quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A ordem Celeste por Olavo de Carvalho


Olavo de Carvalho
Revista Galileu,
Edição Especial nº 1
Astrologia,
maio de 2003
Caixa de texto:   
Mapa astral do rei inglês Henrique VI, 
composto em 1448
Distinguir entre nomes e coisas é fácil, quando se fala de entes materiais e visíveis ou pelo menos de idéias simples. Quando a conversa é sobre realidades complexas e sutis, que transcendem a percepção física e requerem um esforço de imaginação abstrativa, a confusão é quase inevitável. Se você diz a palavra “brigadeiro”, nenhum de seus ouvintes confunde o doce que leva esse nome com a patente militar homônima, muito menos com a pessoa do oficial que a ostenta. Mas, quando alguém pergunta “Astrologia funciona?”, há aí pelo menos cinco perguntas embutidas na mesma frase:
1. Existe alguma relação comprovável entre os movimentos dos planetas no céu e os fenômenos da vida terrestre?
2. Essa relação, se existe, pode chegar a afetar a conduta humana?
3. Supondo-se que a resposta à pergunta anterior seja “sim”, pode existir uma ciência capaz de identificar e catalogar os efeitos dos movimentos dos vários astros sobre diferentes tipos de pessoas e suas respectivas condutas em situações diversas?
4. Caso isso seja possível, é verdade que uma ciência assim concebida já existe?
5. Supondo-se que essa ciência exista e seja aquilo que correntemente se chama “astrologia”, existe uma só ciência astrológica unificada ou várias ciências ou pseudociências que disputam esse nome, embora incapazes de tornarem-se coerentes umas com as outras?
Caixa de texto:   
Olavo de Carvalho 
é filósofo.
Não existe nenhuma sentença unívoca que tenha o poder de responder a todas essas perguntas ao mesmo tempo. No entanto é precisamente isso o que exige de nós o cidadão que, com a maior ingenuidade, nos pergunta: “Astrologia funciona?” O número assombroso de pessoas que, antes de ter percebido sequer a complexidade do problema, acreditam ter uma resposta definitiva a essa pergunta, mostra somente que os hábitos de pensamento científico ainda estão longe  de ter-se impregnado na mentalidade das classes soi disant cultas, as quais continuam, como qualquer homem de Neanderthal, a pensar por meio de compactados semânticos espessos e obscuros como placas de chumbo.
A burrice é sem dúvida a qualidade mais democraticamente repartida entre todas as classes sociais, já que ela nunca falta em nenhuma discussão, sendo tão abundante em assembléias sindicais quanto em disputas de eruditos. Um século de debates em torno da astrologia é a melhor prova disso, não por sua incapacidade de chegar a uma conclusão, mas justamente pela sua insensata esperança de atingi-la por meio de especulações tão confusas e sem nenhuma das precauções lógicas necessárias a qualquer investigação séria.
Caixa de texto: A astrologia não é 
uma ciência nem 
uma pseudociência; 
é um problema 
científico. A melhor 
forma de não 
resolvê-lo é dá-lo 
por resolvido.
Uma resposta razoável quanto à questão da astrologia pressupõe, é claro, que os cinco problemas mencionados sejam resolvidos separadamente, cada qual com os métodos científicos apropriados, diferentes em cada caso, e que em seguida as respostas obtidas sejam articuladas numa teoria geral, o que pode dar um trabalho dos diabos. (Fiz alguma coisa nesse sentido, duas décadas atrás, mas nem os astrólogos nem os inimigos da astrologia se interessaram muito pelas minhas investigações, que se afastavam demasiado das certezas cretinas que uns e outros carregavam em suas respectivas cabeças).
Ponto a ponto
Desses cinco problemas, tomados um a um, o que se sabe de relativamente certo é o seguinte:
1. Algumas relações entre movimentos terrestres e celestes existem efetivamente. Muitas delas foram observadas faz muito tempo, como a influência da lua nas marés, que qualquer criança conhece. Outras foram descobertas mais recentemente, como a estranhíssima paridade entre o tempo das conjunções planetárias e o de certas reações químicas com metais em estado coloidal (gelatinoso), notada por Rudolf Steiner e depois confirmada pelo químico dinamarquês Nicholas Kollerstrom.
2. Que esses fenômenos possam afetar de algum modo o organismo humano e, por meio dele, a conduta dos seres humanos, é uma hipótese que, já no século 13, São Tomás de Aquino, na “Suma Contra os Gentios”, considerava não somente viável, mas necessária. Sentimentos e reações das pessoas não nascem do puro espírito, mas dependem de fatores biotipológicos e fisiológicos que podem e devem ser afetados pelas mudanças do ambiente terrestre e cósmico.
