Astrologia no Mundo
de Peter Marshall
Tradução Angela Machado
Terceira Parte
Mistérios do deserto: Egito e Mesopotâmia
18 Nas Águas da Babilônia
Toda a humanidade se regozija em ti, Shamash, o mundo inteiro anseia pela tua luz...
Hino de Nínive
Quando contemplamos os áridos desertos do Iraque, entre os rios Tigre e Eufrates, percebemos imensas colinas desgastadas que se levantam
contra a linha do horizonte de azul profundo. Elas são tudo que restou
de cidades magníficas, templos e palácios de várias civilizações importantes que floresceram na Mesopotâmia em uma terra verde e fértil, regada por um complexo sistema de irrigação.
Há cerca de seis mil anos, seus povos começaram a construir as esplêndidas cidades de Ur, Uruk, Babilônia e outras. Em sua religião estelar repousam as origens da astrologia ocidental.
Foi só recentemente que nós começamos a apreciar as glórias das
civilizações antigas da Mesopotâmia, e sem dúvida há ainda muita coisa
enterrada sob as areias do Iraque. Em 1835, em uma face de um rochedo escarpado nas montanhas de Behistun na Pérsia (atualmente Irã), um diplomata inglês chamado Henry Crewicke Rawlinson descobriu uma grande inscrição esculpida em três línguas desconhecidas. A escrita utilizada era esculpida sobre uma superfície cuidadosamente preparada em caracteres de formato triangular, agora chamados cuneiformes, do latim cuneus, que significa cunha.
Era o equivalente mesopotâmico da Pedra da Roseta, a chave para decifrar os hieróglifos egípcios. Rawlinson soube que os textos estavam
escritos em persa, elamita e acadiano e que tinham sido esculpidos por ordem do rei persa Dario, que reinou no século V a.C.
Sete anos após a descoberta de Rawlinson, o cônsul francês Paul-Emile
Bota começou a cavar numa enorme montanha em Mosul, do outro lado do Rio Tigre. Agora se sabe que ele descobriu Nínive, a antiga capital da Assíria.
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Na escalada em busca de antiguidades que se seguiu, a parte do leão foi para o Museu Britânico, que agora detém mais de 130 mil tábuas cuneiformes. Cerca de 2.500 tábuas e fragmentos de Nínive da coleção Kuyunjik são de interesse astrológico.
A Mesopotâmia, região entre as partes baixa e média do Tigre e do
Eufrates, foi, na verdade, o local de cultos ainda mais antigos. Em Jarmo, aos pés das montanhas de Zagros, na fronteira entre o Iraque e o Irã, foram encontrados restos cuja datação pelo carbono ficou em torno de 6750 a.C. Eles revelaram que a comunidade neolítica possuía uma religião bem desenvolvida, com grandes quantidades de pequenas estatuetas de argila de mulheres grávidas. Estas deusas da fertilidade podem muito bem estar associadas ao planeta Vênus ou à Lua.
A primeira grande civilização da Mesopotâmia foi a suméria. O seu
império foi estabelecido no quarto milênio antes de Cristo e atingiu seu ápice mil anos depois.
Escavações na cidade suméria de Eridu revelaram que sob as escadarias do monumento em forma de pirâmide, conhecida como zigurate, que data de 2100 a.C. estão os remanescentes de 17 templos anteriores, cada um construído sobre o anterior. Alguns dos templos atingiram aproximadamente noventa metros de altura. Do topo de suas
escadarias os sumérios devem ter tido uma visão soberba do céu noturno.
Feitos de tijolos de barro, eles agora estão desmoronados, porém as crenças que os inspiraram sobreviveram sob uma forma disfarçada na astrologia moderna.
De onde veio a primeira civilização suméria permanece um mistério.
Visto que ela desenvolveu uma religião complexa, uma arquitetura
monumental e uma forma intricada de escrita, vários estudiosos sugeriram que os fundadores provavelmente vieram de uma terra estranha que deve ter sido arrasada por alguma catástrofe.1 Os próprios sumérios registraram que eles vieram da Ilha de Dilmun, onde habitavam os descendentes dos reis que viveram "antes do dilúvio".2 O Épico de Gilgamesh, que data do terceiro milênio antes de Cristo, fornece uma descrição fantástica de uma inundação que pode ter inspirado o relato do Antigo Testamento. Claramente igual à história de Noé, Utnapishtim, "o longínquo", diz a Gilgamesh que os deuses
enviaram o dilúvio para lavar a humanidade, mas que ele poderia escapar com a sua família em um barco que repousaria no topo de uma montanha.
"Por seis dias e seis noites os ventos sopraram, torrentes, tempestades e inundações varreram o mundo, tempestades e inundações assolaram juntos como guerreiros bravios. Quando chegou o sétimo dia a tempestade do Sul amainou, o mar acalmou, a inundação parou. Olhei para a face do mundo e havia silêncio, toda a humanidade virará barro."3
A invasão da Mesopotâmia por um povo semita, provavelmente da
Arábia, assistiu à chegada da civilização acadiana, que durou de 2360 a 2180 a.C. Embora falassem uma língua diferente, eles continuaram a utilizar a escrita suméria.
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Isto foi seguido pelo cimento da Babilônia no Sul da Mesopotâmia, cujo grande império durou de 2200 a 538 a.C.quando foi conquistada pelos persas liderados pelo Rei Ciro.
Por volta de três mil anos atrás, o Império Assírio também se desenvolveu no Norte da Mesopotâmia. Ele atingiu seu ápice em torno de 700 a.C. quando se estendia do Egito ao Golfo Pérsico. Sua maior cidade era Nínive. Seu povo adotou o dialeto semita da Acádia e continuou a utilizar a escrita suméria.
Em 612 a.C. ele foi destruído pelo segundo Império Babilônio, cujo imperador mais conhecido foi Nabucodonosor. Segundo o Livro de Daniel, que data de cerca de 150 a.C. o Profeta Daniel serviu como astrólogo para Nabucodonosor e também para o conquistador persa Ciro. A região entrou gradualmente em declínio após Alexandre, o Grande ter enfim se apoderado da Babilônia, em 331 a.C.
Por quatro mil anos, cada uma dessas grandes civilizações contribuiu para o crescimento da astrologia. A astrologia ocidental moderna tem suas raízes na mistura das culturas da Mesopotâmia, Egito e Grécia.
Textos Antigos e Cosmologia
O legado ocidental vindo da Mesopotâmia é enorme. O sistema matemático "sexagesimal" babilônico fez surgir o dia de 12 horas, embora este tenha sido posteriormente substituído pelo dia de 24 horas egípcio. Nós ainda dividimos as horas e os minutos em unidades de sessenta, como os mesopotâmios.
Herdamos o conceito do "Grande Ano" — com a duração de 432 mil anos — da época assíria, conceito que está por trás da próxima "Era de Aquário".
Graças aos mesopotâmios, temos as histórias de Abraão e Sara, Isac e
Rebeca, Nemrod, o caçador, da Torre de Babel e o Livro de Daniel. A cruz de braços iguais foi provavelmente um símbolo do deus sol da Mesopotâmia, Shamash. Até a história da criação, assim como do grande dilúvio do Antigo Testamento, encontra pontos idênticos na literatura mesopotâmica, que é anterior à dos escribas hebreus em mil anos. Os capítulos de abertura do Gênese lembram diretamente o relato sumério de um poema em sete tábuas chamado Enuma Elish ("Quando no alto..."), uma coleção de textos anteriores compilados em torno da virada do segundo milênio antes de Cristo.
Existem outras dicas de inspiração bíblica. A antiga palavra suméria
para uma terra de pastagem livre da baixa Mesopotâmia era Éden. E
existem as intrigantes estatuetas encontradas na área do Lago Van de uma mulher e uma cobra —- uma olhando para a outra, formando um corpo com o formato de uma lua crescente. Poderiam elas representar a tentação deEva?4
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O texto astrológico mais antigo conhecido, Enuma Anu Enlil, foi descoberto em Nínive na famosa biblioteca do palácio real do Rei
Assurbanipal, que reinou a partir de 668 a.C. Mantido agora em uma gaveta no Museu Britânico, ele consiste de uma grossa tabuleta de argila, com as bordas arredondadas e uma escrita cuneiforme perfeitamente preservada. É uma cópia de uma compilação muito anterior de presságios traçados a partir dos movimentos de Vênus e que foram escritos pela primeira vez durante o reinado do rei babilônio Ammisaduca, que reinou de 1646 a 1626 a.C. A "Tabuleta de Vênus", como é chamada, demonstra que a astrologia já era um sistema e uma disciplina bem desenvolvidos pela primeira dinastia da Babilônia. Um parágrafo registra: "No mês XI, 15° dia, Vênus desapareceu no
Oeste. Três dias ele permaneceu fora, então, no 18° dia, ficou visível no Leste.
A primavera começará e Adad trará sua chuva e o Ea suas inundações.
Mensagens de reconciliação serão enviadas de Rei para Rei."5 A tabuleta
contém também as primeiras observações sistemáticas registradas dos
movimentos planetários.
Foi encontrado um texto de um fragmento ainda mais antigo, que data da época do Rei Sargon da Acádia, que reinou de 2334 a 2279 a.C. Afirma de modo surpreendente que: "Quando o planeta Vênus (...) um presságio de Sargon, do Rei e dos quatro quadrantes... Quando o planeta Vênus (...) por isso ele é um presságio para Sargon (...)"* Claramente Vênus era considerado o planeta mais proeminente naquela época.
Estima-se que a série astrológica inteira do Enuma Anu Enlil contenha
cerca de sete mil presságios. Existiram tabuletas individuais para o Sol, a Lua, Marte, Júpiter, Vênus, Mercúrio e Saturno. Tinham, certamente, ampla circulação, pois vestígios deste trabalho foram encontrados em locais distantes, como a Turquia Oriental.
A astrologia do Enuma Anu Enlil é ainda meio rudimentar. As
constelações eram empregadas como pontos de referência a partir dos quais onmovimento diário da Lua e dos planetas podiam ser traçados. Embora fossem utilizadas as 12 constelações que vieram a formar o zodíaco e que se estendiam pela eclíptica, o próprio zodíaco ainda não tinha sido determinado.
Embora os planetas fossem vistos em conjunção ou oposição, descritos
simplesmente como estando próximos ou separados, os aspectos entre os planetas não são mencionados. O trabalho é todo voltado para a astrologia mundana — o destino do corpo político. Não há menção ao Ascendente, que se tornou tão importante para a astrologia nas épocas clássica e moderna.
O início da cosmologia da Mesopotâmia era fundamentalmente como no
Gênese, 1:6-10. O universo é descrito como sendo contido entre dois lençóis de água acima e abaixo da Terra. A água acima da Terra é sustentada por um grande domo atravessado no qual planetas e estrelas vagueiam em suas viagens diárias e anuais.
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O nome Enuma Anu Enlil vem da frase de abertura: "Quando os Deuses
Anu e Enlil..." Anu era o deus de céu e Enlil o deus da Terra. Eram
considerados com igual importância e duas partes inter-relacionadas de um reino. Presságios, mensagens dos deuses poderiam ser facilmente retirados de eventos acontecidos na Terra, bem como nos céus. Na verdade, havia uma antiga tradição na Mesopotâmia de leitura de presságios nas entranhas de animais sacrificados. Como foi encontrado em um manual para divinadores e astrólogos: "Os signos no céu, assim como na Terra, nos dão sinais."
Os mesopotâmios acreditavam que os humanos eram parcialmente
divinos, nascidos da mesma substância dos deuses, mas sua principal tarefa era servir aos deuses. O céu à noite, com as estrelas e planetas, era visto como Shitir Shame — o "livro dos céus" —, contendo os mandamentos dos deuses.
Como vimos, o primeiro tipo de religião na Mesopotâmia envolveu
provavelmente a adoração aos deuses e deusas da fertilidade. Por volta da virada do segundo milênio antes de Cristo os deuses não somente eram adorados, como também recebiam pedidos para intervir em eventos terrestres. Não foi muito antes da idéia de um deus pessoal se desenvolver: o primeiro texto que expressa essa idéia data de 2600 a.C. Sem dúvida, essa noção era um pré-requisito para a astrologia, pois os astrólogos tentavam mudar o curso dos acontecimentos descobertos nos presságios que viam no céu.
Diferente dos israelitas que viam a história em termos lineares, movendo-se em direção a um objetivo, os mesopotâmios viam a história movendo-se em ciclos intermináveis sobre vastas durações de tempo. Não havia final para a história, somente uma repetição sem fim. Da mesma forma, o bem e o mal fluíam e se recolhiam juntos. Como resultado, não surpreende que pensassem que os seres humanos podiam negociar com os deuses a respeito da direção do futuro. O destino (shimtu) não era portanto fixado ou predeterminado. Os presságios eram simplesmente sinais ou avisos do que era possível; não eram certezas inescapáveis.
Era possível, por exemplo, afastar o mal que estava para acontecer por
meio de rituais conhecidos como namburbi. Esses rituais envolviam
encontrar um local especial, purificar-se, oferecer alimentos e bebidas aos deuses, rezar e, por fim, simbolicamente, "desfazer" o mal ameaçado desenrolando uma planta ou quebrando um pequeno pote. Não apenas se tratava de um princípio mágico de ação simpática dos fundamentos da astrologia, como estes rituais eram indubitavelmente utilizados para neutralizar previsões astrológicas negativas.
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Observadores da Luz
Segundo a história sumeriana da criação, no início havia o mar primevo quenasceu da montanha cósmica que consistia do céu (Anu) e da Terra (Enlil).
Neste estágio, o mundo era imóvel na escuridão e no céu não havia estrelas, por isso Enlil gerou a Lua (Sin), que viajou em um barco trazendo luz para o lápis-lazúli (céus). A Lua, por sua vez, criou o Sol (Shamash) e Vênus (Ishtar).
Assim como a antiga astrologia indiana era chamada Jyotish, o Senhor da Luz, a luz era o núcleo da religião mesopotâmica. O Sol, acima de tudo, simbolizava a luz divina. No grande épico mesopotâmico, Gilgamesh diz para o deus sol Shamash: "Deixe que meus olhos vejam o Sol para que eu possa ser saciado de luz. Banida para longe está a escuridão, se a luz for suficiente. Que aquele que tenha morrido pela morte veja a luz do Sol."7
Os hinos de Nínive descrevem ainda suas qualidades: "Toda a
humanidade se regozija em ti, ó Shamash, o mundo inteiro anseia pela tua luz."8 O deus é onisciente e justo. Ele determina as decisões dos céus e da Terra. É uma visão que foi trabalhada por milênios no Oriente Médio: o Sol ainda é chamado de shams em árabe.
Os acadianos semitas consideravam a Lua e Vênus como masculinos, e o Sol como masculino, porém as outras civilizações mesopotâmicas davam a eles o mesmo gênero do Ocidente atual. Ishtar é uma deusa adorável que habita o planeta Vênus. Um hino de cerca de 1600 a.C. declara: "Reverencio a rainha das mulheres, maior de todos os deuses; ela se veste com deleite e com amor, é repleta de ardor, encantamento e alegria voluptuosa, em seus lábios ela é doce, em sua boca existe vida, quando está presente, a felicidade é maior; como parece gloriosa, com os véus rodeando sua cabeça, sua forma adorável, seus olhos brilhantes."
Contudo, como rainha dos céus, ela é também a deusa da guerra e da tristeza. Como a deusa indiana Kali, ela é adorada e também temida.
Era função dos astrólogos e divinadores, que formavam uma fraternidade e eram conhecidos como tupsharru (escribas), interpretar os presságios celestes. Parece que no fim do segundo milênio antes de Cristo os astrólogos mesopotâmicos tinham descoberto os movimentos de longa duração do Sol, Lua, dos planetas e das estrelas. Representavam os planetas contra as estrelas fixas ou constelações. Também mediam a distância estelar por "dedos" ou "cúbitos".10 O tempo era medido por Abkallu shikla, provavelmente
algum tipo de relógio de água. Os astrolábios foram desenvolvidos
lentamente.
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Telescópios Antigos
Embora seja admitido com freqü.ncia que os céus do Oriente Médio são
sempre claros como cristal, na verdade a observação das estrelas e planetas nem sempre foi fácil. Não somente os céus noturnos eram ocasionalmente obscurecidos por nuvens e tempestades de areia, como as limitações naturais do olho desarmado faziam as estrelas distantes parecerem apagadas.
Contudo, apesar da suposição aceita de que Galileu foi o primeiro a
desenvolver o telescópio, é bem possível que os astrólogos mesopotâmicos tenham utilizado lentes para observar as estrelas e os planetas.
Em 1849, o diplomata Austen Henry Layard11 fez uma descoberta
extraordinária na sala do trono do Palácio do Noroeste na antiga capital
assíria de Kalhu (mais comumente chamada de Nimrud). Embaixo de uma pilha de fragmentos de um belo vidro opaco, ele descobriu uma "lente de cristal de rocha com faces opostas e planas". Nela estava o nome de Sargon, com seu título de Rei da Assíria em caracteres cuneiformes, e a figura de um leão. Layard afirmou: "Suas propriedades dificilmente foram conhecidas dos assírios, e com isso temos o primeiro exemplar de uma lente de aumento e espelhos ustório."
A lente encontra-se atualmente no Museu Britânico, classificada como o
objeto número 12.091, no Departamento de Antigüidades Asiáticas
Ocidentais. Layard pensou erroneamente que a havia descoberto em Nínive, e a lente é algumas vezes chamada de lente de Nínive. Sua forma é de uma lente plano-convexa, isto é, uma face plana e a outra convexa. Não é uma forma incomum, pois tijolos plano-convexos há muito eram utilizados na construção de fortificações na Mesopotâmia. Mede 6,2cm de comprimento por 3,43cm de largura, com uma espessura máxima de 6,2mm. Parece ter sido feita para Sargão II, que governou de 722 a 705 a.C.
Embora agora deteriorada, a lente era cuidadosamente polida. Robert
Temple, que fez uma pesquisa minuciosa, observou: "Em sua condição
original, era perfeitamente clara e transparente, sem falhas. Foi feita de
uma peça de qualidade superior de quartzo, evidentemente selecionada na esperança de não conter 'falhas fantasmas', e por fim polida depois disto ter sido confirmado logo após o corte." Ele concluiu que era eficaz não só como espelho ustório, mas que deve ter sido utilizada como lente de aumento (de uma determinada posição ela tem uma magnitude de duas vezes) para correção de astigmatismo. Pode bem ter sido um monóculo montado para o Rei Sargão ou seu escriba.12
Se os antigos astrônomos assírios sabiam como selecionar e cortar essas lentes, não é impossível que eles tivessem utilizado lentes de cristal para ampliar os corpos celestes no céu noturno. Tem se tornado cada vez mais notório que os antigos eram bem mais avançados tecnicamente que a maioria dos historiadores deseja admitir.
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Ainda não se pode afirmar que os antigos chineses e gregos observavam as Luas de Galileu de Júpiter e os anéis de Saturno. Se isto aconteceu, e existem algumas evidências que sugerem que eles eram capazes disto, com certeza não foi possível sem a ajuda de algum tipo de telescópio.13
As Constelações e o Zodíaco
O conjunto do conhecimento astronômico na Mesopotâmia estava contido em uma compilação de duas tábuas conhecidas como mul.Apin, que foram encontradas na biblioteca de Assurbanipal em Nínive. O nome significa Estrela do Arado e se refere à constelação do Triângulo, que fica entre Áries e Andrômeda. O conhecimento astronômico data de 1000 a.C. embora a primeira cópia do trabalho seja de 687 a.C. Diz-se que é o primeiro catálogo estelar conhecido.14
No mesmo período, os astrólogos assírios e babilônios começaram a manter "diários" de eventos celestes e políticos, como batalhas,
mortes e tratados.
Baseado em séculos de observações cuidadosas, o mul.Apin contém uma lista de estrelas fixas divididas entre os caminhos de Ea, Anu e Enlil (os deuses da água, do céu e da Terra), as datas em que 36 estrelas fixas e constelações surgiam pela manhã, os períodos planetários, as estações, os equinócios e solstícios, tabelas do período de visibilidade da Lua, regras para intercalação, tabelas de gnômon detalhando os comprimentos da sombra do Sol e também os pesos da água para os seus relógios.
São mencionadas 18 constelações ao longo do "caminho da Lua" no
mul.Apin, que contém a maioria dos signos do zodíaco moderno: o Touro do Céu (Touro), o Leão (Leão), a Balança (Libra), o Escorpião (Escorpião), o Salmonete (Capricórnio) e as Caudas (Peixes), o Sulco (Virgem), o Mercenário (Áries) e os Grandes Gêmeos (Gêmeos). A figura de Sagitário (chamada PA.BIL.SAG) é incerta. Aquário (conhecido como GU.LA) era provavelmente um gigante. Enquanto nove dos signos do zodíaco parecem ter tido uma origem babilônica definida, a evidência de Aquário e Gêmeos é menos convincente, embora os Grandes Gêmeos possam ter se originado nos amigos Enkidu e Gilgamesh, que aparecem no grande épico sumeriano dos primeiros tempos. A ausência mais notada é a do Carneiro para Áries, que pode ter vindo do Egito após a invasão conduzida pelo rei babilônio Esarhaddon no século VII a.C.15
O conteúdo astrológico do mul.Apin se estende a alguns presságios
baseados em cometas e estrelas fixas. De interesse particular é uma lista de todas as estrelas em 18 constelações no "caminho da Lua" enquanto ela se move pelo céu.
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O "caminho da Lua" é um cinturão zodiacal com 12° de largura dentro do qual o Sol, a Lua e os planetas se movem. Parece que o número das constelações caiu gradualmente para 12 — o mesmo 12 que enfim se tornou os 12 signos do zodíaco.16 E não foi muito antes de a noção da eclíptica — o centro do cinturão — ter sido formulada para marcar o caminho aparente do Sol.
Como esses astrólogos aplicavam seu conhecimento cada vez mais
sofisticado? Seus relatórios aos reis reuniam informações sobre as observações dos corpos celestes e também as interpretações do seu significado. Por exemplo, uma mensagem enviada ao Rei Esarhaddon em 699 a.C. afirma:
"Quando o planeta Marte sai da constelação de Escorpião, volta e entra
novamente em Escorpião, sua interpretação é (...) não negligencie sua guarda; o rei não deverá sair em um dia maléfico."
Novamente, em 30 de julho de 666 a.C. o astrólogo Akkullanu escreveu ao Rei Assurbanipal: "Se o planeta Júpiter estiver presente no eclipse, tudo estará bem com o rei, um nobre dignitário morrerá em seu lugar." O rei deu atenção a estas palavras? Ainda não tinha se passado um mês inteiro quando o seu juiz principal morreu.17 Contudo, estas mensagens demonstram que a astrologia ainda era fundamentalmente mundana; preocupara-se com o rei, mas não como indivíduo, apenas como uma personificação da nação. Desde 652 a.C. os astrólogos da corte registravam resumos mensais dos movimentos planetários para os reis conhecidos como "diários".
Da Astrologia Mundana para a Natal
Foi a invasão dos persas em 539 a.C. que finalmente acionou a invenção do zodíaco regular e o mapa natal. Eles introduziram também uma matemática mais avançada para a astrologia. Entre outras coisas, o líder persa Ciro libertou os judeus cativos que tinham sido levados para a Babilônia por Nabucodonosor 47 anos antes — um ato que atribuiu uma reputação notória para o tirano e sua cidade no Antigo Testamento.
Sob o regime persa, a teoria da astrologia se tornou mais sistemática e sua prática mais disciplinada. O calendário foi aperfeiçoado. O mês extra
"intercalado", adicionado aos 12 meses lunares do ano para alinhá-lo às
estações, foi aplicado em uma base mais regular do que arbitrária. Isto revelou uma compreensão maior dos ciclos celestes. O período "sinódico" dos planetas foi também descoberto, isto é, o período entre conjunções consecutivas de um planeta com o Sol como é visto na Terra. O período "sideral" também foi compreendido, isto é, a extensão de tempo que um planeta leva para atravessar os 12 signos do zodíaco e retornar ao seu ponto de partida.18
Isto possibilitou aos astrólogos formular períodos planetários maiores queformaram a base para as previsões.
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O período de Saturno, por exemplo, era de 59 anos — dois períodos siderais
(cada um com 29 anos e meio) ou 57 períodos sinódicos.
Durante o período do regime persa, os planetas foram colocados nos 12
signos do zodíaco e não nas constelações zodiacais. Isto tornava mais fácil o cálculo dos movimentos futuros do Sol, pois não havia estrelas fixas vistas com facilidade durante o dia contra as quais o caminho poderia ser traçado.
Os signos do zodíaco foram também matematicamente divididos em
comprimentos iguais. Seus nomes vieram das próprias constelações zodiacais.
No início isto gerou alguma confusão, pois as pessoas não sabiam se a
referência era em relação às constelações ou aos signos. A primeira menção aos signos do zodíaco que se tem notícia surgiu num texto babilônico sobre a Lua que data de 475 a.C.19 Podemos dizer com confiança que os signos do zodíaco foram estabelecidos com firmeza há 2.500 anos. O primeiro uso conhecido dos graus do zodíaco em um horóscopo data de 263 a.C.20
Finalmente, foi nesse período que se iniciou a mudança da astrologia
mundana para a astrologia natal, da previsão do destino da nação para o mapa do indivíduo. Isto pode ter sido encorajado pela introdução da religião persa do zoroastrismo, com o seu conceito da alma individual imortal que podia escolher entre o bem e o mal. Entre os mistérios esotéricos zoroastrianos estava a doutrina da harmonia das esferas — uma doutrina que certamente inspirou Pitágoras e Platão mais tarde.
O primeiro mapa natal de que se tem notícia da Babilônia data de 410
a.C. provavelmente de 29 de abril. Afirma que um indivíduo nasceu naquela data e descreve os signos nos quais a Lua e os planetas se encontravam:
"Naquele momento a Lua estava abaixo do tentáculo de Escorpião, Júpiter em Peixes, Vênus em Touro, Saturno em Câncer, Marte em Gêmeos.
Mercúrio, que tinha se posto [pela última vez] estava [ainda] invisível."21
Um mapa posterior de Uruk, datando provavelmente de 4 de abril de 263 a.C. durante o período da dominação grega, dá até os graus dos planetas nos signos que se encontravam: "Ano 48 da Era Selêucida, mês de Adar, a criança
nasceu. Naquele dia o Sol estava a 13°30' de Áries, a Lua a 10° de Aquário, Júpiter no começo de Leão, Vênus com o Sol, Mercúrio com o Sol, Saturno em Caranguejo, Marte no fim de Câncer." Este texto fascinante faz ainda certas previsões baseadas na posição dos planetas: "Ele não terá riqueza (...) Seu alimento não será suficiente para sua fome. A riqueza que teve na juventude não permanecerá. No ano 36 ele terá riqueza. Seus dias serão em grandenúmero."22 O documento já mostra a preocupação com a riqueza e alongevidade, que se tornariam temas dominantes na astrologia ocidental.
Após a derrota do exército persa por Alexandre, o Grande, em 331 a.C.
milhares de gregos se estabeleceram na Babilônia e ficaram sob a influência dos astrólogos locais, que eram conhecidos como "caldeus" (referindo-se originalmente ao povo da última dinastia na Babilônia antes da conquista de Ciro da Pérsia).
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Dois astrólogos que residiam na Babilônia foram mencionados mais tarde pelos gregos, como Cidenas (Kidinnu) e Naburianos (Nab-rimannu). Outras escolas floresceram em Uruk e Borsippa. Existe um grande número de "diários" astrológicos do período após a conquista da Mesopotâmia e também listas de efemérides (os dados mais antigos são de 307 a.C).23 A preocupação grega com os indivíduos está refletida no número crescente de horóscopos naquele período.
O último horóscopo conhecido escrito com caracteres cuneiformes
sumerianos data de 68 a.C. O primeiro horóscopo grego conhecido data de 61 a.C. Este comemorava a coroação do regente greco-mesopotâmio Antíoco I de Comagena e foi gravado na face íngreme no topo de Nimrud Dagh.
Uma tabuleta encontrada em Uruk, atribuída ao período selêucida, lembra um moderno "livro de culinária" astrológico e lista as previsões para uma combinação sistemática de planetas. Uma sugere: "Se uma criança nascer quando Júpiter nasce e Vênus se põe, será excelente para esse homem; sua esposa partirá." Obviamente, a interpretação é para um homem e mostra a preocupação com o seu casamento. Outra interpretação afirma: "Se uma criança nascer quando Vênus nasce e Júpiter se põe, sua esposa será mais forte que ele."24 Porém, embora o texto trate de oposições, ele não considera outros aspectos entre os planetas, como conjunções, trígonos, quadraturas ou sextis. Também não há menção ao Ascendente.
O primeiro exemplo conhecido do Ascendente utilizado em um mapa natal
é do ano 4 a.C. logo após a conjunção de Saturno-Júpiter de 7 a.C. que
provavelmente coincidiu com o nascimento do Cristo.25
Por quatro mil anos a astrologia na Mesopotâmia teve claros progressos. A
princípio, ela foi totalmente dirigida para a astrologia mundana. Os
presságios no céu apontavam o "destino" da nação. Como consideravam que o
rei tinha seu mandato dirigido pelo céu, o movimento dos corpos celestes, em
particular os eclipses, exercia uma ação direta sobre ele e a nação que
personificava. Porém, como o futuro repousava nas mãos dos deuses, não
estava predestinado ou "destinado". Poderia ser mudado — negociado — por
meio de determinados rituais e cerimônias.
Era também papel dos astrólogos da corte observar as fases crescente e
minguante da Lua, a fim de estabelecer um calendário para rituais e
cerimônias e a época da semeadura e da colheita do ano agrícola. A Lua Nova
era um "ponto" importante no calendário lunar.
218 * Peter Marshall
Após a conquista persa, os 12 signos do zodíaco foram finalmente
estabelecidos e introduzido o mapa natal. Com a disseminação da cultura
helênica da Grécia, o mapa natal ganhou importância e a própria astrologia
tornou-se mais secular e democrática. Os astrólogos não eram mais sacerdotes
com funções na corte, mas filósofos que tentavam compreender a estrutura do
universo e interpretar o efeito dos céus sobre a vida dos indivíduos na Terra.
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Faça-se a Luz
A escuridão reinava na face da Terra. E o Espírito de Deus movia-se sobre a
superfície das águas. E Deus disse: "Faça-se a luz."
GÊNESE
BABILÔNIA ERA UMA CIDADE COM UM FORMATO MAIS OU MENOS QUADRADO EM CUJO
centro ficava o templo de Marduk, chamado Esagila. A característica
mais evidente na cidade era o templo, uma torre quadrada de sete
andares de tamanhos decrescentes. Ele simbolizava a Montanha
Sagrada, local de moradia dos deuses. Formava um eixo cósmico, um elo
vertical entre o céu e a Terra, e um elo horizontal entre as terras do Império
Babilônio. Seus sete níveis representavam os planos da existência, os estágios
de iluminação e os sete planetas.1
Os sumerianos possuíam uma mitologia complexa centrada nos planetas
que adoravam como a moradia dos deuses. Quando o povo semita acadiano do
Sul da Arábia invadiu a Mesopotâmia, por volta de 3000 a.C. colocou no centro
do panteão sumeriano dos deuses sua trindade, composta de Sin (a Lua),
Shamash (o Sol) e Ishtar (Vênus). Para manter sua religião estelar, os
símbolos celestes foram esculpidos acima da cabeça de várias estátuas dos
reis: a meia-lua para Sin, a cruz de braços iguais para Shamash e a estrela de
oito pontas para Ishtar.
A Lua
Refletindo a antiga crença expressa no Gênese de que a luz emergiu da
escuridão, o deus masculino da Lua (Nanna para os sumerianos e Sin para os
acadianos) gerou os gêmeos
A
220 * Peter Marshall
divinos: o Sol e Vênus. A Lua — "o velho barba azul" — era o mais importante
de todos os corpos celestes, o rei dos deuses. Como regente do tempo, ela
dirigia o curso dos eventos na Terra. O simbolismo exato da Lua variou com o
tempo, porém por volta do reinado de Assurbanipal, no século VII a.C. ela era
reverenciada pela profundidade da sua sabedoria. Era chamada de "Pai, a
fonte de todas as coisas" e "Senhor que determina o destino do céu e da
Terra".2 Somente mais tarde a Lua se tornou a deusa mãe, provavelmente sob
a influência dos egípcios, que a reverenciavam como Ísis, e dos gregos, que a
adoravam como Selene.
Entre as 68 ou setenta tabuletas da série astrológica do Enuma Anu Enlil,
as primeiras 22 são dedicadas aos presságios lunares. Suas interpretações
nem sempre eram consistentes. Com o calendário baseado no ritmo da Lua,
um dia "correto" era geralmente considerado como o primeiro, sétimo, 14° ou
28° do mês lunar. A divisão por quatro do mês lunar fez surgir um sistema de
dias sagrados, cada um no fim de uma semana de sete dias, com um dia
adicional no 19°. O 14° dia era considerado o mais importante — o momento
da Lua Cheia —, quando havia festas, adoração e preces. Seu nome era
Shabbatu; derivado deste termo temos a palavra Shabbat em hebraico e
Sabbath em inglês. O Sabá começou como os quatro dias do quaternário da
Lua, e no reinado do Rei Hammurabi (1728-1686 a.C.) todo trabalho era
proibido nos dias 7, 14, 21 e 28 do mês lunar. A semana e o mês começavam no
fim da tarde do aparecimento do crescente da Lua.
O nome do Monte Sinai, onde o Bezerro de Ouro foi adorado e Moisés
recebeu as tábuas de pedra da lei de um deus masculino zangado, também se
originou provavelmente do nome do deus mesopotâmio da Lua, Sin.
Se o Sol e a Lua, que ordenavam o curso da agricultura e da fertilidade,
eram vistos juntos em um dia correto, então o efeito era considerado pelos
astrólogos da corte como benéfico. Era sustentado que eles se encontravam no
início de cada ano para determinar o destino dos habitantes da Terra. O
aparecimento da Lua Cheia no 14° dia do mês era um sinal de harmonia no
céu, o que pressagiava harmonia na Terra. Por outro lado, "Quando a Lua
aparecer fora deste momento esperado, o comércio diminuirá (...) um forte
inimigo dominará a Terra.' O "halo" da Lua também era considerado
importante. Contrário à interpretação moderna, se Saturno estivesse dentro
dele a paz prevaleceria no reino; se fosse Júpiter, ocorreria o contrário. O
aparecimento de Câncer no halo pressagiava o mal. O significado simbólico
era também atribuído à cor e elevação da Lua, ao seu brilho e palidez e à
direção dos seus cornos.
Como aconteceu com vários povos antigos, o evento mais ameaçador na
astrologia da Mesopotâmia era sem dúvida o eclipse, solar ou lunar. Quase
quarenta por cento da série Enuma Anu Enlil era devotada a eles. Acreditavase
que os eclipses traziam o mal
A astrologia no mundo * 221
para a Terra, fazendo as mulheres grávidas abortarem, a terra arruinar e o
rei morrer. Ainda existe esta tradição na astrologia moderna. Somente em
alguns dias do ano um eclipse não trará uma catástrofe: um eclipse
"vermelho" (quando a luz do Sol vinda da atmosfera da Terra fica refletida
na Lua) trará prosperidade para todas as pessoas.
O Sol
Enquanto o deus lua Sin era o pai do tempo, Shamash, o deus sol, era o juiz
do céu e da Terra. Originalmente, o deus sol era feminino, mas após a
invasão dos acadianos ele se tornou masculino. Regia os vivos e os mortos;
seus títulos incluíam "determinador dos destinos" e "arquiteto dos desígnios
cósmicos".4 Embora os reis se identificassem com o Sol, existe somente um
pequeno número de referências ao astro em relatos publicados, o que sugere
que ele teve um papel menor na mitologia da Mesopotâmia. Na verdade, ele é
algumas vezes confundido com Saturno nos textos: o historiador Diodoro da
Sicília observou que para os babilônios Saturno era "a estrela do Sol".5
Como o "sol do povo", o rei temia particularmente um eclipse solar. Os
rituais namburbi usuais não eram considerados fortes o suficiente para
neutralizar sua influência maléfica, e parecia que um rei "substituto" era
escolhido durante o evento e ritualisticamente sacrificado com sua rainha
substituta após cem dias. Seu trono seria queimado quando ele "fosse
encontrar seu destino". Para completar a purificação da Terra, seis pares de
estatuetas de madeira eram enterrados em pontos estratégicos no palácio
real com as seguintes palavras gravadas no quadril esquerdo de cada uma:
"Mal, afaste-se. Bem, aproxime-se."6
Vênus
Da trindade mesopotâmica, Ishtar (Vênus) é a mais conhecida. Sua
ancestralidade é intricada e seu culto é complexo, mudando assim como o seu
sexo no decorrer dos milênios. Os sumerianos consideravam originalmente
Vênus como feminina e a chamavam de Inanna — do qual se originou o nome
Jenny. Os acadianos invasores, por outro lado, associaram Vênus com o seu
deus masculino Attar, cujo nome então se tornou Ishtar. Por um tempo o
planeta foi considerado tanto masculino como feminino: uma tabuleta
datando do reinado de Assurbanipal declara que Ishtar, a "estrela da
manhã", é masculina, e que Ishtar, a "estrela da tarde", é feminina.7 Apenas
mais tarde ele assumiu somente a parte feminina.
222 * Peter Marshall
Ishtar tornou-se a rainha do céu e, como o atual Vênus, a deusa do amor,
da sexualidade e do nascimento. Ao mesmo tempo, era a temida deusa da
guerra e da tristeza. Salomão no Antigo Testamento foi condenado a celebrar
seu aspecto dual no Cântico dos Cânticos 6:10:
Quem é aquela que se levanta como o amanhecer,
é bela como a Lua,
resplandecente como o Sol,
terrível como um exército com seus estandartes.
O emblema comum de Ishtar na Assíria era a estrela de oito pontas. Pode não
ser somente uma fantasia ligar o simbolismo das igrejas medievais de oito
lados construídas pelos cavaleiros templários ao antigo culto a Ishtar. Essas
igrejas eram algumas vezes dedicadas a Maria como a Virgem Negra, que
pode ter sido uma reencarnação da deidade mesopotâmia.8
Os templos dedicados a Ishtar eram cuidados por uma hierarquia de
sacerdotisas. A alta sacerdotisa era muitas vezes a filha do rei. As
sacerdotisas possuíam seus próprios campos de cultivo. Algumas também
agiam como "prostitutas" do templo, de modo sagrado e comercial. Parece que
as babilônias concediam seus favores sexuais como maneira de demonstrar
sua devoção a Ishtar. O historiador grego Heródoto observou:
O costume babilônio mais vergonhoso é que em algum momento de sua
vida a mulher da terra é chamada a se sentar em um santuário de
Afrodite [Vênus] para fazer sexo com um desconhecido. Não é
desconhecido das mulheres que são pretensiosas por causa da sua
riqueza, e daquelas que se recusam a se associar ao restante das
mulheres lá, se dirigirem ao santuário em tílburis cobertos e lá
permanecerem rodeadas por um grande contingente de atendentes.
Contudo, a prática usual é de várias mulheres se sentarem no recinto de
Afrodite usando uma guirlanda tecida com fios em sua cabeças (...) A [ela]
não é permitido voltar para casa até que um dos desconhecidos atire
dinheiro em seu colo e faça sexo com ela (o que acontece do lado de fora do
santuário).9
Mais que descrever uma obrigação sagrada para todas as mulheres, Heródoto
estava provavelmente se referindo à vida das sacerdotisas do templo.
Quanto aos presságios deduzidos dos movimentos do planeta Vênus,
existem somente cerca de vinte registros sobreviventes dos astrólogos para os
reis assírios. Como Ishtar era responsável pela fertilidade, não surpreende
sabermos que: "Se a estrela-cabra [Vênus]
A astrologia no mundo * 223
se aproximar de Câncer, haverá paz e reconciliação no país, e os deuses terão
misericórdia daquela nação. Os celeiros vazios ficarão cheios, as colheitas do
país serão recuperadas, as mulheres grávidas terão embriões perfeitos e os
grandes deuses manterão os santuários de lá em ordem."10
A natureza guerreira de Ishtar é revelada na previsão de que, se Vênus
entrar na constelação de Libra, haverá conflitos desastrosos. Novamente, se
Marte estiver em conjunção com Vênus, então o rei deverá ser cuidadoso: "Se,
quando Vênus surgir, Marte for visto próximo, então o filho do rei entrará no
palácio e assumirá o trono."" Ao mesmo tempo, a presença de Vênus e Júpiter
em conjunção com um eclipse lunar neutralizará seus efeitos maléficos sobre
o rei.
Enquanto os gregos e romanos enfatizavam o aspecto feminino de Vênus
como regente das mulheres, suas tradicionais qualidades mesopotâmicas
foram filtradas pelo tempo. A guerra ainda é colocada sob a regência de
Libra, que, na astrologia moderna, é regido por Vênus. Sua associação com
uma boa colheita antecipa a moderna atribuição do sucesso comercial de uma
nação sob a regência de Vênus.
Saturno
Saturno tem sido tradicionalmente temido pelos astrólogos como um símbolo
das restrições repressivas, um arauto de problemas para a terra e de tempos
difíceis para o indivíduo. É considerado frio, seco e melancólico. Os antigos
mesopotâmios o viam sob uma ótica diferente. Para eles, era um herói
conquistador que tinha emergido das águas primordiais e lutara pelo bem dos
deuses contra os poderes do caos. Foi Saturno quem recuperou as "tábuas do
destino" sobre as quais os deuses haviam escrito as leis eternas. Estas tábuas
tinham sido roubadas por Zu, o dragão das tempestades, de Enlil, o deus da
Terra, quando este estava adormecido. Como resultado, os deuses
recompensaram Saturno com a custódia das tábuas e ele se tornou o mestre
do destino (shimtu).
Nos textos antigos o Sol e Saturno eram muitas vezes chamados de
Shamash, e havia alguma confusão entre os dois. Diodoro, por volta de 56
a.C. descreveu o planeta Saturno como "o mais conspícuo", que os babilônios
chamavam de "a estrela de Helius" (o Sol).12
Quando o planeta Saturno é chamado de Sagush, ele é associado ao deus
Ninurta, também conhecido como Ninib. Como um deus guerreiro, ele é irmão
de Marte (Nergal). Ambos são algumas vezes considerados como deidades
solares e representados com um disco solar. Ninurta é geralmente
representado como uma águia, com freqü.ncia sobre um pilar e algumas
vezes com duas cabeças, voltadas para direções opostas. Ninurta pode
224 * Peter Marshall
bem ter sido o deus sol Sakkut (traduzido como Moloch na Bíblia), que é
atacado no Livro de Amos."
A primeira descrição conhecida de Saturno foi encontrada no Enuma elish,
a história babilônica da criação datando em torno de 1800 a.C. É chamado de
"estrela da lei e da ordem" — uma visão que ainda é mantida pelos astrólogos
modernos que o vêem como um símbolo da estrutura e da limitação. Somente
alguns relatos de astrólogos para os reis mencionam Ninurta. Entretanto,
três enfatizam que quando uma conjunção ocorre entre Saturno e a Lua é
tempo da verdade e da justiça: "Quando um halo circunda a Lua e Saturno
está dentro dele, eles falarão da verdade na Terra: o filho falará a verdade
para seu pai. Bem-estar das multidões."14 Novamente, quando Saturno está
próximo da Lua é sorte para o rei (que, como Saturno, está associado ao Sol),
e o trono estará seguro. Por outro lado, se Saturno estiver conjunto com
Marte, o resultado será a fome; Saturno em Leão pode trazer três anos de
escassez por leões e chacais errantes.
Diferente das interpretações melancólicas dos astrólogos gregos e
romanos, a maioria dos relatos mesopotâmicos sugere que Saturno era
considerado um planeta benevolente, que trazia a estabilidade e a justiça
para a terra. Este aspecto positivo de Saturno foi recuperado em época
recente pelos astrólogos influenciados pela psicologia junguiana profunda,
que reconhece que a estrutura e as limitações são algumas vezes necessárias
para o crescimento pessoal.
Marte
Como vimos, os antigos astrólogos mesopotâmicos identificavam Marte com o
deus Nergal, enquanto irmão de Saturno-Ninurta. Embora ambos fossem
considerados deidades solares, achava-se que Nergal era maléfico e Ninurta,
bom. Não somente ele era o senhor da morte, como também dos fogos do
inferno e do calor do verão.
Em um dos primeiros mitos sumerianos, Nergal estava presente quando
os deuses no céu convidaram Ereshkigal, deusa do submundo, para um
encontro. Eles sabiam que ela não iria e que mandaria um emissário. Quando
o emissário chegou ao céu, todos os deuses, exceto Nergal, se levantaram para
recebê-lo. Uma Ereshkigal insultada estava ao seu lado tomada de raiva e
exigiu a vida do deus. Finalmente concordaram que Nergal deveria descer ao
submundo com 14 acompanhantes. A sua chegada, ele os colocou nas portas
do palácio dela e depois entrou correndo. Encontrou o enviado e o matou.
Depois encontrou Ereshkigal na sala do trono, agarrou-a pelos cabelos e
estava para cortar-lhe a cabeça quando ela implorou por sua vida. "Se me
deixar ir", implorou ela com lágrimas
A astrologia no mundo * 225
nos olhos, "eu serei sua esposa." Movido pela compaixão e pela beleza dela,
Nergal se compadeceu e eles se casaram logo depois. Daí em diante eles
governaram juntos o submundo e Nergal tornou-se o rei das sepulturas e juiz
dos mortos.
Este mito enfatiza a associação de Nergal com a morte e a guerra. Existem
várias referências a Marte neste papel nos textos mesopotâmicos: "Quando
um planeta e Marte ficarem de frente um para o outro, haverá uma invasão
do inimigo." Novamente: "Quando Marte se aproximar de Escorpião, o
príncipe morrerá picado por um escorpião ou será capturado em seu palácio".15
Nergal era também visto como o deus das pragas e das febres. Marte ainda
hoje é associado na moderna astrologia à pestilência, guerra e morte, embora
desde a década de 1930 Plutão tenha assumido vários destes atributos como
regente do submundo. E assim como os astrólogos viam Nergal afetando a
vida do gado, atualmente Marte é considerado o regente dos açougueiros.
Júpiter
Júpiter era identificado com o deus Marduk, a quem era dedicado o grande
templo planetário na Babilônia. A cada Ano-novo, quando a Lua Crescente
mais próxima do equinócio da primavera aparecia pela primeira vez,
acontecia um grande festival na Babilônia que durava 11 dias. Envolvia uma
série de rituais, cada um com um significado esotérico. Quando o rei, por
exemplo, usava jóias na cabeça e assava cabras, o significado interior era: "Ele
é Marduk, aquele que transporta lenha para o fogo em sua cabeça e queima os
filhos de Enlil e Anu em uma fogueira." Para reforçar a natureza oculta dos
rituais, havia um aviso no fim de cada texto: "Um segredo dos grandes deuses.
Que o iniciado instrua o iniciado. Que o não iniciado não assista."16
Os primeiros três dias eram de preparações. Durante o anoitecer do quarto
dia o grande mito mesopotâmico da criação Enuma elish era lido pelo sumo
sacerdote diante de uma estátua de Marduk no templo. No quinto dia, o rei
era ritualisticamente humilhado diante da estátua levando um tapa no rosto e
tendo as orelhas puxadas pelo sumo sacerdote. Isto, sem dúvida, era para
relembrar a ele que sua autoridade se encontrava nas mãos do deus.
Encenando a parte de Marduk, o rei então era levado cativo "para a
montanha" da torre do templo. Uma carruagem sem cocheiro era então
liberada para percorrer sem controle pelas ruas do lado de fora: o deus
desaparecera e o caos descia sobre a cidade. Um touro branco era sacrificado.
226 * Peter Marshall
No dia seguinte, o sexto, o filho de Marduk, Nabu (Mercúrio), chegava à
cidade e sua estatueta era colocada dentro do templo. Aqui, a única tabuleta
existente que descrevia os eventos do festival havia se quebrado, mas parece
que, por meio de outras fontes, Nabu resgatava seu pai do cativeiro e as
estátuas dos deuses que haviam sido trazidas para a Babilônia eram reunidas
no Salão do Destino no grande templo. O Marduk libertado era eleito mais
uma vez rei dos deuses. No nono dia, o rei conduzia uma procissão pelas ruas
e comparecia a um grande banquete celebrando sua vitória sobre a deusa do
caos, Tiamat. A tarde, o rei se deitava com uma sacerdotisa no "quarto da
cama" no templo, simbolizando a união entre o deus e a deusa. A ordem tinha
finalmente sido restaurada no céu e na Terra.
Júpiter é chamado de "Estrela do deus Marduk" nos textos astrológicos.
Sua associação com o salvador do mundo significava que era geralmente
considerado benéfico — como o é ainda hoje. Sua presença não apenas
pressagiava a paz para o rei, como também que traria a chuva e boas colheitas
para a terra. Quando Júpiter ficava mais brilhante, o rei também se tornava
mais importante. No ponto mais brilhante do planeta: "Os deuses darão paz,
os problemas serão esclarecidos e as complicações resolvidas (...) os deuses
receberão preces e ouvirão as súplicas; os presságios dos magos serão claros."17
Entretanto, havia um lado mais destrutivo de Júpiter, particularmente
quando estava conjunto com a Lua: os resultados poderiam ser invasões,
inquietações sociais e até a morte do rei. Se Júpiter entrasse em Orion, as
pestes destruiriam as colheitas. Se passasse por Regulus (a "Estrela Real"), o
trono poderia ser usurpado por um inimigo. Uma conjunção com Marte
parecia ser interpretada como um desafio direto para o rei. Uma interpretação
similar persiste na astrologia moderna: Júpiter é o planeta da expansão e
crescimento, porém, se fosse visto de forma negativa, poderia significar falta
de moderação e desarmonia.
Mercúrio
Nabu-Mercúrio era o filho de Marduk-Júpiter. No 11o dia do festival da
primavera na babilônia, quando os deuses se encontravam no Salão do
Destino para decidir sobre os destinos do mundo para o próximo ano, ele
registrava os seus julgamentos. Ele era, então, o escriba dos deuses e o seu
emblema, gravado em várias esteias, era geralmente uma tábua de escrever.
Era também o mensageiro dos deuses; seu nome significa, literalmente,
"anunciar". E assim como o movimento do planeta, ele era rápido.
A astrologia no mundo * 227
Pouco se sabe a respeito do culto a Nabu. Seu nome é mencionado pela
primeira vez durante o reinado do Rei Hamurabi, mas foi só na virada do
primeiro milênio que ele substituiu a antiga deusa sumeriana Nisaba como a
deidade que preside a sabedoria, a escrita e os relatos. Ele logo se tornou
suficientemente popular para que os reis babilônios ordenassem uma fórmula a
ser cunhada em seus tijolos de construção, dizendo que eles sustentavam os
templos de Marduk e Nabu.
Uma das qualidades mais importantes de Mercúrio era a de fazer chover.
Um relato aos reis observou: "Quando Mercúrio for visto em Iyyar, haverá uma
inundação que beneficiará os campos e os prados." Como as inundações eram
vistas como benéficas pelos fazendeiros que trabalhavam uma terra
ressequida, não surpreende que Mercúrio fosse associado a uma boa colheita.
"Quando Mercúrio aparecer em Elul (céu), haverá um crescimento no mercado,
um aumento de grãos (...) o gado será numeroso nos campos (...) O gergelim e
as tâmaras serão abundantes."18 O que mais poderia ser pedido!
Nabu-Mercúrio, como filho de Marduk-Júpiter, era também associado ao
príncipe coroado. Qualquer variação na aparência ou movimento tinha um
significado nas suas obrigações. Se estivesse particularmente brilhante, era
uma época auspiciosa para o príncipe coroado visitar o rei. Milhares de anos
mais tarde, Mercúrio ainda é visto pelos astrólogos modernos como o regente
do comércio e dos mercados, e também da escrita e da comunicação.
O centro do culto Nabu-Mercúrio parece ter sido na cidade de Borsippa, nas
margens de um lago próximo do Eufrates, cerca de 16 quilômetros ao Sul da
Babilônia. Seu templo, o Ezida, já abrigou uma famosa biblioteca; o Rei
Assurbanipal enviou seus escribas até lá em busca de tabuletas raras.
O Zigurate de Borsippa
Em 1854, Henry Rawlinson, o explorador que decifrou as inscrições
cuneiformes encontradas em Behistun, deu início às escavações em Borsippa
que revelaram as ruínas do templo de Nabu.
A estrutura mostrou ser um zigurate de plataformas recuadas formado de
sete andares, o primeiro dos quais tinha 25 metros quadrados e oito metros de
altura. A medida que a escavação prosseguia, revelando a parede externa,
Rawlinson ia ficando mais fascinado — os tijolos dos diferentes níveis tinham
cores diferentes: preta era a cor do primeiro estágio; vermelha, a do terceiro; e
azul, a do sexto. Ele ficou perplexo com uma coincidência extraordinária — as
cores, ele lembrou, pertenciam às primeira, terceira e
228 * Peter Marshall
sexta esferas do sistema planetário dos sabeus, que eram regidas por Saturno,
Marte e Mercúrio, respectivamente. Os sabeus foram um grupo religioso que
adorava as estrelas e que viveu entre os séculos VI e X d.C. em Harran, uma
cidade na rota da Babilônia para o Mediterrâneo. Confirmando o seu
pressentimento, Rawlinson descobriu dois cilindros idênticos nas fundações do
zigurate que registravam que "o templo era dedicado aos 'planetas das sete
esferas'" e que era chamado de "Os estágios das sete esferas".19
Os sete andares do zigurate não somente eram pintados com as cores dos
planetas, como associados a metais diferentes: o mais baixo era preto e de
chumbo para Saturno, depois marrom-avermelhado e estanho para Júpiter;
rosa vivo e ferro para Marte; ouro (cor e metal) para o Sol; branco-dourado e
cobre para Vênus; azul-escuro e mercúrio para Mercúrio; e o andar mais alto
prata para a Lua.
O templo de Borsippa foi um monumento magnífico à evolução de quatro
milênios de astrologia na Mesopotâmia. Ele pode ter sido enterrado pelas
areias do deserto, porém as associações que ele personificou seriam
aproveitadas pelos egípcios e pelos gregos, e vieram a formar os alicerces da
astrologia islâmica e ocidental.
20
A Imagem do
Céu
Você não sabe, Esculápio, que o Egito é uma imagem do céu, ou, para ser
mais preciso, que tudo que era governado e que se movia no céu desceu
para o Egito e foi aqui transformado? Se a verdade foi contada, a nossa
terra é o templo do mundo inteiro.
HERMES TRISMEGISTO
ABE-SE QUE O EGITO DESENVOLVEU REPENTINAMENTE UMA CIVILIZAÇÃO POR VOLTA
de seis mil anos atrás com uma religião complexa, arquitetura
monumental e linguagem escrita. Porém sua origem permanece um
mistério profundo. O fato de ter atingido seu ápice em algumas centenas de
anos deu margem a alguns estudiosos argumentarem que aqueles que o
civilizaram devem ter vindo de longe com o seu conhecimento. O Professor
Budge, primeiro guardião das Antigüidades Egípcias e Assírias no Museu
Britânico, sugeriu que "houve recém-chegados do Leste".1 Os próprios mitos
egípcios apóiam a idéia de visitantes estrangeiros, com histórias dos
"Companheiros de Hórus" chegando pelo mar com sua ciência sagrada para
ser estabelecida após uma catástrofe que surpreendeu sua civilização
original. A memória deste fato sem dúvida inspirou o mito de Atlântida,
primeiro mencionado por Platão, que argumentou que o grego Sólon o ouviu
antes de um sacerdote egípcio.2 No núcleo da ciência sagrada que trouxeram
com eles estava a astrologia — o conhecimento do movimento e significado
das estrelas. Este, indubitavelmente, inspirou grande parte da arquitetura e
da arte do antigo Egito.3
S
230 * Peter Marshall
Religião Estelar
A três horas de camelo da Grande Pirâmide em Gizé, no Egito, encontra-se o
espetacular recinto sagrado de Saqqara. Era o complexo funerário do Rei
Zoser (2630-2611 a.C), da terceira dinastia, construído bem no início do
florescimento da civilização egípcia. Elevando-se do deserto sob um céu de
azul profundo estão as paredes de simetria perfeita, de linhas retas e
harmoniosas. A entrada é marcada por um belo templo de extrema
simplicidade. Os antigos visitantes ficavam tão impressionados que há mais
de três mil anos um deles observou no grafito mais antigo do mundo: "É
como se o céu estivesse dentro dele, Ra [o deus sol] surgindo dele."4
Acredita-se que o complexo seja trabalho de Imhotep, um exemplo da
genialidade universal do homem. Imhotep, além de ser arquiteto, alto
sacerdote e curador, era também um renomado astrólogo. Os gregos o
identificaram posteriormente com Esculápio, seu próprio lendário pai da
medicina.
A Pirâmide de Degraus foi a primeira pirâmide em grande escala e ainda
hoje mede sessenta metros de altura. Uma outra pirâmide próxima, a
Pirâmide de Unas (2356-2323 a.C), é agora uma pilha de cascalhos, mas
quando desci até sua câmara subterrânea fiquei abismado ao descobrir um
teto coberto de estrelas. As paredes foram gravadas com hieróglifos singelos
e delicados. São conhecidos como os Textos da Pirâmide, os textos mais
antigos de que se tem conhecimento, e revelam um corpo extraordinário de
ciência sagrada. O significado do Texto de Unas engloba vários níveis e é
enigmático, mas contém claramente muitas referências a indivíduos que
viajaram até as estrelas e retornaram. Não menos do que 24 vezes está
escrito: "Ele não está morto, este Unas não está morto."5 O faraó não
somente é chamado de uma "estrela do Céu Inferior", mas também é dito que
vagueia pelo "céu como Ra".6 Além disso, ele deve se purificar "com as águas
frias das Estrelas Circumpolares".7
Parece que as pirâmides do Egito não eram apenas utilizadas como
tumbas, como normalmente se supõe, mas também como locais de iniciação.
Os sarcófagos encontrados nas pirâmides não eram locais de descanso final,
mas utilizados para preparar o faraó para a jornada após a morte. Os "ritos
funerários" podem bem ter sido fórmulas mágicas para induzir uma
experiência fora do corpo na qual o faraó poderia ascender aos céus e
encontrar os deuses, antes de retornar ao seu corpo físico. No grande Festival
de Heb Sed, o festival da cauda, o faraó era identificado com o deus Osíris,
que guia a humanidade pelos três grandes estágios de vida, morte e
renascimento. Durante a cerimônia, "vestido com os trajes de Osíris, com as
vestes ajustadas pendendo dele como uma mortalha, o faraó é conduzido
para a tumba; e dali ele retorna rejuvenescido e renascido como
A astrologia no mundo * 231
Osíris, emergindo dos mortos.8 Os barcos encontrados enterrados próximo das
pirâmides eram sem dúvida barcas solares utilizadas para as viagens astrais
pelos céus.
Os Textos da Pirâmide são a fonte original do conhecido Livro egípcio dos
mortos. O livro é um guia para a jornada além-túmulo, que passa pelo
submundo e segue para o reino da nova vida na divina presença de Osíris. Os
capítulos pretendiam ajudar o defunto a superar seus medos no submundo,
induzir o auxílio dos seres amigáveis e finalmente vaguear à vontade fosse
viajando na "Barca de um Milhão de Anos" com Ra, ou visitando qualquer
outro reino imaginável de alegria. A maioria dos textos egípcios sugere que o
indivíduo realizado ressuscitaria após a morte e se tornaria uma estrela.
Regenerado, ele, ou ela, seria capaz de acompanhar os deuses nos céus na sua
eterna ronda para manter a ordem e o fluxo do universo. Isto só seria possível
se o corpo mumificado permanecesse imperturbado e intacto em sua tumba.
A civilização egípcia era inteiramente baseada na religião. O faraó tinha
um poder supremo na Terra e era considerado divino. Da mesma maneira,
todos os seres humanos continham uma centelha divina e poderiam se tornar
semelhantes a deus. O faraó representava o destino espiritual de toda a
humanidade, estando associado ao deus mortal Osíris em sua jornada pelo
submundo, transformando corpo em espírito e emergindo com Hórus na forma
do eterno deus sol Ra.
A religião estava em cada aspecto da vida diária. Construir, semear,
fermentar, cozer, fazer amor e jogar eram, todos, atos sagrados. Simbolizavam
o processo criativo de transformar a natureza e a vida humana em uma forma
mais espiritual. Heródoto registra que os egípcios eram "esmagadoramente
religiosos, mais que qualquer outro povo no mundo".9
Os egípcios expressavam sua religião e filosofia por meio do simbolismo e
do mito, da arte e da arquitetura. Embora reconhecessem vários deuses, sua
religião era essencialmente monoteísta. O universo era um ato deliberado de
criação do deus supremo Aton. Era vivo e impregnado de espírito. Os deuses,
ou neterw, responsáveis pela sua ordem, eram personificações de forças e
aspectos cósmicos do deus supremo. Os animais eram não somente adorados
como tais, mas também como manifestações de determinados princípios e
funções divinos.
A visão de mundo dos egípcios antigos era igual a de todos os astrólogos
posteriores. Para eles o universo era impregnado de alma — a anima mundi.
Percebiam uma unidade subjacente na rica diversidade do mundo: Todos são
Um e o Um é Todos. Eles acreditavam que todos os fenômenos eram
interligados por energias positivas. Chamavam o poder mágico que permeava
o universo de heka. O Sol era a fonte mais visível de heka, e a Lua, os planetas
e as estrelas emanavam dele. Quando o Faraó Akhenaton (1353-
232 * Peter Marshall
1335 a.C.) tentou criar uma religião monoteísta de adoração ao Sol, seus
artistas o representaram com braços esticados recebendo os raios mágicos do
Sol.
Degrau para a Eternidade
Os egípcios viam a vida na Terra como uma morada temporária, um degrau
para a eternidade. Como acreditavam que a alma dos seres vivos vinha das
estrelas, buscavam retornar a elas. Na verdade, o hieróglifo egípcio para
"estrela" significa também "alma". Até os fazendeiros fellahin muçulmanos
de hoje dizem que as estrelas que estão acima de nós são as almas dos
mortos.
Desde os primeiros tempos os Textos da Pirâmide (inscritos entre 2400 e
2200 a.C.) declaravam para o faraó morto: "Eu parti de vós, ó homens; Eu
não sou da Terra, eu sou do céu."10 Novamente, os sacerdotes incitavam a
alma do morto: "Levanta, remove tua terra, sacode a poeira, levanta-te, para
que possas viajar em companhia dos espíritos (...) Atravessa o céu (...) Faz a
tua morada no Campo das Oferendas entre as Estrelas Imperecíveis, as
seguidoras de Osíris."" A mais bela ilustração desta crença está no segundo
santuário dourado de Tutancamon (1333-1323 a.C). Gravada em ouro, uma
fileira de figuras humanas está em posição oposta ao pássaro benu de cabeça
humana (símbolo da alma). Raios da testa de cada figura se estendem para
uma estrela individual, ligando desta forma sua consciência aos céus. Como
incontáveis hieróglifos maravilhosos demonstram, a esperança de cada
egípcio era que após a morte ele velejasse com o deus sol Ra em sua "Barca
de um Milhão de Anos" pelo céu.
Céu e Terra não eram considerados separados, mas parte de um todo
maior. Segundo o mito da criação egípcio, no início havia as águas
primordiais (Nun), das quais emergiu a primeira ilha. Autogerado, Aton se
masturbou, saindo de Nun. Ele então desovou os gêmeos Shu (ar) e Tefnut
(associado com a umidade), que sucessivamente geraram Geb (a Terra) e Nut
(o céu). Invertendo os gêneros comuns, Geb na mitologia egípcia é masculino
e Nut é feminina; eles são belamente representados nos tetos dos templos e
tumbas como um homem deitado de costas com o pênis ereto, montado por
uma mulher escura cujos membros formam os quatro pilares do céu. Suas
costas são guarnecidas de estrelas douradas do firmamento, onde o deus sol
Ra viaja em sua barca solar do nascer ao pôr-do-sol. Diz-se que ela o engole
no fim do dia e pela manhã o faz nascer. O Vale de Duat — o submundo —
ficava em seu corpo. Nut e Geb, céu e Terra, eram mantidos separados por
Shu, o deus do espaço. Contudo, da sua união nasceram as figuras centrais
do panteão egípcio: Osíris e Set, Ísis e Néftis. Hórus era o filho de Osíris e
Isis.
233
A Grande Pirâmide
Em uma tarde de inverno eu subi a Grande Pirâmide em Gizé, próximo ao
Cairo. Agora é estritamente proibido, mas obtive uma permissão especial do diretor de Antigüidades. Subindo de um bloco ao outro — a face externa suave já desaparecera há muito tempo —, precisei de meia hora para chegar ao cume que fica a cerca de 138 metros de altura. A parte do topo da pirâmide também não existe mais, e fiquei sobre uma plataforma com cerca de seis metros quadrados. Parecia que eu estava no topo do mundo.
De acordo com minha bússola, os quatro lados da pirâmide voltavam-se
para os pontos cardeais. No deserto pude somente distinguir as ruínas das pirâmides de Saqqara no Sudeste. Não muito longe de mim estavam as costas e a cabeça da Esfinge, eternamente voltada para o Sol nascente. No Sudoeste vi as outras duas pirâmides de Gizé, e me lembrei da hipótese de que as três juntas espelhavam as três estrelas do cinturão de Orion, o homem cósmico que atravessava continuamente os céus.12 Os meandros do Nilo também eram uma contraparte terrena da Via Láctea. Eles ilustravam perfeitamente o antigo princípio astrológico: "Assim como é em cima, é embaixo."
A Grande Pirâmide personifica lindamente a religião estelar do Egito
antigo. Suas hastes, que se pensava serem passagens de ar, há pouco se revelaram estar alinhadas particularmente com determinadas estrelas em torno de 2500 a.C. Na Câmara da Rainha, a haste sul está orientada para Sirius, a estrela mais brilhante no céu, que era identificada com Ísis, a consorte do deus supremo Osíris. A haste norte está alinhada com a estrela Beta da Ursa Menor, que era associada à imortalidade da alma. Na Câmara do Rei, a haste sul se voltava para a estrela mais brilhante do cinturão de Orion (Zeta Orionis), associada a Osíris, enquanto a haste norte apontava para a antiga Estrela Polar (Alpha Draconis).13 Deitado na Grande Pirâmide em um elaborado ritual antes de ser enterrado, o faraó morto podia desta forma reencenar a união de
Osíris e Isis em um grande orgasmo cósmico. Ligando a Câmara da Rainha com a Câmara do Rei fica uma subida polida e com degraus do que é agora chamado de Grande Galeria. Parece uma abóbada de uma catedral muito estreita, com lados bem suaves contendo ranhuras misteriosas a intervalos diferentes. Antes do término da construção da pirâmide, quando estava ainda aberta para o céu, poderia bem
ter servido de um maravilhoso observatório para os astrólogos egípcios. As
bordas agudas do topo das paredes de suporte devem ter fornecido
marcadores perfeitos para registrar com precisão os trânsitos das estrelas
que passavam acima. As ranhuras misteriosas podem ter sido usadas para
manter no lugar plataformas de observação para os astrólogos. Esta galeria
não deve ter servido a outro propósito.14 Certa234
* Peter Marshall
mente o filósofo do século V, Proclo, assim imaginou. O astrônomo moderno,
Eugene Antoniadi, também calculou que oitenta por cento do céu noturno
podiam ser observados da Grande Galeria. Conhecedores da antiga tradição,
os árabes com freqü.ncia representavam os astrólogos egípcios no telhado da
pirâmide, observando as estrelas.
A Grande Pirâmide está perfeitamente posicionada como um observatório
celeste. Está localizada a 30° Norte de latitude, um terço da distância do
Equador ao Pólo Norte. Observa também o Norte verdadeiro com mais
precisão do que o meridiano estabelecido pelo Observatório de Greenwich, em
Londres. Sua localização exata só pode ter sido escolhida por mestres
astrônomos — astrólogos que observavam os trânsitos das estrelas há
milhares de anos. Não causa surpresa aprendermos que o nome do Rei
Semerkhet da primeira dinastia significa "o homem com o bastão do
astrônomo".15
O instrumento de observação chamado merkhet era utilizado para
observar as estrelas e para alinhar o eixo dos templos com as estrelas. Os
relógios de água eram também utilizados durante a noite, especialmente
quando as estrelas não estavam visíveis. As horas do dia eram determinadas
por simples relógios de sombra. Os obeliscos com pontas de eletro ou de ouro
do Egito também podem ter sido usados como gnômons gigantes, calculando
os solstícios e equinócios pela sombra lançada no chão.
Outro aspecto fascinante da Grande Pirâmide é que parece que os seus
construtores teriam visto a Terra como uma esfera. Do topo da pirâmide
compreendi que no cume podia-se continuar a ver o pôr-do-sol no horizonte
ocidental, embora ele já tivesse desaparecido para a minha parceira que
ficara lá embaixo. Isto é causado pela curvatura da superfície da Terra.
Embora os gregos sejam em geral contemplados como os primeiros a
considerar a Terra uma esfera, faltava somente muito pouco para os
construtores das pirâmides chegarem à mesma conclusão, já que
sustentavam que o cosmo tinha uma forma curva.
Além disso, as proporções matemáticas das quatro superfícies
triangulares da Grande Pirâmide fornecem uma projeção em escala — como
no desenho de um mapa — do Hemisfério Norte. O vértice representa o Pólo
Norte e o perímetro o Equador. Diz-se que a escala é de 1:43.200, que
representa 86.400 segundos em 24 horas.16 Se isto parece fantasia, o filósofo
grego Agatarchides de Cnido, que serviu como guardião do faraó no século II
a.C., afirmou a mesma teoria.
É interessante notar que a razão entre a Grande Pirâmide e a Terra é um
múltiplo de 72. Graças ao complexo fenômeno celeste conhecido como
"precessão dos equinócios", a posição das estrelas parece andar para trás —
precede — em relação ao Sol. A razão da precessão é de 1o a cada 72 anos,
completando desta forma um círculo de 360° em 25.920 anos. A implicação
astrológica mais significativa da precessão é que os signos do zodíaco giram
em um movimento anti-horário em relação ao ponto do nascer do Sol no
A astrologia no mundo * 235
equinócio da primavera (conhecido como o primeiro grau de Áries). Com uma
razão de 1o a cada 72 anos, é preciso 2.160 anos para atravessar um signo do
zodíaco (72 x 30). Pouco antes do início do primeiro milênio, o equinócio
vernal caía a 0° de Áries; agora está a 7° de Peixes.
O fenômeno da precessão também faz surgir a noção das eras astrológicas,
ou Grandes Anos, que duram 2.160 anos. Estamos agora deixando a Era de
Peixes, que começou antes do nascimento do Cristo, e entrando na Era de
Aquário.
Como um modelo da Terra, a Grande Pirâmide parecia não somente
revelar as leis matemáticas do universo, mas também codificar a evidência
que sugere que os antigos egípcios sabiam a respeito da precessão dos
equinócios. Pela observação das estrelas, os astrólogos egípcios devem ter
compreendido que sua Estrela Polar havia se desviado da sua posição,
particularmente porque prestavam atenção às estrelas circumpolares. Graças
ao fato de a Terra bambolear ligeiramente em torno do seu eixo como um
pião, os pólos fazem um pequeno círculo no espaço. Isto significa que a
posição da Estrela Polar muda gradualmente e depois retorna ao seu lugar
original em um período de 25.868 anos. A coluna djed, representada em
incontáveis papiros, templos e tumbas, pode ter sido um símbolo do eixo
sobre o qual a Terra gira.17
Além do Egito e da Mesopotâmia, parece que outras civilizações antigas
também compreenderam a precessão dos equinócios bem antes dos gregos, a
quem geralmente é creditada a descoberta. Herther von Dechend e Giorgio
de Santillana argumentaram em seu notável livro Hamlet's MUI que existia
um conjunto de conhecimento astronômico registrado em mitos há pelo
menos "seis mil anos antes de Virgílio" (isto é, em torno de 6000 a.C). A
princípio surpresos pela antigüidade, eles sugeriram que sua fonte deve ter
estado em "alguma civilização ancestral quase inacreditável" que "ousou
primeiro compreender o mundo criado segundo números, medidas e peso".18
Em sua visão, os valores precisos para a precessão dos equinócios receberam
o formato de determinados números nos mitos, formando um tipo de
mensagem codificada da sabedoria antiga.
Observações Celestes
Pela importância central do Sol em sua religião, não surpreende que os
sacerdotes-astrólogos egípcios tivessem ficado fascinados pelo caminho do Sol
— o "caminho de Ra" —, quando ele retornava a sua posição original a cada
equinócio de primavera para marcar o término do ano solar. Se tivessem
mantido registros desde os primeiros tempos — e não há razão para
suspeitar que não o tivessem feito —, então teriam sido capazes de prever
236 * Peter Marshall
a rotação gradual das 12 constelações do zodíaco em relação ao ponto onde o
Sol nasce no equinócio da primavera. Isto teria confirmado seu sentido de
harmonia cósmica e também fornecido um exemplo perfeito do eterno
retorno e renascimento da alma.
Além de ser um soberbo observatório, a Grande Pirâmide também
funcionava como um imenso relógio de sol. Sua base está perfeitamente
alinhada com as quatro direções. Sua sombra se projeta para o Norte e a luz
solar refletida para o Sul marca os equinócios e solstícios com grande
precisão. Como tal, poderia ter sido usada como um almanaque,
especialmente se as imensas pedras unidas da sua pavimentação
prolongadas além da sua base fossem usadas como marcadores.
Infelizmente, a alguns metros da pirâmide as grandes pedras foram
retiradas, sem dúvida para servir de material de construção. O astrônomo
Sir Norman Lockyer, em seu livro The Dawn of Astronomy, apoiou a hipótese
acima, embora ela hoje não possa ser comprovada.
Na margem Leste do Nilo, a 4o de longitude ao Sul da Grande Pirâmide,
está o grande templo solar de Amon-Ra em Karnak, um dos mais
requintados trabalhos de arquitetura já construído por mãos humanas.
Lockyer o chamou de "além dos questionamentos a ruína mais majestosa no
mundo".19 O templo forma um telescópico gigantesco com cerca de
quinhentos metros de comprimento. Seu eixo central está alinhado com o
pôr-do-sol no solstício de verão, uma orientação óbvia para os sacerdotes que
adoravam o deus sol Ra. O tempo de reflexo dos raios do Sol dentro do
santuário poderia, portanto, ser utilizado para determinar o comprimento
exato do ano solar. Lockyer foi o primeiro a reconhecer este fato em época
recente.
Em outro exemplo, o templo de Ramsés II, em Abu Simbel, na margem do
deserto núbio, foi projetado de modo que duas vezes ao ano, nos equinócios, o
Sol nascente enviasse um raio de luz através da porta aberta. Ele percorre o
corredor escuro do Salão de Hipostilo para iluminar o santuário a 55 metros
dentro da face de rocha viva.
Na verdade, o caminho anual do Sol não é fixo, e muda quase que
imperceptivelmente em períodos longos de tempo. Isto não é causado pela
precessão dos equinócios, mas pela inclinação do eixo da Terra em relação ao
plano da sua órbita em torno do Sol. O fenômeno é chamado de "ciclo de
obliqüidade" e leva mais de quarenta mil anos para se completar. Isto
significa que os templos antigos não estão atualmente alinhados com os
corpos celestes da maneira como estavam quando foram construídos.
Considerando o pequeno desalinho atual, é possível calcular a data em que o
templo deve ter sido originalmente projetado. No caso de Karnak, Lockyer
chegou ao ano de 3700 a.C. mil anos antes do que é em geral proposto.20
Se um templo pode ser utilizado como um telescópio, isto levanta a
questão de que os antigos egípcios poderiam realmente ter inventado o
telescópio para observar os moviA
astrologia no mundo * 237
mentos do firmamento estrelado. Embora o comum seja assumir que ele só
foi inventado na época de Galileu, no século XVII, já vimos que os
mesopotâmios também podem tê-lo inventado. Existem algumas evidências
que sugerem que os egípcios podem ter realizado esta tarefa. Posso me
lembrar bem da primeira vez que visitei o Museu Egípcio no Cairo quando
fui impactado com a visão de uma estátua de madeira de um homem em
marcha, portando um bastão e com olhos surpreendentemente vivos.
Encontrado em Saqqara, o personagem é conhecido como Sheik ei balad (o
chefe da aldeia), mas na verdade era Ka-aper, um sacerdote-chefe da quinta
dinastia, cerca de 2470 a.C. responsável pela recitação das preces pelos
mortos. Os seus olhos foram delineados com cobre, a parte branca com
quartzo opaco e a córnea com cristal de rocha transparente. Logo constatei
que várias outras estátuas possuíam olhos semelhantes de cristal de rocha.
Em seu estudo de óptica antiga, The Crystal Sun, Robert Temple
argumenta que os egípcios possuíam instrumentos ópticos de alta precisão.
O planejamento das pirâmides teria sido impossível sem instrumentos
ópticos de levantamento topográfico. As lentes de cristal do Reino Antigo
provam que existia tecnologia suficiente para que os egípcios inventassem
telescópios; na verdade, algumas das lentes de melhor qualidade feitas antes
de 1900 datam aproximadamente de 2600 a.C. no Egito.21
O Olho Udjat
Uma imagem impressionante do Antigo Egito representa o deus da
sabedoria Thoth com cabeça de íbis segurando o "Olho de Hórus", conhecido
como o olho udjat. Entre os dois olhos de Hórus, o olho direito é o símbolo do
Sol (o "Olho de Ra") e o esquerdo, da Lua (o "Olho de Thoth"). Durante sua
luta titânica, Seth rasgou o olho esquerdo do seu
238 * Peter Marshall
sobrinho Hórus, que foi posteriormente restaurado por Thoth. Este evento
importante na mitologia egípcia poderia representar um eclipse lunar?
