Olavo de Carvalho
Revista Galileu,
Edição Especial nº 1
Astrologia,
maio de 2003
Edição Especial nº 1
Astrologia,
maio de 2003
1. Existe alguma relação comprovável entre os movimentos dos planetas no céu e os fenômenos da vida terrestre?
2. Essa relação, se existe, pode chegar a afetar a conduta humana?
3. Supondo-se que a resposta à pergunta anterior seja “sim”, pode existir uma ciência capaz de identificar e catalogar os efeitos dos movimentos dos vários astros sobre diferentes tipos de pessoas e suas respectivas condutas em situações diversas?
4. Caso isso seja possível, é verdade que uma ciência assim concebida já existe?
5. Supondo-se que essa ciência exista e seja aquilo que correntemente se chama “astrologia”, existe uma só ciência astrológica unificada ou várias ciências ou pseudociências que disputam esse nome, embora incapazes de tornarem-se coerentes umas com as outras?
A burrice é sem dúvida a qualidade mais democraticamente repartida entre todas as classes sociais, já que ela nunca falta em nenhuma discussão, sendo tão abundante em assembléias sindicais quanto em disputas de eruditos. Um século de debates em torno da astrologia é a melhor prova disso, não por sua incapacidade de chegar a uma conclusão, mas justamente pela sua insensata esperança de atingi-la por meio de especulações tão confusas e sem nenhuma das precauções lógicas necessárias a qualquer investigação séria.
Ponto a ponto
Desses cinco problemas, tomados um a um, o que se sabe de relativamente certo é o seguinte:
1. Algumas relações entre movimentos terrestres e celestes existem efetivamente. Muitas delas foram observadas faz muito tempo, como a influência da lua nas marés, que qualquer criança conhece. Outras foram descobertas mais recentemente, como a estranhíssima paridade entre o tempo das conjunções planetárias e o de certas reações químicas com metais em estado coloidal (gelatinoso), notada por Rudolf Steiner e depois confirmada pelo químico dinamarquês Nicholas Kollerstrom.
2. Que esses fenômenos possam afetar de algum modo o organismo humano e, por meio dele, a conduta dos seres humanos, é uma hipótese que, já no século 13, São Tomás de Aquino, na “Suma Contra os Gentios”, considerava não somente viável, mas necessária. Sentimentos e reações das pessoas não nascem do puro espírito, mas dependem de fatores biotipológicos e fisiológicos que podem e devem ser afetados pelas mudanças do ambiente terrestre e cósmico.
3. Não há, pois, obstáculo teórico ou absoluto que impeça o estudo científico das relações entre os movimentos dos astros e a vida psicofísica dos seres humanos. O cientista alemão Willi Helpach estudou muito profundamente efeitos psicológicos de fenômenos geofísicos, e uma extensão de suas investigações poderia desembocar em descobertas interessantes de tipo “astrológico”.
4. Se uma ciência assim é possível, seria temerário, no entanto, afirmar que tudo aquilo que se conhece como “astrologia”, na imensa variedade de suas escolas, estilos e igrejinhas, já seja essa ciência e já possua conhecimentos satisfatórios sobre o seu campo de estudos ao ponto de ser aceita como disciplina confiável. Mas também seria um erro brutal rejeitar como charlatanismo ou pseudociência um repertório de conhecimentos tradicionais que podem conter muitas verdades.
5. O que hoje denominamos “astrologia” não nasceu como “ciência”, no sentido moderno do termo, mas como expressão mitopoética – simbólica – de uma impressão de conjunto que algumas civilizações antigas tiveram sobre o cosmos em torno e sobre sua própria existência dentro dele. A “cosmovisão” astrológica – a percepção sintética de alguma harmonia, simultaneidade ou correspondência entre o ambiente celeste e a vida das sociedades e indivíduos – é sem dúvida uma das intuições fundamentais que a espécie humana já teve, e como tal é perfeitamente respeitável, útil e necessária em si mesma, independentemente de seu valor ou desvalor “científico”. As cristalizações imaginárias dessa intuição formam um sistema simbólico cuja presença em todas as culturas e em todas as áreas da criatividade humana – da arquitetura à farmacologia, da culinária às leis e instituições – faz dele um conhecimento indispensável a quem quer que pretenda se aventurar no estudo das “ciências humanas”, da filosofia, da religião, etc. (a cosmologia de São Tomás, que citei acima, por exemplo, é impenetrável a quem não tenha pelo menos os conhecimentos de astrologia a que ele se reporta na “Suma Contra os Gentios”).
Como em toda expressão mitopoética, no sistema simbólico da astrologia fundem-se, compactadamente, o observado e o inventado, fatos crus e divagações fantásticas, correspondências rigorosas e analogias fortuitas. Todo conhecimento humano começa com intuições de conjunto e expressões mitopoéticas, mas sua transformação em ciência – quando possível – requer uma longa série de distinções e depurações. O mitopoético, em si, não é verdadeiro nem falso, no sentido estritamente científico desse termo. Os símbolos, como dizia Susanne K. Langer, são matrizes de intelecções – de muitas intelecções possíveis. Destas, algumas nos põem na pista de descobertas científicas; outras, no entanto, são becos sem saída. Na astrologia, em suma, misturam-se verdades e erros, e separá-los é trabalho para muitos séculos.
A astrologia, enfim, não é uma ciência nem uma pseudociência: é um problema científico – e a melhor maneira de não chegar a resolvê-lo nunca mais é dá-lo por resolvido, passando a emitir a seu respeito opiniões tão infundadas quanto arrogantes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário