Astrologia no Mundo
de Peter Marshall
Tradução Angela Machado
Quarta parte: A nova Astrologia
30 No Início da Luz
Sapiens homo dominatur astris: O homem sábio é mestre das estrelas.
Tomas de Aquino
Na entrada da Catedral de Chartres há estátuas representando as sete "Artes Liberais", que foram imaginadas pelos gregos. Elas incluem o celebrado quadrivium, as quatro "ciências matemáticas" da aritmética, geometria, música e, acima de todas, a astronomia.
Quando entramos na catedral somos impactados pela visão de um vitral, em tons fortes de azul e vermelho, com desenhos dos signos do zodíaco. Projetada segundo os princípios pitagóricos, incorporando as energias planetárias sob formas geométricas, a catedral é um emblema maravilhoso e mágico da harmonia celeste. É um modelo do céu na Terra.
Em 1142, Thierry de Chartres recomendou o estudo de Ptolomeu a seus alunos. A astrologia era então parte indispensável do aprendizado na Europa. Como isso aconteceu?
Argumentou-se que do início do século VI ao fim do XII, "não houve
astrologia na Europa Ocidental", e que então, antes do século XII, não houve "qualquer coisa além de uma vaga lembrança de uma ilícita arte perdida".1
Mas não foi bem assim. É certo que a astrologia foi perseguida, juntamente com outras artes pagas durante a Idade das Trevas após o colapso do Império Romano, mas ela continuou a existir por trás dos bastidores. A astrologia era popular no fim do domínio romano na Gália, e os primeiros reis francos e góticos provavelmente herdaram alguns de seus praticantes. Edwin, rei da Nortúmbria por volta de 616-632, o rei mais poderoso na Inglaterra saxônica, empregou um astrólogo espanhol chamado Pellitus que o aconselhou na guerra contra a Bretanha celta.
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Contudo, para a população em geral, ela virtualmente havia desaparecido, sobrevivendo apenas no sistema dos "Dias Egípcios" — isto é, a tradição dos dias propícios e nefastos.
A luz do aprendizado foi mantida acesa nos monastérios com a chama da glória anterior da astrologia. As melhores bibliotecas devem ter mantido cópias do comentário de Macrobius sobre o Somnium Scipionis (Sonho de Scipio) de Cícero, cerca de 430 — com as suas referências astrológicas e visão da imortalidade da alma —, e da vasta Etymologiae, de Isodore, bispo de Sevilha, cerca de 560-636 — com suas definições de astrologia. Boethius, cerca de 480-524, cujo Consolação da filosofia revelou uma representação clássica da visão de mundo neoplatônica, também pode ter traduzido Ptolomeu, mas este trabalho foi perdido.
Em seu comentário sobre o Sonho de Scipio, de Cícero, Macrobius apresentou as características usuais dos planetas e citou Plotino, que afirmava que as estrelas não obrigavam, mas somente mostravam os eventos na Terra — uma visão que reverberou pelos tempos desde então.
Em particular, Macrobius deixou duas idéias astrológicas que permaneceram durante toda a Idade Média. A primeira foi que, como a almadescia das esferas para se unir ao corpo, adquiria as características dos sete planetas. Da esfera de Júpiter, a alma recebia o raciocínio e a inteligência; de Marte, "o ardor ígneo do espírito"; do Sol, "uma natureza do sentir e da opinião"; de Vênus, "o movimento do desejo"; de Mercúrio, "a fala e a interpretação dos sentimentos"; e do globo da Lua, "a procriação e o crescimento".1
A segunda foi que existia um "mapa natal" da criação conhecido como thema mundi. Este horóscopo do mundo já tinha sido estabelecido há muito tempo e apareceu no Épico da criação babilônico quando foi escrito por volta de 2200 a.C. A ideia era introduzida com freqü.ncia para explicar por que Áries deveria ser considerado o "ponto de partida" do círculo do zodíaco, um círculo que não teve começo. "Eles dizem", Macrobius escreveu, "que quando aquele dia começou, que foi o primeiro de todos e portanto corretamente chamado de aniversário do mundo, Áries estava no Meio do Céu; e como o Meio do Céu era tido como o vértex do mundo, Áries deveria então ser o primeiro entre todos, aquele que aparece como a cabeça do mundo no início da luz."3
Devem ter existido alguns astrólogos praticantes na Espanha, embora o Bispo Isodore de Sevilha tratasse a astrologia principalmente como se fosse uma história do passado. Em seu vasto trabalho Etymologiae, ele distinguiu a astronomia da astrologia. A primeira tratava da "virada dos céus, do nascer, ocaso e movimento das estrelas e do motivo de serem chamadas como tal". Ele fez então uma distinção entre a astrologia física, que tratava "dos cursos do Sol e da Lua, ou das estações fixas das estrelas", e a astrologia supersticiosa, procurada pelos mathematici que profetizavam pelas estrelas e que"distribuíam os 12 signos celestes entre as partes da alma e do corpo e tentavam prever os nascimentos e características dos homens pelo curso das estrelas".4
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Apesar da estreiteza das definições de Isodore, as palavras latinas
astrologia e astronomia continuaram a ser usadas indiferentemente para ambos os assuntos.
Nas cópias dos trabalhos do historiador romano Plínio, estudiosos, como o monge inglês Bede, cerca de 673-735, conheceram a noção de que a Terra era uma esfera que orbitava o Sol, mas o peso da Igreja nascente pendeu em favor da idéia de que a Terra era um modelo em escala do Tabernáculo de Moisés. Esta ideia foi levada adiante alegoricamente por Clemente de Alexandria por volta do ano 200, mas passou a ser considerada literalmente.
Cosmas, um marinheiro mercante que se tornou monge, assumiu a idéia em meados do século VI. Em sua Topographica Christiana, declarou que a Terra era achatada e retangular, com um comprimento que era duas vezes a largura, e rodeada pelo oceano. Além do oceano havia uma segunda Terra, o lar original da humanidade até que Noé atravessou o oceano em sua Arca após o Dilúvio. Quatro paredes verticais se elevavam dos cantos externos da Terra sustentando o teto cilíndrico dos céus. O Sol desaparecia à noite por trás de uma alta montanha cônica ao Norte e as estrelas e os planetas eram transportados pelos anjos. Esta visão de mundo, tirada da Bíblia, ecoava fortemente as ideias da antiga Mesopotâmia.
O desaparecimento virtual da astrologia durante a Idade das Trevas foi causado tanto pela desaprovação da primeira Igreja cristã, quanto pela destruição da civilização romana pelos invasores germânicos. Os monges da Igreja celta na Irlanda, a luz do mundo ocidental na época, estavam em contato com a Igreja copta no Egito e devem ter tido alguma noção dos debates que ocorriam em Alexandria, até esta ser conquistada pelos árabes em 642.
Santo Agostinho e o Livre-Arbítrio
O argelino cristão Agostinho (d. 430) permaneceu como uma autoridade sem paralelo em toda a Idade Média, e seus trabalhos estavam entre os mais lidos. Em Confissões (397), ele registrou como na juventude "dedicava seu tempo aos livros de astrologia" e "não parava de consultar abertamente aqueles impostores chamados de astrólogos". Por causa da íntima associação entre a astrologia e a medicina, ele a princípio estudou astrologia e pretendia fazer carreira na área. Porém suas dúvidas cresceram e ele enfim ficou convencido do seu erro quando descobriu os destinos bem diferentes de duas crianças nascidas com precisamente o mesmo mapa natal: um próspero dono de terras tinha nascido no mesmo momento que um dos escravos do seu estado. Concluiu que os astrólogos acertavam "por acaso" e não por sua habilidade em inspecionar as estrelas.
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E então havia sempre a questão espinhosa do livre-arbítrio. Se a arte dos astrólogos era baseada na suposição de que os seres humanos eram moldados por forças além do seu controle, ele se perguntou, em uma de suas cartas, por que um astrólogo bateria em sua esposa? "Eu não me refiro à hipótese de ele a
encontrar em um comportamento impróprio, mas se ela estivesse há muito
tempo na janela? Ela não poderia alegar que não era culpa dela, mas sim de
Vênus?"5
No Livro V de A cidade de Deus, escrito vinte anos depois de Confissões, e após o saque de Roma em 410, Agostinho estabeleceu seu argumento mais ponderado contra a astrologia. Ele reconheceu que havia um amplo elo entre o "destino" e a influência das estrelas. Sabedor da discussão de Ptolomeu a respeito da importância relativa do momento da concepção e do momento do nascimento, Agostinho insistiu que nenhum dos dois podia ser medido com precisão.
Destacando a história bíblica de Esaú e Jacó, ele se voltou novamente para o caso de gêmeos. "Não é verdade", perguntou, "que a vontade daqueles que agora estão vivos muda os destinos decretados em seu nascimento, quando a ordem sob a qual eles nasceram muda os destinos decretados na sua concepção?" Os astrólogos poderiam argumentar que os Ascendentes de gêmeos são diferentes porque eles nascem em momentos diferentes, sob constelações diferentes. Mas se os Ascendentes são diferentes, Agostinho perguntou: "Onde está localizado esse poder que os leva a ter destinos diferentes?" "Como isso pode acontecer se as suas concepções não ocorreram em momentos diferentes?"6
Em um tratado contra "Fausto, o Maniqueu", cerca de 397-8, Agostinho argumentou: "Agora nós (em oposição aos maniqueus) não colocamos o nascimento de nenhum homem sob a lei fatal das estrelas, para que possamos afrouxar qualquer laço de necessidade de livre escolha da sua vontade, pela qual ele viverá bem ou mal, pelo bem do justo julgamento de Deus." Como este era o caso, a Estrela de Belém que os Magos viram quando Cristo nasceu não era "um senhor governando sua natividade, mas um servo dando testemunho dela". Então, "Cristo não nasceu porque ela brilhou, mas ela brilhou porque Cristo nasceu; portanto, se tivéssemos de falar dela, não deveríamos dizer que a estrela era o destino para o Cristo, mas que o Cristo era o destino para a estrela".7
A posição final de Agostinho sobre a astrologia encontrou eco nas eras
que se seguiram na Igreja Católica Romana: a astrologia é inegavelmente falsa. O que mais poderia explicar a sorte diferente de gêmeos que tinham o mesmo horóscopo? A concepção estóica do destino deve também estar errada, pois os anjos e os seres humanos possuem o livre-arbítrio. Deus pode saber que iremos pecar, mas nós não pecamos porque Ele já sabe. Pecamos por nosso livre-arbítrio como criaturas teimosas e decaídas.
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O Renascimento da Astrologia
O renascimento da astrologia na Europa ocidental foi iniciado pelo monge inglês Alcuin (735-804), que nasceu em York.8 Seu mestre foi Bede, aluno de Egbert. Após um encontro na década de 770 com o futuro Imperador Carlos Magno, fundador do Sagrado Império Romano, Alcuin concordou em se juntar a ele na Alemanha como seu tutor particular. Ele então prosseguiu para estabelecer a primeira grande escola medieval na Abadia de San Martim, próximo a Tours, onde entre outros assuntos ensinou astrologia. Ele provavelmente baseou seu curso no que conseguiu encontrar nos trabalhos de autores latinos sobre eclipses, cometas, planetas, fases lunares e outros fenômenos celestes. Alcuin citou o grande escritor africano Tertuliano: "A astrologia foi permitida somente até a época dos Evangelhos para que ninguém, após o aparecimento do Cristo, pudesse interpretar a natividade de alguém dos céus. Então os Magos ofereceram incenso, mirra e ouro ao Senhor Infante para marcar a passagem destas glórias e ritos do mundo, que o Cristo iria remover."9 O próprio Carlos Magno teve muito interesse pela astrologia e tinha um mapa dos céus feito sob a forma de uma "tabela celeste" em prata.