O olho udjat possui uma razão matemática notável que expressa a
constante universal conhecida como o "Coma de Pitágoras", que os egípcios
parecem ter chamado de "pequeno intervalo". É um número que Robert
Temple chama de o maior segredo dos antigos egípcios, sem o qual os
enigmas da mitologia egípcia não podem ser resolvidos. O número sagrado,
que se imaginava ter surgido nas estruturas profundas do universo, é
1,0136. A fórmula capacitou os egípcios a calcularem os 5,2424 dias extras a
serem adicionados ao ano "ideal" de 360 dias.22
Outro mito inicial sobre Thoth e o "olho de Ra" pode refletir a
importância dada pelos antigos egípcios aos eclipses solares. Como no
Gênese, o mito relata que seres humanos se rebelaram contra o seu criador e
cometeram atos maus. Enraivecido, Ra enviou seu próprio olho sob a forma
da deusa Hathor para descarregar a vingança. Mas até o olho de Ra se
rebelou contra o Sol e teve de ser trazido de volta por Thoth. Em seu retorno,
ele também ficou enraivecido ao descobrir que Ra o tinha substituído por
outro olho (a Lua). Contudo, Thoth conseguiu pacificá-lo e Ra encontrou um
lugar para ele em sua face.23 O Sol e a Lua retornaram aos seus devidos
lugares nos céus e a ordem foi restaurada na Terra.
21
O Retorno da Fênix
O Egito registrou e manteve eternamente a sabedoria dos tempos antigos.
As paredes de seus templos são cobertas com inscrições e os sacerdotes
mantêm sempre sob seus próprios olhos aquela herança divina.
PLATÃO
DEUS EGÍPCIO DA SABEDORIA, THOTH, CONHECIDO PELOS GREGOS COMO HERMES E
pelos romanos como Mercúrio, tornou-se o pai fundador da astrologia e
da alquimia. Hermes emprestou seu nome para a tradição hermética do
conhecimento oculto, enquanto na astrologia moderna Mercúrio continua
associado ã comunicação e à criatividade.
Diz-se que Thoth nasceu do deus sol Ra. Uma passagem antiga declara:
"Eu sou Thoth, filho mais velho de Ra (...) Desci para a Terra com os segredos
'daquilo que pertence ao horizonte'."1 Thoth pronunciou as palavras ditas por
Ra para criar o mundo e foi o criador e regulador das leis da harmonia
cósmica. Observou os céus e a estabilidade do universo dependeu do seu
conhecimento sobre matemática celeste. Como um deus da Lua, delineou as
estações e regulou o tempo. Era o navegador da barca solar de Ra e traçou o
curso de cada dia. Era o responsável pela imortalidade da alma e iluminou o
caminho para o submundo. Thoth era, na realidade, o portador dos segredos
do poder.
No Livro egípcio dos mortos, ele declara: "Eu sou Thoth (...) o guia dos céus,
e da Terra, e do submundo, e o criador da vida de [todas] as nações e povos.
Dei alento para aquele que estava em lugar oculto, por meio do poder das palavras mágicas que pronunciei."2
Como inventor da escrita e fonte da sabedoria, diz-se que ele escreveu o agora perdido Livro de Thoth.
240
Algumas fontes reivindicam que ele tem somente duas páginas; outros
consideram ser 42 livros que cobrem toda a gama da ciência sagrada egípcia, incluindo a história do mundo, a religião, a música, a medicina e a astrologia.
As Constelações
O que os sacerdotes-astrólogos egípcios viram em seus observatórios com o
benefício dos seus avançados instrumentos astronômicos? O Sol e a Lua sem
dúvida ocupavam um papel central em sua mitologia, simbolizados pelos
deuses Ra e Thoth. Ra permaneceu como deus supremo, através de toda a
história da civilização egípcia. Durante o seu reinado, Akhenaton até tentou
introduzir o culto a Aton, o disco solar, um culto monoteísta, embora sua
prática tenha desaparecido com ele. O local principal de adoração a Ra era
On, chamada Heliópolis (Cidade do Sol) pelos gregos.
Na literatura disponível que chegou até nós, existem várias referências
aos planetas ("as estrelas que nunca descansam"). Destacados entre eles
estava Vênus ("a estrela matutina" e "estrela vespertina"); Saturno ("Hórus, o
Touro"); Marte ("o Hórus vermelho") e possivelmente Mercúrio. Hórus, o deus
mortal, filho de Osíris e Isis, vingou-se do desmembramento de seu pai
realizado por seu irmão Set. Como Hórus é um herói da mitologia egípcia, é
improvável que eles tenham considerado Marte como um planeta maléfico.
Desde o Reino Antigo os egípcios já haviam agrupado as estrelas em
padrões que representavam figuras da sua mitologia. Aquilo que
acreditavam, eles procuravam ver. Projetavam no céu noturno seus deuses,
que eram inspirados por criaturas que viviam próximas a eles ao longo do
Nilo, como crocodilos, hipopótamos, serpentes, leões e falcões. Outros eram
mais antropomórficos como Orion, um homem com as pernas afastadas
olhando permanentemente por sobre o ombro. Como Isis, Hathor, a quem o
templo de Dendera é dedicado, era identificada com Sirius. Osíris era
associado a "Orion, que percorre as suas Duas Terras, que navega na frente
das estrelas do céu".' O Leão, com o número exato de 19 estrelas registrado
pelos astrônomos gregos Eratóstenes e Hiparco, é encontrado no teto de
Ramesseum, o templo mortuário de Ramsés II em Luxor, construído no século
XIII a.C.
Os egípcios ficavam profundamente impressionados com o circuito eterno
das estrelas em torno de um ponto no céu setentrional — a Estrela Polar.
Atribuíam a ela o nodo do universo que chamavam de "aquele local" ou
"grande cidade". Como o Deus Altíssimo era o regulador do universo, e o
universo girava em torno da Estrela Polar, este deveria ser o seu local de
moradia. Nos Textos da Pirâmide está escrito:
241
Conheço o seu nome, Eternidade é o seu nome, "Eternidade, o senhor dos anos" é o seu nome, exaltado na abóbada do céu,
trazendo o Sol para a vida todos os dias.4
O pólo celeste era às vezes visto como uma árvore com as estrelas
circumpolares, que continham as almas, encarapitadas em seus galhos.
Essas estrelas eram particularmente reverenciadas e conhecidas como "as que nunca desaparecem" e "estrelas imperecíveis".
Somos afortunados por ter um mapa dos céus ainda existente, que
mostra as posições das principais estrelas como era visto em Mênfis em
torno de 3500 a.C. Isto torna possível a identificação de algumas
constelações em outros mapas estelares egípcios antigos. A Grande Ursa (chamada de Arado), que naquela época girava em torno do pólo, era chamada de "perna do boi"; os beduínos do Saara ainda a chamam de "a perna". Outros grupos de estrelas que podem ser identificados são: Boeiro (como um crocodilo e um hipopótamo); Cisne (um homem com os braços esticados); Orion (um homem de pernas separadas, olhando para trás por sobre o ombro); Cassiopéia (outra figura com os braços estendidos); Dragão e as Plêiades (possivelmente como um ovo) e as Híades (um grupo com a forma da letra V). As constelações de Escorpião, Áries e provavelmente Leão, que se tornaram parte do zodíaco atual, também eram observadas no céu noturno.5
Com uma permissão especial do diretor de Antigüidades, pude visitar a
tumba de Seti I no Vale dos Reis, na Margem Esquerda, próximo a Luxor.
Ali, na escuridão de uma câmara, bem abaixo da superfície da Terra, a luz da minha tocha iluminou uma representação maravilhosa das constelações do céu noturno. Um hipopótamo, com um crocodilo em suas costas, representava o Dragão. O hipopótamo repousava uma das patas dianteiras sobre uma coxa (ou "perna do boi"), simbolizando a Grande Ursa. Uma fileira de estrelas formava a figura de um leão, quase certamente a constelação de Leão, que estava voltada para um homem com as pernas separadas (provavelmente Orion), acima do qual havia um boi (provavelmente Touro).
Naquela escuridão tenebrosa, bem abaixo da superfície da Terra, fiquei
cativado pelo esplendor brilhante do céu noturno.
Calendários Egípcios
Quando Júlio César decidiu dar aos romanos um novo calendário,
sabiamente escolheu um egípcio de Alexandria para traçá-lo. Dario I, o
conquistador persa do Egito, tinha feito o mesmo em 488 a.C. Os egípcios possuíam o único calendário confiável no mundo antigo.
242
Diferente do calendário gregoriano, de qualidade inferior, que é
utilizado atualmente no Ocidente, não tinha anos bissextos. Segundo Diodoro da Sicília, "Na tumba de Ozimandias [Ramsés II], em
Tebas [Luxor], existe um círculo dourado no terraço, com 365 cúbitos decircunferência, que é dividido em 365 partes, cada uma correspondendo a um dia do ano, e próximo está escrito o nascer e o ocaso natural das estrelas com as previsões que a astrologia egípcia traçou a partir delas."6
No templo em Abu Simbel, gravada na rocha viva no deserto núbio, a
data da batalha de Tutmés II é registrada como: "Ano 23, primeiro mês da terceira estação, 221° dia, o dia do festival da Lua Nova." Na verdade, os egípcios recorriam ao seu conhecimento astronômico para traçar três calendários separados: o calendário lunar, o "Calendário do Andarilho" e o excepcionalmente preciso calendário sótico. Diferente dos mesopotâmios, os egípcios contavam o seu mês lunar a partir da invisibilidade da Lua e não pelo aparecimento do novo crescente. Como o propósito mais prático do calendário era o da agricultura, o mês lunar consistia alternativamente de 29 ou trinta dias para mantê-lo em harmonia com o passar das estações, como eram definidas pelo movimento anual do Sol acima e abaixo do Equador. Enquanto o calendário egípcio perdia somente um dia em quatro anos e cerca de uma quinzena em uma vida, o calendário lunar muçulmano atual, que não admite dias extras, gira gradualmente pelas estações e perde cerca de 11 dias a cada ano.
O "Calendário do Andarilho" era um calendário civil móvel (daí o seu
nome) de 360 dias e cinco dias adicionais. Era utilizado principalmente pelos sacerdotes do templo para os festivais e cerimônias. Os cinco dias extras eram considerados como aniversários dos deuses.
O calendário mais preciso de todos era o sótico, de 365 dias e um quarto. Era fundamentado na subida helíaca da estrela Sirius [conhecida pelos gregos como Sotis] no horizonte oriental pouco antes do amanhecer. Por uma coincidência extraordinária, o aparecimento da estrela mais brilhante nos céus antecipava a cheia do Nilo e a inundação anual da qual toda a civilização egípcia dependia. O Ano-novo egípcio começava então quando Sirius era vista pela primeira vez cerca de 42 minutos antes do nascer do Sol, aparecendo por um minuto ou dois antes de a sua luz ser obliterada pelo amanhecer. Este momento do ano ficou conhecido por ter sido adotado oficialmente pela 12a Dinastia (1991-1783 a.C). Sirius aparece agora em agosto.
Sirius era importante não somente porque antecipava a cheia anual do
Nilo, mas também porque era um símbolo de Ísis, a deusa mais importante depois de Ra no panteão egípcio. Sirius era com frequência chamada de "Grande Provedora". Seu ciclo de sessenta anos era próximo do de Júpiter-Saturno, ainda hoje considerado como
presságio de grandes mudanças.
243
Existem algumas evidências que sugerem que os egípcios achavam que Sirius era o "Sol maior", em torno do qual nosso próprio Sol e o sistema solar orbitavam.
Sirius e a Fênix
O nascer helíaco de Sirius é a provável fonte da lenda da fênix, o pássaro fabuloso que retorna no fim da sua vida ao seu local de nascimento no "Deserto Árabe", entre o Nilo e o mar. Ali ele constrói uma fogueira e se imola até a morte, somente para nascer de novo das próprias cinzas. Como tal, a fênix é tida como um dos símbolos mais antigos de renascimento e renovação.
Geralmente representado como uma garça cinzenta, o pássaro benu é a
antiga fênix egípcia. Dizia-se que havia aparecido no momento da criação encarapitada sobre um pilar no Monte Primevo, a primeira ilha nas Águas Primevas. Representava a alma dos mortos e era muitas vezes retratada carregando uma cruz ansata, símbolo do renascimento.
Existe também um nível astrológico no significado da lenda. A fênix nasce no Deserto Árabe porque o Sol nasce no horizonte oriental do Egito. O fogo no qual ela morre é a luz do amanhecer. Diz-se que a duração da sua vida era de 1.460 anos, isto é, quatro vezes 365. Em Heliópolis, este "Ano-novo" prolongado era conhecido como "o Retorno da Fênix".7 Heliópolis — a "Cidade do Sol" — foi por milhares de anos um centro de ciência astronômica e astrológica, de modo que o sumo sacerdote era chamado de "chefe dos astrônomos".8
O número 1.460 é significativo. O Calendário do Andarilho se moveu
gradualmente em relação ao ano sótico fixo, levando 1.460 anos para completar um ciclo. A coincidência dos dois calendários era chamada de "Ano-novo", e provavelmente ocorreu em 4240 a.C. 2780 a.C. e 1320 a.C. Visto que os Textos da Pirâmide da quinta dinastia, cerca de 2500 a.C. mencionam com frequência o início do "Ano-novo", isto implica que o estabelecimento do calendário ocorreu mais cedo e aponta para o ano 4240 a.C. quando se acredita que os Impérios do Alto e Baixo Egito se uniram em uma só nação. Naturalmente, todo este conhecimento não poderia ter sido adquirido sem uma longa história de observação acurada das estrelas.9 Mais uma vez, um estudo da astrologia
egípcia sugere uma data bem anterior para o desenvolvimento da civilização egípcia do que a maioria dos egiptólogos gostaria de admitir.
Os egípcios dividiam o ano em três estações de quatro meses cada,
definidas pelo ritmo do Nilo: a estação seca, a inundação (que marcava o Ano-novo) e o período da germinação.
244
Seth estava associado à estação seca e Ísis à estação da cheia.
Cada dia era dividido em 24 horas, 12 horas de luz e 12 horas de escuridão.
As tumbas reais da vigésima dinastia (a partir de 1196 a.C.) tinham tábuas estelares pintadas nos tetos que mostravam, hora a hora, a posição das estrelas principais em períodos de duas semanas. Elas são similares às observações dos astrônomos modernos para as estrelas que atravessam o meridiano. Como vimos, os meses eram designados de duas maneiras: o mês lunar de 29 ou trinta dias e o mês sótico, que era definido pelo retornoperiódico do nascer helíaco de Sirius.
As festividades religiosas eram celebradas de acordo com os diferentes
calendários. Uma inscrição na tumba do piedoso Khnumhotep, um
administrador de Senwosret II (1897-1878 a.C), em Beni Hassan, dá um sentido à interligação dos calendários:
Eu decreto as oferendas [alimentos] em cada festival da necrópole, na
festa do início do ano [a primeira Lua Nova], na festa da abertura do ano [nascer de Sirius], na festa do ano longo, na festa do ano curto [anos lunares alternativos], na festa do último dia, na grande festa, na festa do grande calor, na festa do pequeno calor, na festa dos cinco dias
adicionados ao ano [os aniversários dos deuses], na festa do lançamento de areia, nas 12 festas mensais, nas 12 festas da metade do mês, emcada festa dos vivos e dos mortos abençoados.10
Ter três calendários não causava problema. Na verdade, hoje são usados comumente três calendários no Egito — o calendário lunar muçulmano oficial para as observâncias religiosas, o copta (egípcio antigo), para propósitos de agricultura, e o calendário gregoriano, importado da Europa para os negócios e assuntos internacionais. Pode-se adquirir um almanaque que mostra a relação entre os três.
Os Decanos
A antiga preocupação egípcia com os céus é claramente visível na magnífica tumba de Ramsés VI (1151-1143 a.C), gravada na escarpa rochosa do deserto na margem ocidental do Nilo, em Luxor. Sobre a entrada da tumba uma montanha estilizada com o céu acima representa a Terra e o céu. A esquerda está um disco solar, contendo o escaravelho Khefri (símbolo do renascimento) e a deidade solar com cabeça de carneiro (refletindo a Era de Áries). Nos tetos do longo corredor estão representadas a deusa do céu Nut, barcaças e cenas solares do Livro do dia e da noite.
