideça a glória desta ciência divina (...) Estejam atentos para
responder a qualquer um a respeito da condição do Estado ou da vida do
imperador romano (...) Ao traçar um mapa, não mostrem de modo muito
claro as coisas maléficas sobre os homens."9
Somente o imperador, Firmicus enfatizou, não estava sujeito ao curso das
estrelas. Como ele era o dono do mundo, seu destino era governado pelo
julgamento do deus altíssimo. Longe de ser fatalista, Firmicus argumentou
que as influências celestes não absolviam ninguém da responsabilidade
pessoal. Na verdade, deveríamos adorar os deuses de modo que, "seguros da
divindade das nossas próprias mentes", pudéssemos resistir ao poder das
estrelas.10
O tratado de astrologia em latim de Firmicus é chamado de Mathesis, que
significa "Aprendizagem" em grego. Em latim foi traduzido como uma
doutrina e referia-se especialmente à parte que lidava com as "ciências
matemáticas". Para Firmicus a astrologia consistia principalmente
A astrologia no mundo * 311
de três partes: a primeira, de cálculos matemáticos e astronômicos a partir
dos quais montava-se o mapa; a segunda, do maquinário mais astrológico, isto
é, aspectos, decanos, Casas e das características dos signos e planetas; e a
terceira, da interpretação da primeira à luz da segunda. Firmicus tinha a
primeira garantida (os cálculos estavam bem estabelecidos na época graças a
Ptolomeu) e lidava direto com as segunda e terceira partes.
Firmicus se firmou na tradição hermética. No Livro III tratou das relações
entre o microcosmo e o macrocosmo e a anima mundi, a Alma o Mundo. No
Livro VIII apresentou a sphaera barbarica, a descrição não-grega dos céus.
Ele ofereceu o que era reivindicado como sendo o padrão "egípcio" das
constelações para fornecer o poder efetivo das estrelas mais brilhantes.
Preocupou-se principalmente com as paranatellonta, as estrelas que nascem
nos signos do zodíaco. Reivindicou ainda que o lendário astrólogo egípcio
Nechepso era especialista em medicina: "por meio dos decanos [Nechepso]
predizia todas as doenças e aflições; conhecia qual decano produzia
determinada doença e quais decanos eram mais fortes do que outros. A partir
das diferenças de suas naturezas e poder, ele descobriu a cura para todas as
doenças porque uma natureza é superada pela outra e um deus pelo outro."11
Um dos aspectos mais intrigantes do trabalho de Firmicus é o que ele
chamou de miriogênese (literalmente "geração múltipla"), retirado do título de
um trabalho de Esculápio, que se diz ter sido instruído por Mercúrio (o
Hermes grego e o egípcio Thoth). Expõe todos os mapas natais através dos
"minutos individuais do zodíaco sem adicionar qualquer planeta". Isto
compreendia cálculos muito cuidadosos, pois há sessenta minutos em cada
um dos 360° do zodíaco. Um minuto de arco equivale a 24 minutos de tempo,
de modo que o destino da pessoa poderia ser determinado pelo minuto exato
do seu nascimento.
Firmicus ofereceu uma versão simplificada da influência e significado de
cada grau. Um grau poderia ser crucial na determinação de toda uma vida.
Por exemplo, aqueles que tinham seu Ascendente no primeiro grau de Áries,
"se fossem favorecidos pelos raios dos planetas benevolentes, nasceriam reis e
líderes, sempre conduzindo seus exércitos com sucesso". Por outro lado,
aqueles que tivessem seu Ascendente no segundo grau de Áries "seriam
ladrões persistentes que sempre iam usar de violência desnecessária e
extraordinária em seus ataques; estariam sempre mudando de residência
para locais onde não eram conhecidos".12 E se Marte afetasse este grau, e se o
aspecto entre o Ascendente e a Lua fosse uma quadratura ou oposição, seus
crimes seriam descobertos e eles seriam punidos em público.
A menos que a pessoa tivesse os graus traçados antes do nascimento e
escolhesse o momento exato, ser induzido poderia ter conseqü.ncias
importantes — boas ou más. A
312 * Peter Marshall
fonte da miriogênese poderia realmente estar na lista egípcia de 360 dias de
sorte e aziagos do calendário.
O trabalho de Firmicus acrescentou pouco ao de Manilius e Ptolomeu,
mas foi historicamente importante. Foi um dos primeiros trabalhos sobre
astrologia a chegar ao Ocidente no século XI, quando foi amplamente
estudado e discutido pelos tradutores e teólogos cristãos.
A Chegada do Cristianismo
Próximo do seu fim, o Império Romano não era um local hospitaleiro para a
astrologia. Quando Porfírio publicou os trabalhos do seu mestre Plotino no
início do século IV, ele se voltou contra a astrologia. Além disso, quando o
cristianismo se tornou a religião oficial do império, a prática da astrologia
foi proscrita. Contudo, o filósofo alexandrino Jâmblico levantou-se em sua
defesa em seu livro Theurgia ou Os mistérios egípcios. Ele defendeu
especificamente a astrologia como uma "ciência matemática" contra as
críticas de Porfírio:
Quando os sinais da medida das revoluções dos divinos [os planetas]
ficam claramente evidentes aos olhos, quando eles indicam com
antecedência os eclipses do Sol e da Lua, as entradas do Sol nos signos
do zodíaco e as saídas deles, e o nascer e o ocaso concorrentes da Lua
com os das estrelas fixas, a prova dos sinais verdadeiros é manifestada
realizando as previsões.13
Ele descreveu as regras da "arte da previsão" em relação ao momento do
nascimento, no qual os astrólogos citavam o demônio pessoal de forma
prescrita, por intermédio "dos decanos e do nascer das constelações do
zodíaco e também das estrelas; do Sol e também da Lua, e das Ursas e
também dos elementos e do mundo". Na sua visão, a "aura ou emanação
das estrelas" trazia o demônio para nós, aceitássemos isto ou não.14
A astrologia na época era vista como parte da arte da teurgia, uma
experiência espiritual profunda na qual o iniciado podia se unir com o
divino. Como Firmicus, Jâmblico acreditou que nós podíamos escapar da
influência das estrelas. Ele explicou isso argumentando que nós tínhamos
duas almas, uma da "primeira Mente", que partilhava do "Poder do
Criador", e a outra, "a alma sob constrangimento", que vinha da revolução
das esferas celestes. Enquanto a última estava sujeita ao destino, a
primeira podia elevar-se acima dele.15
A astrologia no mundo * 313
Apesar das censuras de Constantino, a astrologia continuou a ser
ensinada em Alexandria nos séculos V e VI como parte do currículo padrão.
Bizâncio creditou a filósofos como Sinésio, Olimpiodoro e Estefano a autoria
de trabalhos sobre astrologia, embora isso não tivesse sido comprovado.
Olimpiodoro definitivamente ensinou astrologia. Sinésio estudou ciência e
filosofia sob a orientação de Hipárquia, que foi arrastada em 415 por uma
multidão cristã quando estava voltando de uma conferência no museu. "Com
ela", escreveu E. M. Forster, "a parte espiritual da Grécia expirou — a
Grécia que tentara descobrir a verdade e que criara a beleza e que fundara
Alexandria."16 Além disso, a grande biblioteca de Alexandria, a maior
biblioteca do mundo antigo, que tinha sido em parte destruída durante o
último período de Cleópatra, foi arrasada durante a era cristã.
A atitude da cristandade em relação à astrologia era ambígua. No
Gênese há uma passagem que fala de Deus criando as estrelas como signos,
mas em geral o Velho Testamento é hostil à astrologia, pois ela falha em
creditar os assuntos à Providência Divina. No Novo Testamento, os Três
Reis Magos, que seguiram uma estrela que anunciou o nascimento de um
grande rei, foram sem dúvida sábios astrólogos do Oriente. Não há
questionamento de que a história pretendeu mostrar como a antiga filosofia
estava cedendo para a nova proposta. Mas a astrologia era geralmente vista
como uma séria ameaça ao Estado cristão por causa de sua associação à
divinação paga e mágica. Como tal, ela ofereceu uma fonte alternativa de
conhecimento e autoridade.
Os críticos dogmáticos simplesmente rejeitaram o assunto como um
trabalho do Demônio. Muitos cristãos admitiam que embora as estrelas
pudessem ser sinais do futuro, os astrólogos não podiam ter conhecimento
desse futuro. A reivindicação de que a astrologia poderia prover um meio
independente de conhecimento do futuro não era aceitável. Os oponentes
mais eruditos focalizavam o aspecto do livre-arbítrio e determinismo. Se as
estrelas determinavam o destino dos humanos, eles argumentavam, então
elas negavam a mão de Deus e Sua Divina Providência. Quando um amigo
de Sidônio foi estrangulado pelos seus escravos, foi sugerido que tinha sido
seu interesse pela astrologia que causara sua queda: "A morte confundiu
nosso perguntador inquieto exatamente quando e onde previsto (...) Temo
que aquele que tentar provar segredos proibidos colocar-se-á além das
estacas da fé cristã."17
Embora reconhecendo seu poder sobre a imaginação, o padre cristão
egípcio Orígenes, cerca de 185-255 d.C, atacou a astrologia no seu
Comentário sobre o Gênese, quanto alcançou a famosa passagem sobre a
criação das estrelas. Ele insistiu que as estrelas eram meramente sinais e
não agentes, e que os humanos não podiam ter um conhecimento apurado
delas. Só Deus poderia conhecer o futuro: "A nossa liberdade está
salvaguardada
314 * Peter Marshall
quando Deus conhece previamente por toda a eternidade os atos pelos quais
cada homem será julgado por tê-los cometido."18
Outros apologistas cristãos criticaram a astrologia nos pontos que são
debatidos ainda hoje. Por que um grande número de pessoas divide as
mesmas características e morre de modo semelhante embora possua
horóscopos diferentes? Por que gêmeos com o mesmo horóscopo sofrem
destinos diferentes? Como se pode dizer que as estrelas determinam os
costumes em diferentes regiões do mundo?
No fim do século IV João Crisóstomo resumiu a preocupação geral e
aconselhou contra a consulta a astrólogos: "Assim como o assassinato e o
adultério são pecados e atos proibidos, a confiança na astrologia e a crença no
Destino são incorretas (...) na verdade nenhuma doutrina é tão depravada e
beira a loucura incurável quanto a doutrina do Destino e da astrologia."11'
Com tais ataques destruidores, não surpreende que a astrologia fosse forçada
a se retirar. Por volta do século VI a Igreja havia triunfado sobre a
astrologia, e o Sol e a Lua foram alijados dos bastidores no Ocidente cristão
até o século XI. Enquanto isso, eles se refugiaram e floresceram no mundo
em expansão do Islã.
29
Os Astrólogos do Oriente Médio
E aquela tigela invertida que chamamos de Céu,
Sob prisão rastejante vivemos e morremos...
Tudo é um Tabuleiro de Xadrez de Noites e Dias
Onde o Destino joga com os Homens como Peças.
RUBAIYAT, DE OMAR KHAYYAM
XISTE UMA HISTÓRIA ANTIGA, MUITO QUERIDA DOS ESTUDIOSOS ISLÂMICOS, A RESPEITO
de um jovem servo alegre que foi enviado ao mercado com um recado.
Quando retornou, estava em um estado terrível. Seu dono perguntou o
que lhe tinha acontecido e ele respondeu: "Vi o Anjo da Morte no meio da
multidão no mercado; ele olhou para mim atônito com seus olhos
penetrantes. Deixe-me pegar um dos seus cavalos mais rápidos e cavalgar
até a cidade de Sâmara para que eu possa escapar da mão da Morte!" O amo,
sabendo do poder da Morte, prontamente concordou e deixou que o escravo
fizesse a escolha.
Mais tarde, naquele mesmo dia, o amo foi até o mercado e encontrou o
Anjo da Morte que ainda estava lá. "Onde está o seu servo?", perguntou ele.
O amo explicou que o servo não estava mais com ele e que tinha escolhido um
bom cavalo e ido para a cidade de Sâmara. O Anjo da Morte concordou com
um gesto de cabeça e disse: "Fiquei surpreso ao vê-lo aqui esta manhã porque
à noite terei um encontro com ele em Sâmara."
A história ilustra bem o trabalho do destino, mas será que o encontro
estava escrito nas estrelas? Poderia o servo ter evitado seu destino pelo
exercício consciente do seu livre-arbítrio? Poderia ter tomado um outro
caminho na vida? Este era o dilema que estimulava as melhores mentes
islâmicas.
E
316 * Peter Marshall
A Ascensão do Islã
Quando os muçulmanos conquistaram o Egito no século VII, eles
encontraram uma tradição remanescente de aprendizagem e, em
Alexandria, descobriram trabalhos sobre astrologia entre os remanescentes
dispersos das grandes bibliotecas da cidade. Entraram também em contato
com a tradição hermética que mantinha um resíduo da antiga sabedoria dos
templos egípcios.
À medida que o Império Islâmico se espalhava, foram sendo criados
novos centros de aprendizagem no Oriente Médio e no Oriente Próximo. Os
perseguidos cristãos nestorianos tiveram um papel especial na transmissão
do aprendizado egípcio e do grego para o mundo árabe. Eles se
estabeleceram em Edessa, no Norte da Síria, de onde foram expulsos em
489. Foram então para Nisibis, na Mesopotâmia, e finalmente se
estabeleceram em Judi-Shapur, na Pérsia, onde havia um famoso
observatório. Traduziram trabalhos escritos em grego, em especial para o
siríaco, assegurando sua transmissão para o mundo islâmico.
A Síria tornou-se o mais dinâmico entre os Estados islâmicos, um local
de encontro de diferentes culturas e línguas. Entretanto, foi Bagdá, no
Iraque, que sob os califas abácidas a partir de 750 se tornou o maior centro
de aprendizagem. Lá as ciências floresceram no fim do século VIII e no
seguinte, onde muitos textos antigos foram recuperados e traduzidos.
Outros centros se desenvolveram na Espanha islâmica, especialmente no
século X, sob o comando de Abd er-Rahman III e seu sucessor al-Hakam II.
Sua corte em Córdoba tornou-se o principal centro de aprendizagem no
Império Islâmico.
Enquanto isso, a cidade de Harran, no Noroeste da Mesopotâmia,
permanecia como uma fortaleza da sabedoria hermética. Embora sob o
domínio dos muçulmanos, seus habitantes pagãos, notáveis observadores
das estrelas, não se converteram ao islamismo, assim como não tinham
cedido ao cristianismo. Adotaram o nome de sabeus tirado do Corão, como
um termo para religião profética do "Livro" tolerada pelos mulas islâmicos.
Seu profeta era Hermes, a quem identificavam como Idris, no Corão, e
Enoque, na Bíblia. Resistiram até o século XI e asseguraram que a tradição
hermética fosse mantida viva e transmitida para a Europa.
O Islã se acomodou bem à astrologia. Não via conflito entre a religião, a
filosofia e a ciência; tudo podia conduzir a tawhid (unidade) mais que à
negação da divindade. O objetivo final de todo o conhecimento islâmico era
libertar a mente da dependência da aparência física e prepará-la para uma
visão do Todo. A astrologia foi a princípio aceita pelos xiitas e especialmente
pelos sufis. O grupo xiita de tendência sufi conhecido como Ikhwan al-Sufa
(Irmãos da Pureza) escreveu uma influente enciclopédia, Rasai'l (Epístolas)
A astrologia no mundo * 317
que enfatizava a Unidade do Ser: "A Alma Universal é o espírito do mundo.
Os quatro elementos são a matéria que serve de apoio a ela. As esferas e as
estrelas são como órgãos seus, e os minerais, as plantas e os animais são
objetos que a fazem mover-se."1
O ponto central da visão muçulmana do mundo estava na crença
hermética de que existe uma correspondência entre o céu e a Terra e que o
homem é o microcosmo do universo. Além disso, como o mundo era o Um, o
buscador da sabedoria (hakim) deveria compreender todos os aspectos do
mundo. Visto que o universo era considerado como um símbolo de Deus, uma
indagação sobre a natureza era vista como um processo de revelação divina.
Ao estudar a astrologia, a pessoa poderia redescobrir sua natureza celeste e
as raízes cósmicas. Além disso, a visão do destino determinista do Islã, como
a vontade de Alá e sua ênfase na necessidade de aceitação — "Islã" significa
"entregar" —, o tornava teoricamente receptivo para a astrologia.
Antes do século VIII os árabes tinham pouco conhecimento sobre
astronomia e astrologia. Eles contavam o tempo à noite pelas 28 mansões
lunares e as estações pelo nascer helíaco e pelo ocaso cósmico. Contudo, logo
a astrologia se tornou parte essencial da ciência islâmica. Na famosa
Enumeração das ciências, de al-Farabi, traduzida depois para o latim como
De Scientiis, ele dividiu a "ciência dos céus" em "Astrologia" e nos
"movimentos e cifras dos corpos celestes".2 Como no grego, a mesma palavra
árabe significa astrologia e astronomia. O assunto era cultivado por
inúmeras razões. Havia problemas de cronologia e de calendário. Príncipes e
regentes, incertos quanto futuro, quase sempre consultavam os astrólogos
para tomar decisões e agir. E, naturalmente, havia o desejo islâmico
generalizado de perfeição do conhecimento.
A principal tradição grega veio por intermédio de Ptolomeu, mas havia
também a escola indiana personificada nos Siddhantas traduzidos do
sânscrito. Além disso, consultavam textos caldeus e persas, cuja maioria foi
perdida. Os astrólogos muçulmanos incorporaram estas influências e
adicionaram suas próprias contribuições ao assunto.3
Al-Kindi e Abu Ma'shar
O fundador mais importante da ciência e filosofia islâmicas, Al-Kindi, cerca
de 801-873, era fortemente receptivo à astrologia. Após visitar Bagdá, ele se
tornou tutor e médico do grande patrono da aprendizagem, o califa al-
Ma'mun. Conhecido no Ocidente como "o Filósofo das Arábias", ele
estabeleceu a base filosófica para a astrologia e auxiliou no desenvolvimento
de uma língua árabe filosófica. Embora tenha escrito em profusão,
especialmente sobre astrologia e o astrolábio, vários dos seus trabalhos
foram perdidos.
318 * Peter Marshall
Sobreviveu em latim o De Radiis (Sobre os Raios), no qual expressou a
correspondência entre o céu e a Terra em termos de "raios estelares".
Juntamente com os elementos, eles foram responsabilizados pela diversidade
dentro da unidade do mundo: "Então a diversidade das coisas no mundo dos
elementos aparentes em qualquer tempo procede de duas causas, a saber a
diversidade da sua matéria (elementos) e a operação mutável dos raios
estelares."
A crença de Al-Kindi no determinismo universal era tão profunda que ele
argumentou: "Se for dado a alguém compreender toda a condição da
harmonia celeste, ele conhecerá inteiramente o mundo dos elementos com
tudo nele contido em qualquer lugar e em qualquer tempo." Se este fosse o
caso, a pessoa seria capaz de saber a causa e o motivo e vice-versa. Além
disso, "aquele que adquirisse o conhecimento de toda a condição da harmonia
celeste conheceria o passado, o presente e o futuro".4
O melhor discípulo de Al-Kindi, Abu Ma'shar, tornou-se o astrólogo
muçulmano mais famoso. Ele nasceu em 787 em Balkh, Khurasan, cidade
atualmente situada no Norte do Afeganistão. Era um grande centro
cosmopolita de religião e aprendizagem, onde comunidades de judeus,
nestorianos e maniqueus dividiam o espaço com budistas, hindus e
zoroastrianos.
Conta-se uma história que, quando Abu Ma'shar era aluno de um médico
na corte da Pérsia, ele foi criticado em público por Al-Kindi. Ficou tão
magoado que decidiu matar seu mestre. Mas quando entrou na sala com sua
adaga, o velho astrólogo lançou um olhar penetrante e disse: "Tu não és Abu
Ma'shar de Balkh? Tu serás o maior astrólogo do século, mas deves
renunciar ao teu projeto maligno. Atira fora a adaga, senta e aceita minha
doutrina."5
Ele adotou o determinismo do seu mestre e argumentou que assim como
os médicos estudavam as mudanças nos elementos, o astrólogo deveria
seguir os movimentos das estrelas para chegar até "as causas das mudanças
elementares". Porém, onde Al-Kindi era primeiramente um neoplatônico,
Abu Ma'shar era aristotélico, pois dizia que toda mudança sublunar era
causada pelos movimentos nos céus.
Seus trabalhos se tornaram influentes na Europa, onde era conhecido
como Albumasar. A sua Grande introdução à astrologia, traduzida por
Adelard de Bath como Introductorium, foi principalmente devotada à
gramática da astrologia. O seu Flores Astrologiae, traduzido por John de
Sevilha, foi um guia que continha várias orientações úteis e aforismos
vigorosos. Em ambos, ele combateu o conceito do livre-arbítrio. Distinguindo
a influência dos planetas das estrelas fixas, argumentou que enquanto a
primeira podia controlar os detalhes da vida diária, a última afetava
somente o projeto das coisas de modo lento e em tal escala grandiosa que
dificilmente influenciaria o destino humano.
A astrologia no mundo * 319
O Calendário Lunar
Os astrólogos muçulmanos estavam bem seguros de que para traçar um
horóscopo era necessário possuir instrumentos precisos e tabelas confiáveis.
Estas últimas não poderiam ser produzidas sem os primeiros. Dos gregos eles
adquiriram o astrolábio, que possibilitava a projeção da esfera observada dos
céus sobre um plano. Ele foi utilizado não somente para observar corpos
celestes, mas para fornecer o período de tempo, as latitudes, alturas e
distâncias. Quanto ao horóscopo, ele fornecia observações precisas dos céus
no momento do nascimento. E, em um período onde não havia relógios ou
cronômetros acurados, o astrolábio podia ser utilizado em um céu claro para
calcular a hora.
Para os astrólogos ainda era necessário descobrir o Ascendente e as
posições dos planetas nas tabelas. A precisão das tabelas dependia das
habilidades de observação dos astrólogos e também do cuidado dos copistas.
As tabelas incluíam as estrelas "fixas" importantes, não apenas porque
aquelas que nascem ao mesmo tempo que um signo do zodíaco deveriam ser
observadas enquanto o signo estava invisível, mas também porque os
muçulmanos usavam as estrelas associadas aos signos e até aos graus dos
signos em suas interpretações.
Graças à precessão dos equinócios, já era sabido há muito tempo que as
estrelas "fixas" não eram realmente imóveis. Embora alguns continuassem a
acreditar que os equinócios se moviam para a frente e para trás (conhecido
como "trepidação"), a visão de Ptolomeu de que eram necessários 36 mil anos
para retornar ao seu início ("O Grande Ano") tornou-se a teoria aceita pelos
astrólogos muçulmanos e cristãos na Idade Média.
Os muçulmanos, como os indianos e os judeus, usavam um calendário
lunar no qual o tempo era medido pela órbita da Lua em torno da Terra. Um
ano consistia de 12 meses lunares. Enquanto o calendário solar marca o ano
pelos equinócios e solstícios, o calendário lunar marca o mês de uma Lua
Nova até a outra. Não existe uma maneira simples de fazer uma
correspondência entre o calendário solar e o lunar, pois eles não são
compostos com o mesmo número de dias ou meses. Muçulmanos e judeus
fixam o número de meses no ano em 12, com o ano tendo 354 dias. Como
existem cerca de 11 dias menos que no ano solar, os festivais anuais
gradualmente se movem para trás nas estações, levando 34 anos lunares (33
solares) para completar o ciclo.

O ano lunar, portanto, se adianta progressivamente ao solar de 365 dias
utilizado pelos cristãos. Contudo, os cristãos ainda calculam a data da Páscoa
segundo o calendário lunar. No passado, o mês lunar era dividido em três
semanas de nove dias ou quatro semanas de sete dias. A primeira pode ter
sido influência das Nones romanas (nove dias após a Lua Cheia) e das Ides
(os dias iluminados da Lua, isto é, próximos da Lua Cheia).
320 * Peter Marshall
A astrologia árabe utiliza as 28 manâzil ("estações" ou "Casas") para
traçar o movimento mensal da Lua na eclíptica. Estas mansões lunares são
grupos de estrelas ou asterismos por meio dos quais a Lua passa em um
mês sinódico de 27 dias e meio. As mansões eram muitas vezes utilizadas
para calcular a passagem do tempo pela medida do caminho da Lua contra
as estrelas, e não pelas fases da Lua. Então, poderia ser dito: "Meu pai
faleceu quando a Lua estava naquela ou nesta mansão" em vez de "Ele
morreu três dias depois do terceiro quarto".6 Podiam, desta forma, avaliar o
tempo de modo semelhante ao dos decanos e do zodíaco.

Por causa do uso do calendário lunar nos países muçulmanos, as tabelas
continham as 28 mansões da Lua e os seus nodos. Os nodos marcam o
ponto onde a Lua cruza a eclíptica. Como os indianos, os muçulmanos os
consideravam como planetas invisíveis.

As mansões lunares muçulmanas tiveram início originalmente com o Al
Thurayya, as "Várias Pequenas". Elas são as Plêiades na constelação de
Touro. Além de serem notáveis, elas foram escolhidas provavelmente
porque sua posição coincidia com o grau do equinócio da primavera no
terceiro milênio antes de Cristo. Isto sugere uma possível fonte
mesopotâmica. Pela precessão dos equinócios, as primeiras 27 mansões, Al
Sharatain, "os Dois Signos" (β e γ Arietis) se tornaram o primeiro, começando no primeiro grau de Áries. Os 360" do círculo da eclíptica foram divididos em 28 partes iguais.

Os astrólogos europeus da Renascença adotaram as mansões lunares
dos árabes. Isto pode ter sido motivado por um interesse na magia, pois a
Lua há muito já era considerada a dona da magia. Mansões diferentes eram
atribuídas a diferentes propriedades, algumas positivas e outras negativas.
O filosofo italiano Giordano Bruno (1548-1600) utilizou em particular a
figura das mansões lunares árabes, juntamente com os decanos egípcios,
para desenvolver uma elaborada arte de memória.7

Os astrólogos muçulmanos também utilizaram muito a "divisão dos
tempos" que ia das eras do mundo até os estágios na vida de um indivíduo.
Segundo Abu Ma'shar, havia quatro tipos de fardarat ou períodos. O
"fardar mais elevado" durava 360 anos solares. O fardar maior durava 78
anos, partilhado entre os 12 signos, Áries até Peixes. O fardar médio
durava 75 anos; cada um era regido por um dos nove "planetas" (os sete
usuais mais os nodos lunares) na ordem das suas exaltações em torno do
zodíaco. A ordem dos planetas era Sol, Vênus, Mercúrio, Saturno, Marte,
Vênus. O fardar menor era igual a 75 anos, mas era dividido em nove
fardariyat e distribuídos entre os nove planetas segundo a mesma ordem
das exaltações.

Em um mundo incerto, os muçulmanos, como a maioria dos povos,
estavam preocupados com perguntas do tipo: "Qual seria o melhor período
para iniciar uma viagem?", "O resultado da minha decisão será bom ou
mau?" e até "Quando vou morrer?".

321

Para respondê-las, seus astrólogos desenvolveram da astrologia grega as técnicas
de progressões, eleições e trânsitos e as passaram para o Ocidente latino.
Em um mapa progredido, os elementos são adiantados através de um
ângulo que corresponde a um período de tempo, da data do nascimento até a
data do prognóstico solicitado. Os dois mapas são então comparados para
fornecer a informação sobre o assunto para o presente e para o futuro.
Quando a pergunta envolve a extensão da vida, o momento do nascimento é
chamado hyleg (forma latina do árabe haylai).

No caso das eleições, o objetivo é trabalhar o melhor momento para
iniciar alguma coisa. Isto envolve novamente a rotação do ponto inicial —
conhecido como radical — do mapa. O método mais comum entre os
astrólogos modernos para medir o tempo em torno do zodíaco é assumir "um
dia por um ano" — isto é, em um mapa progredido o mesmo número de dias
a partir do dia do nascimento é utilizado como o número de anos na vida da
pessoa. Em De Revolutionibus Nativitatum, Abu Ma'shar escreveu a
respeito dos trânsitos dos planetas: "A entrada dos planetas em uma
revolução de anos, os lugares radicais e os locais radicais dos outros,
possuem significados inefáveis de conseqü.ncias boas e más (...) É preciso
olhar para o signo no qual o planeta estava no mapa radical e tratá-lo como
se fosse o Ascendente e interpretar de acordo."8

As Partes Arábicas

Um dos aperfeiçoamentos mais importantes do Islã foi o do "destinos das
Casas", a chamada Partes Arábicas, que os antigos gregos e romanos
chamavam de Lotes. Pensava-se que elas enfatizavam as posições dos
planetas em um mapa natal. As partes são posições no zodíaco produzidas
por uma equação que envolve três fatores, um dos quais é geralmente a
cúspide. A Roda da Fortuna, representada por uma cruz dentro de um
círculo, é calculada somando-se os graus do Ascendente com os da Lua e
subtraindo o resultado dos graus do Sol. Como resultado, a distância entre a
Roda da Fortuna e o Ascendente no zodíaco é a mesma entre a Lua e o Sol.
E considerado um sinal de boa sorte, pois liga os poderes do Sol com os da
Lua e os traz para a Terra através do Ascendente (o horizonte). Os antigos
gregos e egípcios tinham originalmente sete lotes: Necessidade, Eros,
Demônio, Audácia, Nemesis, Vitória e Sorte. Eles seguiam a mesma forma
do Lote da Sorte, determinando o ponto médio entre o Ascendente e
Saturno, Vênus, Mercúrio, o Sol, Marte e Júpiter, respectivamente.
Desenvolviam mais de quarenta destas equações. Com sua inclinação pela
matemática, os astrólogos muçulmanos a princípio desenvolveram 97 pontos
corolários a partir dos sete, e depois, no século XI, aumentaram o número
322 * Peter Marshall
para 143. Enquanto a maioria das Partes era centrada na relação do
Ascendente com os planetas, as cúspides das Casas e os nodos, algumas
focalizavam até a relação entre duas Partes. Foi desenvolvido em um
sistema altamente sofisticado e sutil, que possibilitava os astrólogos refinar
um mapa natal, lidar com questões horárias e conferir os indicadores dos
planetas. Contudo, Al-Biruni, astrólogo e astrônomo do século XI, censurou
seus companheiros astrólogos por tentar atribuir uma Parte a cada
atividade humana, pois isso degradava a nobre arte da astrologia a um nível
de divinação.

Infelizmente, a perda dos textos e a complexidade dos cálculos
significaram que muitas destas Partes foram perdidas para o Ocidente. As
que sobreviveram são devidas principalmente a extratos dos trabalhos de
Abu Ma'shar e do astrólogo judeu do século XI Abraham ben Neir ibn Ezra.
Segundo o astrólogo italiano do século XIII Guido Bonatti, as Partes foram
subdivididas em três categorias principais: planetárias, Casa e horária. O
método que sobreviveu para calcular e interpretar as Partes Arábicas está
incompleto e os procedimentos aplicados a outras Partes desapareceu
inteiramente.

Das 143 Partes originais, a mais conhecida é a Roda da Fortuna. Outras
incluem a da vida, aptidão, entendimento, duração (incluindo a vida de uma
pessoa), bens, coleção (capacidade para acumular riquezas ou recuperar
bens perdidos), tristeza, prole, amor da prole, pai, heranças e posses,
administração, crianças, filhas, filhos, doença, servos (habilidade para dar
ordem aos servos), escravidão e ligações (a quem ou a que um escravo serve),
jogos (busca do prazer e do romance), desejo e atração sexual, sexo,
(qualidade do impulso sexual), discórdia e controvérsia, casamento, morte,
fé, viagens pela água, viagens por terra, honrarias, avanço súbito,
magistério e profissão, comércio, amigos e mãe, inimigos particulares e,
finalmente, a Parte do perigo e do ano mais perigoso.9
Por volta do século XI, os alvos fundamentais da astrologia árabe tinham
sido estabelecidos. A astronomia e a astrologia ainda eram consideradas
como dois aspectos de uma mesma entidade. As tabelas, cada vez mais
precisas, baseadas nas observações dos céus, eram requisitadas pelos
astrólogos. O famoso astrônomo Al-Biruni era conhecido pela precisão das
suas tabelas e também pela sutileza dos seus trabalhos astrológicos.
Embora adepto das interpretações, ele era astuto em traçar os limites
daquilo que era cientificamente aceitável. Em seu Elements of Astrology, ele
dividiu o assunto em cinco áreas, entre as quais as quatro primeiras eram:
meteorologia; plantas; animais e humanidade; a vida do indivíduo e a
prosperidade e os atos e ocupações do indivíduo. A quinta divisão englobava
aquelas áreas que ele rejeitava porque ameaçavam transgredir os "limites
adequados", ao tentar resolver problemas impossíveis. Como explicou, nesse
ponto "a matéria deixa a base sólida do universal por um dos particulares.

323

Quando esta fronteira é ultrapassada, onde o astrólogo está em um dos lados e o feiticeiro do outro, entramos no campo dos presságios e divinações, que nada tem a ver com a astrologia".10

São frases como essas, bem como o conhecimento superior dos céus, que
tornaram a astrologia muçulmana tão atraente para os cientistas medievais,
ou "filósofos naturais" no Ocidente cristão. Elements of Astrology de Al-
Biruni tornou-se um texto padrão do Quadrivium, que englobou por séculos
as ciências matemáticas. Até o século XVII, as tabelas de Ulugh Beg, neto de
Tamerlão, foram publicadas em Oxford. A reputação deste astrônomo e
astrólogo muçulmano era tão alta que ele foi considerado um dos melhores do
mundo. Quando peguei a "estrada de ouro" para Samarkand (agora no
Uzbequistão) para visitar o observatório do século XV, tudo que descobri da
sua glória anterior foi um fosso semicircular e um pequeno museu anexo.

Embora os astrólogos ocidentais durante a Idade Média e a Renascença
não tenham aceito abertamente as Partes Arábicas, a Roda da Fortuna se
tornou um elemento regular nos horóscopos atuais. Outro legado árabe é o
"sistema Placidus de Casas", que divide a eclíptica em 12 seguimentos
desiguais. Recebeu o nome de Placidus di Tito, astrólogo italiano do século
XVII, e foi na verdade baseado em um grupo de cálculos feitos pelo astrólogo
muçulmano do século VIII Ben Djabit.

