sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Maria Elizabeth de Andrade Costas

É com grande satisfação que compartilho este trabalho maravilhoso e generoso sobre Astrologia. Tenho certeza que ele ajudara a conhecer os conceitos básicos da astrologia ocidental tropical, e o melhor como ela se desenvolveu no Rio de Janeiro, Brasil. Maria Elizabeth está de parabens, vou pesquisar mais sobre ela e compartilho.

A seguir estou colocando a tese dela, mas ainda por não dominar a formatação de textos terei que ir colocando pouco a pouco. Podem curtir o texto na integra clicando aqui 

Universidade Federal do Rio de Janeiro
O SISTEMA ASTROLÓGICO COMO MODELO NARRATIVO
Maria Elisabeth de Andrade Costa
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pósgraduação em Sociologia e Antropologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciências Humanas (Antropologia Cultural).
Orientadora: Profa. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti
Prof. Dr. José Guilherme C. Magnani
Prof. Dr. Luiz Fernando Dias Duarte
Prof. Dr. Marco Antonio Gonçalves
Prof. Dr. Emerson Giumbelli
Rio de Janeiro 2005


RESUMO

Essa tese procura discutir uma matriz discursiva capaz de sustentar o aconselhamento astrológico tal como ele é oferecido e aceito em um setor restrito das camandas médias do Rio de Janeiro. Admitindo-se que a relação céu/terra, aceita pelo segmento-alvo, pode ser abordada como uma linguagem que detém uma sintaxe e uma semântica próprias.

O sistema astrológico é primeiro examinado como um sistema de classificação nos moldes dos sistemas ditos totêmicos. O objetivo é detectar os constituintes formais desse sistema simbólico antes de abordar a consulta astrológica, onde ocorre a leitura ritual de um mapa de nascimento. Por sobre a história que a pessoa conhece a respeito de si mesma, a leitura do mapa natal provoca a emergência de uma outra história, re-significando as experiências de vida.

Este trabalho tenta demonstrar que o sistema astrológico oferece um peculiar modelo narrativo, caracterizando, à sua semelhança, as noções de tempo, espaço e agente. As implicações desse modelo na composição de narrativas de vida e o papel da intervenção de um astrólogo são algumas das questões discutidas.

Introdução
Capítulo 1: O Trabalho Etnográfico
1.1 O Espaço do Céu
1.2 Os eventos
1.3 Os grupos de estudo
1.4 A literatura especializada
Capítulo 2: O Sistema Astrológico como Sistema de Classificação
2.1 O céu superior: as estrelas no firmamento
2.2 O céu mediano: os planetas e os signos do Zodíaco
2.2.1 Os planetas
2.2.2 Os signos
2.3 O céu inferior: as casas astrológicas
2.4 O código cosmológico e seus desdobramentos
2.5 O mapa de nascimento como o discurso astrológico
Capítulo 3: A Consulta Astrológica
3.1 A consulta astrológica
3.2 Fazer um planeta
3.3 Uma retórica da crise
3.4 A consulta astrológica como um ato de fala
Capítulo 4: O Sistema Astrológico como Modelo Narrativo
Conclusão
Anexo 1: As 48 Constelações Conhecidas na Antiguidade
Anexo 2: O Código dos Aspectos
Anexo 3: Os Signos do Zodíaco
Anexo 4: As Dignidades Planetárias
Anexo 5: As Casas Astrológicas

Introdução

Quando a minha amiga Cláudia se separou, depois de 16 anos de casada, ela voltou a sofrer de crises de asma e procurou um tratamento homeopático. Lá pelas tantas nesse tratamento, o médico sugeriu que uma leitura de seu mapa natal poderia ajudá-la e recomendou-lhe o nome de uma astróloga. Assim que acabou a consulta, ela foi direto para minha casa, pediu um gravador e nos sentamos à mesa para escutarmos, juntas, a fita que a astróloga lhe havia dado, com toda a consulta gravada.

Foi assim que eu tomei conhecimento, pela primeira vez, de que havia um atendimento astrológico individualizado, para além das colunas de horóscopos encontradas em jornais e revistas. De modo geral, as colunas de horóscopos baseiam suas mensagens apenas no signo solar, isto é, no signo em que o Sol se encontra no dia do nascimento. Quase todo mundo sabe em que dia nasceu, logo, sabe que é, por exemplo, ‘do signo de Gêmeos’ ou ‘do signo de Escorpião’. Mesmo esse único fator já é suficiente para uma pequena incursão na descrição e/ou explicação de padrões de comportamento.

Uma das minhas vizinhas comentou estar planejando engravidar em um determinado mês para que o bebê nasça em dezembro porque “eu não sei direito, mas todo mundo diz que Sagitário é o melhor signo” (Fernanda, 27 anos, formada em Comunicação Social). Uma amiga explicava o seu desagrado com determinada atitude de sua filha de 16 anos e afirmou: “Vai ser difícil tirar essa mania dela porque ela é de Touro e Touro é assim mesmo” (Elza, 42 anos, dentista). Um colega, professor universitário, quase foi atropelado ao tentar atravessar a rua sem perceber que o sinal ainda estava aberto para os carros. Ainda assustado, ele comentou: “Vai ver é por isso que dizem que Gêmeos é distraído. Eu vivo fazendo isso” (Carlos, 36 anos, professor de Filosofia). Não é raro, então, que as pessoas lancem mão da tipologia dos signos como alternativa viável para a compreensão de atitudes e características pessoais.

Hoje em dia, os próprios meios de comunicação, que divulgam e popularizam as colunas de horóscopos, voltam-se para o produto mais singularizado que a astrologia oferece: o exame de um mapa natal.

Um mapa natal é um diagrama das posições dos planetas no céu, tal como eles podem ser vistos em um determinado momento, de um local específico na Terra. A premissa astrológica é que as qualidades de qualquer entidade-1 se confundem com as qualidades do estado do céu no momento em que ela surge para o mundo. Admite-se que aquele conjunto de circunstâncias planetárias é único, singularizando o nativo-2.

É importante ressaltar a impossibilidade de se abordar a astrologia como um sistema homogêneo. Este sistema se apresenta em inúmeras variantes e se compõe de diversos ramos (astrologia horária, médica, eletiva,  mundial, horoscópica, etc.), todos eles com peculiaridades a serem levadas em consideração. A escolha metodológica para o exame das categorizações astrológicas recai sobre a astrologia zodiacal (tropical), a versão mais comumente praticada no ocidente e adotada, particularmente, pelo grupo pesquisado.

A divulgação de mapas natais nos meios de comunicação-3 traz uma nova faceta para a popularização das categorias astrológicas. Termos técnicos mais específicos, tais como ‘ascendente’, ‘inferno astral’, ‘trânsito’ engrossam o vocabulário leigo. Não é raro ouvir comentários do tipo “devo estar no meu inferno astral” ou “tem que estar acontecendo algum trânsito pesado lá em cima”, mesmo quando as pessoas não sabem exatamente a que esses termos se referem.

Estudos que tratam a astrologia em perspectiva histórica, realizados principalmente por historiadores e filósofos da ciência (Thorndike, 1955; Bouché-Leclerq, 1963; Cumont, 1982, 2000; Rossi, 1992; Martins, 1995; Barton, 1995, 2002) delineiam os contextos da Antiguidade e da Idade Medieval nos quais a astrologia não só encontrava lugar entre as ciências, como também lhes emprestava material para suas práticas. Na contemporaneidade, esse empréstimo inverteu-se.

1- Quando essa entidade é uma pessoa, a carta celeste é um mapa de nascimento ou mapa natal. Mas, a carta celeste pode também se referir a um evento, como  a coroação de um rei, a posse de um presidente, a deflagração de uma guerra, a inauguração de uma loja, o lançamento de um livro. A edição de 26/09/2001 da revista Isto É publica, na página 80, uma interpretação astrológica do atentado terrorista a New York em 11 de setembro de 2001 com base no estado do céu na época. Em 10/12/2001, a coluna de Ancelmo Góis, no jornal O Globo, exibe o mapa do Brasil, com prognósticos para o ano de 2002.
2- O termo ‘nativo’, encontrado na literatura astrológica, refere-se àquele que nasceu em um determinado momento e um determinado lugar e que seria representado pelo estado do céu correspondente.
3- A revista Isto É, em 9/10/2002, publicou, nas páginas 40-44, os perfis astrológicos dos quatro principais candidatos à Presidência da República naquela ocasião. Encontra-se com facilidade, em revistas e em sites da internet, os mapas natais de pessoas famosas, sejam artistas, políticos ou os jogadores da seleção brasileira de futebol.

É a astrologia que hoje co-opta as ciências estabelecidas, especialmente a Psicologia, para consubstanciar suas interpretações. Um exame, mesmo que rápido, da literatura temática já evidencia que as categorias psicológicas que descrevem a estrutura e a dinâmica da personalidade são aproveitadas para justificar alguns dos princípios astrológicos. Contudo, esse empréstimo trafega em uma via de mão dupla. É curioso observar que a crescente adesão à astrologia tem afetado o campo de atuação da Psicologia. Além das categorias astrológicas serem utilizadas na clínica psicológica, principalmente por terapeutas comprometidos com o quadro teórico oferecido pela Psicologia Analítica de Jung e pela Psicologia Transpessoal-4, o recurso à astrologia se expandiu a ponto de afetar também as áreas de seleção de pessoal e orientação vocacional, para as quais a Psicologia tem desenvolvido instrumentos específicos de testes e medidas.

Alguns dos colegas de meus filhos se consultaram com astrólogos para decidirem sobre a escolha de carreira na época do vestibular. Um amigo meu, após ter sido admitido no departamento de marketing de uma empresa de grande porte, ficou sabendo que, em igualdade de condições com outro candidato para o mesmo cargo, foi escolhido por ter Leão como signo Ascendente. Na entrevista de seleção, o entrevistador lhe perguntou explicitamente se ele conhecia seu signo solar e o signo ascendente.

Não se trata de um incidente isolado. O caderno Boa Chance, do jornal O Globo, publicou em 26 de maio de 2002, matéria de duas páginas intitulada ‘Está escrito nas estrelas?’, sobre a ajuda prestada pela astrologia a profissionais e empresas. Isso parece indicar que, para alguns, a caracterologia astrológica se mostra confiável a ponto de ser aproveitada como prognóstico de desempenho.

A caracterização de uma pessoa e das circunstâncias de sua vida a partir de um diagrama, extraído de um congelamento das posições dos planetas no céu e vigente desde seu nascimento, costuma levantar uma indagação sobre a possível articulação entre liberdade e fatalidade, entre livre-arbítrio e determinismo, entre auto-direcionamento e destino.

4-O principal foco da Psicologia Transpessoal recai sobre os estados de consciência que ultrapassam o self individual e contribuem para a integração do eu a um todo maior. Com nítida influência de doutrinas orientais, tais como o zen-budismo, a ioga e o sufismo, esse sistema psicológico enfrenta algumas dificuldades de aceitação, em parte porque o vocabulário técnico empregado é largamente religioso. Jung também estudou tradições orientais e aproveitou o conceito de mandala (palavra sânscrita para círculo ou diagrama circular, usado em meditação e outras práticas espirituais) como símbolo para o processo de individuação. No entanto, Jung enfatizou que os procedimentos orientais para o crescimento espiritual são geralmente inadequados para os ocidentais. Pesquisou as tradições ocidentais, principalmente a alquimia, como metáfora das transformações pessoais envolvidas na individuação. (Fadiman e Frager, 1986)

Já que se admite um desenrolar previsível de eventos, parece que as experiências de vida independem de decisões, escolhas ou determinações pessoais, o que contribui para o fatalismo atribuído à astrologia. No entanto, na medida que o mapa astrológico circunscreve uma maneira de ser identificável e passível de ser descrita, levanta-se uma questão tão ou mais intrigante. Como aceitar uma descrição única de um ser que se altera continuamente?

Investigando a construção da pessoa nas classes trabalhadoras urbanas, Duarte (1986:208/209) inclui as categorias astrológicas na dimensão das qualidades pessoais que diferenciam as pessoas pela nascença. Sublinha que a flexibilização admitida nesse modelo diverge daquela prevista nos modelos religiosos, uma vez que só comporta o recurso a um sistema complexo de interpretações, sem permitir qualquer manipulação mágica ou ética.

Hoje em dia, porém, algumas tentativas de manipulação mágica podem ser observadas na eleição de momentos precisos para a ocorrência de um evento. Não é raro, por exemplo, que astrólogos sejam consultados antes que uma cesariana seja marcada, uma prática mais afeita às camadas médias urbanas do que às classes trabalhadoras enfocadas por Duarte.

Está em jogo, portanto, uma questão cultural ampla, que exige uma reflexão sobre a disposição de um segmento intelectualizado e psicologizado das camadas médias urbanas a responder aos desafios do mundo moderno recorrendo a um sistema milenar, a interpretar a desestabilização contínua por meio da lógica do permanente e a recorrer a um sistema divinatório para auxiliar processos decisórios refletidos.

Uma das vertentes dos estudos sociológicos sobre a adesão à astrologia nas sociedades modernas assume uma postura crítica, analisando o fenômeno à luz de um escapismo alienante, mantido por uma perspectiva obscurantista e subserviente ao capitalismo, na medida em que ajuda a persuadir as pessoas que seus destinos estão fora de seu controle (Adorno, 1900; Morin, Fischler, DeFrance, e Petrossian, 1981; Barthes, 1983).

Talvez o mais contundente documento nesse sentido tenha sido o manifesto intitulado “Objeções à Astrologia”, publicado em 1976 pelo astrônomo B.J. Bok e endossado por 186 cientistas, dentre os quais dezoito ganhadores do Prêmio Nobel. Esse documento recomenda um esforço concentrado para eliminar de uma vez por todas essa antiga superstição que só contribui para o irracionalismo.

Estudos que abordam a relação entre as camadas médias urbanas, a ideologia individualista e sistemas totalizantes (Russo, 1983; Cavalcanti, 1983; Vilhena, 1990; Magnani, 1999; Amaral, 2000), apontam para a fragmentação da sociedade moderna em domínios múltiplos como o reverso da ênfase no caráter holista e harmônico da concepção de mundo professada por seus adeptos. Por esse viés, é possível supor que a crise das religiões institucionalizadas e/ou o enfraquecimento dos grandes sistemas totalizadores de sentido abriram espaço para a revitalização, nas sociedades modernas, das artes divinatórias em geral e da astrologia em particular.

diversificação da rede social em domínios paralelos enfatiza o consequente risco de fragmentação e dispersão (Velho, 1985). O enfraquecimento dos grandes sistemas totalizadores de sentido, principalmente políticos e religiosos, abre espaço para a emergência de outros focos de unificação, dentre os quais o próprio eu se destaca. Incapaz de dar conta de um social pulverizado, o indivíduo volta-se sobre si mesmo, afirmando-se como um dos loci possíveis e estáveis de integração e geração de sentido.

Os estudos de Richard Sennet (1999) e Gilles Lipovetsky (1989) discutem a preponderância do privado e a emergência do narcisismo moderno nesse contexto.

Analisando a crise de sentido nas sociedades urbanas modernas, Berger e Luckman (2004) apontam que o foco centrado no questionamento das identidades e no abalo das certezas, dois fenômenos decorrentes dos processos de  modernização, pluralização e secularização da sociedade ocidental moderna, não deveria nos impedir de perceber os mecanismos dos quais as pessoas lançam mão para responder aos  desafios que elas enfrentam nas grandes cidades.

Dentre esses mecanismos, Berger e Luckman (2004:81) chamam  atenção para as ‘instituições intermediárias’, estruturas parciais que apoiam pequenos mundos da vida.

Nesses pequenos mundos da vida, os diversos sentidos oferecidos “não são simplesmente consumidos, mas são objeto de uma apropriação comunicativa e processados de forma seletiva até transformarem-se em elementos da comunhão de sentido”, impedindo que as crises de sentido se alastrem por toda a sociedade.

Mesmo não apresentando uma tipologia geral dessas instituições, os autores sugerem que elas podem incluir a psicoterapia, práticas de meditação importadas do oriente, movimentos religiosos neo-ortodoxos e movimentos ecológicos.

Talvez a concepção de mundo que a astrologia propõe possa constar do rol dessas instituições intermediadoras entre a experiência coletiva e a individual, as quais “oferecem interpretações típicas para problemas definidos como típicos” (Berger e Luckman, 2004:68). Porém, vincular a adesão à astrologia a determinadas características da vida moderna, particularmente o modo de vida nas metrópoles, levanta uma questão interessante. Como um saber que se propõe como universal e atemporal se acomoda aos contextos culturais onde é instalado?

A busca de uma tradição histórica contínua, que se estenda a todos os fatos englobados sob o nome de astrologia, arrisca-se a incorrer em deformações dos contextos estudados. As concepções de mundo a partir das quais se desenvolve o pensamento astrológico são variadas e mesmo contraditórias. Conforme Vilhena (1990:15) tão bem observou, não existe uma astrologia, mas astrologias, tantas quantas forem os contextos culturais.

Um enfoque mais substancialista poderia considerar o atendimento astrológico, ou mesmo o consumo da literatura técnica, independentemente da interferência de padrões culturais. No entanto, não parece plausível que a astrologia, em si e por si, possa manter o tipo de coerência e consistência que seus adeptos apregoam. Basta observar a diversidade de vozes dos próprios astrólogos, sustentando posições divergentes, até opostas, com relação à teoria e à prática astrológicas, para que se vislumbre uma possível conexão entre os enfoques adotados pelos adeptos da astrologia e suas respectivas formações profissionais, as redes sociais na qual transitam, os segmentos sociais aos quais pertencem.

Considerando a metrópole como sede da mais extrema divisão de trabalho (Simmel, 1976), parece razoável que os diversos contextos urbanos - a praça, o mercado, a academia, o consultório particular – deixem marcas nas práticas astrológicas que ali ocorrem.

Mesmo que as colunas de horóscopos sempre tenham oferecido às camadas populares respostas para os dilemas da vida cotidiana – amor, trabalho, dinheiro e saúde – a consulta astrológica, que interpreta um tema de nascimento, está historicamente associada à nobreza e ao poder.

Delineando a história da astrologia, Peter Burke (2001) salienta uma alternância no perfil de seus consumidores: da nobreza e do clero na Europa medieval, para as classes mais baixas (nos séculos XVII, XVIII e XIX) e, destas últimas, para as camadas médias e altas (fins do século XIX e século XX).

Há uma diferença significativa nos produtos astrológicos voltados para os diversos segmentos sociais.

As colunas de horóscopos em jornais e revistas contemporâneos, assim como os almanaques publicados nos séculos XVIII e XIX, são os produtos consumidos pelas classes mais baixas e se limitam a oferecer diretrizes gerais e padronizadas: como será o dia de todos os leoninos, o que os milhões de taurinos devem temer, a melhor época para atividades de plantio ou corte de cabelo, os períodos favoráveis a investimentos ou a viagens, e assim por diante.

Por outro lado, a carta natal se refere exclusivamente a um determinado ‘nativo’,
singularizando-o, e este é, segundo Burke, o produto astrológico que interessa aos segmentos mais abastados e intelectualizados.

Para o segmento social pesquisado, as consultas astrológicas oferecidas em feiras esotéricas, assim como as interpretações computadorizadas, adquiridas em quiosques montados nos corredores de shopping centers, são comparáveis às colunas de horóscopos veiculadas pela mídia, no sentido de que não constituem a verdadeira astrologia. Esta só pode ser encontrada na singularidade de um mapa natal, objeto de uma leitura compreensiva e detalhada.

A crescente cobertura, por parte da mídia, de temas ligados à astrologia, assim como a divulgação dos mapas de pessoas famosas, evidenciam a entrada da consulta astrológica no mercado da sociedade de consumo. É possível tratar a difusão do aconselhamento astrológico como um fenômeno basicamente mercadológico, um modismo induzido por uma bem montada estratégia de marketing, capaz de criar uma demanda e supri-la com produtos e práticas diferenciadas, ao estilo do freguês.

Se os adeptos da astrologia são clientes que escolhem os produtos segundo suas necessidades e interesses, o delineamento do perfil daqueles que recorrem à astrologia, identificados pela participação, mais ou menos regular, em uma rede de trocas simbólicas, via consultas, cursos, congressos ou fóruns na internet, tende a sublinhar a necessária cosmetização do produto para que ele atinja o público-alvo.

Mary Douglas (2004), porém, salienta que o consumo é investido de valores sociais, funcionando como um código que classifica pessoas, bens e serviços por meio de um sistema de significações que permite uma leitura do mundo e da sociedade.

A ótica do mercado pode deixar escapar que, para além da mercantilização e do consumo, a adesão a um sistema simbólico implica, em maior ou menor grau, um comprometimento com uma visão de mundo. Uma visão de mundo constitui um modelo cognitivo que não necessariamente se ajusta rigorosamente às situações vivenciadas, mas que acaba por orientar a ação a partir da pressuposição de uma  certa ordem no mundo.

Logo, não se trata de um modelo puramente categorial, mas presume também uma conectividade reguladora, projetando sobre a realidade analogias e relações de causa e efeito à sua imagem e semelhança.

Geertz (1989) distingue visão de mundo de ethos: ethos está associado a aspectos afetivos e estéticos, a estilo de vida, enquanto que visão de mundo enfatiza os aspectos propriamente cognitivos. Embora a distinção proposta por Geertz não coincida exatamente com a de Bateson, que separa ethos de eidos, Velho (1994) salienta que ambos colocam a dimensão cognitiva à parte, reproduzindo a dicotomia ‘cognição X emoção’, clássica no pensamento ocidental.

Velho acredita que a noção de sistema cognitivo é indissociável da noção de sistema de crenças a qual, por sua vez, implica sentimento e emoção. Portanto, ele acha problemática a distinção de um cognitivo separado dos aspectos afetivos, estéticos e emotivos. Porém, se Geertz tem razão ao afirmar que a relação entre ethos e visão de mundo é circular, promovendo uma fusão simbólica entre elementos valorativos e cognitivos, ou seja, entre um conjunto de disposições e motivações e uma ideia de ordem, é justamente o fato de colocar as instâncias da vida cotidiana em contextos finais que torna um sistema simbólico capaz de integrar a dimensão cognitiva e a dimensão existencial, oferecendo modos pelos quais o vivido pode ser pensado.

Logo, examinar os motivos e circunstâncias que promovem e sustentam a adesão ao sistema astrológico nas sociedades urbanas modernas não basta para analisar os processos de atribuição de sentido envolvidos. Em vista disso, não procurei delinear o perfil dos adeptos da astrologia, nem dos mais comprometidos com o sistema nem dos interessados ocasionais. Tampouco me detive nas estratégias de mercado capazes de facilitar a comercialização dos produtos e serviços astrológicos e assegurar uma clientela regular. Ao invés disso, tentei compreender os mecanismos simbólicos pelos quais as categorias astrológicas se incorporam na vivência de pessoas pertencentes a um setor restrito das camadas médias urbanas da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Meu foco analítico recai sobre o dizer e o fazer astrológicos tal como eles se consolidam no Rio de Janeiro, no segmento social caracterizado como ‘erudito’ (Morin, 1981; Vilhena, 1990; Magnani, 2000), composto por aqueles que  estudam o sistema astrológico e tentam manipulá-lo por conta própria. Este é o segmento social, no Rio de Janeiro, mais envolvido com a consulta astrológica.

Com esse intuito analítico, tento detectar e descrever uma possível matriz discursiva que sustente o aconselhamento astrológico tal como ele é oferecido e aceito no segmento social - alvo.

primeiro capítulo apresenta uma descrição dos grupos que observei durante o período do trabalho de campo.

No segundo capítulo, procuro delinear as principais categorias astrológicas, tratando o sistema astrológico como um sistema de classificação, com base na proposta teórica de Lévi-Strauss (1989), a partir da sugestão de Durkheim, Mauss (2001).

terceiro capítulo aborda a consulta astrológica, onde ocorre a leitura ritual de um mapa de nascimento, tal como ela é comumente praticada na sociedade carioca, buscando enfocar, mais especificamente, a natureza da orientação astrológica oferecida aos clientes.

Finalmente, o quarto capítulo focaliza o sistema astrológico na qualidade de modelo narrativo e as implicações deste modelo na re-significação das experiências de vida.

Procuro demonstrar como os constituintes formais do sistema astrológico entram na composição de narrativas de vida, remodelando e redimensionando as conexões que montam a trama de uma identidade montada narrativamente.


Capítulo 1 – O trabalho etnográfico

Os adeptos da astrologia estão longe de constituir um grupo coeso e homogêneo. São diversos os graus de adesão e comprometimento para com o sistema astrológico, assim como são diversas as combinações de bens e serviços disponíveis aos interessados.

Esse grupo costuma ser dividido em três grandes segmentos: aqueles que se limitam a acompanhar as colunas de horóscopos divulgadas nos meios de comunicação, sem se envolverem em consultas particulares; aqueles que consultam astrólogos, em sessões particulares, mas que não procuram entender o sistema; e, finalmente, os mais comprometidos com o sistema astrológico, que se esforçam em compreendê-lo e manuseá-lo por conta própria.

Magnani (2000) emprega o termo ‘erudito’ para descrever a parcela dos frequentadores de circuitos neo-esotéricos que se relacionam com esse universo de forma mais consistente. Distinguem-se assim dos frequentadores ocasionais (que atendem a modismos passageiros) e dos ‘participativos’ (que sentem afinidade com os temas e possuem alguma informação prévia, mesmo que esparsa).

Ao analisar a apropriação da astrologia por parte da sociedade francesa moderna, Morin (1981) também emprega o termo ‘erudito’ para descrever o segmento social mais restrito que consome a literatura técnica oferecida àqueles que se dispõem a entender e manipular o sistema por conta própria. Composto pelos próprios astrólogos e por ‘estudantes’, este segmento estaria, segundo Morin, interessado em expulsar o acaso, ligando o sujeito moderno, fragmentado e desarticulado, a um todo maior, ao cosmos.

Na análise de Morin, o segmento erudito deve seu envolvimento em tais práticas à crise da modernidade. Por outro lado, o consumo de massa, ligado a colunas de horóscopos divulgadas nos meios de comunicação, ofereceria consolações imaginárias para a rotina burocratizada, contribuindo para integrar o indivíduo à sociedade burguesa ao manter e alimentar o conformismo.

Tomando o segmento erudito como objeto de estudo, Vilhena (1990) conclui que este grupo, no Rio de Janeiro, não chega a configurar um grupo desviante, circunscrito por uma fronteira simbólica constituída pela crença na astrologia.

O trabalho de Vilhena mostra bem como a definição de fronteiras é resultado sempre transitório de um tenso diálogo entre domínios múltiplos mediante os quais as pessoas operam a construção de suas semelhanças e diferenças. Em muitos casos, a passagem de um para outro domínio não é compreendida pela pessoa como uma mudança, mas como correção de curso dentro da mesma trajetória.

Vilhena discute a natureza da modernidade e o papel ocupado pelas camadas médias urbanas na veiculação de valores, enfatizando a relação ambígua que a modernidade estabelece com a astrologia: respaldada nos próprios valores e pressupostos da vida moderna, ela se apresenta como uma crítica a este modo de vida.

Conclui ele que “ao contrário do que os teóricos do esoterismo supunham, a astrologia acaba por ser, na verdade, um veículo que  expressa e problematiza as tensões dos próprios valores (modernos), mesmo quando, aparentemente, os nega”. (1990:203).

Os adeptos do sistema astrológico, principalmente aqueles com um nível de escolaridade relativamente elevado, desempenham um papel estratégico na construção e veiculação de valores nas sociedades urbanas modernas, muito embora eles próprios se posicionem como críticos desses mesmos valores. Essas tensões contraditórias, que constituem a própria marca da modernidade
(Velho, 1999), percorrem o ethos característico do grupo pesquisado por Vilhena, expressando-se nas trajetórias particulares de cada informante.

São, assim, dois os principais pontos nos quais o trabalho de Vilhena discorda do trabalho de Morin. Em primeiro lugar, apoiado em Simmel e em Gilberto Velho, ele salienta que a crise da modernidade não pode responder pela adesão a um sistema mágico-classificatório já que ‘crise’ é a própria marca da modernidade. Em segundo lugar, apoiado em Lévi-Strauss, ele discorda de uma abordagem que vê na astrologia um resíduo irracional de etapas anteriores da evolução do pensamento e que deixa de reconhecer no sistema astrológico uma sistematização e uma coerência semelhante às classificações científicas.

Porém, tanto Morin quanto Vilhena identificaram uma sensível diferença na visão da astrologia naqueles informantes que não se interessavam em manipular o sistema por conta própria. A adesão a um sistema simbólico por parte de indivíduos voltados para a solução de problemas pessoais, sem comprometer-se com os demais aspectos do sistema, sejam eles éticos, estéticos, filosóficos, religiosos ou místicos, revela um acentuado traço mágico.

O sistema astrológico chama atenção por um aspecto peculiar. Ele entrelaça cálculos matemáticos, figuras geométricas e coordenadas astronômicas com reflexões de cunho filosófico e religioso, sem deixar de sugerir técnicas para previsão e controle das contingências da vida.

A principal implicação da natureza compósita da astrologia é que ela tende a dissolver as fronteiras entre magia, religião e ciência.

O envolvimento no estudo do sistema astrológico, por parte desse segmento considerado erudito, implica uma construção sistematizada de um conhecimento promulgado, pelos próprios adeptos, como sendo de base racional, em um contexto capaz de atrair também aqueles mais voltados para valores mágicos ou místicos.

É importante levar em conta que a astrologia constitui um sistema simbólico atrelado à escrita. Vilhena aponta as relações históricas mantidas entre as práticas divinatórias e certos sistemas de escrita, como o chinês e o mesopotâmico.

“Estes eram monopolizados, nos dois casos, por castas sacerdotais e sua habilidade de ler signos gráficos relacionava-se diretamente com a capacidade de interpretar o significado divinatório de eventos naturais. Estava em jogo, evidentemente, uma idéia de controle, controle esse que legitimava a posição de poder dos sacerdotes”.(Vilhena, 1997:106).

O uso sistemático de cálculos e relações geométricas, assim como a decifração de signos gráficos, são capacidades desenvolvidas na escolaridade formal da nossa sociedade, contribuindo para inverter uma tradição que destinava esse tipo de aprendizagem a uns poucos. A ampliação do grupo de pessoas dispostas a entender o sistema por conta própria é facilitada pelo desenvolvimento da tecnologia ligada à escrita. Sistemas informatizados, que dispensam a observação direta do céu e concentram os esforços na manipulação dos dados sobre o céu, despejam em instantes uma profusão de diagramas e cálculos, material sobre o qual se erigem as interpretações.

Na medida que, na tradição letrada ocidental, ler e escrever se tornam cada vez mais atividades solitárias, dependentes da disposição do indivíduo (Goody, 1968), o autodidatismo torna-se, para alguns, a via preferencial para o estudo da astrologia.

A facilidade de acesso às técnicas de cálculo, por meio de programas de computador, aliada à farta literatura temática encontrada nas livrarias, contribui para isso.

No entanto, verifica-se, no Rio de Janeiro, um esforço no sentido de reestruturar o estudo da astrologia com vistas a adequá-lo ao estilo racionalista de produção de conhecimento. Ao valor concedido ao modelo de raciocínio científico, principalmente por parte do segmento-alvo, soma-se uma reestruturação do campo ocupacional, aproximando-o do estilo moderno de formação profissional.

Um dos indícios dessa reestruturação é a tentativa de adotar uma organização burocrática nos moldes das organizações acadêmicas e profissionais.

Rio de Janeiro. Inicio das Escolas de astrologia

As escolas de formação de astrólogos, no Rio de Janeiro, surgiram em fins da década de 80 e na década de 90, durante o período considerado o ‘boom’ da astrologia carioca. Esses cursos pleiteiam reconhecimento por parte do MEC, montando currículos, ementas e cargas horárias tal como um curso universitário, incluindo supervisão para a prática de atendimento e a emissão de diplomas e certificados.

organização profissional está representada pelos sindicatos e associações. O reconhecimento da profissão de astrólogo, em tramitação no Congresso-1, e a aprovação em assembleia do Código de Ética da categoria devem-se ao trabalho dessas instituições junto aos órgãos competentes. O SINARJ, Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro, foi fundado em 1989, por 48 sócios fundadores, e hoje conta com cerca de 500 sindicalizados devidamente registrados. Segundo a astróloga que ocupa a presidência deste sindicato, 78% dos filiados têm nível superior completo.

Este sindicato promove também, anualmente, um simpósio, nos moldes de um congresso de âmbito nacional.

O 1º Simpósio Nacional de Astrologia foi realizado em janeiro de 1997, no Centro de Convenções do Barrashopping. Em janeiro de 1998, o 2º Simpósio comemorou o ingresso de Netuno em Aquário e, em agosto de 1999, o 3º Simpósio teve como tema ‘O Grande Eclipse e a Transição de Milênios’.

A diretoria do Sinarj, durante o período da minha pesquisa, organizou o 4º Simpósio, em agosto de 2002, realizado no Centro de Convenções do Hotel Florida, no Flamengo, com o tema “O trígono Saturno e Urano - a atualidade na tradição astrológica”. Houve, nessa ocasião, uma convocação para trabalhos de pesquisa inéditos-2, sobre os temas História da Astrologia, Simbolismo, Técnicas Astrológicas e Aplicação à Psicologia.

1-A profissão de astrólogo ainda não está devidamente regulamentada. Tramitam, no Senado e na Câmara Federal, dois projetos para sua regulamentação. O primeiro foi apresentado em março de 2002 pelo Senador Artur da Távola (PSDB-RJ), e o segundo, em maio do mesmo ano, pelo Deputado Federal Luiz Sérgio (PT-RJ).

O melhor dos trabalhos apresentados, escolhido por uma comissão do Sinarj, foi apresentado no Simpósio. Esta convocação foi mantida e ampliada nos dois simpósios seguintes. No 5º Simpósio, realizado em agosto de 2003, com o tema “Urano em Peixes”, foram apresentados quatro trabalhos de pesquisa inéditos. O 6º Simpósio, em agosto de 2004, com o tema “Astrologia e Interdisciplinaridade”, apresentou seis trabalhos inéditos.

A preocupação em formalizar o estudo e a prática da astrologia contribuiu para ressaltar o papel das instituições na dinâmica social dessa atividade ocupacional.

Os grupos de estudos informais e esporádicos convivem hoje com centros de estudos bem montados, que oferecem cursos regulares e voltam-se para a produção de uma literatura temática, começando a entrar no mercado editorial.

Hoje em dia, verifica-se entre os adeptos da astrologia a mesma tendência que Magnani (1999) reconhece no grupo que ele denomina de neo-esotérico. Os usuários afastam-se dos antigos moldes do consumo clandestino e envergonhado e assumem mais aberta e explicitamente sua adesão a tais práticas. Conforme Magnani (1999:18), a emergência de novos padrões de comportamento no contexto das metrópoles, em consonância com determinadas tendências da vida contemporânea, resultaram numa oferta de bens e serviços desse gênero em endereços bem localizados, para um público consumidor formado por pessoas escolarizadas, de bom poder aquisitivo, interessadas em aprimorar a qualidade de vida.

No Rio de Janeiro, os cursos e as escolas para formação de astrólogos localizamse majoritariamente na Zona Sul da cidade e na Barra da Tijuca, facilmente acessíveis por uma potencial clientela com recursos financeiros-3. No entanto, isso talvez reflita muito mais o caráter urbano dos consumidores do que propriamente uma penetração nos círculos oficiais das atuações profissionais, principalmente aquelas que exigem o aval da ciência, muito embora um número não desprezível de adeptos da astrologia faça parte de grupos ocupacionais valorizados na sociedade brasileira por exigirem uma formação universitária.

2-A expressão ‘trabalho de pesquisa inédito’ é empregada pelo próprio SINARJ. Dentre os que tiveram seus trabalhos selecionados para o Simpósio de 2003, dois foram promovidos a palestrantes no simpósio seguinte. Isso indica que a elaboração de trabalhos desse gênero constitui uma possibilidade de reconhecimento e aceitação por parte do grupo ocupacional.
3-Os cursos são dispendiosos e muitas das pessoas que conheci em eventos públicos lamentavam a falta de condições financeiras para frequentá-los. Na escola que frequentei, cada disciplina cursada custava cem reais por mês. Era oferecido um desconto progressivo para quem cursasse mais de uma disciplina. Algumas alunas chegavam a cursar quatro ou cinco disciplinas em um período letivo.

Entre as pessoas com quem convivi encontrei arquitetos, psicólogos, advogados, médicos, professores  universitários, professores de ensino fundamental, filósofos, engenheiros, economistas e jornalistas.

Chegamos a um ponto relevante aqui. Velho (1999:30) admite que certas premissas e categorias daqueles que exercem profissões e atividades ‘racionalizadas’ são, de certa maneira incompatíveis, pelo menos no nível da prática profissional, com as premissas e categorias mais associadas a um lado irracional ou místico, o que não impede que muitos profissionais liberais, em diferentes contextos, acreditem em práticas mágicas, mau-olhado, azar, etc.

Há, portanto, um conjunto de variáveis - poder econômico, nível de escolaridade, circulação preferencial em certos espaços sociais da cidade, etc – que poderiam, tentativamente, descrever o segmento-alvo para nossa pesquisa.

Preferimos,porém, nos ater a um traço marcante, percebido por Velho (1989, 1994, 1999), característico das camadas médias cariocas: um discurso psicologizante, no qual o sujeito individualizado aparece com nitidez, um sujeito que procura sua verdade, desenvolve suas potencialidades e que dispõe de um vocabulário bem desenvolvido para expressar verbalmente suas emoções.

Embora as escolas de astrologia no Rio de Janeiro agreguem pessoas de diferentes níveis de escolaridade, de diferentes profissões e de diferentes visões não só da astrologia, mas também da própria sociedade mais ampla, esse grupo heterogêneo se reúne em torno de um interesse em comum – o estudo da astrologia – e seus encontros são regulares, favorecendo uma sociabilidade mais estreita do que a geralmente encontrada entre aqueles que se limitam a frequentar os circuitos de fins de semana. A escolha de uma escola para formação de astrólogos como base do trabalho etnográfico pode ser justificada nessas linhas.

Antes, porém, de apresentar o material etnográfico, preciso ressaltar que a rede de contatos acabou me levando a conviver muito mais com os astrólogos do que com a clientela leiga. É importante deixar claro que, quando apresento meus informantes como astrólogos, estou adotando esse termo em sentido amplo, nele incluindo todos aqueles que se dispõem a levantar mapas astrológicos e a manusear o sistema por conta própria.

Entendo assim como astrólogo tanto os que exercem essa atividade profissionalmente, atendendo clientes e/ou ensinando astrologia, quanto aqueles que exercem essa atividade em tempo parcial, aliada ao exercício de uma outra profissão. Incluo também os que examinam os mapas astrológicos de amigos e familiares, e os seus próprios, sem se envolverem na prática de atendimento. O que os une, a todos, é a confiança na eficácia do sistema astrológico e o esforço envolvido para o entendimento deste. Dessa forma, é possível distingui-los dos historiadores e filósofos da ciência, que se dispuseram a estudar a astrologia sem necessariamente considerá-la eficaz, e dos consulentes em geral os quais, embora aceitem a contribuição da astrologia, não procuram entender o sistema.

De modo geral, o reconhecimento de uma pessoa como astrólogo repousa sobre dois requisitos: o conhecimento técnico para a leitura de cartas celestes e a prática de atendimento. Para o grupo com quem convivi, entretanto, o conhecimento técnico é condição sine qua non para esse reconhecimento e a prática de atendimento não parece exercer a relevância que os leigos possam lhe atribuir. É comum perguntarem-se uns aos outros: “Mas, você atende?” Seja a resposta sim ou não, a reação costuma ser “Ah, é?”

Não percebi sinais de que o não envolvimento nas práticas de atendimento seja critério para a exclusão do grupo. Até porque a constatação do meu ‘estudo’ da astrologia me franqueou a admissão no Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro. Fiquei interessada em filiar-me, acreditando que este poderia ser um caminho para colher um tipo de material que talvez não fosse encontrado nos espaços que frequentei.

Perguntei a várias colegas do curso se elas eram sindicalizadas ou não e qual seria a vantagem da sindicalização. As que ainda não se tinham filiado, não demonstraram o menor interesse em fazê-lo. “Acho que não tem vantagem nenhuma. Quem é sindicalizado tem desconto nos simpósios, mas quem é aluno daqui também tem, então, pra que? Depois, a escola também distribui os boletins do sindicato, então a gente fica sabendo de tudo. Não vale a pena”. (Andréa)

Aquelas que já eram sindicalizadas ofereceram muito incentivo para que eu me filiasse. Era ‘muito bom’, ‘muito importante’, ‘quanto mais gente melhor’. Uma das diretoras do Sinarj, aluna da escola, trouxe os papéis para a proposta de filiação na aula seguinte e se ofereceu para cuidar da admissão.

“Preenche isso aqui, Beth, e assine. Pode deixar que eu mesma levo lá para o sindicato. Você nem precisa ir, eu me encarrego disso. A taxa da anuidade vai para sua casa, em boleto bancário. A carteirinha também vai pelo correio. Você precisa me trazer dois retratos. Não esquece, traz na aula que vem”.

Quando eu participei dos simpósios de 2003 e 2004, já estava fazendo jus ao desconto oferecido aos sindicalizados na  taxa de inscrição e já era devidamente registrada como astróloga.

Em parte, a aceitação da minha presença nos grupos que frequentei foi favorecida pela minha posição de pesquisadora acadêmica. Ao invés de enfrentar desconfiança quanto ao meu interesse no grupo, suspeitas quanto ao que eu poderia dizer ou escrever, ou resistência em me prestar esclarecimentos e me conceder entrevistas, o que é bastante comum em um trabalho de campo, vi-me diante de uma aceitação muito favorável, quase que um entusiasmo, pelo interesse - “até que enfim!” (Renata) - da universidade pela astrologia.

O bom acolhimento de um pesquisador acadêmico, assim como todo e qualquer contato com representantes da ciência institucionalizada, parece contribuir para o estreitamento dos laços entre a astrologia e a academia-4. Os pedidos de entrevistas foram prontamente aceitos com comentários do tipo:

“Eu tenho mesmo muita coisa pra te dizer” (Célia); “Que bom que você está disposta a fazer a entrevista lá em casa, porque aí eu posso te mostrar onde e como eu trabalho” (Glória); “A hora que você quiser. Eu sei que você precisa disso. Só não sei se você vai gostar do que eu tenho pra falar sobre o meio astrológico” (Heloísa).

As poucas relutâncias que encontrei alegavam uma desqualificação para a posição de informante, e não uma resistência à interlocução. “Olha, você tem certeza que quer me entrevistar? Eu não sei muita coisa, não sou assim metida nesse meio, estou só estudando” (Marília); ou então, “eu acho que não vou saber responder o que você vai me perguntar, eu não entendo tanto assim de astrologia” (Simone).

4-A diretora da escola Espaço do Céu comentou: “Olha, esses debates entre astrólogos e astrônomos funcionam a nosso favor. Hoje, o Shermann  (astrônomo do Planetário da Gávea) tem outra visão da astrologia. Aos poucos, eles vão conhecendo melhor porque, sabe, eles costumam criticar sem nem ao menos saber do que se trata. É um trabalho de paciência, aproveitar as oportunidades que eles mesmos nos dão para explicar como funciona a astrologia”.

Era também comum que os comentários que eu ouvia no decorrer de conversas casuais, nos espaços que frequentei fossem ampliados e elaborados em meu benefício. “Vocês viram o que o Fulano falou lá no simpósio? Que coisa... Mas ele, já viu, é daquele jeito mesmo” – nesse ponto, a pessoa virava-se para mim e explicava: “Beth, você já conhece o Fulano? Ele faz esse gênero meio zen, eu já me consultei com ele, é do tipo que fica de olhos fechados, como se estivesse meditando e, de repente, diz uma coisa assim do nada e volta a meditar. É muito esquisito. E não foi só comigo, não. Conheço várias outras pessoas que contam a mesma história. A gente fica até meio sem graça, sem saber se ele está dormindo ou se ele está esperando que a gente diga alguma coisa” (Suzana).

Dois fatores parecem ter contribuído para essa abertura. O ‘estudo’ e a ‘pesquisa’ como valores compartilhados e o fato de que a maioria dos meus informantes concebe o saber astrológico como uma ‘ciência’, digna de figurar entre as disciplinas acadêmicas entre as quais, aliás, ela já esteve, como alguns deles nunca se cansam de lembrar.

O retorno da astrologia aos templos de saber acadêmico deverá acontecer, mais cedo ou mais tarde, “porque as pessoas estão cada vez mais se dando conta da contribuição que a astrologia sempre prestou ao conhecimento e quem se incomoda com isso são os cientistas de cabeça estreita que se acham donos da verdade. Não são nem todos os cientistas, porque muitos deles já estudam astrologia”  (Adriana).

A despeito das dificuldades e dos antagonismos que os astrólogos têm enfrentado na sua interlocução com a sociedade mais ampla (notadamente com o meio científico e religioso), era bastante generalizada a ideia de que o estado da arte da astrologia se encontra espremido entre um passado glorioso e um futuro promissor.

1.1 O Espaço do Céu

“O Espaço do Céu tem como objetivo a divulgação e difusão da astrologia com seriedade, visando seu engrandecimento e respeitabilidade. Informando, formando e incentivando pesquisas”. (www.espaco-doceu.com.br)

Parte do trabalho de campo foi realizado em uma escola para formação de astrólogos, situada no Largo do Machado, na  Zona Sul do Rio de Janeiro. A escola, denominada Espaço do Céu, funciona em uma sala no terceiro andar de um edifício semi-comercial, semi-residencial. A diretora da escola possui um consultório no mesmo prédio, onde atende sua clientela.

O espaço é equivalente ao de um apartamento de quarto e sala. Entra-se por um corredor, que se abre em uma saleta, misto de secretaria e sala de espera. A sala de aula fica ao fundo e suas janelas dão para a rua. As janelas jamais são abertas, o barulho que vem da rua é muito grande, pois trata-se de uma rua bastante movimentada, de tráfego intenso. O ar condicionado é sempre ligado.

Na saleta, há um balcão e uma mesa com um computador, onde trabalha a secretária. Ela é funcionária da escola desde que esta foi fundada. Teve oportunidade de assistir algumas aulas sobre astrologia, mas não levou o estudo adiante “porque não tenho tempo. O trabalho aqui toma todo o meu dia”.

Na parede oposta ao balcão, existe uma bancada, com uma bandeja com café, água gelada, um pote com balas ou biscoitos. Entre o balcão da secretária e a bancada, há duas mesinhas com quatro cadeiras, onde os alunos esperam a hora da aula. Poucos chegam cedo. Na maioria das vezes, os alunos já se dirigem diretamente para a sala de aula, que conta com cerca de 20 carteiras.

Nas paredes laterais da secretaria, duas vitrines fechadas expõem livros à venda. Um quadro de avisos exibe a programação da casa, os eventos patrocinados por instituições ligadas à astrologia e recortes de notícias extraídas de jornais e revistas sobre esse tema. Uma revisteira contém diversos exemplares de jornais distribuídos gratuitamente: Universus, Ganesha, Prana e Oxigênio.

As paredes, tanto da secretaria quanto da sala de aula, são decoradas com quadros que retratam o sistema solar, as constelações, o planisfério e a figura humana como um microcosmo.

A escola conta com uma equipe permanente de cinco professores e um grupo de convidados regulares que ministram palestras, seminários, workshops ou cursos de férias. Dentre esses convidados, encontram-se astrólogos de Brasília, São Paulo, Recife e Porto Alegre. A diretora da escola, Celisa Beranger5, era arquiteta antes de se profissionalizar como astróloga. Quanto aos outros professores, Cid de Oliveira era engenheiro, Cláudia Castelo Branco era filosofa e Gleide Gomes trabalhava como secretária executiva.

Todos eles abandonaram suas profissões anteriores e trabalham com a astrologia em tempo integral. A diretora da escola iniciou seus estudos de astrologia em 1988, e começou a lecionar na Astroscientia, uma escola de astrologia que se dissolveu em 1996. A equipe permanente do Espaço do Céu é formada por antigos professores dessa mesma escola, que se localizava na Rua Sebastião Lacerda, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Um dos motivos para a escolha do Espaço do Céu para o trabalho etnográfico é que essa escola foi criada a partir de uma cisão do grupo da Astroscientia estudado por Vilhena (1990). Este grupo se dissolveu em 1995/1996 e as pessoas enveredaram por três caminhos diferentes. Uma parte montou uma escola no Leblon, denominada Zênite, a qual, dois anos depois de sua fundação, também se dissolveu. Os astrólogos que haviam se associado para montar essa escola passaram a ministrar aulas em casa, a grupos pequenos de alunos, embora oficialmente a Zênite ainda exista como razão social. Outra parte do grupo original de pessoas deixou de frequentar escolas de formação, mas participa esporadicamente dos cursos de fim de semana, seminários e congressos oferecidos tanto pelas escolas quanto pelo sindicato de astrólogos.

5-Os nomes dos professores da escola e dos palestrantes em eventos públicos foram mantidos. Todos os demais foram alterados. Entretanto, quando os depoimentos ou comentários desses mesmos professores e palestrantes, citados no texto, foram colhidos por mim em entrevistas pessoais ou em conversas informais, seus nomes também foram trocados.

Finalmente, um terceiro grupo transferiu-se para a escola Espaço do Céu que funciona até hoje. O Espaço do Céu foi fundado em 1997 e funcionava, de início, na Rua Dois de Dezembro, no Catete. Poucos meses depois, passou para o endereço atual. Em 2001, transferiu-se para um edifício no mesmo quarteirão, um prédio comercial mais moderno. Mas, no segundo semestre de 2001, voltou ao endereço atual, pois as despesas no novo prédio estavam muito altas.

A escola tem hoje cerca de 50 alunos. Já contou com 110 alunos, mas a freqüência vem diminuindo nos últimos anos. Em média, os alunos têm mais de 30 anos de idade e o nível de escolaridade é bastante diversificado. Todos os que conheci têm o segundo grau completo, muitos têm nível superior e uns poucos são pós-graduados.

Os alunos são majoritariamente do sexo feminino. Dentre as minhas mais de 30 colegas, só encontrei três homens.

O estudo de Morin, Défrance, Fischler e Petrossian conclui que a adesão à astrologia é um fenômeno predominantemente feminino, jovem e urbano. Apesar de estar lidando com um segmento social urbano diferente, o das classes trabalhadoras, Duarte afirma que, nos grupos por ele estudados, a consulta a horóscopos se faz, sobretudo, por mulheres e jovens, mas salienta que “este ponto ainda insuficientemente pesquisado e conhecido” (1985:208).

Vilhena (1990) identifica no estudo de Morin um certo biologismo, que transparece, por exemplo, na comparação da astrologia a um germe infeccioso que se propaga na sociedade moderna, ou no diagnóstico de que os adeptos dessa prática são aqueles que têm menos anticorpos contra a astrologia.

Talvez seja esse mesmo biologismo o que leva Fischler a equacionar a predominância feminina por ele constatada a “une astrologie des tempéraments, des cycles et des rythmes bio-psychocosmiques” (Fischler, 1981:24).

Isso parece vincular a mulher aos ciclos e ritmos que compõem a periodicidade da natureza, na esteira de uma concepção que enraíza o gênero em categorias essencialistas. A estreita aproximação do feminino à natureza tem sido amplamente discutida. Análises etnológicas questionam exatamente a generalização da equação ‘mulher=natureza, homem=cultura’, juntamente com a correspondente hierarquização que submete a natureza à cultura, logo, submete a mulher ao homem (Overing, 1986; Strathern, 1988; Counihan, 1996, Héritier, 1996).

Segundo Héritier (1989), este é o motor do trabalho simbólico exercido sobre a relação entre os sexos. Enquanto que a mulher verte seu sangue involuntariamente, o homem arrisca ferir-se, na guerra e na caça, por decisão. Nesse sentido, o sangue masculino é derramado voluntariamente. Consequentemente, a autodeterminação, acompanhada de suas congêneres (empenho, propósito, vontade e assertividade), pertencem estereotipicamente à esfera  masculina, reservando-se à mulher a impulsividade, a irreflexão e a indecisão. Além disso, a mulher verte, por determinação biológica, não só sangue, mas também leite.

Donde, cabe a ela o papel de mãe e nutriz. Respaldando, assim, a pressuposição de um instinto maternal (constitucional, posto que natural), o confinamento da mulher na domesticidade e na cotidianidade fica asseverado.

Discutindo análises feministas sobre a opressão da mulher e seu atrelamento à esfera da domesticidade, Cavalcanti (1981) argumenta que a proposição ‘opressão da mulher’ decorre de uma série de categorias correlatas, tais como poder, desigualdade, direitos, e uma categoria matriz – a de indivíduo como valor enquanto sujeito moral. É através desse viés que as análises feministas, como a de Rubin e a de Simone de Beauvoir, permitem que se formule uma condição genérica de opressão e, ao mesmo tempo, postulem a existência de um gênero mulher universal.

Magnani (1999:110-115) também assinala o perfil majoritariamente feminino no público que frequenta os circuitos neo-esotéricos e oferece algumas vertentes para a explicação dessa predominância feminina: -a valorização, no segmento social investigado, de uma sensibilidade estereotipicamente marcada como feminina, na medida que a espontaneidade, o senso estético e a intuição são traços considerados dominantes dessa sensibilidade e determinantes na condução de algumas terapias alternativas nas quais esse público se engaja; - o resgate da figura da bruxa, considerada uma forma de poder tipicamente feminina; -o papel de agente conferido à mulher nas práticas neo-esotéricas (na qualidade de autoras de livros, professoras, terapeutas, diretoras de centros esotéricos, etc) em acentuado contraste com o papel subordinado que a mulher tem ocupado em sistemas religiosos de tradição judaica/cristã/islâmica.

Embora eu não tenha investigado os motivos para a predominância feminina nessa escola para a formação de astrólogos, acredito que a análise de Gilberto Velho sobre o privilégio concedido ao domínio do privado nesse segmento social também contribui para as tentativas de explicação desse fenômeno.

Ao investigar a busca de coerência entre os diversos códigos que operam nas sociedades complexas modernas, Gilberto Velho enfatiza que os grupos por ele pesquisados, dentro do universo de camadas médias da Zona Sul carioca, aparecem como os portadores mais típicos da vertente psicologizante do individualismo moderno. Essa vertente se caracteriza pela ênfase e importância concedida ao domínio mais intimista do privado, em contraposição ao  domínio do público. Velho salienta que as diferenças entre o  ethos masculino e o feminino são importantes, mas que, nesses grupos, homens e mulheres trabalham, empenham-se em planos de carreira e desempenham papéis públicos.

As alunas da escola Espaço do Céu também exercem atividades profissionais e, mesmo aquelas que se dizem ‘donas-de-casa’, costumam trabalhar tempo parcial (uma delas ajuda o marido, comerciante, em seu negócio, atendendo na loja) ou são aposentadas (duas professoras de matemática, uma advogada, uma arquiteta, entre outras). A maioria delas tem mais de 30 anos de idade (algumas estão na casa dos 60) e têm curso superior completo (algumas com pós-graduação).

Contudo, se um mapa natal pode ser concebido como uma topografia da interioridade, não é de se estranhar que esse estudo atraia aqueles mais engajados com o domínio do privado e da intimidade. Quase todas as alunas trazem, para as aulas, uma pasta com os mapas de seus familiares, principalmente maridos e filhos, além de seus próprios mapas, e esta pasta fica sobre a carteira, sendo por vezes consultada antes de se formular uma pergunta ou contar um caso que comprove um detalhe técnico. Mesmo quando nada é perguntado, escuta-se o barulho de pastas sendo abertas, folheadas e, depois, fechadas.

Além disso, não são poucos os astrólogos que conheci, tanto homens quanto mulheres, que carregam seus mapas nas carteiras, em forma de xerox reduzida e plastificada – alargando mesmo a noção de carteira de identidade.

Na escola Espaço do Céu, as aulas acontecem à tarde e à noite. Cada disciplina é ministrada uma vez por semana, em aulas de uma hora e meia de duração. O curso completo, dividido em 6 etapas básicas e uma etapa de supervisão, inclui as seguintes matérias:

1ª Etapa:
Simbolismo
Elementos e Ritmos
Fundamentos
História da Astrologia
Introdução à Astronomia
Cálculo do Mapa
Signos e Planetas nos Signos

2ª Etapa:
Mitologia dos Signos e Planetas
Casas e Planetas nas Casas
Aspectos
Cúspides e Regências

3ªEtapa:
Técnica e Prática de Interpretação
Trânsitos dos Planetas Lentos
Ciclos
Estrelas Fixas

4ª Etapa:
Técnicas de Comparação de Mapas
Progressões
Evolutivos
Revoluções Solares/Lunares
Sinastria e Mapa Composto

5ª Etapa:
Lunações e Eclipses
Casas Derivadas
Figuras
Interpretação Conjugada das Técnicas
Retificação e Busca da Hora de
Nascimento

6ª Etapa:
Eletiva
Nodos Lunares
Enquadramentos
Partes Árabes
Horária
Fundamentos Filosóficos
Supervisão para Prática de:
Mapas Natais
Trânsitos
Progressões
Revoluções Solares

Além das disciplinas regulares, a escola oferece cursos extras, em função do interesse dos alunos que, vez por outra, solicitam determinados temas. Ao longo de período letivo, também é oferecido um ciclo de palestras abertas ao público, para as quais é preciso inscrever-se com antecedência devido à exiguidade do espaço de sala de aula. Uma vez lotado o espaço, os demais interessados ficam em uma lista de espera, sendo notificados da possibilidade de comparecerem caso haja uma desistência. No primeiro semestre de 2004, foram essas as palestras:
1. ‘Branca de Neve’, com Cid de Oliveira, em 30 de março;
2. ‘Trânsito de Vênus – a expressão do feminino’, com Celisa Beranger, em 29 de abril;
3. ‘Outros usos para o mapa composto’, com Gleide Gomes, em 27 de maio;
4. ‘A relação Saturno/Sol na carta natal’, com Bete Rua, em 1 de julho.

Durante o mês de julho, a escola entra em recesso. Porém, durante o mês de janeiro, são oferecidos cursos de férias e workshops. Passa-se uma lista com várias propostas de temas, ainda em dezembro, e os alunos assinalam aquelas que mais lhes interessam, além de marcarem sua preferência quanto ao dia da semana e ao horário.

Para janeiro de 2004, a lista de alternativas continha treze temas a serem ministrados por quatro professores. Celisa Beranger: aprendendo a usar o software Solar Fire, os movimentos da progressão secundária, mapa diário, como localizar acontecimentos marcantes e verificar a hora de nascimento, pontos médios. Bete Rua: aspectos em conjunto, casas derivadas, a dinâmica dos planetas nas casas. Cid de Oliveira: Netuno, Urano, introdução à leitura da Divina Comédia. Gleide Gomes: aspectos geracionais em mapas pessoais, o trânsito de Saturno nas casas.

Cada curso custava cem reais e havia um desconto para quem se inscrevesse em mais de um curso e para quem tivesse frequentado a escola durante o semestre anterior. Assim que me inscrevi como aluna na escola, em fevereiro de 2003, matriculei-me em duas disciplinas. Uma, sobre mitologia dos signos, que era oferecida para os iniciantes. A turma tinha quatorze alunas. A outra, sobre uma técnica preditiva denominada ‘progressões’, era ministrada em um período mais avançado. A turma tinha oito alunos. O meu objetivo era me aproximar tanto das pessoas dispostas a iniciar um estudo de longo prazo sobre astrologia quanto das pessoas que tinham levado o estudo adiante, estando prestes a se ‘formar’.

A minha primeira surpresa ocorreu na turma de iniciantes. Minhas colegas, de modo geral, não eram iniciantes. Estavam repetindo aquela disciplina “porque é sempre bom ouvir aquilo de novo, a gente acaba entendendo melhor” (Ângela).

Algumas das alunas já atendiam clientes, outras já até faziam parte da diretoria do Sindicato de Astrólogos do Rio de Janeiro. Fui percebendo aos poucos que essa  prática era comum. Algumas alunas alegavam que repetiam as disciplinas porque “só mais tarde eu percebi o quanto essa disciplina era importante. Na época em que eu fiz isso pela primeira vez, não prestei atenção em muitos detalhes que hoje eu vejo como são importantes. É muita informação junta. A gente não dá conta de assimilar tudo” (Clotilde). Ou então, elas tinham feito aquele curso em outro lugar, mas queriam uma abordagem diferente do mesmo assunto. “Vim fazer esse curso de Mitologia com a Bete Rua porque sempre me disseram que ela era ótima. Eu já estudei mitologia antes, mas não é a mesma coisa.

Ela explica com muito mais detalhe, tem as aulas sempre bem preparadas e não dá para perder a oportunidade de ver a mitologia com ela” (Ana). No segundo período letivo, de agosto a dezembro de 2003, cursei a disciplina ‘Análise do Mapa Natal por Temas’, que era oferecida pela primeira vez, atendendo a pedidos dos alunos. O curso ficou lotado e, ao final, foi feita uma avaliação, com vistas a determinar se essa disciplina deveria se repetir. Os alunos foram unânimes em admitir sua importância e defenderam a necessidade de estabelecê-la como disciplina regular.

Ela foi novamente oferecida no segundo semestre de 2004. No terceiro período, de fevereiro a julho de 2004, inscrevi-me em ‘Técnicas de Astrologia Empresarial’, um enfoque bastante especializado, voltado para o atendimento a empresas, com apenas seis alunos inscritos, dos quais dois eram do sexo masculino. Todos tinham um interesse específico no curso, seja porque atendiam ou pretendiam atender empresas, seja porque eram, eles mesmos, empresários.

A fim de caracterizar a escola Espaço do Céu, algumas distinções se fazem necessárias. Uma primeira distinção é a localização da escola. Situada no Largo do Machado, ela fica facilmente acessível não só aos moradores da Zona Sul, mas também aos que trabalham no centro da cidade. O horário do final da tarde, após o trabalho e antes da volta para a casa, é um dos mais concorridos. Um dos alunos somente se inscreveu em uma disciplina oferecida no meio da tarde porque trabalhava no centro e ‘dava uma fugidinha’ até o Catete uma vez por semana. Todos brincavam com ele, dizendo que ele deixava o paletó no escritório para que os colegas de trabalho pudessem dizer “ele está aqui sim, olha lá o paletó dele no encosto da cadeira. Deve ter ido tomar um café”.

Os alunos, de modo geral, moravam na Zona Sul, mas havia alunos que vinham até da Barra da Tijuca, embora haja uma escola de astrologia bem montada no Recreio dos Bandeirantes-6.

Uma segunda distinção é que se trata de uma escola e não de um curso livre. De modo geral, a astrologia é ensinada por pessoas que dão aulas em suas próprias casas, ou em salas e consultórios, em um esquema conhecido como ‘linha de mestre’. Um único professor transmite aquilo que sabe a um grupo de alunos disposto a aprender com ele. Na ‘linha de mestre’, a comparação do professor com o guru não é inapropriada.

Esses mestres deram origem a ‘linhagens’ dentro da astrologia carioca. Os astrólogos que hoje atuam no Rio de Janeiro foram discípulos de Emma Costet de Mascheville, Martha Pires Ferreira, Cláudia Lisboa, Márcia Mattos, Maria Eugênia de Castro, Anna Maria Costa Ribeiro, entre outros, cada um desses mestres imprimindo, em seus alunos, uma orientação geral e uma perspectiva particular que marcam a abordagem astrológica adotada.

Na equipe permanente do Espaço do Céu, dois professores tiveram sua formação fortemente marcada por Martha Pires Ferreira e uma outra adota uma abordagem peculiar do mapa astrológico, conhecida como Astrocaracterologia, que é creditada a Olavo de Carvalho.

Isso significa que abordagens diversas, muitas vezes contrastantes, se fazem presentes na escola Espaço do Céu, expondo os alunos a controvérsias dentro de uma mesma disciplina. Durante a minha estadia ali, por exemplo, ocorreu um caso de discordância acentuada entre os professores.

Respondendo à dúvida de uma aluna em aula, uma das professoras comentou que ‘aspectos ao Ascendente não são relevantes’, o que gerou uma enorme polêmica. A aluna consultou outros professores, que discordaram enfaticamente. A professora em questão foi chamada e avisada de que tinha sido mal interpretada pelos alunos. Ela, porém, confirmou seu comentário e insistiu em manter essa posição. Depois disso, o assunto voltou a ser mencionado várias vezes, ora em tom de crítica (“Para vocês verem como é difícil, até no nosso grupo, aqui dentro mesmo, tem gente que pensa que o Ascendente não é importante!”), ora em tom de orgulho (“Em nenhum outro lugar vocês escutariam, por exemplo, que o Ascendente é e não é importante. O importante mesmo é verificar, fazer pesquisa, não ir aceitando as coisas assim. Por isso, aqui, a gente convive com várias abordagens”).

6-O Astro*Timing foi inaugurado em 1992, na Barra da Tijuca, dirigido por Otávio Azevedo e Paula
Salotti. Atualmente, a escola funciona no Recreio dos Bandeirantes, Av. das Américas 15000/sl 221 a 224, San Francisco Top Town, sob a responsabilidade de Paula Salotti.

São dois os motivos principais alegados pelos alunos que optaram pelo Espaço do Céu após terem percorrido diversos desses professores particulares:
a) o esgotamento de uma abordagem particular à astrologia e a necessidade de buscar outra perspectiva. - “Eu já não tinha mais o que aprender com Fulano. Já tinha lido tudo que ele me recomendou. Aliás, eu já estava lendo até autores que ele não conhecia. Ele ficava repetindo, repetindo, e eu precisava de mais” (Andréa);
b) um modelo de produção/transmissão do conhecimento mais racionalista, aos moldes do estilo científico. - “Não me adaptei ao estilo do Fulano, muito solto, misturado com numerologia, interpretações filosóficas... Isso pode funcionar para ele, mas eu preciso de uma coisa mais sólida. Foi quando eu vi a apresentação da Celisa em um simpósio e vim pra cá. Gosto dessa coisa mais certinha, seguindo as regras mais de perto, me sinto melhor” (Mônica). No entanto, embora o modelo proposto pelo Espaço do Céu seja o de escola, entendido como a conjugação de uma pluralidade de abordagens decorrente da presença de uma equipe de professores, em contraposição ao professor único, ele não se afasta muito do ‘estilo de mestre’.

O estilo Espaço do Céu é pesadamente marcado pela orientação de sua diretora e coordenadora a qual agrega, em torno de si, um grupo de estudantes de astrologia (já profissionalizados ou semi-profissionalizados) que comungam dos mesmos valores quanto ao trato com o conhecimento, quanto aos requisitos para a formação de astrólogos e quanto à prática do atendimento. Nesse sentido, os alunos do Espaço do Céu seguem a ‘linha da Celisa’. Esta minha observação pode dever-se às circunstâncias nas quais minha pesquisa ocorreu. No período em que cursei a escola, de fevereiro de 2003 a julho de 2004-7, 80% das aulas eram ministradas pela diretora. Dentre os quatro outros professores que compunham a equipa docente, uma estava afastada por motivos de saúde, uma ausência que se prolongou durante os dois anos em que permaneci na escola.

7-A partir de agosto de 2004, deixei de frequentar os cursos regulares da escola e passei a me dedicar ao grupo de estudos sobre os autores da Antiguidade, composto por alunos da mesma escola, para o qual fui convidada. Frequentei esse grupo de setembro de 2003 a julho de 2005.

Esta professora, porém, apresentou-se em três dos eventos públicos a que compareci. Um outro professor, Cid de Oliveira, não ministrava  disciplinas regulares durante este período. Ocupou-se basicamente das palestras extras e dos cursos de férias. As outras duas professoras da equipe, Bete Rua e Gleide Gomes, lecionavam disciplinas específicas dentro do que era considerado como suas ‘áreas de especialização’.

A maior parte das disciplinas regulares e das técnicas relacionadas ao cálculo e ao conhecimento astronômico, os temas avançados de técnicas preditivas, as disciplinas extras, experimentadas no programa de cursos pela primeira vez, em suma, todo o restante das disciplinas ficava a cargo de Celisa Beranger. Por isso, quando alguém me perguntava onde eu estudava astrologia e eu respondia que era no Espaço do Céu, era comum a pessoa comentar “Ah, sei, o curso da Celisa”.

Vale observar também uma característica marcante da relação professor/aluno que observei durante aquele período. Grande número de alunos registra as aulas em gravador. É intensa a procura pelos assentos na primeira fila, mais próximos do professor, de modo a facilitar a gravação das aulas. Quando o aluno chega mais tarde, é comum que ele peça permissão a alguém sentado nas primeiras filas para deixar o gravador em sua carteira. As aulas são depois transcritas e arquivadas. Conversas sobre as gravações são muito frequentes (“já dei conta das transcrições de 2001, agora estou começando a transcrever as aulas de 2002, e você?”, ou “não pude vir semana passada, depois você me empresta a fita?” ou então “aquele curso foi uma repetição do curso que ela deu no ano passado. Eu tenho a fita, é a mesma coisa, não valeu muito a pena”).

Por mais que os professores divulguem uma bibliografia especializada sobre o tema em foco, para a grande maioria dos alunos a relação primordial não é com os textos, mas com o mestre, aquele que transmite diretamente a astrologia para a pessoa.

Em seu trabalho sobre o ressurgimento da astrologia nas sociedades modernas, Goody (1968) enfatiza o papel da escrita, encontrando eco tanto em Vilhena (1990) quanto em Maurice Bloch (1998), que confirmam as relações históricas mantidas entre as práticas divinatórias e os sistemas de escrita.

Analisando a relação entre astrologia e escrita em Madagascar, Bloch salienta que os livros com conteúdo astrológico são preciosos e o prestígio associado à posse de tais livros se deve não apenas à sua origem estrangeira, mas também ao registro escrito. Contudo, Bloch afirma que a prática astrológica em Madagascar mantém tanto a estranheza quanto a dificuldade de acesso ao material escrito, muito mais para marcar uma elite letrada que tem acesso a bens raros, pouco contribuindo para a divulgação e sedimentação de formas de conhecimento pautadas em práticas leitoras.

Uma atitude bastante semelhante ocorre entre os alunos do Espaço do Céu Grande parte da bibliografia recomendada é estrangeira, não traduzida para o português e de difícil acesso. Os textos conseguidos com dificuldade são, muitas vezes, rateados e xerocados por grupos de alunos. Não é difícil consegui-los emprestados e todos os meus pedidos de cópia de algum material foram prontamente atendidos, às vezes com ofertas espontâneas (“Eu tenho isso. Comprei da última vez em que fui aos Estados Unidos. Você quer?”).

Mas muitos me confessavam que não liam os livros. Até parece que tê-los bastava. Eu percebia isso por comentários do tipo “Todo mundo diz que esse livro é muito bom. Se você quiser, eu posso te emprestar. Mas, eu ainda não li. Estou meio sem tempo”. As justificativas mais comuns para a falta de leitura era ‘não tenho tempo’, ‘estou deixando para mais tarde, quando eu entender um pouco mais da astrologia’, ‘estou lendo devagar porque não tenho muita facilidade com o inglês’ ou ‘tenho tantos livros que preciso ler antes que esse vai ter que esperar’.

Logo, a dinâmica que gera a transmissão e a reprodução do conhecimento astrológico parece contradizer as formas típicas de práticas leitoras no estudo. O conhecimento que o ‘mestre’ transmite é integrado num processo de conversação recheado de comentários, exemplos, descrição de casos, críticas a outras interpretações, e assim por diante. Essa fala é armazenada em uma fita e/ou um caderno de transcrição, tal como ela ocorreu. Não vi qualquer tentativa de limpar a fala da conversação e reduzi-la ao conteúdo propriamente conceitual. Logo, o que se cristaliza é a própria relação mestre/aprendiz e o conhecimento  adquirido não se descontextualiza dessa relação.

Mesmo no grupo de supervisão que frequentei, fora do Espaço do Céu, qualquer discussão sobre o que significava uma posição planetária geralmente começava com alguém do grupo ligando a resposta ao mestre que a formulou.

“A Márcia Mattos dizia que isso significava aquilo ou aquilo outro.” ou então, “A Carla8 dizia que se o mapa mostra tal e tal, então assim e assado”. Na pausa de hesitação que muitas vezes se seguia a esses esboços de resposta, a pessoa costumava acrescentar: “Eu tenho todos os meus cadernos guardados. Se vocês quiserem, eu posso trazer”.

Dessa forma, o prestígio do mestre, objetivado em fitas e cadernos, vê-se assegurado na multiplicação de citações.

Essa questão também diz respeito aos diferentes modos de se conceber o conhecimento. O engajamento em uma transmissão informacional que mantém um caráter ‘autoral’ tende a tratar o conhecimento como propriedade ou poder, para além de considerá-lo pré-condição de pertencimento ao grupo ocupacional ou requisito para exercer o ofício. Esse poder tende a transformar os aprendizes em verdadeiros discípulos, que se amoldam à imagem do conhecimento ali construído. No caso do Espaço do Céu, encoraja-se o rebuscamento e a sofisticação de técnicas (há uma matéria exclusivamente sobre o conjunto total de técnicas preditivas aplicadas sobre um mesmo mapa) e a visão detalhista (‘se você não prestar atenção nesse detalhe, não vai perceber que... e vai errar na interpretação’).

Uma terceira característica importante do Espaço do Céu é a exclusão de qualquer outro estudo considerado afim. A maior parte das outras escolas, tanto no Rio de Janeiro quanto em outros estados do Brasil, se dispõem a lidar também com tarô, numerologia, anjos, I Ching, e assim por diante, corroborando os estudos que observam um envolvimento dos adeptos da astrologia em terapias alternativas e estudos esotéricos. O Espaço do Céu, porém, se trata de uma escola voltada unicamente para a astrologia9.

Segundo a diretora da escola, esta é a principal razão pela qual tanto a escola quanto sua equipe de professores são consideradas ‘puristas e elitistas’. Ao analisar a dinâmica social envolvida no esforço de regulamentar a profissão de astrólogo, Adriana Venuto (1999) divide o grupo ocupacional dos astrólogos em três subgrupos, que se distinguem pela maneira de conceber o saber e o fazer astrológico. O primeiro grupo, que ela chama de ‘prático’, aproxima a astrologia do campo religioso.

8Uma ex-professora da extinta escola Astroscientia, considerada especializada em astrologia horária.

9-Certa vez, um conhecido tarólogo na cidade do Rio de Janeiro pediu para usar o espaço da escola para dar um curso. O pedido foi recusado “porque não era astrologia, era tarô”.

Este é o grupo que tem colaborado para consolidar a imagem da astrologia na tradição esotérica, propondo uma formação iniciática para os postulantes ao ofício de astrólogo. Venuto inclui nesse grupo os ‘espiritualistas’, dentre os quais se encontram os adeptos de uma visão cármica, e os ‘psicólogos’, aqueles que aliam o saber astrológico a teorias psicológicas. Esse grupo se caracteriza por uma leitura não sistematizada de autores da Psicologia e da Religião e pela  associação com terapias alternativas ou esotéricas, como os florais, a cromoterapia, os cristais. O grupo dos ‘práticos’ tende a adotar um viés terapêutico, a partir da detecção, no mapa do cliente, de medos, traumas ou obstáculos que entravam sua vida.

No Simpósio de 2004, conversei com dois astrólogos que lidam com florais, um que atende no Rio de Janeiro, o outro, no Paraná. Segundo eles me contaram, a maioria dos clientes vem se tratar com florais, acaba fazendo o mapa e, não raro, traz a família e os amigos.

O segundo grupo, que Venuto chama de ‘elite’, considera a astrologia uma linguagem simbólica, muito mais afeita à arte do que à ciência ou à religião. A arte não pode ser adestrada, mas pode ser desenvolvida por uma educação humanista. Para esse grupo, a formação de astrólogo vai bem além do aprendizado das técnicas formais da disciplina e inclui uma formação multidisciplinar, ampla, diversificada e demorada, que requer incursões em outros campos do saber, notadamente Psicologia, Mitologia, Lingüística, Filosofia, História.

O terceiro grupo identificado por Venuto é o dos ‘modernos’, que aproximam o saber astrológico do modelo racional-científico. Este é o grupo mais interessado na regulamentação da profissão de astrólogo  e que mais participa das associações profissionais e instituições de ensino. Preocupam-se com a criação de critérios para o controle da atuação profissional e para a padronização do ensino da astrologia.

Na escola Espaço do Céu, a necessidade do ‘estudo’ da astrologia é ressaltada em duas vertentes. Na primeira vertente, o estudo está vinculado à noção de que a astrologia é uma ciência complexa que, para ser devidamente compreendida, requer conhecimentos gerais sobre astronomia, matemática, mitologia, filosofia. Na segunda vertente, o estudo se apresenta aliado a um domínio de conhecimento de base racional, acessível a quem estiver disposto ao esforço de estudar, em contraposição a um entendimento intuitivo ou derivado de alguma habilidade extraordinária.

O confronto entre crença e ciência permeia quase todos os depoimentos que colhi. Uma das entrevistadas se estendeu particularmente sobre isso: “A astrologia tem fundamentações. É uma ciência matemática. Infelizmente, muitas pessoas entendem a astrologia como sendo uma crença, talvez porque a astrologia teve uma importância muito grande na época em que se acreditava que os planetas eram deuses e, efetivamente, é óbvio que não se tem essa compreensão hoje. Mas ela sempre foi entendida como ciência, mesmo na época desses deuses. É óbvio que não são deuses, são planetas. Eu acho que não tem que se olhar a astrologia como os egípcios viam, mas sim de uma outra forma, que é perceber que tudo tem interação com tudo, constantemente, e compreender isso, ao invés de tentar negar uma coisa evidente. Acho que deveria haver uma postura um pouco mais séria em vez de tão somente tentar dizer que a astrologia não existe, que a astrologia é banal, ou coisa que o valha. Ou então aquela célebre frase ‘Você acredita em astrologia?’ o que é completamente absurdo. A gente acredita, eu acho, em Deus. Nós não estamos falando de Deus. Eu estou repetidamente falando de uma ciência, que é passível de comprovação, até quanto aos métodos mais cartesianos possíveis, a astrologia é sempre passível de ser submetida a esses métodos, Então, me causa até um estranhamento que, a essa altura do campeonato, em pleno século XXI, as pessoas ainda tenham um condicionamento de perguntar se acreditam ou não, ao invés de, ao contrário, tentar submeter a astrologia à metodologia, aos paradigmas cartesianos, newtonianos, seja lá o que for. Por que não se parte para uma postura um pouco mais séria nesse sentido?”(Renata)

Esse aspecto vem de encontro às observações de Cavalcanti (1983) sobre o Espiritismo, que se apresenta não apenas como uma religião, mas também como uma ciência e uma filosofia. Considerando que, na tradição do pensamento ocidental, a razão se contrapõe à religião, a ênfase seja no caráter ‘místico’ seja no caráter ‘racional’ cria fronteiras dentro do próprio Espiritismo entre “uma maioria mística, que recobre seus aspectos ‘religiosos’, e uma minoria ‘intelectualizada’, que recobre seus aspectos ‘filosóficos e científicos’ ” (1983:25). Cavalcanti chama atenção para o fato de que as noções de ciência, razão, filosofia e religião, tal como empregadas no Espiritismo, somente podem ser entendidas como parte do próprio sistema de crenças espírita, não se confundindo, portanto, com essas mesmas noções no discurso científico ou filosófico.

No caso da astrologia, é também necessário entender-se ‘ciência’, ‘pesquisa’, ‘intuição’, ‘razão’, ‘simbolismo’ como categorias nativas, re-elaboradas pelo próprio conjunto de crenças e valores dos adeptos do sistema astrológico.

Pelo que pude observar no grupo que frequentei, a ênfase em pesquisa e em verificação dos dados contribui para reduzir os perigos de uma especulação indiferente aos resultados de observação. Essa tendência constitui também uma reação contra os que supõem que meditação, reflexão, intuição é tudo de que se necessita para a compreensão e solução dos problemas apresentados à astrologia. Nesse grupo, a supervalorização do profissionalismo tenta desfazer a impressão generalizada de que o patrimônio de teorias e conceitos astrológicos tenha resultado da aplicação de métodos e técnicas inconsequentes e falhos.

Quando comecei a frequentar os cursos do Espaço do Céu, a diretora da escola ocupava o cargo de presidente do Sindicato de Astrólogos do Rio de Janeiro, tendo sido eleita, em 2001, para um mandato de três anos-10. Seu mandato expirou em 2004 e o Simpósio de agosto de 2004 foi o último evento organizado por sua gestão. Grande parte da diretoria do sindicato, por sua vez, era composta por alunas da escola que compartilhavam do enfoque da diretora sobre a astrologia, sobre a regulamentação da profissão de astrólogo e sobre os requisitos necessários para uma formação profissional.

Isso significa que tanto a equipe de professores da escola quanto os alunos participavam ativamente da organização e execução dos eventos públicos que reuniam outras escolas, associações e entidades astrológicas. O estilo da escola transpareceu nos eventos patrocinados pelo Sinarj durante aquele período. Ouvi muitos comentários sobre como as coisas seriam diferentes na gestão seguinte, fosse ela qual fosse. O empenho para a regulamentação da profissão não seria o mesmo, os temas a serem abordados em futuros simpósios poderiam privilegiar outros enfoques, as formas de organização poderiam sofrer mudanças, talvez não houvesse mais espaço para a apresentação de trabalhos inéditos, etc.

Conversando com Glória, na semana em que a programação do Simpósio de 2004 foi divulgada, ela me disse que: O Sinarj foi presidido, de 1989 até 1995, por Therezinha Gouveia, de 1996 até 2001, por Otávio Azevedo, e, de 2001 em diante por Celisa Beranger. De modo geral, os palestrantes regulares, que sobem ao palco nos simpósios e nos eventos públicos, estão entre os 48 sócios fundadores.

“Eu só fui ao primeiro Simpósio. Depois, não fui mais. Só voltei a ir quando ele foi organizado pela Celisa. E, depois desse de 2004, não pretendo voltar. Você já viu como ele é, Beth? Tem muita bobagem, muito pouca coisa séria. A Fulana (uma das palestrantes que costuma lotar o auditório), por exemplo, que é uma excelente astróloga - eu gosto muito dela e respeito muito ela - vai lá e diz que Urano é transformação súbita, Netuno dissolve as situações. Ora, isso é para leigo. Nem leigo, gente, porque até os leigos já sabem disso. Então, o que a gente ouve de novo lá? Só a mesma coisa de sempre, é perda de tempo”.

Eu havia lhe perguntado porque ela não seria uma das palestrantes, já que é uma profissional tão atuante. “Não, eu nunca me apresento em simpósios. Não sou pesquisadora. Eu vou trabalhando, estudando, mas não fico testando coisas novas, não fico descobrindo detalhes. Eu só aplico aquilo que aprendi. Acho que, num simpósio, você tem que apresentar os resultados de um estudo, de um trabalho de pesquisa. E eu não faço nada disso. Não sou muito disso”.

Esse comentário confirma o privilégio concedido à pesquisa e ao estudo sistemático como marca da gestão da diretoria do Sinarj, na esteira do estilo Espaço do Céu.

1. 2. Os eventos

Também serviram como campo etnográfico os eventos, fóruns e simpósios que pude acompanhar no período entre fevereiro de 2003 e dezembro de 2004:
1. o 5o Simpósio Nacional de Astrologia, realizado em 16 e 17 de agosto de 2003, no Centro de Convenções do Hotel Flórida, no Catete, sob o tema “Urano em Peixes”;
2. o debate organizado pelo Planetário da Gávea, no dia 22 de setembro de 2003, cujo tema era ‘Sob o Signo  da Ciência – a astrologia vista na perspectiva astronômica’, com a participação de Fernando Gewandsznadjer (biólogo), Rundsthen Vasques de Nader (astrônomo) e Henrique Lins de
Barros (físico);
3. o Fórum Astrologia Regional, realizado em um domingo, 5 de outubro de 2004, na Av. Rio Branco 311, 60 andar, no auditório da Domingues e Pinho Contadores, das 10 às 18 horas. O objetivo desse fórum era discutir o ensino e a divulgação da astrologia em âmbito nacional e, para tanto, os Fóruns Regionais foram realizados, simultaneamente, nas capitais dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Distrito Federal. Ficou acertado que cada Fórum Regional enviaria aos demais a ata de sua reunião e que, depois, seria organizado um segundo encontro, para a discussão das  várias propostas regionais. Esse segundo encontro, previsto para dezembro de 2004, acabou sendo adiado para o ano de 2005.
4. a Mesa de Previsões para o ano de 2004, realizada no dia 6 de janeiro de 2004, na sala de convenções do Hotel Glória, um auditório com cerca de 300 lugares, que ficou repleto. Todos os assentos ocupados e mais pessoas de pé, no fundo da sala e nas laterais, esperavam o início das discussões sobre o ano de 2004, com mais de uma hora de atraso devido à dificuldade de acomodar o público. No palco, os astrólogos convidados a externar suas previsões: Celisa Beranger, presidente do Sindicato dos Astrólogos, Martha Pires Ferreira, Cláudia Castello Branco, Maria Eugênia de Castro, Márcia Mattos, Antonio Harres, responsável pela coluna de horóscopo do jornal O Dia, e José Maria Gomes Neto. A apresentadora e mediadora do debate era Therezinha Gouveia.
5. o evento “A Astrologia é para todos”, realizado no Centro de Convenções do Hotel Flórida, no Catete, em 20 de março de 2004, por ocasião do equinócio de outono, em comemoração aos 15 anos de existência do Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro;
6. o 6º Simpósio Nacional de Astrologia, realizado em 7 e 8 de agosto de 2004, no Centro de Convenções do Hotel Flórida, no Catete, sob o tema “Astrologia e Interdisciplinaridade”.

Alguns desses eventos eram de entrada franca, abertos ao público em geral. Outros visavam diretamente o meio astrológico propriamente dito, composto por profissionais e estudantes, e abordavam questões teóricas ou da prática profissional.

A seleção dos eventos públicos a que compareci obedeceu ao convite dos informantes, isto é, foram as pessoas que conheci que me levaram até eles. Vale observar que esses eventos não representam todos os tipos de encontros dos adeptos da astrologia, mas somente aqueles que foram por mim observados. De certa maneira, a participação nesses eventos contribuiu para uma melhor compreensão do Espaço do Céu no quadro geral do meio astrológico no Rio de Janeiro, pois a maioria deles tinha sido organizada pela equipe que a compunha.

Esses eventos públicos colocam em contato uma rede de pessoas que compartilham do interesse pela astrologia. Ali se reúnem uma parcela de astrólogos que encabeçam as instituições e/ou que têm maior visibilidade nos meios de comunicação, além de um público diversificado, composto de:
  • Curiosos, que alegam estar ‘acompanhando uma amiga’, ou terem ido dar uma espiada ‘porque eu sempre me interessei por essas coisas’;
  • Uma clientela que se consulta regularmente e que consome, esporadicamente, a literatura sobre o assunto. Esses muitas vezes comentam que estão ali para prestigiar os astrólogos que os atendem e que os convidaram;
  • Estudantes e profissionais da astrologia.
Volto a lembrar que Magnani (2000) divide os participantes dos circuitos neoesotéricos em três categorias: os eruditos (que se relacionam com o universo neoesotérico de forma mais consistente), os participativos (que sentem afinidade com os temas e possuem algum tipo de informação prévia) e os ocasionais (que atendem a modismos passageiros). Contudo, talvez porque esses eventos eram todos direta e unicamente voltados para a astrologia, o público flutuante era esparso e grande parte da mesma platéia poderia ser encontrada em quase todos eles. As pessoas se reconheciam, se cumprimentavam e trocavam notícias: “Então, o que você está fazendo?”; “Tem visto Fulana?”; “Estou doida para formar um grupo de estudo. Você toparia?”

Essas frases eram entreouvidas com frequência. Muitos lamentavam não participar dos cursos oferecidos pelas escolas, alegando, principalmente, que eram muito caros. Quando eu procurava conversar com as pessoas, durante os intervalos, era comum eu ouvir: “Ah, você está na escola Espaço do Céu! Que pena que eu não posso estudar mais. Mas não tenho condições de frequentar essas coisas. É tudo muito caro e toma um tempo enorme. Por isso, eu não gosto de faltar a
esses encontros aqui. É quando eu vejo as pessoas e fico sabendo o que elas estão fazendo. Até isso é caro para mim” (Vera).

O comentário se referia à taxa de inscrição para o simpósio, que custava cerca de $150,0 (em pagamento parcelado, saía mais  caro). Essa taxa incluía o jantar de confraternização, no sábado à noite. O simpósio propriamente dito era realizado em um fim de semana, das 10:00 da manhã de sábado até as 18:00 de domingo. Na sexta-feira à noite, a partir das 18:00, havia um ‘pré-simpósio’, de entrada franca, onde eram discutidas questões diretamente relacionadas às instituições de ensino, à regulamentação da profissão de astrólogo ou às associações de classe (os Sindicatos Estaduais, a União Nacional dos Astrólogos, a Associação Brasileira de Astrologia, etc.).

A organização do simpósio está a cargo do SINARJ. E a data na qual ele será realizado é ‘eleita’, isto é, determinada por critérios astrológicos. Os dois simpósios que assisti foram realizados em agosto (quando  o Sol se encontra no signo de Leão) e a questão eletiva resumia-se a verificar em qual fim de semana as posições planetárias se mostravam mais auspiciosas.

O Hotel Florida disponibiliza três salões para a realização deste encontro. Um deles se situa no andar térreo e os outros dois no primeiro andar. O primeiro andar dispõe de um auditório com cerca de 150 poltronas e duas salas menores. Uma delas, ao lado do auditório, é usada para a exposição de livros e programas de computador a serem comercializados. É visitada pelos participantes nos intervalos entre as palestras.

A outra sala, ao final de um corredor à direita de quem sobe as escadas para o primeiro andar, abriga as palestras para as quais o público previsto é menor. O espaço no auditório é claramente hierarquizado. No palco, uma mesa para os palestrantes, os dirigentes do SINARJ responsáveis pela organização do evento e convidados. Depois da sessão de abertura, quando são apresentados o tema do simpósio e os membros da mesa, os participantes se distribuem pelas três salas onde palestras simultâneas são realizadas.

11-A abertura do Simpósio de 2003 contou com a presença do deputado Luis Sérgio, um dos responsáveis pelo projeto para a regulamentação da profissão de astrólogo.

O simpósio é organizado em torno de um tema formalmente definido. O tema do Simpósio de 2003 era Urano em Peixes; o de 2004, Astrologia e Interdisciplinaridade; o de 2005, anunciado no boletim do Sinarj em abril de 2005, propõe como tema A Astrologia e suas Parcerias.

Esses simpósios criam um espaço de sociabilidade que contribui para a consolidação de redes de relações, para o estabelecimento de parâmetros de pertencimento e mecanismos de inserção no grupo ocupacional. Em vista disso, pareceu-me pertinente tomá-los como ponto de ancoragem para pensar a interação de múltiplas concepções relativas à organização do grupo ocupacional e ao papel de suas instituições representativas, bem como o caráter da prática astrológica que essas instituições se dispõem a representar.

Os participantes desses eventos públicos se unem em torno de uma concepção simbólica comum e o reconhecimento mútuo ajuda a sedimentar versões explicativas da realidade. A participação nesses eventos, mesmo que esporádica, fortalece uma rede de contatos que acaba por gerar laços de identificação, ajudando a configurar um Nós – os que aceitam a concepção astrológica e compartilham desse modelo explicativo da realidade.

A plateia leiga nesses eventos inclui muitos que já tiveram contato com a astrologia, mas que não enveredaram por um estudo do assunto, optando por “não mexer com essas coisas que eu não entendo bem, embora respeite”. Mesmo assim, eles se distinguem dos clientes contumazes que não gostam de revelar seu envolvimento com a astrologia e não frequentam esses encontros públicos.

Ouvi muitas menções a clientes ‘importantes’ (figuras do meio político, empresarial, intelectual e financeiro) que  recorrem aos astrólogos sem alardear esse fato. As conversas entre os astrólogos são  pontuadas de referências a essas figuras de poder que não se declaram publicamente a favor da astrologia e que poderiam facilitar tanto os projetos para regulamentação da profissão quanto o acesso a certos segmentos de um possível mercado de trabalho (empresas, escolas, hospitais, prisões, etc.), ou mesmo patrocinar pesquisas, conforme alguns astrólogos lamentaram no pré-simpósio.

“Fulano bem que poderia ajudar, ele é meu cliente há mais de dez anos, mas não quero pedir a ele porque ele não gosta que saibam que ele se consulta com astrólogo” (Glória) ou “Ele (um astrólogo de outro estado) só conseguiu botar um telescópio na praça principal da cidade, para todo mundo ver a conjunção de Vênus com o Sol, porque o prefeito é cliente dele há anos e está sempre disposto a colaborar. Mas, aqui no Rio de Janeiro, não tem ninguém ajudando não”. (Célia)

A prestação de serviços acarreta obrigações específicas dentre as quais se incluiria, a princípio, o retorno do comprometimento. Onde não há reciprocidade, onde não há obrigações mútuas, o senso de relação fica prejudicado. Porém, o que poderia ser entendido como uma quebra da lei de reciprocidade não parece gerar nem ressentimento nem mal-estar. Em parte, isso se deve a uma aproximação entre a consulta astrológica e a consulta psicológica, na medida que ambas se subordinam a uma norma de confidencialidade. Os terapeutas não costumam divulgar quem são seus pacientes e nem esperam, da parte destes, uma admissão pública dos serviços prestados.

Contudo, as frequentes menções a clientes que são ‘altos executivos’, ‘políticos de peso’, ‘grandes empresários’-12 e ‘atores da Globo’ não deixa de elitizar a clientela típica da consulta individualizada, o que, de certa forma, reverte em prestígio para a própria astrologia.

Foi possível perceber algumas divisões significativas que recortam os participantes nesses eventos. Naturalmente, não se trata de um grupo nem homogêneo nem isento de conflitos. Uma primeira divisão diz respeito aos defensores e opositores dos esforços para a regulamentação e a burocratização da prática astrológica.

Uns aceitam de bom grado as normas de pertencimento ao grupo ocupacional estabelecidas pelos sindicatos e pelas associações-13, alegando que elas constituem uma espécie de defesa contra a invasão de pessoal desqualificado. Entre esses, encontram-se vários que encabeçam as instituições de ensino e as associações profissionais e que se empenham para a regulamentação da profissão.

12-Essas adjetivações provêm do discurso dos informantes. Quando um mapa é examinado em sala de aula, por exemplo, o nativo jamais é identificado, mas é comum que seja descrito como “esse aqui é um alto executivo, alto, alto mesmo. Está lá no topo de uma multinacional”. Ou então, “esse meu cliente é um grande empresário, já fez uma fortuna, eu não posso dizer em que, porque ele está sempre nos jornais, mas agora ele está passando por uma fase complicada, então vamos examinar as progressões para vocês verem o que está acontecendo”.
13-A inserção na categoria ‘profissional’ do Sinarj depende da apresentação de um histórico dos estudos realizados, comprovado por um professor reconhecido, ou pela aprovação em uma prova, corrigida por um membro da diretoria do sindicato. Em ambos os casos, a inserção precisa ser sancionada por alguém do quadro institucionalizado. Como a institucionalização no Rio de Janeiro é recente, aqueles que aprovam ou não o candidato ao ofício de astrólogo não se submeteram a este mesmo processo de seleção, e a legitimidade de sua competência para tal é contestada.

Outros se insurgem contra a mesma regulamentação, alegando que eles próprios não se submeteriam ao escrutínio de terceiros para a seleção dos que podem ou não ingressar no grupo ocupacional. Defendem a pluralidade de perspectivas para a formação de um astrólogo e temem a estreiteza de uma prática supervisionada por uma autoridade burocratizada.

Uma segunda divisão distingue entre os fundadores da prática astrológica no Rio de Janeiro e os ‘recém-chegados’. Talvez  porque a inserção da astrologia no meio urbano tenha sido problemática, aqueles que a ela se dedicaram antes que essa prática se visse consolidada no Rio de Janeiro são agraciados com uma posição cativa nos eventos públicos e olham com desconfiança a emergência de novas figuras expressivas no meio astrológico.

“Esse pessoal novo nem imagina o que a gente já passou para conseguir estudar astrologia. Não tinha bibliografia, tudo era de boca em boca, nos reuníamos nas casas uns dos outros, as dificuldades eram muitas. Agora está tudo fácil, mas, no começo, a gente teve que tirar leite das pedras” (Alice).

Uma astróloga reclamou que até hoje é considerada ‘nova’ no ramo. “Sabe o que eu ouvi, Beth? ‘Ah, você ainda é muito nova na astrologia para dar palpite’. Imagine só! Nova, com 14 anos de  astrologia nas costas. As minhas alunas que ouviram isso ficaram com os olhos arregalados e depois foram comentar comigo: ‘se você é nova, imagine a gente!’ (Célia).

Dentre os ‘novos’, uns reclamam da preponderância exercida pelos fundadores, preponderância esta baseada primordialmente no preceito que ‘antiguidade é posto’, e rejeitam os critérios estabelecidos para a aceitação de um membro no grupo ocupacional. Outros, talvez por estarem mais afinados com as normas de regulamentação de suas próprias profissões, não se opõem à institucionalização.

Logo, os que se posicionam contra ou a favor da regulamentação da profissão são encontrados tanto entre os novos quanto entre os antigos, tanto entre os mestres quanto entre os alunos. A proposta de institucionalização do ensino e da prática astrológica os afeta de forma diferenciada. O cruzamento dessas posições é extremamente complexo.

Um aspecto relevante nesse confronto pode ser assinalado pela ausência, nos eventos patrocinados pelas instituições astrológicas, de uma parcela significativa de astrólogos que contam com uma clientela estável, mas que insistem em se manter à margem do que eles chamam de ‘a astrologia institucionalizada’. Essa parcela abrange alguns dos que estudam o sistema astrológico por conta própria e leem os seus próprios mapas e os mapas de amigos e familiares. Abrange também alguns astrólogos que já passaram por cursos e/ou escolas, mas que  se mostram desinteressados em estreitar laços com os as entidades e instituições astrológicas.

Nos contatos que consegui com pessoas desse grupo, os motivos alegados para tal desinteresse eram basicamente os mesmos: uma crítica acirrada da competência técnica de grande número dos astrólogos que regularmente se apresentam, um desdém pelo peso cada vez maior que as entidades institucionalizadas (escolas, sindicatos, associações, etc) procuram assumir no estabelecimento de diretrizes para as práticas astrológicas.

“São sempre as mesmas pessoas, dizendo sempre as mesmas coisas. Não dá pra aguentar. Não tenho nada a aprender ali. Se eu fosse te contar quanta besteira eu já ouvi! Dá até vergonha. Você já foi lá. Você já viu, não viu? Eu só fui uma vez, para nunca mais voltar. A astrologia exige muito estudo. Meu tempo é curto, não posso me dar um luxo de ficar ouvindo coisas sem pé nem cabeça. Eu sei que tem gente séria, estudando astrologia com seriedade, mas esse pessoal não fica aí aparecendo. É uma pena”. (Renata)

“Ninguém discute nada. É um grande show. Eles só querem aplausos, nada de controvérsia, nada de aprofundamento, debate – nem pensar. É melhor ficar em casa do que se dar ao trabalho de ir até lá. Você acha que eles querem discutir questões sérias, que eles querem testar a teoria? Eles só querem aparecer. Um monte de superficialidades, cheios de frases de efeito. E, você já viu quem eles agradam? Um público cativo, que os acompanha sempre. Um bando de gente que não entende metade do que escuta e menos ainda do que lê”. (Denise)

“Essa turma que comanda esses espetáculos já distribuiu toda a astrologia entre eles. Fulano fala sobre isso, Beltrano sobre aquilo. Eles têm territórios. E, se você resolve dar um palpite, dizer que não concorda com alguma coisa, que aquela técnica não funciona ou que aquela outra você testou e deu certo, é um Deus nos acuda. Tudo ali tem dono. Você não pode discutir ou falar de um tema que ‘pertence’ a uma cabeça coroada. Então, se é só pra dizer Amém, o que eu vou fazer ali?”. (Heloísa)

Isso significa que, na opinião daqueles que se recusam a participar, os eventos destinados ao debate público não cumprem o propósito da abertura à crítica, crucial, segundo eles, para um subsequente desenvolvimento do corpo teórico da disciplina. O espírito crítico se recolhe frente ao espalhafato retórico das apresentações que almejam muito mais persuadir do que trocar ideias.

No entanto, eventos desse gênero também possuem um importante aspecto de construção ritualizada de uma simbologia coletiva. Talvez por isso atraiam um público não interessado na polêmica. O debate parece ser interpretado como conflito e as discordâncias são ventiladas apenas nos bastidores.

Quando os entrevistados se referem ao ‘meio astrológico’ - “Eu não frequento o meio astrológico” (Denise). “Eu não tenho nenhum interesse em ser reconhecida nesse meio astrológico que está aí” (Renata) - essa expressão geralmente inclui essa parcela de astrólogos de maior visibilidade e seu público fiel. Não inclui o público esporádico, leigo ou não, que escapa à categorização de “fiel seguidor de Fulano” - “Coitados dos incautos que vão lá achando que vão ver uma discussão que vale a pena. Você já viu quanta gente que fica ali caladinha, boquiaberta? Eu fico pensando, meu Deus, o que será que eles estão achando disso tudo?” (Heloísa).

O ‘nível’ dos palestrantes e da plateia também é frequentemente mencionado. Uma astróloga que tentava me explicar a dificuldade para ‘elevar o nível’ dos debates citou justamente esse público leigo. “Uma vez, Beth, eu convidei um cliente meu, que tem doutorado em Física, ele é super importante, vive estudando, sabe, super sério. Pois bem, eu convidei ele para ir a um simpósio, quem sabe ele participava, fazia umas perguntas. Sabe o que ele me disse depois? Olha, a palestra de Fulana, eu gostei muito. Aí eu comentei. Mas a Fulana é assim meio tonta, a apresentação dela não tem um fio, ela vai contando uns casos que, no final não tem nada a ver. E ele respondeu: ‘É, não tem consistência nenhuma, mas foi agradável’. Então, você vê, Beth, se até ele, PhD, não reclamou, não discutiu, o que a gente pode fazer?” (Glória)

E de se imaginar que parte dos antagonismos, das lutas pelo poder e dos conflitos de interesses, nesse grupo ocupacional, se deva a posturas em relação ao capital simbólico da astrologia em função de valores e procedimentos incorporados de outros campos de saber e de outras práticas profissionais a que os astrólogos tenham se dedicado. As tomadas de posição dentro desse grupo configuram divisões internas, muitas vezes conflitantes, que transparecem nas acusações mútuas, nas críticas veladas, nas exclusões do palco de eventos públicos.

Entre os motivos para a insistência na regulamentação da profissão se encontra a aura de impostura e charlatanismo que costuma envolver aqueles comprometidos com sistemas divinatórios. Limpar a figura do astrólogo dessa imagem requer um esforço constante de persuasão que geralmente se desenrola em três frentes: na relação entre os astrólogos e a sociedade mais ampla, nas relações entre os próprios astrólogos e nas relações entre os astrólogos e seus clientes.

Na interlocução entre os astrólogos e a sociedade mais ampla, defende-se uma concepção de ordem, no mundo e na vida humana em geral, que não pode ser acessada por outros campos de saber, o que legitima a especificidade do saber astrológico. No trato com os clientes, procura-se  desmistificar o caráter oracular da astrologia, vinculando a orientação astrológica a um enriquecimento da experiência de vida.

Nas relações internas, dentro do grupo dos astrólogos, luta-se por versões coerentes e consistentes do capital simbólico da astrologia. Para os grupos que acompanhei, que se mostram particularmente interessados em aproximar a astrologia do campo científico, são três as principais ressalvas ao desempenho de alguns praticantes, que acabam por configurar um tipo outro, que não
pode ser incluído no grupo dos astrólogos ‘como nós’. Os outros são aqueles que:
a) abusam do artifício de “suscitar espanto e admiração”, para usar uma expressão de Paolo Rossi (1992), e só se interessam pelos problemas e entraves que um mapa pode mostrar. “Essa Fulana é um horror! Não é à toa que ela está perdendo os clientes. Ela vai direto na posição de Saturno em um mapa e começa logo a descrever os problemas mais sérios que a pessoa tem. ‘Você não se dá com seus irmãos, não pode confiar neles; você vive brigando com seu chefe; seu pai morreu cedo’, coisas assim. Quando ela olha um mapa, você pode ver que ela sai logo procurando esses problemas para, logo de cara, o sujeito ficar todo ‘Oh, que coisa impressionante, como é que você descobriu isso’... Mas tem muita gente que não gosta. Tem gente que, quando vai a uma consulta, não desconfia que o mapa pode mostrar essas coisas e fica apavorada. A gente tem que ir devagar com as pessoas. Não pode ser assim, passar por cima do cliente como um trator”. (comentário de uma colega do Espaço do Céu, apontando-me uma astróloga na platéia durante a sessão de abertura do simpósio de 2004)


b) Os alarmistas e trágicos, que prenunciam mortes na família, acidentes e divórcios iminentes;
“Atendi uma moça, uma vez, desesperada. Ela estava grávida do primeiro filho e tinha consultado essa astróloga aí. Como o filho ia nascer em Escorpião, (a astróloga) tinha dito que alguém da família ia morrer quando a criança nascesse, porque Escorpião é signo de morte. Ela ficou em pânico e quis consultar outra astróloga para saber se isso era verdade”. (uma das astrólogas do grupo de supervisão, sussurrando ao meu ouvido um comentário sobre uma palestrante no Simpósio de 2003).


c) Os ‘oraculares’, que afirmam a ocorrência de eventos: você vai conseguir o emprego em julho, a sua irmã mais velha vai ter um problema de saúde sério por volta de outubro, etc.

Naturalmente, a restrição feita ao teor oracular das interpretações astrológicas não deixa de estar conectada à ideologia individualista moderna e seus corolários de autonomia, liberdade e auto-direcionamento de vida. Porém, pelo que pude observar, esta restrição tem a ver também com uma concepção de ‘simbolismo’ que mantém em aberto a determinação do referente último da interpretação astrológica. Durante uma das reuniões do grupo de estudos no Espaço do Céu, uma das astrólogas comentou: “Nossa, eles  (os autores dos tratados clássicos) diziam assim, na batata, quantos irmãos você vai ter, se o seu pai vai morrer antes da sua mãe... É impressionante!” E a que estava ao seu lado retrucou: “É, eles eram assim, superobjetivos. Não tem nada de simbolismo aí não. Eles não trabalhavam com o simbólico”. O restante do grupo pareceu concordar, assentindo com a cabeça ou exclamando ‘isso mesmo!”, “é isso!”.  Pelo que pude perceber, a concepção de ‘simbólico’ partilhada pelo grupo descarta uma relação de simbolizante a simbolizado que possa acarretar o ônus de uma referência objetiva, logo, verificável, substituindo-a por uma exegese mais dedicada a sondar os múltiplos encadeamentos convergentes. Essa questão será discutida mais detalhadamente quando abordarmos a consulta astrológica.


d) os que se encarregam das colunas de horóscopos divulgadas nos meios de comunicação.

Ouvi frequentemente a alegação de que o público em geral não conhece a ‘verdadeira’ astrologia, só conhece aquela que aparece nos jornais e revistas. Esta não é a astrologia correta, “a astrologia não é isso aí” (Denise), pois as colunas de horóscopos pecam pela generalização.

“Uma vez me convidaram para fazer a coluna de horóscopo de um jornal, mas eu não consegui aceitar. Disse para eles que o máximo que eu podia fazer era dar umas explicações gerais sobre o que vem a ser signos, casas, planetas, essas coisas, explicar como a astrologia pode ajudar. Eles não quiseram. Mais do que isso eu não podia fazer. A astrologia não é assim, todo mundo de Áries vai encontrar alguém, todo mundo de Touro vai ficar doente, todo mundo de Gêmeos vai brigar no trabalho. Essa não é a verdadeira astrologia. E as pessoas que aceitam fazer isso não ajudam em nada a fazer com que a astrologia seja respeitada”. (Renata)

No entender desse grupo, então, a ‘verdadeira’ astrologia é aquela voltada para o atendimento individualizado, para a singularidade e a especificidade de um indivíduo diferenciado e único. Os que trabalham em colunas de horóscopos são aqueles que “se submetem à pressão do mercado” (Denise).

Porém, um número crescente de profissionais reputados no próprio meio astrológico está aderindo aos meios de comunicação, não só em jornais de grande circulação (como O Dia, O Globo, Folha de São Paulo, etc), como também em sites da Internet.

Durante o Fórum Astrologia Regional, houve um certo confronto sobre essa questão. Contra a argumentação da mesa de que as colunas de horóscopos prejudicam a imagem da astrologia como uma disciplina ‘respeitável’, uma das astrólogas encarregadas de uma coluna de horóscopos questionou, de pé, sem apartes, a noção de  que a astrologia ‘verdadeira’ era a leitura de um mapa natal. Argumentou que, durante os anos em que a astrologia viveu um certo ostracismo, principalmente nos séculos XVIII e XIX, foi a astrologia dos almanaques e das colunas de horóscopos que manteve vivo o saber astrológico. Ao invés de rejeitar esse tipo de astrologia, como prejudicial à causa da respeitabilidade da disciplina, os astrólogos deveriam experimentar uma dívida de gratidão para com aqueles que publicaram, ininterruptamente, os aforismos astrológicos. Ninguém mais se pronunciou sobre o assunto e passou-se para outro tema.

Resta ainda comentar que a minha presença nesses eventos, assim como nos grupos de estudos que frequentei, me permitiu acompanhar os diálogos dos astrólogos com outros astrólogos. Para além dos depoimentos colhidos em entrevistas, das conversas informais com aqueles que conheciam a minha condição de pesquisadora e das interlocuções que presenciei entre astrólogos e não-astrólogos (nas quais a validade da astrologia era um tema regular), foi importante ter tomado conhecimento do que os astrólogos discutem entre si e do que se dizem.

1.3 Os grupos de estudo

O campo etnográfico também se estendeu a três grupos de estudos para os quais fui convidada. O primeiro era realizado na própria escola Espaço do Céu, composto por um grupo de seis astrólogas, que estudavam autores da Antiguidade. O convite partiu do coordenador do grupo, um doutor em Filosofia pela PUC-RJ, que trabalhou com esse grupo durante um ano, em encontros quinzenais, estudando o Timeu de Platão. Durante o Simpósio de 2003, foi lançado o livro ‘O Timeu de Platão e a Astrologia’, resultado dos estudos desse grupo e editado pelo Espaço do Céu Centro de Astrologia Ltda. A tiragem de 100 exemplares se esgotou nas duas primeiras semanas após o lançamento e logo foi preparada uma segunda edição.

Durante o jantar de confraternização desse mesmo simpósio, a diretora da escola apresentou esse filósofo a mim e a uma estudante de Filosofia da UERJ, cuja monografia de final de curso discutia a posição de alguns filósofos da Ciência com relação à cientificidade da astrologia. Fomos, então, nós duas, convidadas a participar desse grupo de estudo. O estudo do Timeu já tinha se encerrado e o objetivo agora seria  estudar o livro Carmen Astrologicum, obra de Dorotheus de Sidon (autor do século I DC, anterior a Ptolomeu), recém traduzida para o inglês. Frequentei esse grupo de setembro de 2003 até agosto de 2005.

O grupo de se reunia a cada quinze dias, no espaço da escola, às quintas-feiras, de 14:00 às 16:00. Um ano depois que o grupo começou a trabalhar, em outubro de 2004, formou-se um segundo grupo de estudo sobre esses mesmos autores, que se reunia às segundas-feiras, à noite, na mesma escola. A diretora da escola, que fazia parte dos dois grupos, trazia comentários de um para o outro. Não cheguei a participar do segundo grupo, mas conhecia algumas pessoas que dele faziam parte, uma professora e alunos da escola.

A insistência na leitura dos tratados clássicos acompanha a valorização do ‘estudo sistemático’, principalmente por parte dos astrólogos que querem subtrair a astrologia do campo esotérico e místico.

Esse grupo de estudos, promovido no Espaço do Céu, cai nessa linha. Há todo um esforço envolvido na comparação dos textos de Dorotheus com o de outros autores clássicos com o objetivo de verificar consensos e discrepâncias quanto aos fundamentos das técnicas astrológicas.

Embora muitos dos meus informantes defendam a necessidade de traduzir as interpretações clássicas “em termos atuais”, insistindo na inevitabilidade da modernização do discurso astrológico, não são poucos os que valorizam uma espécie de retorno ao conhecimento tradicional.

“Eu sempre achei que havia muita coisa boa nos antigos. Afinal de contas, o básico, o fundamento está ali mesmo”. (Tânia)

A importância dos autores clássicos também tem sido valorizada na literatura internacional. O Projeto Hindsight, promovido pelos astrólogos Robert Hand, Robert Zoller e Robert Smith, patrocina a tradução para o inglês de quatro tratados clássicos da astrologia helenística:

  • ‘Antologiae’, de Vettius Valens,
  • ‘Mathesis’, de Firmicus Maternus,
  • ‘Apotelesmatica’, de Hephaisto de Tebas  
  • ‘Tetrabiblos’, de Ptolomeu
E promete o lançamento de um livro, com estudos e comentários, em uma edição especial, intitulada The Astrologuer’s Edition, que está sendo muito esperada. O projeto teve início em 1993, com a tradução dos textos para a língua inglesa, e avançou para comparações e comentários que acabaram por delinear um sistema astrológico que o grupo de pesquisadores denominou Sistema Hermes e que é hoje ensinado na Faculdade de Astrologia do Kepler College.

A outra moça abandonou o grupo um mês depois, a fim de se preparar para a seleção para o mestrado em Filosofia na PUC-RJ. Foi aceita e não voltou ao grupo, mas apresentou, no Simpósio de 2004, um resumo da sua monografia. Este trabalho foi um dos ‘trabalhos inéditos’, selecionados pelo SINARJ, para o simpósio de 2004.

O grupo de estudos que frequentei estava disposto a uma tarefa semelhante. Os textos desses mesmos autores clássicos, mais o ‘Astronomica’ de Marcus Manilius, foram distribuídos entre os membros do grupo e cada um incumbiu-se de verificar como o autor que lhe foi atribuído abordava cada tema que era investigado. O grupo se reunia quinzenalmente e confrontava as versões das técnicas astrológicas.

A coordenadora do grupo repetia com frequência o quanto era importante ‘verificar’, e preparava o grupo para um escrutínio das anunciadas publicações do Projeto Hindsight. “Porque há erros, vocês estão vendo? Esta tabela aqui, que é apresentada como a de Ptolomeu, tem alguns errinhos. Pode ser erro de cópia, não sei. Então, não dá para a gente ficar aceitando as coisas assim, só porque foi publicada no livro do Fulano”.

A ênfase na verificação inclui, também e primordialmente, os próprios autores clássicos. Não é porque essa ou aquela técnica foi descrita por Ptolomeu, por Valens ou por Manilius, que ela deva ser aceita sem ser ‘verificada’.

Percebe-se assim uma resistência a erigir a autoridade tradicional como fonte de uma verdade que, por definição, é ‘transmitida’’. Pelo que pude observar, os meios de comprovação são extremamente fluidos, variando desde ‘na minha experiência pessoal, vejo que isso funciona’, até ‘pesquisas estatísticas já provaram que’.

A ideia de que o saber e o fazer astrológicos são construídos socialmente, e que a visão de mundo astrológica é também uma construção social da realidade, pode ser melhor aproveitada quando se pode especificar as características desse universo. Pois, apesar de se tratar de uma construção social tanto quanto outros saberes e fazeres, como a própria astronomia, constitui um campo muito específico, irredutível a qualquer outro.

15 O Kepler College, localizado em Seattle, nos Estados Unidos, está autorizado a oferecer bacharelado e mestrado em estudos astrológicos, desde julho de 2000. Além dele, há uma outra instituição, a Faculty of Astrological Studies, fundada em 7 de junho de 1948, em Londres.
16 O primeiro coordenador do grupo, um filósofo, deixou o grupo três meses depois, para se dedicar ao pós-doutorado. Foi substituído por uma das astrólogas que se manteve na coordenação do grupo até o final dessa pesquisa.

Uma das especificidades desse universo é a tensa dinâmica entre a modernidade e a tradição. Muito embora a coexistência dos diferentes valores de dois modelos, o da tradição e o da modernidade, seja uma das marcas da vida nas sociedades modernas (Velho, 1994:98), os adeptos da astrologia a enfrentam em diversas frentes: nas relações com a sociedade mais ampla, nas relações internas do grupo ocupacional e no processo de formação dos postulantes ao ofício. Ela também se faz sentir no próprio corpo teórico da disciplina.

O sistema astrológico tem uma história milenar, grande responsável pela robustez de seu banco de dados e pela alegada garantia de sua eficácia. Mesmo que os astrólogos se escorem no corpo sistêmico preservado pela tradição, testemunha inequívoca da longa prática da astrologia e de sua presumida consistência teórica, muitos deles descartam grande parte do conteúdo das interpretações tradicionais.

Um rápido exame da literatura produzida na Antiguidade e na Idade Média, ou, mais especificamente, antes da descoberta dos planetas Urano, Netuno e Plutão, já dá indícios da razão desse repúdio. As técnicas astrológicas ali descritas resultam em respostas a dilemas e questionamentos que dificilmente se apresentam aos adeptos da astrologia na contemporaneidade.

Por que passar horas tentando descobrir se um mapa natal promete vida ao recém-nascido, quando a taxa de mortalidade infantil, felizmente, diminui cada vez mais? Por que perder tempo tentando verificar se o futuro cônjuge é ou não um escravo, quando a escravidão não ronda mais com a mesma persistência? Por que saber com exatidão sob quais condições celestes se deve lançar uma embarcação ao mar, marcar um duelo ou colher uma erva medicinal, quando o consulente jamais pretende se envolver nessas atividades?

Para se tentar compreender como os  símbolos astrológicos vêm a significar aquilo que significam não basta reconhecer as diversas classificações e as regras de transformação a que eles estão submetidos. É preciso também confrontar essas categorizações e combinações com o contexto de uso e com as circunstâncias que cercam a produção do sentido. Isso porque os eventos que constituem os objetos do discurso astrológico estão sujeitos a constrições impostas pelas condições características da época ou da sociedade onde ocorrem. Essas constrições se modificam com o passar do tempo e diferem de contexto para contexto. Não é espantoso, então, que as 51 interpretações astrológicas produzidas em outras épocas e em diferentes condições de vida se mostrem, na maioria das vezes, irrelevantes ou sem sentido. Os símbolos podem atravessar o tempo e o espaço, mas as significações neles impressas experimentam variações derivadas da própria cultura que os instala.

É importante levar em conta a tensão entre a astrologia tradicional e a astrologia contemporânea não porque uma delas seja mais correta, mais coerente, ou melhor testada do que a outra, mas sim porque a contraposição entre as duas é parte integrante do discurso astrológico no Rio de Janeiro.

Não só nas aulas que assisti, na escola Espaço do Céu, mas também nas palestras proferidas em eventos públicos, ouvi frequentes comentários tais como: “A astrologia tradicional diz isso ou aquilo, mas, na minha experiência, isso não acontece”; “Segundo a astrologia antiga, se você tem planetas nesses e nesses graus, você corre o risco disso e daquilo, mas quase ninguém sabe disso porque são poucas as pessoas que estudaram os textos antigos”; “Os antigos não consideravam isso, mas Fulano fez uma pesquisa com a técnica tal, usando exatamente isso, e viu que dá muito certo”; “Esse ponto aqui era considerado crucial pela astrologia antiga e as pessoas deixaram de usar porque não entenderam bem o que era, mas Fulano analisou vários mapas com isso e descobriu que os antigos tinham razão”; “Esse negócio de malefício que a astrologia antiga fala, não é bem assim que acontece”.

A oposição entre a astrologia tradicional e a contemporânea parece clara quando objetivada nos elementos estruturais do sistema astrológico. O sistema tradicional lidava com sete planetas enquanto que o contemporâneo opera com dez planetas-17. A descoberta de Urano, em 1781 (seguida pela descoberta de Netuno, em 1846, e a de Plutão, em 1930) parece funcionar como um divisor de águas entre o tradicional e o contemporâneo para os astrólogos com quem conversei.
Porém, esse tema atinge algumas questões mais problemáticas ao tocar as pressuposições que embasam o estatuto do conhecimento astrológico. Nos dois debates entre astrônomos e astrólogos que tive a oportunidade de assistir, a astrologia foi acusada de, ao contrário das ciências, não ter se desenvolvido, descartando princípios teóricos que tenham se demonstrado ineficazes e montando novos paradigmas.

17-Os sete planetas denominados ‘tradicionais’ são Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno, todos eles visíveis a olho nu. O sistema contemporâneo inclui Urano, Netuno e Plutão, que são invisíveis a olho nu.

A questão do progresso da disciplina foi especificamente salientada no debate entre a Astrologia e a Astronomia durante o  evento “A Astrologia é para todos”. O astrônomo lamentou que os astrólogos, por estarem fechados em um conhecimento milenar, não tenham lucrado com as duas revoluções científicas do século XX: a teoria da relatividade e a mecânica quântica. E alertou-os que “vocês vivem hoje uma mudança de paradigma na astrologia”, perguntando em seguida “Estão preparados para isso?”.

Várias pessoas na plateia menearam a cabeça em assentimento. A ideia de que o conhecimento científico é sistematicamente ultrapassado, contrapõe a ciência tanto à religião, cujos dogmas são aceitos como verdades eternas, quanto à arte, que nunca é tida como obsoleta. Em ‘A Ciência como Vocação’, Weber explicitamente contrasta a ciência e a arte em termos da noção de progresso.

Embora seja raro que uma argumentação em prol da astrologia deixe de enfatizar sua presença duradoura nos mais diversos tipos de sociedades, os astrólogos se veem incentivados à inovação, principalmente desde que a descoberta dos três novos planetas, Urano, Netuno e Plutão, franqueou as portas para uma acomodação do sistema astrológico a novos arranjos estruturais.

Porém, o que se vê, na literatura  contemporânea, é uma multiplicação de técnicas preditivas-19 e um proliferar de corpos celestes a serem incluídos no mapa (notadamente alguns asteroides, como Juno, Palas e Ceres, além de Quíron), o que parece tender muito mais a satisfazer uma completude mágica, do que a desenvolver um novo núcleo consensual, como parece sugerir o astrônomo, na linha dos paradigmas de Kuhn. A valorização de inovações teóricas me parece mais abraçada por aqueles que entendem a astrologia como uma ciência natural, produto de um conhecimento que pode ser justificado. Há, contudo, aqueles que a concebem como ciência sagrada, fruto de um conhecimento revelado, ou ainda como arte divinatória, fortemente apoiada em processos intuitivos.

18 Um deles foi realizado no Planetário da Gávea, em setembro de 2003. Tratava-se de uma mesa redonda cujo tema era ‘Sob o signo da Ciência: a astrologia vista pela astronomia’. O outro ocorreu durante o evento ‘A Astrologia é para Todos’, em março de 2004, no Hotel Florida.
19 A escola Espaço do Céu oferece disciplinas sobre as técnicas preditivas desenvolvidas nos últimos anos: as Harmônicas de John Addey; Pro-luna e o Evolutivo de Neroman; os pontos médios de Ebertin, entre outras. Não cursei essas disciplinas e, com a exceção de duas astrólogas do grupo de supervisão que frequentei, nenhum dos astrólogos entrevistados citou o emprego regular dessas técnicas preditivas.

O grupo com quem convivi se mostra particularmente inclinado a aproximar-se da ciência e afastar- se da religião e da arte divinatória. É importante observar que meus informantes não costumam se referir à astrologia de hoje como ‘moderna’ e sim como ‘contemporânea’. Parecem assim tentar escapar do caráter filosófico e histórico que o termo ‘modernidade’ evoca. Nos depoimentos colhidos, as noções de ‘tradicional’ e ‘contemporâneo’ são interpretadas dentro do próprio universo astrológico e buscam refletir sobre as mudanças na forma e no conteúdo das chaves interpretativas com as quais os astrólogos inevitavelmente se deparam.

Cavalcanti (2001) chama atenção para o fato de que as tradições são históricas e, como tal, criadas, desfeitas, retomadas e, sobretudo, a ideia de tradição (e de seu par moderno) é ela mesma um valor trocado e transformado em teias de relações sociais que precisam ser contextualizadas.

Embora as distinções estabelecidas sejam claramente demarcadas por questões astronômicas (concepção heliocêntrica, descoberta de três planetas), percebe-se, na oposição tradicional/contemporâneo, certas características mais problemáticas. Pelo que pude observar, a tensão maior incide sobre o sentido literal ou figurado das chaves interpretativas. No pré-simpósio de 2004, uma interpretação da posição “Sol em Sagitário na Casa 8”, feita por uma astróloga-20
foi longamente criticada. Considerando as analogias Sol = pai, Sagitário rege as pernas e Casa 8 trata de morte ou perda, a astróloga vaticinou que a pessoa em questão “perderia ou o pai ou as pernas”. Um dos membros do Conselho do SINARJ, responsável pela prova de seleção para os postulantes à categoria ‘profissional’ do sindicato foi enfático: “Essa não seria aceita”. Depois desse episódio, quase todos os participantes na discussão sobre currículos das escolas de astrologia voltaram a citar essa interpretação como evidência incontornável de que a literalidade ronda os maus praticantes e precisa ser coibida.

20 Essa astróloga não foi identificada, mas, segundo foi comentado, ela se apresenta regularmente em um programa de rádio.

Grupo de supervisão

O segundo grupo não era propriamente de estudo, mas sim de supervisão. Era composto por três astrólogas que queriam  discutir casos específicos, práticas de atendimento e novidades teóricas, sob a orientação de uma quarta astróloga, que é considerada especialista em retificação de hora 21

O convite partiu de uma delas, cujo neto estuda na mesma escola que o meu neto. Conversando durante uma aula de futebol dos meninos, ela me contou sobre esses encontros e me convidou para participar. Entrei no grupo em maio de 2003. Nós nos reuníamos uma vez por semana, às quartas-feiras, das 18:00 às 20:30, na casa da supervisora. Apenas uma das participantes lecionava em uma escola de astrologia e vivia exclusivamente da prática astrológica. As outras também tinham uma clientela regular, mas continuavam a exercer suas profissões. O grupo era composto por uma arquiteta, uma advogada, uma professora, formada em Letras (Português/Inglês), que já havia lecionado em escolas de ensino médio, mas que atualmente trabalhava como tradutora. Duas delas continuavam a trabalhar, embora já fossem aposentadas.

O grupo se dissolveu em agosto, em função de dois conflitos, cada um dos quais ocasionou a saída de uma pessoa. Nenhum desses conflitos ocorreu em função da supervisão propriamente dita. Aliás, eles  aconteceram e foram resolvidos fora do horário de supervisão. O primeiro teve raízes em uma antiga ruptura da supervisora com uma outra astróloga que não participava do grupo, ruptura esta que ainda suscitava questões de tomada de partido. Melindrada com alguns comentários, a supervisora pediu que a moça se afastasse do grupo.

O segundo foi provocado por uma incompatibilidade na maneira de encarar a prática astrológica. Questões relacionadas à confidencialidade da consulta, à forma de prestar serviços e à divisão de tarefas, em um projeto de atendimento a instituições que estava sendo planejado por duas das astrólogas, levaram uma delas a abandonar tanto o projeto quanto o grupo.

21 Trata-se de uma técnica destinada a determinar a hora de nascimento quando a pessoa não dispõe desse dado ou quando ela acredita que a hora registrada na certidão de nascimento não é correta. Com base na data dos eventos que compõem a sua história de vida (casamento, nascimento de filhos, cirurgias, morte dos pais, promoções na carreira, e assim por diante), o astrólogo remonta o mapa natal que melhor corresponderia àquelas datações.

A astróloga que havia me convidado propôs que a supervisora continuasse a orientá-la nos mesmos moldes semanais. E eu continuei a acompanhá-las no que, a partir de setembro, transformou-se em supervisão particular. Em junho de 2004, a supervisão foi encerrada, por questões de saúde de uma delas.

A minha participação nas discussões desse grupo foi valiosa, no sentido de ter me dado acesso a questões que afligem, ou contentam, os astrólogos e os clientes durante uma consulta. Como o objetivo era uma supervisão, nos moldes de uma supervisão clínica, vários casos foram apresentados, tendo sido discutido o que havia sido dito ao cliente, como ele havia reagido, qual a melhor maneira de abordar certos problemas, como calcular o tempo nas técnicas preditivas (a grande pergunta: quando isso vai acontecer?). Essas questões serão examinadas no capítulo 3.

Academia Celeste

Um terceiro grupo de estudos surgiu durante o Simpósio de 2004. Seis trabalhos inéditos foram selecionados dentre dezoito que foram submetidos à apreciação de uma comissão do Sinarj. Todos eles foram apresentados em uma mesma sala durante o simpósio, o Salão Saturno-22, e discutiam questões teóricas da astrologia.

Uma parcela significativa da plateia do salão Saturno permaneceu fiel, raramente se ausentando para assistir uma palestra em alguma outra sala. Esse grupo também se reunia durante os almoços e nos intervalos para um café. No último dia de simpósio, um grupo de doze pessoas, entre palestrantes e membros da plateia do Salão Saturno, decidiu formar uma Academia Celeste, com o objetivo de reunir os interessados em estudar e discutir a teoria astrológica em moldes acadêmicos. O grupo incluía pessoas de outros estados (Minas Gerais, São Paulo e Paraná) e a primeira providência foi criar um grupo Yahoo que facilitasse a comunicação entre todos e onde pudessem disponibilizar seus trabalhos para os demais.

A coordenação do grupo coube a um filósofo que, neste Simpósio, apresentou um trabalho sobre o conceito de divinação em Plotino. O grupo também convidou os editores da revista virtual Constelar do Rio de Janeiro, o diretor da Escola Hermes de São Paulo e duas pesquisadoras paulistas, uma que apresentou a dissertação de mestrado em Filosofia da Ciência, O Repertório dos Tempos de André do Avelar e a astrologia em Portugal no século XVI, na PUC-SP, em 2001, e uma doutoranda em História da Ciência na PUC-SP que estuda a cosmologia de William Lilly, astrólogo inglês do século XVII. Foi também convidado Paulo Seabra, astrólogo de Brasília, presente ao Simpósio, que colaborou na pesquisa da UNB sobre a astrologia, realizada em 2003 e divulgada no início de 2004-23. Todos aceitaram o convite.

22-O Simpósio foi realizado no Centro de Convenções do Hotel Florida, que dispunha de três salas. Duas ficavam no primeiro andar e uma no andar térreo. Essa do andar térreo foi chamada de Salão Plutão, o deus grego do mundo subterrâneo. O auditório do primeiro andar foi chamado de Salão Júpiter, o maior dos planetas. A sala menor do primeiro andar foi chamada de Salão Saturno.

A primeira reunião deste grupo após o simpósio foi realizada na casa do coordenador, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ficou decidido que este grupo ainda permaneceria fechado durante algum tempo, só incluindo aqueles que foram convidados quando o grupo se formou, pelo menos até que suas atividades fossem se consolidando.

O objetivo de todos, e daí a necessidade de montarem um grupo distinto dos que já existem, era o de estudar exclusivamente a teoria astrológica, desvinculada de questões de ordem prática, isto é, sem atender a pressões do tipo “e como isso fica na interpretação de um mapa?”, ou “como é que isso funciona na prática?” Em todos os campos profissionais, há uma tácita divisão de trabalho entre teóricos e práticos-24. Os primeiros, geralmente acusados de serem por demais ‘intelectuais’, se dedicam às questões mais gerais do seu campo de saber e não se mostram inclinados a responder à pergunta que os práticos elegem como prioridade: Para que serve isso? Hughes (1994) salienta uma relevante implicação dessa postura teórica: um desinteresse crônico por questões particulares, exatamente as questões que afligem os clientes, e este desinteresse impede o teórico de se comprometer com as demandas específicas de, digamos, um empregador. Hughes (1994:42) acredita que essademarcação tende a desaparecer em algumas  profissões, na medida que, em alguns casos, a formação acadêmica se mostra preocupada quanto à qualificação para postos de trabalho no comércio e na indústria e, por  outro lado, os que praticam determinadas atividades se preocupam em desenvolver um corpo teórico cujo conhecimento seja exigido dos candidatos à profissão.

23-O CEAM/NEFP – Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais da Universidade de Brasília divulgou os resultados de uma pesquisa intitulada ‘Verificação dos efeitos das posições dos astros na eclíptica com respeito à formação do homem e seu cotidiano’, que contou com a participação de 100 voluntários. A partir dos dados de nascimento desses voluntários, uma equipe de astrólogos descreveu traços de personalidade de cada pesquisado e ofereceu previsões acerca de acontecimentos para o período seguinte de 40 dias. Os resultados foram acompanhados por uma equipe de psicólogos e apresentaram uma margem de acerto de 95%.
24 No evento ‘A Astrologia é para Todos’, a astróloga que se encarregou da palestra sobre Astrologia e Medicina (professora de astrologia, com vários livros publicados e um site na Internet) fez questão de se apresentar ao público como uma pessoa dedicada à ‘astrologia aplicada’, expressão que ela repetiu enfaticamente. A observação da astróloga, posicionando-se no lado dos ‘práticos’, talvez tenha sido muito mais dirigida aos seus colegas de profissão do que ao público leigo, para quem, presumivelmente, a astrologia aplicada não se distingue da própria astrologia.

O campo de atuação do astrólogo tem sido, historicamente, prático, voltado para o tratamento de questões predominantemente particulares. Aliás, trata-se de uma queixa bastante disseminada entre os ‘teóricos’.  O corpo teórico herdado mais parece uma compilação de casos particulares do que um arranjo sistematizado de premissas, hipóteses e princípios gerais. O esforço de  formalizar as bases teóricas e formais do sistema astrológico atrai os astrólogos mais afeitos ao campo da teoria e da metodologia e não é de se espantar que eles provenham dos meios universitários.

A primeira proposta de colaboração do grupo foi com relação à literatura astrológica. A bibliografia estrangeira é de difícil acesso e todos oferecerem, uns aos outros, o material bibliográfico de que dispunham. Fui bastante favorecida por esse oferecimento generoso e, graças a esse grupo, tive acesso a obras de referência astrológica que não costumam ser obtidas com facilidade.

Combinaram também que seriam disponibilizados, na Internet, os trabalhos que já estivessem prontos, “os trabalhos que a gente já fez e não aqueles feitos por encomenda, para satisfazer os outros” (Henrique). Uma das sugestões foi a organização de um livro com todos os trabalhos apresentados no Salão Saturno, “mesmo porque esse grupo não precisa começar do zero. Já temos um bom número de textos”. (Maurício)

Nesse primeiro encontro, ficou agendado um segundo encontro para o final do ano de 2004, que acabou não acontecendo. Como os participantes residem em estados diferentes, toda vez que uma data era proposta, havia quem não pudesse viajar naquela ocasião. A comunicação entre eles acabou acontecendo via Internet, mas seguiu as diretrizes propostas. Os trabalhos foram disponibilizados uns para os outros, convites para fóruns, simpósios e cursos eram trocados, e todo material teórico encontrado era distribuído (dissertações e teses que, de alguma forma, tratavam de astrologia, artigos publicados em revistas indexadas, principalmente sobre História da Filosofia e Filosofia da Ciência).

É interessante observar, nesse grupo, um viés preferencial pela Filosofia. Três dos membros já são pós-graduados em Filosofia (mestrado e doutorado em Filosofia da Ciência na PUC-RJ, e uma delas é professora de Filosofia em uma universidade federal). Dois outros membros demonstraram interesse em enveredar por essa disciplina. Um deles deseja montar um projeto para uma pós-graduação e o outro pretende prestar vestibular para Filosofia, ambos interessados em complementar seu interesse nessa área.

O segundo encontro desse grupo finalmente aconteceu em abril de 2005, no apartamento de uma das astrólogas, no bairro do Flamengo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ficou combinado que seria realizado um seminário, em setembro de 2005, após o Simpósio Nacional previsto para fins de agosto, onde os componentes do grupo apresentariam seus trabalhos para o próprio grupo ou mesmo para uma platéia convidada, caso fosse possível alugar um espaço para tal. Os trabalhos estão sendo reunidos pela coordenadora do grupo e várias propostas de aluguel de espaços estão sendo analisadas para a realização desse seminário. Um dos membros da Academia Celeste já comunicou aos demais que o Sinarj disponibiliza uma sala, de 20 lugares, para esse encontro.

1. 4 A literatura especializada

A literatura astrológica não pode deixar de ser considerada parte do trabalho de campo. Sem dúvida, a bibliografia recomendada pelas professoras do Espaço do Céu e os autores citados nos grupos de estudo contribuíram significativamente para a minha compreensão do sistema astrológico, tal como ele é enfocado nos meios astrológicos pelos quais transitei. Essa bibliografia era composta basicamente de autores estrangeiros. Poucos são traduzidos para o português, mas alguns são encontrados em espanhol. A maior parte dos livros está em inglês ou francês. Os livros podem ser encontrados em livrarias especializadas ou encomendados 

via internet. No Rio de Janeiro, há duas livrarias especializadas na literatura técnica astrológica: a livraria Pororoca, situada na Rua Visconde de Pirajá, 540, sl 309, em Ipanema, e a livraria Francisco Laissue, na Praça Olavo Bilac, 28, sl 201, no Centro. 

Foi importante também examinar a literatura nacional, principalmente aquela produzida pelos astrólogos que se apresentam regularmente nos eventos públicos. Dentre os mais de 30 palestrantes nos dois simpósios a que compareci, são poucos os que publicam, mas esses costumam estar no palco em todos os eventos públicos e são os mais convocados pela mídia para se manifestarem sempre que surge uma pesquisa que invalida a astrologia, um manifesto contra a astrologia por parte de algum cientista, ou então na virada do ano, época costumeira de previsões.

Desde que comecei a pesquisa, essas personalidades do meio astrológico já foram diversas vezes entrevistadas no programa Fantástico da Rede Globo, no programa matinal de Ana Maria Braga na Rede Globo, no programa Sem Censura da TVE.

Um panorama geral da literatura astrológica indica que ela se compõe de:
1. uma extensa e apenas parcialmente traduzida herança de autores da Antiguidade e da Idade Medieval. Somente nas últimas décadas tem se verificado um esforço maior no sentido de traduzir os autores clássicos do árabe e do grego para o inglês. Esse esforço vem sendo patrocinado por instituições astrológicas na Europa e nos Estados Unidos e por alguns departamentos universitários cujas linhas de pesquisa, notadamente sobre História e Filosofia da Ciência, estão resgatando a obra de alguns astrólogos.
2. uma farta literatura contemporânea, produzida principalmente na segunda metade do século XX, e que é a mais recomendada nas instituições de ensino no Rio de Janeiro. Ela inclui:
a) manuais e tratados básicos de astrologia;
b) livros especializados em temas específicos do corpo teórico, desde técnicas preditivas (revolução solar, progressões), a elementos do mapa natal (os nodos lunares, a roda da fortuna, o planeta Saturno), até especializações na prática astrológica (astrologia empresarial, vocacional, saúde, mundial, horária, sinastria);
c) uma produção híbrida, ao estilo Nova Era, na qual os temas astrológicos são abordados juntamente com numerologia, tarô, yoga, taoísmo, princípios de auto-ajuda, exibindo títulos tais como, Feng Shui Astrológico, Mandala do Amor, Auto-realização através da Astrologia, a Era de Aquário, etc.
3. uma produção virtual, on-line, apresentando artigos, resenhas ou editoriais. As mais citadas dessas publicações virtuais são:  Revista Constelar, de Fernando Fernandes e Carlos Hollanda; Meio do Céu, de Cláudia Araújo e Valdenir Benedetti;  Porto do Céu, de Roberta Tótora;  Urania & Vila Bol, de Bárbara Abramo;  Astro-sintese, de Carlos Hollanda;  Stars Talk, de Lizzie Rodrigues. Há também o jornal Universus, produzido, desde 1994, pelo Centro de Astrologia Astro*Timing, localizado no Recreio dos Bandeirantes, cuja versão on-line foi lançada em 1996. Esse jornal, impresso, é distribuído gratuitamente em centros de astrologia, em farmácias homeopáticas, nas livrarias especializadas.

Ao examinar a literatura astrológica, eu tinha objetivos bem determinados. Num primeiro momento, tentei levantar os aspectos formais do sistema astrológico, procurando compreender os critérios de classificação e categorização que sustentam a interpretação. Num segundo momento, procurei mapear o campo dos discursos que atravessam o ensino e a prática da astrologia, procurando identificar os temas que se impõem.

As dificuldades dessa tarefa foram muito grandes. Em primeiro lugar, há enorme discrepância entre a literatura contemporânea e os autores clássicos. Apesar do respeito professado por seus praticantes pela herança milenar do conhecimento astrológico, são poucos os astrólogos que se interessam pela literatura anterior à descoberta dos planetas Urano, Netuno e Plutão e, portanto, são poucos os que se dão conta do caráter peculiar da astrologia contemporânea, que se sustenta pesadamente em uma abordagem psicológica. Uma das professoras do Espaço do Céu me confessou que ‘jamais li um dos antigos. Só leio os autores contemporâneos’. E não é a única. Vários alunos de astrologia encontram-se também nessa situação.

Além disso, há diversas escolas de pensamento na astrologia contemporânea, notadamente as de linha americana, francesa, alemã e inglesa. A escola americana e a inglesa, particularmente, são constantemente acusadas, pelo grupo pesquisado, de professarem uma astrologia ‘humanista’, tão semelhante a uma clínica psicológica que não é raro ouvir os professores do Espaço do Céu alertarem: “Olha, pessoal, atendimento astrológico não é terapia. Astrologia não é Psicologia nem Psicanálise”.

Embora todas essas linhas encontrem adeptos entre os professores de astrologia no Rio de Janeiro, pude perceber que está surgindo um movimento de valorização da produção nacional.
“Apesar dos percalços, a produção literária de astrólogos brasileiros tem sido significativa tanto em volume quanto em qualidade, especialmente a partir dos anos oitenta. Já podemos nos dar ao luxo de aprender astrologia apenas com material didático nacional, frequentar listas de discussões em português e ler publicações onde a presença de textos estrangeiros é diminuta ou mesmo nenhuma, como é o caso da própria Constelar. Mas é preciso que o público se mobilize em torno da astrologia brasileira, de maneira a criar um mercado regular para o escoamento da produção que nasce abaixo da linha do equador.” (Fernando Fernandes e Carlos Hollanda, A hora da astrologia brasileira, Astro-síntese, edição 20, abril de 2004)

No Espaço do Céu, especificamente, a bibliografia recomendada é basicamente estrangeira. A diretora da escola já publicou dois livros e tanto ela quanto um outro professor publicam regularmente artigos em revistas e jornais on-line. Em abril de 2004, a diretora conseguiu publicar um artigo na revista francesa ‘L’Astrologue’ e esse fato foi muito comentado entre os alunos, em tom de orgulho.

O que mais surpreende, no exame da literatura contemporânea, é a irrelevância atribuída à tradicional qualidade oracular da astrologia. Esta faceta é sistematicamente minimizada, em um esforço para reduzir o peso de um pressuposto determinismo. Durante uma das aulas que assisti, a professora comparava as concepções de dois ramos da astrologia (a Astrologia Horária e a Astrologia Empresarial) quanto às posições dos planetas Saturno e Marte (descritos frequentemente na literatura clássica como maléficos), quando uma das alunas perguntou: “Mas, essa astrologia horária não é oracular?”A professora respondeu: “Você está enganada, é uma astrologia séria, com técnicas bem precisas, só que são diferentes das técnicas da astrologia que a gente usa”.

A suspeita de que uma astrologia primordialmente oracular pode não ser ‘séria’ encontra ressonância na literatura contemporânea em geral. Tendo em vista essa pluralidade de vozes, muitas vezes conflitantes, optei por me ater ao enfoque do grupo com quem convivi. Os eventos públicos, que promovem a exposição de diversas perspectivas, contribuíram para tornar mais nítido esse enfoque.  


Capítulo 2 – O Sistema Astrológico como Sistema de Classificação

No dia 22 de setembro de 2003, às seis horas da tarde, o Planetário promoveu uma mesa redonda sobre o tema ‘Sob o Signo da Ciência – a astrologia vista na perspectiva astronômica’. No palco, um biólogo e um astrônomo, como debatedores, e um físico como mediador. No auditório lotado, um número expressivo de astrólogos, claramente ressentidos por não terem um representante à mesa. Essa mesa redonda fazia parte de um ciclo de apresentações promovido pelo Planetário para o público geral. Uma vez anunciada na programação da casa, as escolas de astrologia, juntamente com o SINARJ, se encarregaram de divulgar a notícia entre os astrólogos, convidando-os a marcar presença.

Enquanto eu esperava a sessão começar, conversei com um senhor de 72 anos que me contou que não perdia a programação do Planetário. Ele morava em um prédio vizinho e, já aposentado, gostava de frequentar as palestras ali oferecidas. “São todas muito interessantes, minha filha, e assim eu deixo a minha mulher em paz um pouquinho, para ela ver as novelas dela. Hoje, eu estou entusiasmado. Sou do signo de Escorpião e quero saber se tenho chance de ficar rico”, disse ele sorrindo. Esse senhor era um dos pouco leigos presentes. Os astrólogos haviam chegado cedo, para não perderem as senhas de entrada, e lotaram o auditório.

O clima acalorado não poderia ter sido menos propício ao debate. As apresentações dos debatedores foram interrompidas repetidamente por exclamações da plateia em tom acusatório. “Não se aprende astrologia pela internet”, exclamavam alguns. “Não é nada disso”, gritavam outros. Em contrapartida,  não faltaram entonações desdenhosas e comentários irônicos por parte da mesa. Houve tamanho constrangimento que o diretor do Planetário chegou a subir ao palco e tomar a palavra, na tentativa de acalmar os ânimos-1. O embate dramaticamente sustentado girava em torno da pretensa cientificidade da astrologia.

1O astrônomo convidado para o evento ‘A Astrologia é para Todos’, realizado em março de 2004, foi exatamente o diretor do Planetário da Gávea que subiu ao palco para arrefecer os ânimos. Ao aceitar o convite, ele marcou uma consulta com a astróloga convidada para ser sua parceira de mesa e fez, com ela, a leitura de seu mapa natal, segundo ele mesmo declarou ao público na ocasião. E comentou que, na consulta, “nem me preocupei em olhar astronomicamente as posições dos planetas naquilo que vocês chamam de signos e nós de constelações”. Achei interessante ele ainda relacionar signos às constelações, quase um ano depois que essa ideia tivesse sido negada de forma veemente, e até irada, pelos astrólogos na plateia do Planetário, onde ele esteve presente.

O astrônomo se deteve especificamente na configuração astronômica de que os astrólogos se valem para descrever o estado do céu no momento do nascimento. Como é possível, argumentava ele, sustentar um sistema baseado em um trajeto do Sol ao redor da Terra quando todo mundo sabe que a Terra gira em torno do Sol? Como defender uma divisão arbitrária da eclíptica-2 que confere homogeneidade aos signos, cada qual com 30º de extensão, quando as constelações correspondentes são de extensão, luminosidade e número de estrelas completamente diferentes? Como admitir uma caracterologia baseada em constelações que já não se encontram mais nos signos correspondentes, pois a precessão dos equinócios-3 rompeu a justaposição entre signos e constelações? Segundo o astrônomo, como a constelação de Áries encontra-se hoje no signo de Touro, quem acha que é um ariano, na verdade é um taurino. A plateia discordou enfaticamente.

2- A eclíptica é o plano da órbita terrestre, assim chamado porque é ali, nos pontos em que esse plano intercepta o plano do equador, que se observam as eclipses solares e lunares. Este plano tem uma inclinação de 23º27’ em relação ao plano do equador, uma obliquidade que diminui ao passo de 50’’ por século.
3- O fenômeno da precessão dos equinócios refere-se ao movimento retrógrado dos pontos equinociais, isto é, os pontos em que o plano da eclíptica intersecta o plano do Equador. O Sol cruza esses pontos duas vezes ao ano, assinalando os equinócios da primavera e do outono. O ponto equinocial da primavera (no hemisfério norte), ou vernal, coincidiria com o 0º de Áries, e foi escolhido para marcar o início da sucessão ordenada de signos zodiacais. Entretanto, devido a essa retrogradação, o ponto vernal deslocou-se para o signo de Peixes e continua a progredir em sentido inverso à sucessão de signos, em direção ao signo de Aquário. Não se pode precisar com exatidão o tempo necessário para que o ponto vernal percorra um signo por inteiro, mas supõe-se que seja por volta de 2000 anos. A este fenômeno astronômico vincularam-se diversos significados simbólicos, dentre os quais encontra-se a postulação de eras zodiacais. À medida que o ponto vernal atravessa um signo zodiacal, este signo imprime sua marca no mundo. Acredita-se que os últimos 2000 anos foram marcados pelo signo de Peixes, um período intimamente conectado a um cristianismo que apresenta o peixe como ícone. Graças, porém, à precessão dos equinócios, o ponto vernal eventualmente atingiria o signo de Aquário, inaugurando uma Nova Era. É daí que o movimento Nova Era extrai sua denominação.

Em suma, como aceitar uma concepção do estado do céu que qualquer pessoa minimamente informada sobre o sistema solar reconhece como falseada, deformada e refutada? Contudo, a faceta especulativa do pensamento humano, capaz de gerar sistemas de classificação e tipologias intrigantes e, por  vezes, incongruentes, é justamente o que nos interessa.

Ao descrever o sistema astrológico chinês como um sistema classificatório, Durkheim e Mauss (2001: 442-455) salientam que ele não deriva da morfologia social, como ocorre com os demais sistemas totêmicos que eles discutem, embora mantenha os mesmos princípios gerais, agrupando os seres em classes e espécies a partir de afinidades sociais. Esses autores atribuem aos sistemas divinatórios da China, da Grécia e da Índia um lugar intermediário entre as classificações totêmicas australianas e as taxonomias científicas modernas. Ressaltam, porém, que as classificações primitivas guardam semelhança com as taxonomias científicas na medida que constituem sistemas de noções não só agrupadas, mas também hierarquizadas, com o objetivo de tornar inteligível as relações existentes entre os seres.

O que a ciência herda desses sistemas primitivos é a própria possibilidade de classificar, distinguindo-se deles, contudo, pela crescente independência com relação ao contexto e pelo crescente enfraquecimento de atitudes afetivas para com as noções. Nos sistemas primitivos, as coisas não são simplesmente objeto de conhecimento, mas assumem valores sentimentais em função da maneira como afetam a sensibilidade social. Para Durkheim e Mauss, a maior implicação dessa tonalidade afetiva é a dificuldade de estabelecer contornos nítidos para as classes.

“É que uma classificação lógica é uma classificação de conceitos Ora, o conceito é a noção de um grupo de seres claramente determinado; seus limites podem ser marcados com precisão. Ao contrário, a emoção é  uma coisa essencialmente vaporosa e inconsciente. Sua essência contagiosa brilha muito além de seu ponto de origem, estendese a tudo aquilo que a cerca, sem que se possa dizer onde se detém sua potência de propagação. Os estados de natureza emocional participam necessariamente do mesmo caráter. Não se pode dizer nem onde começam nem onde acabam; perdem-se uns nos 66 outros, misturam suas propriedades de modo que não se pode categorizá-los com rigor”. (2001:455).

Seguindo a hipótese de Durkheim e Mauss segundo a qual os sistemas divinatórios podem ser analisados como formas de classificação, Lévi-Strauss (1989) deteve-se particularmente nos operadores de classificação. Estabeleceu uma distinção entre ‘signo’ e ‘conceito’, enfatizando que o conceito, como unidade básica de uma construção lógica e categórica, constitui um operador  context-free, que fabrica estruturas para criar acontecimentos. Já o signo, a meio caminho entre o precepto e o conceito (1989:33), busca uma organização sistemática dos eventos, para atribuir-lhes significado a partir dessa ordenação.

Portanto, ambos, signo e conceito, produzem, embora por meios radicalmente diferentes, uma modelização do real que não só investiga as conexões entre os eventos, mas também coloca em pauta categorias fundamentais do pensamento, tais como uno/múltiplo, igual/diferente, todo/parte, e assim por diante. Há, então, duas estratégias de pensamento frente à experiência, que são diferentemente objetivadas. Enquanto que o pensamento científico opera basicamente por meio de unidades conceituais decalcadas do plano sensível, o pensamento que Lévi-Strauss chama de selvagem opera por meio de unidades sígnicas que mantêm uma espécie de aderência às coisas, configurando o que esse autor caracteriza como “uma ciência do concreto” (1989:15-49).

Cavalcanti (2002) salienta que a razão lévi-straussiana é totalmente encarnada em matéria, pois se exerce na e pela manipulação das qualidades sensíveis, fornecidas pela experiência corporal, e que são operadoras do inteligível. “Em Lévi-Strauss, o sensível que oferece ao pensamento suas categorias elementares é o sensível posto no solo etnográfico. A inteligibilidade das categorias empíricas – o cru e o cozido, o alto e o baixo, o fresco e o podre, o molhado e o queimado, entre outros pares e tríades – deriva de contextos culturais particulares”. (2002:6)

Lévi-Strauss coloca o homem na natureza, mas não em uma natureza entendida como alteridade em relação ao homem e em relação à cultura. A natureza lévi-straussiana se compõe de estruturas elementares, que são as mesmas do espírito humano.

Em sua pesquisa sobre a astrologia, Vilhena (1990) procurou demonstrar que o sistema astrológico apresenta uma lógica comparável à dos sistemas totêmicos que foram analisados por Lévi-Strauss em O Pensamento Selvagem. Muito embora Lévi-Strauss tenha admitido que o pensamento selvagem ainda  persista nas sociedades modernas, ele o restringe a alguns nichos4. Em  La Pensée Bourgeoise, porém, Sahlins (2003:166-203) argumenta que a sociedade burguesa apresenta vários sistemas passíveis de serem tratados como sistemas totêmicos, entre eles a  comida e o vestuário. Estudando o consumo, Everardo Rocha (1995) detecta, na publicidade, o modelo lógico do totemismo. Ao operar diferenças entre os produtos manufaturados, a lógica do consumo instaura um sistema de classificação por meio do qual se pode efetivar uma leitura do mundo e da sociedade. O caráter totêmico não se deve a resíduos de sistemas mágicos e míticos que sobrevivem, mas sim ao estabelecimento de uma lógica de diferenças e semelhanças que engenhosamente liga séries descontínuas. É esta mesma lógica que DaMatta (1999) analisa com relação ao jogo de bicho na sociedade brasileira.

Em vista disso, procuro investigar as categorias que norteiam a classificação astrológica, adotando a hipótese de que o sistema astrológico compartilha as características que definem os sistemas totêmicos como sistemas classificatórios - a coerência interna e a capacidade ilimitada de extensão (Lévi-Strauss, 1975:243). 


Os autores clássicos mais referenciados


Para chegar a essas categorias, apoiei-me nos tratados clássicos que compunham o material bibliográfico do grupo de estudos do Espaço do Céu que acompanhei durante dois anos: 
  • Astronômica, de Manilius; 
  • Carmen Astrologicum, de Dorotheus de Sidon; 
  • Tetrabiblos, de Ptolomeu; 
  • Volumes I e VII da Antologia, de Vettius Valens;  
  • Mathesis, de Firmicus Maternus;  
  • Apotelesmatica, de Hefaísto de Tebas-5.
4 “...conhecem-se ainda zonas onde o pensamento selvagem, tal como as espécies selvagens, acha-se relativamente protegido: é o caso da arte, à qual nossa civilização concede o estatuto de parque nacional, com todas as vantagens e os inconvenientes relacionados com essa fórmula tão artificial; e é sobretudo o caso de tantos setores da vida social ainda não desbravados onde, por indiferença ou impotência e sem que o mais das vezes saibamos porque, o pensamento selvagem continua a prosperar.” (Lévi-Strauss, 1989:245)
5 O Astronomica de Manilius é tido como a fonte mais antiga de conhecimento astrológico que chegou completa até o século XX. Datado de pelo menos um século antes da obra de Ptolomeu, foi escrito sob a forma de poema didático, em cinco volumes. A coordenadora do grupo de estudos comentou, por diversas vezes, que os astrólogos não dão muita importância a Manilius justamente porque ele não escreveu em prosa.