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Lá, no fundo da terra, no Salão do Sarcófago, que um dia abrigou a tumba do faraó, encontrei um mural espetacular no qual Nut está esticada por todo o comprimento do teto alto, rodeada por estrelas matutinas e vespertinas. Na pequena sala no fim da tumba, voltada para o Oeste, estão números representando as estrelas "decanas", adorando a barca solar que levaria o morto e velejaria com Ra pelos céus.
O que são esses "decanos" que mais tarde os astrólogos associaram ao
"sistema egípcio" de astrologia? Eles consistem de um grupo de estrelas ou uma estrela visível dentro de um amplo cinturão equatorial que nasce em "determinadas horas da noite" durante um período de dez dias ("decano" veio do grego, dez). Trinta e seis delas formam um ano. O nascer helíaco de uma constelação no horizonte oriental marcava o início de cada decano; eles começavam com Sirius, conhecida como "a senhora do ano". Como se baseavam em um ciclo de 360 dias, surgiam em períodos diferentes do ano, de modo que era necessário formar tabelas para mostrar como eles se desviavam durante as estações. O sistema pode ser encontrado pelo menos até na terceira dinastia, cerca de 2800 a.C. e deve ter requerido um período longo de observações anteriores.
Como vemos no primeiro capítulo do Gênese 1:14, "as luzes do
firmamento" podem ser utilizadas como "sinais para as estações, dias e
anos". Desde cedo os astrólogos egípcios haviam notado que uma
determinada estrela nasceria, teria seu ápice e depois se poria cerca de
quatro minutos mais cedo a cada dia. Isto porque a Terra não perfaz por
inteiro uma rotação completa sobre o seu eixo a cada 24 horas. A diferença de quatro minutos é, portanto, a diferença diária entre o tempo solar e o sideral. O total chega a duas horas a cada mês. O fenômeno era conhecido como o "andar adiantado" das estrelas.11
Por volta do segundo milênio antes de Cristo, e provavelmente bem
anterior a essa época, os egípcios selecionaram 36 estrelas "decanas" entre os padrões de constelações que já tinham desenhado no céu. Seu nascer, ápice e ocaso eram usados para determinar a época aproximada do ano e também a hora da noite.
Os egípcios acreditavam que os mapas estelares podiam ser utilizados
pelas almas dos mortos e também pelos vivos. A tampa do caixão de um sarcófago em Assiyut, datando em torno de 2050 a.C. funcionava como um calendário estelar e um relógio estelar, retratando imagens para representar as constelações circumpolares e a série de 36 estrelas decanas. O método é usado ainda hoje: os almanaques náuticos modernos possuem grandes séries de estrelas de "dez dias" e números menores de estrelas circumpolares que um navegador pode usar para calcular a data ou a hora.
Os decanos recebiam com freqü.ncia os nomes dos deuses governantes e representavam princípios diferentes do cosmo. Esta pode ter sido a fonte da doutrina de Platão de que cada signo tinha seu deus regente, e da reivindicação astrológica posterior de que cada signo possui um planeta regente.
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O nascer dos decanos durante a noite era usado para dividir a duração da escuridão em horas. No verão, na época do nascer helíaco de Sirius, o nascimento de 12 delas era observado antes do amanhecer, e por isso as horas da noite eram divididas em 12. Embora a contagem decimal fosse a regra geral, uma hora de penumbra era adicionada no início e novamente no fim do dia às dez horas de claridade total para perfazer um total de 12. Como a extensão das horas variava em épocas diferentes do ano, os astrólogos usavam as horas iguais dos equinócios, quando noite e dia tinham a mesma duração, como padrão — daí nosso relógio de 24 horas.
Nas tumbas da Dinastia dos Ramsés (1194-1070 a.C), os calendários
baseados nas estrelas decanas eram suplementados por uma série de 24 tabelas de estrelas das horas, dividindo noites de cada uma das 24 quinzenas do ano em 12 horas sazonais de várias durações. Essas estrelas das horas serviram originalmente como marcadores para traçar o movimento da Lua.
Os decanos egípcios foram assumidos com entusiasmo pelos astrólogos na antiga Roma, que dividiram cada signo do zodíaco em três segmentos de 10°.
O céu foi assim secionado em 36 decanos. O astrólogo romano Firmicus
Maternus citou uma passagem do livro de textos egípcio de Nechepso e
Petosiris: "Em cada signo existem três decanos que ocupam certos graus e deixam outros vazios (...) Então, todo aquele que tiver em seu horóscopo o Sol e a Lua e os cinco planetas em graus inteiros será como um deus e subirá até a altura da majestade." Infelizmente os astrólogos egípcios adicionaram:
"Mas isso poderá nunca acontecer."12 Contudo, quanto mais planetas alguém tiver em graus inteiros em um horóscopo, mais afortunado será.
O astrólogo romano Manilius distribuiu os decanos entre os signos do
zodíaco em sua ordem tradicional. Um outro sistema atribuiu a eles planetas regentes, começando cora Marte para o primeiro decanato de Áries e continuando com a "Ordem Caldaica" até Marte reger o primeiro decanato de Peixes. Johanne Stobaeus, escritor do século V, descreveu assim os decanos:
"semeiam sobre a terra as sementes de determinadas forças, algumas
salutares e outras mais perniciosas, que muitos chamam de demônios".13
Durante a Renascença, o jesuíta italiano Egyptophile Athanasius Kircher fez uma lista adicionando algumas deidades gregas e persas às egípcias
representando os decanos.14 Mais tarde, no século XVII, o astrólogo inglês William Lilly utilizou o chamado "sistema egípcio".
Existem pouquíssimas fontes escritas sobre a astrologia egípcia que
sobreviveram. Por que isso aconteceu? Como em qualquer campo de
conhecimento, os egípcios mantiveram seus princípios ocultos em segredo e somente os expressaram simbolicamente em sua arquitetura e arte.
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Além disso, eles passaram oralmente seu conhecimento de mestre para iniciado. O segredo era mantido de modo que o conhecimento não chegasse a mãos erradas. Diz-se que o filósofo grego Pitágoras teve de esperar vinte anos até ser admitido nos templos egípcios.
Segundo o encantamento 144 do Livro dos mortos, o astrólogo está alerta quanto à posição das estrelas no céu: "Ele consulta os livros de astrologia em silêncio e segredo. Eles são na verdade acessíveis somente para aqueles que foram iniciados há vários anos."15 A astrologia permaneceu desta forma como uma ciência sagrada do templo, que podia ser estudada somente por sacerdotes responsáveis e conhecedores do assunto.
Atualmente, não conhecemos todos os detalhes da antiga astrologia
egípcia. Recebemos somente fragmentos dela. Até então, não foi encontrado qualquer horóscopo natal anterior ao século I d.C. Entretanto, os antigos astrólogos egípcios estiveram sem dúvida envolvidos no que pode ser chamado de "macroastrologia" — isto é, a astrologia usada para calcular os momentos exatos do "nascimento" de templos e de momentos auspiciosos para rituais e cerimônias que ocorriam dentro deles. Como grande parte da civilização egípcia, seus segredos ainda permanecem enterrados na areia.
22 O Horóscopo da Eternidade
Talvez não exista uma terra onde a ordem e o movimento das estrelas
sejam observados tão precisamente como no Egito. Eles mantiveram
registros nos quais estas observações foram anotadas por um número
incrível de anos. Aqui encontra-se informação sobre a relação de cada
planeta com o nascimento dos animais e sobre a boa, ou má, influência de cada estrela.
DlODORO SlCILUS
Uma notável coincidência entre estrelas e planetas acontececeu em 2767 a.C., durante o reinado do Faraó Zoser, que construiu o templo e a pirâmide de Saqqara. A data era o solstício de verão. Uma forte conjunção de quatro planetas, todos com 7° de distância entre si, surgiu no horizonte oriental ao mesmo tempo que Sirius — uma conjunção que pode não ocorrer novamente. Foi tida como um dia de harmonia perfeita e registrada em um diagrama celeste chamado de "O Horóscopo da Eternidade", possivelmente o primeiro horóscopo mundial.1 Na verdade, todos os mapas de horóscopo egípcio posteriores são diagramas do nascer helíaco de Sirius.
Um mapa estelar padrão do evento foi inscrito várias vezes em tumbas
para ajudar os mortos a navegar em seu caminho pelos céus. Em seu centro, Sirius era geralmente representada de pé numa barca, como a figura de Isis.
Orion representado como Osíris aparece à sua direita, como um faraó
correndo. A esquerda de Sirius estão os planetas Saturno, Júpiter e Marte, depois duas tartarugas (possivelmente as duas estrelas Aselli da constelação de Câncer). Após cinco "metadecanos" vem Mercúrio. Uma grande garça, o pássaro benu de Osíris e, por implicação, o próprio Osíris, representa Vênus.
Os planetas eram com frequência identificados com Hórus, o barqueiro do céu, que "ascende aos céus entre as estrelas imperecíveis, sua irmã é Sotis [Sirius], seu guia a Estrela Matutina [Vênus]".2
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Esses diagramas astronômicos com estrelas e planetas podem ser
verdadeiramente chamados de horóscopos, pois eram momentos celestes
observados. Embora nada fosse previsto por eles, cada um era visto como
uma representação do momento de um casamento sagrado entre Sirius
(Isis) e Vênus (Osíris). Quando eles surgiam simultaneamente a cada oito
anos, simbolizavam belamente o eterno elo entre o céu e a Terra.
O "Horóscopo da Eternidade" original de 2767 a.C.
Dendera e o Zodíaco
No deserto, em Dendera, aproximadamente 48 quilômetros ao Norte de
Luxor, existe um dos últimos templos que ilustra vividamente a extensão do conhecimento astrológico egípcio reunido por mais de quatro mil anos.
Na entrada do templo existem quatro fileiras idênticas de colunas imensas com cabeças da deusa Hathor, a deusa do amor e da fertilidade, que estava associada ao céu noturno. Ela é, com freqü.ncia, representada com um Sol entre dois chifres no alto da cabeça. Embora possa ter um papel destrutivo, como a Vênus [Ishtar] da Mesopotâmia, Hathor é geralmente considerada como a patrona da cura. Era identificada como Afrodite pelos gregos.
O templo de Dendera data do século I a.C. Sua construção começou após a conquista do Egito por Alexandre, o Grande, e terminou em 17 d.C. durante o reinado do imperador romano Augusto.
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Foi erigido no mesmo local de templos antigos e uma inscrição em uma cripta afirma que foi construído "segundo um plano escrito na caligrafia antiga sobre um pergaminho de pele de cabra da época dos
Companheiros de Hórus".3
Os companheiros de Hórus eram semideuses lendários que vieram de longe para fundar a civilização egípcia. Outra inscrição declara que durante a cerimônia de fundação, que aconteceu em torno de 300 a.C. o faraó alinhou o templo com a estrela Alpha Ursae Majoris da Grande Ursa: "O deus vivo, o filho magnífico de Asti [um nome de Thoth], nutrido pela sublime deusa no templo, soberano do país, cortou a corda com alegria. Com seu olhar em direção ao ak da constelação da Perna do Touro, ele estabeleceu o templo-residência da senhora de Dendera,
como ocorrera anteriormente (...) Eu estabeleci os cantos do templo de Sua Majestade."4
Dendera é reconhecida por seus elementos astrológicos: o templo inteiro é recoberto com relevos coloridos que mostram uma rica trama de figuras astrológicas. A primeira nave do teto alto no vestíbulo com seus 24 pilares enormes representa as fases da Lua e o curso do Sol durante as 12 horas do dia. Ao longo da segunda nave estão as deidades das estrelas e as horas do dia e da noite. Na terceira, a figura de Nut, a deusa do céu, está desdobrada sobre os signos do zodíaco e sobre algumas das estrelas fixas e constelações.
Este é o chamado "Zodíaco Quadrado de Dendera". Sua forma é oblonga, com 18 metros de comprimento, enquanto cada metade tem seis metros de largura. Possui dois registros. O registro superior
mostra os signos do zodíaco e várias constelações, os planetas e as horas do dia (cada um desenhado como uma mulher com uma estrela sobre a cabeça).
Leão mostra a direção Norte no lado ocidental do teto. Oposto à perna da deusa do céu, Nut (que está trajando um conjunto de pequenas ondas), o signo de Câncer, representado pelo Caranguejo, destaca-se orgulhoso do seu lugar. O restante dos signos do zodíaco segue a ordem normal: Leão, Virgem, Libra e assim por diante. O registro inferior representa os decanos, figuras humanas e semi-humanas em barcos navegando pelo céu noturno.
Fiquei chocado com o fato de o signo de Câncer ter recebido tal destaque.Os sacerdotes-astrólogos, mantenedores da ciência sagrada, sabiam exatamente o que estavam fazendo quando instruíram os artistas para retratá-lo ali. Qual teria sido a razão? Implicaria o fato de a civilizaçãoegípcia ter se iniciado sob o signo de Câncer? Por causa da precessão dos equinócios, o equinócio vernal precede uma fração de grau contra a faixa do zodíaco a cada ano. O equinócio vernal surgiu pela última vez sob o signo de Câncer entre 10000 e 8000 a.C. Isto dataria o nascimento da civilização egípcia bem antes da visão ortodoxa. Por outro lado, uma explicação mais simples do destaque dado a Câncer seria de que o Ano-novo começava em 19 de julho no nascer helíaco de
Sirius no signo de Câncer.5
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As criptas abafadas e escuras do templo tinham um significado
cerimonial e simbólico: a estátua da alma ba de Hathor era mantida ali até o Ano-novo, quando era trazida da escuridão primordial e levada para a luz dourada do alto do telhado do templo, de modo que, ao amanhecer, ela se reunisse aos raios de seu pai Ra.
A pequena Capela do Ano-novo dava para um pátio aberto. No teto está
uma mulher enorme dobrada sobre a cintura entre estrelas. É Nut, a deusa do céu dando à luz o Sol, cujos raios se espalham da região do seu ventre para iluminar a face de Hathor. É uma representação maravilhosa da energia estelar.
A escada que leva ao telhado do templo é quadrada, com uma ligeira
inclinação, e forma ângulos retos. É iluminada por pequenas aberturas,
pouco mais do que sulcos, com linhas onduladas gravadas nas pedras
representando os raios brilhantes do Sol. Do topo achatado do telhado do templo tem-se uma vista espetacular da planície aluvial do Nilo. Em umacapela no canto Nordeste do telhado, dedicado ao "Broto da Semente" e à "Ressurreição de Osíris", está uma réplica do famoso zodíaco de Dendera — o original encontra-se agora no Museu do Louvre, em Paris.
O zodíaco de Dendera é o único zodíaco circular existente descoberto no
Egito. Um exemplar anterior foi aparentemente montado em 221 a.C.
durante o reinado de Ptolomeu III, mas foi perdido. O zodíaco circular é
similar àqueles desenvolvidos pelos babilônios e gregos, exceto pelo fato de os símbolos serem egípcios. No centro estão personificações das estrelas circumpolares: o Dragão é um hipopótamo ereto, a perna do touro é a Grande Ursa e o chacal Anúbis é a Pequena Ursa. Sirius figura como umavaca deitada na barca, enquanto Orion aparece sob os cascos do Touro. O equinócio vernal é mostrado pelo babuíno de Thoth seguindo o Carneiro (Áries).
Câncer novamente assume um papel essencial: o caranguejo de corpo
arredondado está quase no centro, imediatamente acima da cabeça do leão (Leão). Os outros signos do zodíaco estão dispostos na direção contrária ao movimento dos ponteiros do relógio. Uma deusa segura o leão pela cauda, e atrás dela a Virgem está representada por Isis com uma espiga de milho. Além do Sul, Escorpião, Sagitário e Capricórnio estão próximos do círculo externo que possui 36 figuras curiosas representando as estrelas decanas.
Um falcão no alto de uma coluna de papiro marca o solstício de verão e está alinhado com o eixo do templo. Outro detalhe intrigante do zodíaco é a posição de quatro figuras femininas, cujos braços esticados seguram o círculo do zodíaco. Parecem representar signos opostos e as constelações mais importantes nas quais o Sol nasce nos dois equinócios e nos dois solstícios.
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Nos mitos antigos, os pares gêmeos de constelações eram com
frequência personificados como "mantenedores" ou "portadores" do céu.
Levando em consideração a precessão dos equinócios, com o equinócio da primavera agora em Peixes, as quatro constelações portadoras do céu são Peixes, Virgem, Gêmeos e Sagitário. Por volta de 700 a.C. elas eram Áries, Libra, Câncer e Capricórnio, mas para que os signos do zodíaco fossem importantes nesta época as observações celestes necessárias para identificálos teriam de ter se iniciado em torno de 6000 a.C.6
Se aplicarmos este conhecimento ao zodíaco circular de Dendera,
chegaremos a conclusões surpreendentes. As quatro figuras femininas
portadoras do céu são os signos opostos de Leão-Aquário e Touro-Escorpião. Esta configuração parece indicar que foi durante a Era de Touro, que durou aproximadamente de 4380 a 2200 a.C. que as fundações originais do templo foram lançadas.
Tudo isso conduz a uma indagação óbvia: "Os egípcios inventaram o
zodíaco moderno?" A maioria dos investigadores responde com um sonoro "não". O zodíaco existente utilizado pelos astrólogos é geralmente entendido como sendo o produto de uma confluência de influências da astrologia da Mesopotâmia e do Egito.7 Alguns egiptólogos até reivindicam que os 12 signos foram uma invenção inteiramente grega.8 A visão tradicional é que, após a conquista da Mesopotâmia e do Egito por Alexandre, o Grande, no século IV a.C. as idéias astrológicas da Mesopotâmia e da Grécia foram enxertadas pelos egípcios em sua astrologia mais antiga.
As idéias da Mesopotâmia foram sem dúvida trazidas pelos assírios que
invadiram o Egito em 671 e 664 a.C. e pelos persas que conquistaram o Egito em 525 a.C. O que há de certo é que por volta do século III a.C. os egípcios tinham desenvolvido uma seqü.ncia planetária conhecida como "Ordem Caldaica" que dominou a Europa até a Revolução Científica no século XVII.
Ela colocou os planetas em uma ordem relativa ao seu movimento aparente e suposta distância, como eram vistos da Terra. O mais próximo e mais rápido é a Lua, o mais lento e mais afastado é Saturno; entre eles, em ordem decrescente estão Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte e Júpiter.
Entretanto, existem alguns indicadores consideráveis na sua arquitetura
e artes que sugerem que os antigos egípcios conheciam a precessão dos
equinócios e utilizavam os signos do zodíaco para descrever as eras do
Grande Ano. Na arte do Reino Antigo, em torno de 4240 a.C. o touro (Mentu) é o motivo predominante, representando a Era do Touro. Após 2100 a.C. que marca o início da Era de Áries, o carneiro foi associado ao deus sol Amon. É impossível esquecer a colossal estátua do carneiro no átrio do templo de Amon-Ra, em Karnak.9 Então, pouco antes do nascimento do Cristo, surgiu o peixe que representa a Era de Peixes. Na verdade, o símbolo do Cristo no Egito greco-romano foi o peixe.
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Embora não possa ser provado que os antigos egípcios tenham
desenvolvido todos os signos do zodíaco, seus astrólogos certamente viram padrões similares no céu. Utilizando as constelações de estrelas como marcadores para traçar o movimento da Lua em seu ciclo mensal, eles, provavelmente, traçaram a forma de Leão, viram as duas crianças em Gêmeos, deram atenção especial ao carneiro de Áries e imaginaram as duas tartarugas em Câncer. Talvez também houvessem constelações que lembravam o peixe e potes de água, contribuindo para os signos de Peixes e Aquário do zodíaco convencional. Resumindo, é quase certo que Áries foi a princípio uma constelação egípcia, assim como, possivelmente, Gêmeos e, provavelmente, Aquário, Peixes e Leão.10 O zodíaco final como o conhecemos é, portanto, produto de uma confluência de influências tanto do Egito quanto da Mesopotâmia.
Alguns intérpretes foram ainda mais longe. Admitindo que os antigos
egípcios já tinham estabelecido os signos do zodíaco cinco mil anos atrás, o egiptólogo e pensador esotérico Schwaller de Lubicz argumentou que oprojeto do terreno do Templo de Luxor, o Partenon do Egito, lembra a figura de um homem com cada parte do seu corpo associada a um determinado signo do zodíaco. Se um esqueleto humano for sobreposto ao plano geral do templo, a cabeça fica localizada exatamente sobre os santuários do templo coberto. O seu simbolismo esotérico revela que "o homem é o microcosmo", um mundo pequeno que espelha o macrocosmo do universo.11
O Templo de Hórus em Edfu
O templo antigo mais bem preservado até então descoberto no mundo está em Edfu. A maioria dos templos egípcios está orientado na direção Leste- Oeste, porém Edfu é diferente, pois está voltado para o Sul. Provavelmente estava ligado a Dendera, que está voltado para o Norte. Então, estão voltados um para o outro e, embora estejam separados por 140 quilômetros, claramente partilham certos mitos, rituais e temas astrológicos. Mais uma vez erigido sobre templos anteriores — algumas partes da parede externa ocidental datam do Reino Antigo —, o trabalho na construção existente começou em 237 a.C. e terminou em 57 a.C. O templo mostra que no fim de milhares de anos de civilização os arquitetos-sacerdotes e artífices egípcios não tinham perdido nem suas habilidades nem suas crenças.
O templo é dedicado a Hórus, o deus com cabeça de falcão, que simboliza os diferentes aspectos da ressurreição. Ele é representado por duas estátuas imperiosas de granito de um falcão coroado colocadas na entrada para a Grande Corte.
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O falcão expressa muito bem a doutrina da ressurreição: ele ataca em silêncio e leva sua presa para o olho do Sol, o olho do próprio Ra.
No mito de fundação da civilização egípcia, Hórus é o filho de Isis e Osíris. Como vingador do pai (que foi desmembrado pelo seu tio Set), ele é conhecido como Hórus Behdety, que fugiu para o céu sob a forma de um disco alado.
Comparado ao deus sol Apoio pelos gregos, Hórus é o nome grego para o egípcio Heru, que significa "aquele que está Acima". Como em Dendera, o vestíbulo possui uma dúzia de pilares enormes que
conduzem ao Salão Hipostilo, que contém uma dúzia de outros menores. Isto, por sua vez, leva, através de duas antecâmaras, a um imenso santuário, que muito provavelmente continha uma efígie dourada de Hórus.
Uma inscrição em Edfu afirma que a orientação do templo "repousa de
Orion, no Sul, para a Grande Ursa, no Norte". Este pode ser o local dos céus conhecido como Duat-N-Ba, literalmente o "Mundo da Alma dos Mortos".12
Temas astrológicos enfeitam todo o templo. O teto do vestíbulo é repleto de signos astrológicos, que infelizmente agora estão muito obscurecidos pela fumaça para serem decifrados. Contudo, no teto estrelado de um quiosque devotado a Nut, a deusa do céu, pude distinguir todos os signos do zodíaco.
Para mim, o aspecto sem dúvida mais interessante do templo foi duas pequenas capelas de no máximo 2m x 2m, situadas na parede interna do vestíbulo. No lado ocidental o faraó é abençoado por Hórus e Thoth, o deus da sabedoria com cabeça de íbis e posteriormente patrono dos astrólogos e alquimistas. No lado oriental uma pequena sala conhecida como "Câmara dos Escritos" abrigava uma biblioteca que uma vez conteve vários trabalhos de astrologia. Sabemos que era uma biblioteca porque existe um cartão de um catálogo inscrito em hieróglifos na parede. Ele menciona 22 trabalhos, entre eles um chamado "Horóscopo da Hora" e também o seguinte: "9 — Livro do conhecimento do retorno às suas estações do Sol e da Lua. 10 — Livro que regula o retorno das estrelas. 11 — Registro detalhado de todos os locais e conhecimento daquilo que está neles. 12 — Todos os cálculos do nascer de Sua Majestade Hórus [Saturno ou Marte?] na comitiva da tua Casa [Ra] em teus festivais."13 Cinco séculos depois, o papa cristão Clemente de Alexandria montou uma lista de 36 livros que continham "toda a filosofia dos egípcios" e seis volumes sobre a ciência deles. Os quatro últimos trabalhos mencionados em Edfu são bem semelhantes aos quatro livros que tratam das estrelas mencionados por Clemente: "um sobre o movimento das estrelas, o outro sobre a conjunção do Sol e da Lua, os outros dois sobre o nascer deles confiados ao astrônomo cujos símbolos são um relógio e um ramo de
palmeira".
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Outros livros entregues ao escriba são também dignos de nota:
Oito livros que tratam do conhecimento do que são chamados
hieróglifos e incluindo cosmografia, geografia, as posições do Sol
e da Lua, as fases dos cinco planetas, a corografia [mapa das
regiões] do Egito, o mapa do Nilo e seus fenômenos, uma
descrição do equipamento dos templos e dos locais consagrados a
eles e informações relativas à medição de tudo que é utilizado
nos ritos sagrados.
Clemente reivindica que todos esses livros eram guardados em uma
câmara de um templo, como "um tesouro sem preço, um presente de Thoth, senhor de toda a ciência, à raça humana".14
As duas listas de livros são bem parecidas e podem comprovar que a
tradição da astrologia sagrada continuou numa época em que a prática da antiga religião egípcia estava em sério declínio. As versões completas dos livros foram perdidas, porém sem dúvida alguns fragmentos sobreviveram nos chamados escritos herméticos, assim chamados em honra a Hermes, o correspondente grego para o deus egípcio da sabedoria, Thoth.
Em Edfu existem alguns "Textos da Construção" notáveis inscritos nas paredes do templo em torno de 200 a.C. A primeira impressão é de que eles relatam uma simples história do templo e uma descrição de suas câmaras, porém depois revelam que o templo era uma continuação de um templo mítico, que fora construído no início do mundo quando a Montanha Primeva emergiu das Águas Primevas. Uma inscrição declara ainda que o templo foi construído de acordo com um plano que "caiu do céu".15
Os "Textos da Construção" são provavelmente fragmentos de uma
literatura muito mais antiga e mais completa de cosmologia. Eles se
referem com freqü.ncia a Zep Tepi, o "Primeiro Tempo", uma era dourada remota quando os semideuses conhecidos como "Companheiros de Hórus" reinavam no Egito.
Estes Sete Sábios seguiram o caminho de Hórus, isto é, o caminho solar de Ra. Acreditava-se que eram seres superiores de origem divina que produziram a raça dos faraós e que trouxeram a ciência sagrada para o povo que vivia ao longo do Nilo. Eram os "Senhores da Luz", mencionados em um texto de Edfu, que escaparam da "Terra Natal dos Primevos" quando sua ilha foi destroçada por uma inundação; eram os "Sêniores" que "iluminaram esta terra [Egito] quando surgiram unificados".16
Isto quer dizer que a civilização egípcia não evoluiu; ela foi um legado de um povo anterior. Se assim foi, isto explicaria o fato de a civilização egípcia estar completa desde o início: sua astrologia, sua matemática, seus mitos e seus hieróglifos.
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A introdução dos "Textos da Construção" diz que são uma "Cópia dos
escritos que Thoth fez segundo as palavras dos Sábios".17 Como os
astrólogos e alquimistas remontavam seus ensinamentos aos Sete Sábios, esse livro sagrado pode realmente ser a origem da astrologia egípcia.
Existem alguns ecos fascinantes de outras tradições em tudo isso. O
Monte Primevo lembra a montanha nas histórias da inundação do Épico de Gilgamesh e da Bíblia. Na tradição babilônica, existiam "Sete Sábios" que viveram antes da Inundação, construíram as paredes da cidade sagrada de Uruk e que trouxeram com eles um conhecimento de astrologia. Também na tradição indiana, os Setes Sábios (Rishis) sobreviveram ao Dilúvio para passar às gerações posteriores a sabedoria do mundo antediluviano e que incluía a astrologia." E na China existe a tradição taoísta dos "Filhos da Luz Refletida" que atravessaram o mar com o seu conhecimento. Parece haver muito mais que somente coincidências aqui. Os mitos passados oralmente muitas vezes contêm elementos disfarçados de verdade histórica.
Pode realmente ser que a astrologia tenha tido sua origem numa
civilização perdida — chamada pela primeira vez por Platão de Atlântida — e que passou por uma tremenda catástrofe. Alguns sobreviventes podem ter escapado com sua ciência sagrada e se espalhado pelo mundo tropical chegando até a China, Índia, Mesopotâmia e Egito. Lá eles se tornaram os fundadores de novas civilizações e todas desenvolveram suas próprias tradições da astrologia.
As Descobertas dos Egípcios
Qual foi então a contribuição dos egípcios para a astrologia? O historiador Diodoro da Sicília, que escreveu em torno de 59 a.C. reivindicou que os egípcios inventaram a astrologia e que os babilônios eram os colonos egípcios, que levaram a astrologia para a Mesopotâmia.1" Embora esta última ideia pareça confusa e improvável, o atual estudioso Rupert Gleadow em seu trabalho The Origin of the Zodiac afirma que: "A primeira noção da astrologia como a conhecemos foi gerada na Babilônia pelo Egito entre os séculos VII e V a.C. e o próprio zodíaco, como uma ferramenta calêndrica, teve origem similar, mas pode ser um pouco mais antigo."2" Por outro lado, a visão convencional que existe atualmente entre os egiptólogos é de que a astrologia se desenvolveu mais tarde, no primeiro milênio antes de Cristo, no Egito, a partir de uma fusão da ciência grega com a "tradição estelar" egípcia e mesopotâmica.21
Certamente, a astrologia não "chegou tardiamente ao Egito" nem os
egípcios "nunca desenvolveram sua própria astrologia".22
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Desde os primeiros tempos, a antiga astrologia egípcia foi parte primordial da ciência sagrada egípcia, que era manifestada de maneira simbólica em sua arte e arquitetura. Embora tenha ocorrido sem dúvida uma fertilização posterior, do meu ponto de vista tanto o Egito quanto a Mesopotâmia podem ter herdado sua astrologia como parte integrante da ciência sagrada de uma civilização anterior perdida.
Em torno de 460 a.C. Heródoto escreveu sobre determinadas
"descobertas" dos egípcios: "Cada mês e cada dia é sagrado para uma determinada deidade, e o dia do nascimento da pessoa determina o que acontecerá a ela, como ela morrerá e que tipo de pessoa será. Este é um aspecto que os poetas gregos utilizaram."23 Enquanto os mesopotâmios eram fascinados pelos presságios no céu, acreditando que os eventos nos céus antecediam os eventos na Terra, os egípcios estavam mais interessados nas estrelas para aprender como a alma poderia ascender ao céu e chegar até a barca solar de Ra. Mas eles também acreditavam em dias propícios e aziagos, e que cada hora do dia ou da noite tinha o seu deus guardião ou espírito tutelar. Não surpreende o fato de algumas horas, e mais tarde alguns deuses
regentes e grupos de estrelas, serem consideradas mais auspiciosas que outras.
O primeiro horóscopo individual egípcio que sobreviveu foi escrito no
século I d.C, em copta, e descoberto em Alexandria. Até mesmo nessa época mais tardia a técnica da previsão ainda não estava estabelecida. Entretanto, não pode haver dúvida de que os egípcios reconheciam a correspondência íntima e poderosa entre os eventos no céu e os acontecimentos na Terra.
Cada egípcio, homem ou mulher, acreditava que era um microcosmo douniverso, tendo descido das estrelas para as quais estava destinado a retornar.
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