A Tábua das Esmeraldas e a Picatrix

As suposições metafísicas gerais dos filósofos e cientistas muçulmanos
tiveram provavelmente a maior influência na criação de uma atmosfera
compatível com a astrologia no Ocidente. O texto mais importante a surgir do
Islã foi um pequeno trabalho conhecido como A tábua das esmeraldas
atribuído a Hermes Trismegistus. Existe uma versão árabe no trabalho do
alquimista Jabir que data pelo menos do século VIII. Não somente ele
enfatiza a correspondência insolúvel entre o céu e a Terra, o microcosmo do
homem e o macrocosmo do universo, o Muitos e o Um, mas também profetiza
que "adaptações maravilhosas" ocorreriam no mundo se a sua importância
fosse devidamente compreendida: "Verdadeiro ele é, sem falsidade, certo e o
mais verdadeiro. O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está
embaixo é como o que está em cima, para realizar os milagres de uma coisa
(...) E o pai de todos os trabalhos de maravilha em todo o mundo."11
O anônimo Picatrix, Libro de la Magia de los Signos, foi outro trabalho
muçulmano que surgiu primeiro em Toledo e exerceu grande influencia
durante a Renascença. Foi uma tradução do trabalho árabe Gayat al-hakim
(O objetivo final dos sábios), atribuído ao alquimista do século X Al-Majriti.
Combina magia e astrologia, oferecendo uma mistura exótica de encantamentos de uma ampla variedade de fontes, incluindo as egípcia, mesopotâmica, grega e hebraica.

324

Apóia-se bastante na astrologia dos sabeus e na filosofia de Hermes. Recomenda o uso de talismãs para puxar a energia dos espíritos dos planetas e das posições das esferas celestes: "Todos os sábios concordam que os planetas exercem influencia e poder sobre o mundo (...) a partir daí temos que as raízes da magia são os movimentos dos planetas."12 A habilidade do verdadeiro mago era
descobrir os segredos escondidos da natureza e direcioná-los para fins benéficos, canalizando as virtudes dos corpos superiores (espíritos) nos céus para os corpos inferiores (matéria) na Terra.

Astrologia Judaica

Os muçulmanos não foram os únicos astrólogos a emergir da Idade Média.
Os judeus desenvolveram sua própria versão da astrologia, apoiando-se nas
tradições gregas e mesopotâmicas e também nas fontes árabes. Existem
muitas referências aos caldeus na Tora (os cinco livros do Velho
Testamento que dizem ter sido escritos por Moisés) e no Talmude
(principal trabalho judeu sobre a lei civil e religiosa). No século I a.C.
emergiu da grande comunidade judaica em Alexandria um trabalho
chamado O tratado de Shem. Escrito em aramaico, ele oferece 12 capítulos
para cada um dos signos do zodíaco com previsões do tipo: "E se o ano
começar em Touro, todos cujo nome contêm um Beth, Yod ou Kaf ficarão
doentes ou serão feridos pelo ferro [arma]. E haverá luta. E um vento virá
do Egito e encherá toda a Terra."13 Na Palestina e em outros pontos do
Oriente Médio representações dos signos do zodíaco em uma posição
central tornaram-se comuns em sinagogas a partir do século IV d.C.
Englobando atributos tanto das escolas solares como lunares, a
astrologia judaica foi mais voltada para o lado espiritual que a muçulmana,
e mais tarde a astrologia ocidental. Os astrólogos encorajavam seus
clientes a levar uma vida religiosa segundo a Halachah (lei judaica). Não
surpreende que, com a tradicional ênfase judaica sobre a família e uma
comunidade mais ampla, o indivíduo fosse visto mais como um ser social,
com responsabilidades terrenas e também ligações celestiais.
Os horóscopos natais judaicos são calculados de acordo com o zodíaco
tropical baseado na rotação anual do Sol. O calendário judaico é um
sistema luni-solar que aplica o ciclo metônico de 19 anos desenvolvido pelo
astrônomo grego Meton. É similar aos calendários chinês e indiano, pois
divide o ano em 12 meses lunares adicionando um mês intercalado para
coincidir com o ano solar de 365 dias. Diferente do calendário chinês, que
começa com a segunda Lua Nova após o solstício de inverno, o ano
eclesiástico judeu começa com a primeira Lua Nova após o equinócio vernal, enquanto o ano civil começa com a primeira Lua Nova após o equinócio do outono.

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O calendário data do tradicional Ano da Criação Judaica em 3761 a.C.
Simultaneamente, os astrólogos judeus partilham do conceito do "Grande
Ano" baseado na precessão gradual dos equinócios, assim como os chineses,
indianos e ocidentais, mas o chama de "Eras Proféticas". Cada um dura
2.160 anos no ciclo de 25.920 anos. A datação atual da Era de Aquário
permanece assunto de debate entre os astrólogos judeus contemporâneos. O
Rabino Joel C. Dobin argumenta que ela ocorreu quando Júpiter e Saturno
formaram uma conjunção em Libra em 31 de dezembro de 1980, porém
outros dizem que foi na mesma conjunção em 2001.14

Os antigos termos judaicos para os signos do zodíaco correspondem às
palavras hebraicas para as 12 constelações que, segundo o Talmude, foram
criadas por Deus. A tradução dos seus nomes e dos seus símbolos difere
ligeiramente das suas contrapartes mesopotâmica e grega. Seguindo a
ordem tradicional, de Áries para Peixes, são eles: Taleh (príncipe), Shor
(touro celeste), Teomin (duas figuras), Sarton (portão Norte do Sol), Ari
(leão), Betulah (esposa de Bel), Moznayim (balancim da carruagem), Akrab
(ferrão), Kasshat (arco do arqueiro), Gedi (cabrito montes ou salmonete),
Deli (deus da tempestade) e Dagim (peixe).15 Vários comentadores notaram
associações claras entre as características dos 12 signos do zodíaco e as
personalidades dos 12 filhos de Jacó, como foram descritos na Tora. Além
disso, existem elos encontrados na Tora entre os signos do zodíaco e os sete
arcanjos: Rafael, Gabriel, Miguel, Haniel, Ma'admiel, Zedquiel e Zofquiel.16

Um aspecto da astrologia judaica que passou para a consciência popular
é o das ligações mencionadas no Talmude entre as influências planetárias e
os dias da semana. Diz-se que uma pessoa nascida no domingo (regido pelo
Sol) é "totalmente boa ou má"; na segunda-feira (Lua), de mau temperamento; na terça-feira (Marte), lasciva e rica. Nascida na quarta-feira (Mercúrio), a pessoa tem boa memória e é sábia; na quinta-feira (Júpiter), é benevolente; na sexta-feira (Vênus), é ativa e piedosa. Contudo, a pessoa nascida no sábado (Saturno) morrerá em um sabá porque profanou a santidade do dia fazendo a mãe e a parteira auxiliarem o nascimento, em vez de realizarem suas tarefas religiosas!17

Vários astrólogos judeus, que viveram próximos dos seus vizinhos muçulmanos, fizeram uso das Partes Arábicas para ampliar suas interpretações do horóscopo. Porém, seu uso excessivamente zeloso foi condenado no século XI por Abraham ben Neir ibn Ezra, em seu trabalho The Beginning of Wisdom, como sendo uma forma de divinação e inconsistente com o objetivo espiritual e propósito superior da astrologia judaica.

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Outros estudiosos do Talmude concordaram e as Partes foram finalmente
descartadas. Os métodos aplicados pelos astrólogos judeus atuais para traçar o
horóscopo são quase idênticos aos utilizados pelos seus colegas ocidentais,
exceto que muitos preferem empregar o sistema Meridiano das Casas, em
oposição ao esquema mais comum de Placidus. Entretanto, a interpretação,
em termos gerais, volta-se mais para manter os ensinamentos do Talmude e
da Tora.18

Uma ênfase geral sobre o livre-arbítrio percorre todos os textos e comentários judaicos. Isto é ilustrado pela tradição judaica de assumir um novo nome, o que requer um novo mapa para o renascimento simbólico. A cerimônia de mudança de nome originou-se provavelmente do Midrash Rabbah, do século VI, onde o "Rabi ben Isaac comentou que Abrão disse:

'Meu destino planetário me oprime e declara: "Abrão não pode gerar um
filho.'" Disse o Único e Abençoado a ele: 'Que seja como tuas palavras. Abrão
e Sara não podem gerar um filho, porém Abraão e Sarah podem.18

A Cabala e a Árvore da Vida

A astrologia esotérica judaica, parte da tradição mística judaica da Cabala,
partilha da mesma ênfase. Seu sistema metafísico é baseado nos dez aspectos
fundamentais da Divindade que emanam do "Nada" original. A relação entre
os dez Atributos Divinos conhecidos como Sefirot são representados no
diagrama da Árvore da Vida. Cada planeta está associado a uma Sefirah
(Atributo Divino): o Sol está no centro, ligado à "Beleza"; Netuno no alto, à
"Coroa"; e a Terra embaixo, ao "Reino".

Na grande "escada da existência", ou "Cadeia do Ser", existem quatro mundos em ordem de procedência. Eles são o eterno Mundo da Emanação, o cósmico Mundo da Criação, o sutil Mundo da Formação e o natural Mundo da Ação. As influências planetárias que operam no terceiro mundo afetam o quarto, onde nós vivemos na Terra. Enquanto a astrologia mundana está ligada principalmente ao nível sutil, ou astral, da existência e seus efeitos no mundo natural, a astrologia esotérica da Cabala trata do cenário total.20

O espírito de um ser humano desce do mundo cósmico para o mundo natural, assumindo um corpo espiritual, um corpo psicológico e finalmente um corpo carnal. O Sol no horóscopo representa a psique, o ponto de ligação entre os mundos físico e sutil. O destino pertence ao aspecto espiritual do Sol.

Além da psique está a alma, e além dela está o espírito. A Árvore da Vida Cabalística com os planetas associados a cada um dos dez Sefirot ou Atributos Divinos que emanam do "Nada" original.

É parte da astrologia judaica esotérica.

Um astrólogo Cabalista contemporâneo, Warren Kenton (Z'ev ben Shimon Halevi), insiste que não existe o chamado mapa sinistro. Ele é uma "plataforma" a partir da qual nós iniciamos nossa jornada na Terra. Embora ele forneça um "padrão interior", que nos conduz a um estilo de vida particular, não é de todo fixo. Cada pessoa possui três escolhas fundamentais: "desenvolver, simplesmente manter ou descer na qualidade do ser até ser liberado da forma encapsuladora do mapa."21 Tendo descido para um corpo físico, o objetivo final é ascender novamente pela Escada de Jacó e retornar como ser realizado ao Mundo da Criação — independente de quantas vidas sejam necessárias para isso.

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À medida que a pessoa desenvolve sua psique, começa a compreender que a vida não é só algo casual, como um dado lançado no momento do nascimento, mas uma peça cuidadosamente considerada em um grande quebra-cabeça. Cada vida individual é parte do trabalho geral da Providência, que é originada no nível do cósmico Mundo da Criação e é administrada por arcanjos conhecidos como Irin, em hebraico, e em geral traduzidos como "Anjos da Guarda". Quando a morte chega, ela é vista de acordo com a Cabala, como uma liberação das "Árvores psicológica e espiritual" da "Árvore física". Para a maioria, isto significará um renascimento para cima ou para baixo na escada evolucionária da existência, dependendo das ações prévias do indivíduo. Porém alguns seres excepcionais subirão para o sutil Mundo do Paraíso ou Mundo Espiritual do Céu. "Desta maneira", Z'ev ben Shimon Halevi diz, "Adão, a imagem do Divino, realiza a vontade de Deus para contemplar Deus até o Fim dos Tempos, quando o espelho da Existência se dissolverá em união com o Único que era, é e sempre será e não será."22

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