A obra que os astrólogos costumam adotar como a fonte clássica do conhecimento astrológico é o Tetrabiblos de Claudio Ptolomeu (século I), cuja grande obra de astronomia, o  Almagesto, desenvolve a concepção geocêntrica do mundo em treze volumes. Inspirado na tradição egípcia de Nechepso e Petosiris, conhecida como a Vulgata Helenística, Ptolomeu apresenta a  teoria astrológica em quatro volumes, sem, contudo, oferecer um único mapa de nascimento como exemplo.

Embora haja várias linhas teóricas na astrologia, o viés preferencial deve depender do grupo pesquisado. Não posso, então, deixar de me apoiar no material discutido pelo grupo de estudos sobre os autores da astrologia helenística, que foi o mais acompanhei, participando dele até mesmo depois que deixei de assistir as aulas convencionais da escola.

Os textos consultados foram importados de editoras norte-americanas e inglesas, rateados e distribuídos pelo grupo. Cada um se responsabilizou pela apresentação do material teórico de um dos autores e a escolha de qual autor ficaria a cargo de qual membro do grupo dependia, em grande parte, do idioma em que o livro era escrito. Havia versões em francês, inglês e espanhol e as pessoas escolhiam seus respectivos autores de acordo com o idioma no qual tinham mais desenvoltura. No Simpósio de 2004, a coordenadora do grupo apresentou uma palestra sobre a obra de Dorotheus de Sidon e foi procurada por diversos professores de outras escolas, até mesmo de outros estados do Brasil, que ficaram interessados em obter esse material.

Tive também oportunidade de conversar por diversas vezes com duas astrólogas que se apóiam nas técnicas clássicas descritas nesses tratados. Elas não participavam do grupo de estudos, mas me concederam entrevistas demoradas. Uma delas, Renata, possui uma farta clientela, que lhe permite viver exclusivamente de consultas astrológicas. Durante o período em que essa pesquisa  foi realizada, sua carteira de clientes estava em franca expansão, pois estava sendo solicitada a atender também pessoas que moravam no exterior.

Já a Antologia de Vettius Valens, obra em nove volumes, apresenta mais de cem mapas de nascimento que exemplificam a teoria apresentada. Ptolomeu e Valens eram contemporâneos, embora não haja evidências de influências recíprocas nesses autores. 


Os tratados de Valens e de Dorotheus de Sidon só começaram a ser traduzidos para o inglês em fins do século passado. A primeira tradução inglesa do Carmen Astrologicum de Dorotheus de Sidon (obra em cinco volumes) foi publicada em 1976. Esta edição inglesa foi traduzida do árabe, a qual, por sua vez, fora traduzida do persa, e é razoável admitir que contenha inserções e adaptações da obra  original. Acredita-se que Dorotheus tenha vivido no século I, depois de Manilius, mas antes de Ptolomeu.


Os tratados de Firmicus Maternus (Mathesis, em 8 volumes) e de Hefaísto de Tebas (Apolesmatica, em três volumes), autores do século IV, também foram discutidos nesse grupo de  estudo. 


Hefaísto adota explicitamente as teses de Dorotheus e Ptolomeu; sua obra compila e resume os tratados desses dois autores mais antigos, que são por vezes citados extensamente. 


Três outros autores - Ibn-Ezra, (autor de ‘The Beggining of Wisdom’, no século XII), Guido Bonatus (autor de Animae Astrologicae, cuja primeira edição data de 1676) e William Lilly (autor de ‘Christian Astrology’, no século XVII) - foram consultados por alguns dos membros do grupo com o objetivo de verificar até que ponto as técnicas antigas haviam sobrevivido até a época medieval.

Os autores medievais, porém, só serviram de contraponto, pois o objetivo era se deter especificamente na literatura da Antiguidade. Além disso, o grupo recorreu sistematicamente ao livro L’Astrologie Grécque, escrito, em 1899, por Bouché-Leclerq, historiador francês, professor da Faculdade de Letras de Paris. Fruto de extensa pesquisa sobre o sistema astrológico grego, essa obra, citada por Durkheim e Mauss (2001) nos estudos sobre sistemas de classificação, e ainda não traduzida para o português, foi usada como fonte de referência dos elementos helenísticos que compõem o sistema astrológico.

Tudo começou com um casal, que eram seus clientes há anos e que foram transferidos para Portugal. Ela continuou a atendê-los, enviando as fitas gravadas pelo correio. Algumas pessoas que esse casal conheceu na nova cidade se interessaram e pediram uma leitura de mapa. E ela passou a atender pessoas que nunca tinha encontrado pessoalmente, via correio. Quando o atendimento a essa clientela no exterior tomou corpo, ela passou a se comunicar com os clientes via Internet, chegando a comprar uma webcam para poder visualizar seus interlocutores. Segundo ela, “é tão melhor quando a gente pode ver a pessoa! Faz muita diferença. Sei lá, os gestos, o tipo físico, isso ajuda muito a gente ter mais certeza do que o mapa está mostrando”. Esses novos clientes são brasileiros expatriados (que moram na Austrália, na Inglaterra e em Portugal),  e portugueses. Como essa prática começou recentemente, desde julho de 2004, não posso ainda avaliar se ela se restringe aos clientes que falam português por conta de uma barreira  de línguas ou por conta de uma questão cultural.

Essa astróloga, graduada em Direito, cursou uma pós-graduação em teoria junguiana, em uma faculdade de Psicologia da Zona Sul do Rio de Janeiro, segundo ela para ‘se embasar melhor’ em teorias da personalidade. Concluiu as disciplinas, mas não chegou a apresentar a monografia final.

“Ia me exigir muito trabalho, um tempo enorme, para completar uma coisa que eu descobri que não me interessa. Quando eu tenho um tempo sobrando, o que é raro, prefiro estudar astrologia”. Durante o curso de pós graduação, ela teve que apresentar um seminário sobre imagens arquetípicas e desenvolveu com base no planeta Mercúrio. Ficou bastante satisfeita quando, depois desse seminário, foi procurada por três colegas e dois professores, que marcaram consulta.

A outra astróloga, Mariana, percorreu o caminho inverso. Atendia regularmente, lecionava em uma escola de astrologia e  abandonou tudo para cursar medicina. Quando ainda atendia, trabalhava associada a alguns médicos homeopatas, que a recomendavam a seus pacientes. Chegou a cursar, como ouvinte, o curso de especialização em homeopatia no Instituto Hahnemaniano do Brasil, localizado na Rua Frei Caneca, 94, Centro, Rio de Janeiro.

Quando ingressou na Universidade Federal Fluminense, localizada na cidade de Niterói, para estudar medicina, manteve sua prática de atendimento astrológico ainda por algum tempo. Porém, as exigências do curso logo lhe tomaram todo o tempo e ela abandonou as consultas.

Conserva a reputação de um sólido conhecimento nas técnicas clássicas e suas aulas ainda são referência para algumas das astrólogas que entrevistei (ela não leciona há quase oito anos). No grupo de supervisão que freqüentei7, uma de suas antigas alunas sempre se referia a ela em seus comentários (“Isso aqui, nesse mapa, a Mariana dizia que significava isso e aquilo” ou “Eu ainda tenho as anotações das aulas da Mariana, posso até verificar, mas, se não estou enganada, isso funciona assim e assado”).

A decifração da língua astrológica esbarra em uma enorme dificuldade: a multiplicidade de significados que podem ser extraídos de um conjunto finito de símbolos sujeitos a determinadas regras de combinação. Para quem deseja se aventurar nesse empreendimento, o primeiro passo é examinar esse conjunto de símbolos, no qual se incluem: as estrelas, os planetas, os signos do Zodíaco, as casas astrológicas. A cada elemento desse conjunto de símbolos é conferida uma série de atributos ou características que precisam ser levados em conta sempre que este elemento entra em uma interpretação.

Essas características,  contudo, podem se mostrar alteradas, em maior ou menor grau, de acordo com sua posição relativa aos demais elementos do conjunto. O planeta Marte, por exemplo, sempre significará uma maneira marciana - que não se confunde com a de qualquer outro planeta - e sempre testemunhará sobre assuntos marcianos, que lhe são específicos. Entretanto, essa maneira marciana pode se mostrar atenuada ou intensificada, encontrar ajudas ou obstáculos, dependendo da posição específica de Marte no mapa de nascimento: em qual signo ele se encontra, em qual casa ele está localizado, e qual a sua posição em relação aos demais planetas. Em virtude disso, as questões governadas por Marte, para um nativo particular, podem tender a determinados resultados e não a outros.

Antes de examinarmos mais detidamente os elementos que compõem o sistema astrológico, tentaremos elucidar a matriz geradora das principais categorias astrológicas. Em uma astrologia notadamente solar (tal como a praticada no Ocidente e, particularmente, nos grupos que frequentei), as principais categorias derivam do Sol, que gera, inclusive, o tempo e o espaço astrológicos. O tempo astrológico é o tempo cíclico, pois é pautado na regularidade e constância
do movimento solar. Uma das astrólogas entrevistadas comentou: “Por que usar os 7 planetas para interpretar as situações? Por que não usar outras coisas, como plantinhas, abóboras ou cenouras? É porque a astrologia  trabalha com ciclos que podem ser acompanhados”.

Teoria Astrológica

Os principais ciclos com que a astrologia trabalha remetem à regularidade e constância do movimento solar. O primeiro, ao longo do Zodíaco, marca a periodicidade estacional e se completa em um ano. O segundo, ao redor da Terra, marca a alternância básica entre o dia e a noite e se completa em 24 horas.

Evidentemente, a astronomia afirma que é a Terra que gira em torno do Sol, num movimento de translação, e em torno de si mesma, num movimento de rotação. Contudo, o que importa para a astrologia é o movimento solar tal como é percebido quando se olha para o céu. Para o observador na Terra, o Sol parece elevar-se no horizonte na aurora, culmina no céu ao meio-dia, põe-se no ocaso e fica invisível durante a noite, até elevar-se novamente na aurora seguinte. E, a cada dia, ele parece se deslocar por volta de um grau no seu caminho pelo Zodíaco, até percorrer os 360 graus do Zodíaco em cerca de um ano.

Os intervalos de tempo derivados desses  dois movimentos solares – um ano e um dia – fundamentam as técnicas preditivas mais empregadas na prática astrológica: a revolução solar, o arco solar e as progressões. As implicações desses ciclos temporais serão examinadas no capítulo 4, quando analisarmos o código cronológico que os astrólogos utilizam. Por ora, o que nos interessa salientar é o papel fundamental do Sol na determinação do tempo e do espaço astrológicos.

Cada um desses dois movimentos solares é mapeado em um tipo diferente de espaço. O movimento solar anual é acompanhado contra o pano de fundo do Zodíaco, um cinturão virtual que envolve a Terra, onde ocorre o aparente caminho do Sol ao longo do ano. O zodíaco tropical se confunde com a própria eclíptica. Esse cinturão foi dividido em 12 arcos iguais, de 30º cada um, que constituem os doze signos.

Ao contrário do que o astrônomo afirmava, no debate organizado pelo Planetário da Gávea, os signos do Zodíaco não são demarcados em função das constelações que interceptam a eclíptica. A dissociação entre signos e constelações já é mencionada por Ptolomeu (I, 22), que justifica marcação dos signos a partir dos equinócios e solstícios-8, e não em função do espaço ocupado pelas constelações.

Embora tanto a astronomia quanto a astrologia possam localizar os planetas no céu por meio de coordenadas zodiacais, o Zodíaco constitui um espaço propriamente astrológico quando é concebido como um espaço qualitativo e heterogêneo. Cada região desse espaço, isto é, cada signo, possui qualidades distintivas que supostamente informam os planetas quando estes por ali transitam.

O movimento solar diário, por sua vez, é mapeado em um espaço conhecido como a Roda das Casas, um espaço eminentemente astrológico até porque não encontra equivalente astronômico. O Zodíaco tem uma existência, mesmo que virtual, e uma funcionalidade, para a localização dos planetas, que são compartilhadas tanto pela astrologia quanto pela astronomia. Por mais que os astrônomos confundam signos e constelações, se você conversar com um deles e disser que a Lua, no seu mapa natal, está localizada no vigésimo grau de Escorpião, ele vai reconhecer as coordenadas de localização que você está empregando.

A Roda das Casas, por outro lado, é um espaço unicamente astrológico. Se você contar a esse mesmo astrônomo que essa Lua, no vigésimo grau de Escorpião, encontra-se na Casa 3, é bem possível que ele não tenha a menor idéia do que você está falando, pois a astronomia não reconhece a Roda das Casas.

O espaço do Zodíaco, onde os planetas erram, faz a mediação entre o céu superior – a abóbada celeste – e a Terra, configurando um céu mediano. O espaço das Casas, por sua vez, promove a mediação entre o céu mediano e o homem, particularizando o estado do céu para um determinado nativo.

Para um observador na Terra, o Zodíaco, essa ‘roleta do destino’, na expressão de Bouché-Leclerq (1963:256) se movimenta sem cessar, dando uma volta completa em torno da Terra em vinte e quatro horas. Quando um astrólogo ‘levanta’ um mapa de nascimento, ele constrói um diagrama onde são marcadas as posições dos planetas não só nos signos, mas também em relação ao observador na  Terra. Alguns planetas podem estar acima do horizonte, visíveis no céu sobre o nativo, outros abaixo do horizonte; alguns talvez se encontrem mais próximos ao nascente e outros, ao poente.

8-Os dois equinócios, o de primavera e o de outono, são pontos de interseção do círculo da eclíptica com o círculo do equador celeste. Quando o Sol, no seu aparente movimento ao redor da Terra cruza esses pontos, o dia e a noite têm a mesma duração. Nos solstícios, o  Sol se encontra em sua  maior declinação boreal ou austral em relação ao equador celeste. No solstício de inverno, a noite tem sua maior duração e, no solstício de verão, a maior duração é a do dia.

No exemplo que apresentamos, os planetas Júpiter (V), Plutão (Z), Netuno (Y) e Urano (X) encontram-se abaixo do horizonte, enquanto os demais planetas estão acima do horizonte. O Sol (Q) está perto do zênite e Marte (U) declina em direção ao poente. É importante notar que o poente é marcado na ponta direita da linha do horizonte e a aurora, na ponta esquerda, num posicionamento espelhado daquele que comumente utilizamos para marcar os pontos cardeais, onde o Leste fica à direita e o Oeste à esquerda.

Esse espelhamento parece se dever à suposta preponderância da direita sobre a esquerda. Quando Lévi-Strauss discute os ritos dos osage, procurando demonstrar a convertibilidade recíproca dos classificadores concretos (animais e plantas) e dos classificadores abstratos (os números, as direções e as orientações), ele cita exatamente essa transferência para as direções do espaço.“Na imagem do sol nascente, na qual o homem que a contempla venera a fonte de toda a vida, olhando assim para o leste, o que efetivamente coloca o sul a sua direita e o norte a sua esquerda ...” (1989:165).

Ao que parece, o sistema astrológico espelha a direção leste-oeste a fim de que, olhando-se diretamente para o leste, o sul, que estaria colocado à direita, ficasse também na parte elevada do mapa, respeitando a correspondência alto/baixo; sul/norte; direita/esquerda.

Essas posições dos planetas no mapa de nascimento dependem das coordenadas do local onde o observador se encontra. Uma pessoa que nasce por volta do meio-dia, no Rio de Janeiro, tem o Sol no ponto mais elevado no céu que o Sol pode atingir naquele dia, como na figura acima. Nesse exato momento, nas coordenadas de Londres, o Sol já seria visto declinando no céu, pois meio-dia, no Rio de Janeiro, equivale a três horas da tarde no fuso londrino.

É nesse sentido que um mapa de nascimento é bem mais topocêntrico do que geocêntrico, razão pela qual a concepção heliocêntrica não conseguiu abalar o sistema astrológico como se poderia supor9. Se é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário, essa questão é indiferente ao pensamento  astrológico. Os astrólogos deixam claro que, afinal de contas, o homem nasce e vive na Terra e o estado do céu que lhe importa é aquele percebido do local específico onde ele se  encontra.

A supremacia do ponto de vista do observador passa ao largo de considerações astronômicas. Uma das funções cruciais das casas astrológicas é, portanto, qualificar o estado do céu não em relação à Terra como um todo, mas em relação a um ponto específico na superfície da Terra – aquele onde o nativo se encontra. A  premissa astrológica é que o estado do céu, no momento exato do nascimento, quando observado do ponto de vista do nativo, qualifica a própria perspectiva do nativo, que vê o mundo, as pessoas e a si mesmo tal como viu o céu no instante de seu nascimento. Via de regra, o mapa de nascimento é apresentado sob a forma de uma mandala, cujo contorno é a Roda do Zodíaco.

9- Ver Rossi (1992) para uma discussão mais pormenorizada dessa questão. A derrocada da astrologia é geralmente creditada à instauração do sistema copernicano, que supostamente teria abalado as bases do sistema astrológico, ao transformar um sistema geocêntrico em um sistema heliocêntrico. Segundo Rossi, isso equivaleria a reduzir a astrologia a uma concepção do mundo natural, a qual, uma vez posta em causa, não teria mais como sustentar o sistema simbólico correspondente. Rossi apresenta três aspectos constitutivos do sistema astrológico que são negligenciados quando este enfoque predomina: (a) a mistura híbrida de temas religiosos e matemáticos, (b) as técnicas para controlar as forças da natureza e (c) a humanização do cosmos.
Se o Zodíaco circunscreve o espaço em torno da Terra, a Roda das Casas traz o céu para o espaço que cerca o nativo. Para tanto, no mapa de nascimento, são traçadas linhas ligando os signos ao centro do mapa, onde supostamente o nativo estaria representado, numa configuração radial que divide o espaço entre o zodíaco e o local de nascimento em doze setores heterogêneos e qualitativamente distintos – as doze casas astrológicas.

As qualidades e atributos dos doze signos e das doze casas serão examinados mais adiante, quando enfocarmos a classificação desses espaços. Por ora, o que nos interessa ressaltar é que esses dois espaços são os cenários do movimento solar: o movimento anual (no caso da Roda dos Signos) e o movimento diurno (no caso da Roda das Casas).

Considerando que toda significação emerge de um processo de discretização, logo, de descontinuidades, é a fragmentação que transforma um todo contínuo, como o Zodíaco ou a Roda das Casas, em um conjunto ordenado de unidades significativas. As fragmentações operadas nesses dois espaços se pautam em atributos solares. Nos sistemas míticos ameríndios examinados por Lévi-Strauss (1993), o Sol e a Lua são comutáveis quanto ao sexo-10. A distinção significativa entre esses dois astros é que, embora ambos possuam o poder de iluminar, somente o Sol é capaz de aquecer.

10- Quando o Sol e a Lua são considerados do mesmo sexo, a diferença se exprime pela faixa etária (um é mais velho, o outro é mais novo) ou por diferenças de comportamento (um é sensato, o outro é tolo), principalmente quando são gêmeos. Quando lhes são atribuídos gêneros diferentes, eles podem ser aparentados ou não (irmãos, pai e filho, cônjuges). (Lévi-Strauss, 1993:221)

Para os ameríndios, a distinção dessas duas funções chega a ser mais importante do que a distinção entre os dois astros, que são, por vezes, designados pela mesma palavra. Também no sistema astrológico, os eixos de coordenadas que fundamentam a divisão dos signos se sustentam nas oposições que o Sol e a Lua significam: claro/escuro, na função iluminante, quente/frio, na função calorífica.

Os equinócios (de primavera e outono) trazem um calor moderado, em consonância com o equilíbrio entre noite e dia. Os solstícios (de verão e de inverno) trazem, respectivamente, calor e frio intensos, assim como a maior desproporção entre o dia e a noite.

Os solstícios, portanto, assinalam os extremos na intensidade de brilho e calor solares e uma inversão de sentido. No solstício de verão, a quantidade de horas diurnas, tendo atingido seu máximo, só pode agora declinar, até o dia alcançar sua mais curta duração, no solstício de inverno, quando volta então a se alongar. O declínio do calor (no eixo quente/frio) acompanha o declínio da duração do dia (no eixo claro/escuro).

Os equinócios, por sua vez, assinalam a moderação na intensidade de brilho e calor solares, traduzida no clima temperado (no eixo quente/frio) e na mesma duração do dia e da noite (no eixo claro/escuro). A meio caminho  dos extremos de luz e calor, assinalam a inversão na preponderância do dia sobre a noite ou vice-versa. A partir do equinócio de primavera, o dia passa a ser mais longo do que a noite, até o equinócio de outono, quando a duração da noite começa a suplantar a do dia.

Portanto, ambos significam inversão, seja na direção (crescente ou declinante), seja na preponderância (maior ou menor) da luz e  do calor. Os solstícios significam excesso enquanto que os equinócios significam moderação.

Na Roda das Casas, os eixos de coordenadas que sustentam a divisão em doze
setores também recorrem às polaridades claro/escuro e quente/frio, que remetem às funções calorífica e iluminante do Sol. Porém, como o espaço das casas está pautado no ciclo solar diário, os quatro marcos principais se baseiam na alternância entre o dia e a noite, e não na alternância das estações conforme a Roda dos Signos.

O eixo horizontal corresponde à linha do horizonte, onde se verifica a aurora, na ponta leste, e o ocaso, na extremidade a oeste. O eixo vertical corresponde ao meridiano -77 traçado desde o zênite, o ponto mais elevado que o Sol atinge, por volta do meio-dia, até o ponto diametralmente oposto, o nadir, que corresponde à posição do Sol à meia-noite.

Na periodicidade diária, a aurora e o ocaso constituem interseções do dia e da noite, tal como, na periodicidade anual, os equinócios assinalam os momentos do ano em que o dia e a noite são de igual duração. Todo astro, ao elevar-se no horizonte, torna-se visível para o mundo e, ao declinar no poente, passa a ficar invisível.

O zênite e o nadir, por outro lado, constituem os momentos de maior e menor intensidade da luz e do calor solares, tal como os solstícios na  periodicidade anual. Assinalam igualmente uma inversão de direção. A partir do zênite, o sol começa a declinar em direção ao poente. O nadir assinala a virada para a ascensão, em direção ao nascente.

Apresentamos abaixo o quadro das correspondências entre  a periodicidade estacional e da periodicidade diária:

Nenhum comentário:

Postar um comentário