3. Não há, pois, obstáculo teórico ou absoluto que impeça o estudo científico das relações entre os movimentos dos astros e a vida psicofísica dos seres humanos. O cientista alemão Willi Helpach estudou muito profundamente efeitos psicológicos de fenômenos geofísicos, e uma extensão de suas investigações poderia desembocar em descobertas interessantes de tipo “astrológico”.
4. Se uma ciência assim é possível, seria temerário, no entanto, afirmar que tudo aquilo que se conhece como “astrologia”, na imensa variedade de suas escolas, estilos e igrejinhas, já seja essa ciência e já possua conhecimentos satisfatórios sobre o seu campo de estudos ao ponto de ser aceita como disciplina confiável. Mas também seria um erro brutal rejeitar como charlatanismo ou pseudociência um repertório de conhecimentos tradicionais que podem conter muitas verdades.
5. O que hoje denominamos “astrologia” não nasceu como “ciência”, no sentido moderno do termo, mas como expressão mitopoética – simbólica – de uma impressão de conjunto que algumas civilizações antigas tiveram sobre o cosmos em torno e sobre sua própria existência dentro dele. A “cosmovisão” astrológica – a percepção sintética de alguma harmonia, simultaneidade ou correspondência entre o ambiente celeste e a vida das sociedades e indivíduos – é sem dúvida uma das intuições fundamentais que a espécie humana já teve, e como tal é perfeitamente respeitável, útil e necessária em si mesma, independentemente de seu valor ou desvalor “científico”. As cristalizações imaginárias dessa intuição formam um sistema simbólico cuja presença em todas as culturas e em todas as áreas da criatividade humana – da arquitetura à farmacologia, da culinária às leis e instituições – faz dele um conhecimento indispensável a quem quer que pretenda se aventurar no estudo das “ciências humanas”, da filosofia, da religião, etc. (a cosmologia de São Tomás, que citei acima, por exemplo, é impenetrável a quem não tenha pelo menos os conhecimentos de astrologia a que ele se reporta na “Suma Contra os Gentios”).
Caixa de texto:   
Mapa astral hipotético de Jesus Cristo, composto por Girolano Cardano em 1552.
Posições absurdas
Como em toda expressão mitopoética, no sistema simbólico da astrologia fundem-se, compactadamente, o observado e o inventado, fatos crus e divagações fantásticas, correspondências rigorosas e analogias fortuitas. Todo conhecimento humano começa com intuições de conjunto e expressões mitopoéticas, mas sua transformação em ciência – quando possível – requer uma longa série de distinções e depurações. O mitopoético, em si, não é verdadeiro nem falso, no sentido estritamente científico desse termo. Os símbolos, como dizia Susanne K. Langer, são matrizes de intelecções – de muitas intelecções possíveis. Destas, algumas nos põem na pista de descobertas científicas; outras, no entanto, são becos sem saída. Na astrologia, em suma, misturam-se verdades e erros, e separá-los é trabalho para muitos séculos.
Caixa de texto:   
Mapa astral do rei Eduardo III, da Inglaterra, nascido em 1312
Um exemplo de correspondência real, efetiva, entre o mito astrológico e a realidade empírica foi observado pelo estatístico francês Michel Gauquelin, quando comprovou, num minucioso cotejo de 500 mil horóscopos de nascimento, a perfeita distribuição de três grupos profissionais (cientistas, militares e políticos) conforme algumas de suas características astrológicas. Isso foi ostentado pelos astrólogos como “prova” da astrologia. Outras comparações estatísticas não deram em nada, e foram alegadas pelos antiastrólogos como “provas” da inocuidade da astrologia.
Caixa de texto:   
Os signos do zodíaco relacionados a várias partes do corpo humano, em manuscrito da Idade Média.
Medicina astral
Na Idade Média e na Renascença, acreditava-se que a astrologia era uma ferramenta essencial para a prática da medicina. Dizia-se que os “humores” das pessoas eram guiados pelos astros, e que cada parte do corpo estava relacionado a um signo do zodíaco, de Áries, na cabeça, a Peixes, nos pés
Essas tomadas de posição são absurdamente prematuras, pois uma cosmovisão mitológica reúne num simbolismo compacto vários planos e níveis de realidade que só podem ser estudados cientificamente depois de separados, catalogados e articulados racionalmente – um trabalho que mal começou.
A astrologia, enfim, não é uma ciência nem uma pseudociência: é um problema científico – e a melhor maneira de não chegar a resolvê-lo nunca mais é dá-lo por resolvido, passando a emitir a seu respeito opiniões tão infundadas quanto arrogantes.




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