O primeiro "renascimento" que seguiu à restauração gradual do aprendizado na Europa foi totalmente em latim. Ele se iniciou nos séculos IX e X com a renovação das escolas nas catedrais. A astrologia se tornou uma "Arte Liberal", como parte do quadrivium. Apesar da ambivalência da Igreja ao aprendizado pagão, houve um interesse crescente no quadrivium em geral e na astrologia em particular no século XI e início do XII. Os estudiosos trabalharam com as antigas fontes latinas, e sua cosmologia veio principalmente de Macrobius, Boethius e do Timeu de Platão. Embora não estivesse satisfeita com o aprendizado pagão, e fosse consciente das restrições de Agostinho, a Igreja agora aceitava a astrologia desde que não ameaçasse a onipotência de Deus e o livre-arbítrio do homem.
Na época das Cruzadas, os estudiosos cristãos estavam totalmente conscientes da sua própria ignorância e da riqueza do aprendizado a ser adquirido dos seus inimigos muçulmanos. Ao escrever a respeito dos prognósticos da queda de Jerusalém em sua história da Primeira Cruzada, Guibert de Nogent observou, no século XII: "O conhecimento das estrelas é tão pobre e raro no Ocidente, como florescente por sua prática constante no Oriente, onde realmente se originou."10
Para compensar a deficiência, escritores enciclopédicos, como Hugh de St.
Victor (1097-1141), sentiram-se obrigados a explicar o significado da
astrologia a seus eruditos leitores.
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A diferença entre astronomia e astrologia é que a astronomia trata das
leis das estrelas e a astrologia é um discurso sobre as estrelas: nomos
significa lei e logos significa discurso. Parece então que a astronomia
trata das leis das estrelas e dos movimentos dos céus, as posições e os
círculos, os cursos e o nascer e ocaso das constelações e por que cada um
recebe este nome. A astrologia considera as estrelas em relação à
observação do nascimento e morte e todos os tipos de outros eventos, e é
parte natural e parte supersticiosa.11
A confusão entre nomos e logos, astronomia e astrologia, continuou, e o
termo astrologia foi utilizado para descrever os dois aspetos
complementares, teórico e prático, da mesma inquirição. A astrologia
enquanto horoscopia estava ligada por Hugh e outros à aruspicação e aos
augúrios entre as artes mágicas. Medicina, herbalismo, geomancia,
alquimia e astrologia estavam todos interligados naquela época. "Filosofia
natural" e "magia natural" eram termos para o estudo empírico da natureza.
Esta, revelava a mão de Deus, um livro que poderia ser lido por todos.
O interesse renovado pela astrologia criou uma demanda por textos
astrológicos. Aconteceu também que o despertar de uma mente européia
coincidiu com o florescimento da civilização moura na Espanha e na Sicília.
Foi lá que as traduções árabe e hebraica dos clássicos gregos e os trabalhos
muçulmanos originais sobre a astrologia foram encontrados. A primeira
pessoa a traduzir um desses trabalhos para o latim foi Lupitus de
Barcelona. Ele foi contratado em 984 por Gerbert d'Aurillac, conhecido
estudioso e o futuro Papa Silvestre II (999-1003). Educado na Espanha,
Gerbert foi o primeiro a descobrir o Mathesis de Julius Firmicus Maternus.
Em Roma, ele converteu parte do Palácio Luterano em observatório e houve
rumores de que era um mago. [É bem possível que Gerbert tenha escrito o
primeiro livro europeu sobre astrologia, o Liber de Planetis et Mundi
Climatibus, publicado no início do século XI.]
No século XII o gotejar de trabalhos tornou-se um regato. Um crescente
número de traduções do árabe estava circulando pela Europa. Estudiosos
cristãos do Noroeste viajavam para os centros muçulmanos de aprendizado
na Espanha e na Sicília em busca dos textos gregos e árabes. Para o
desenvolvimento da astrologia européia, as traduções-chave chegaram
rápidas e furiosas: em 1120-30, Adelard de Barth traduziu as Tabelas de Al-
Khwarizmi; em 1136, Hugh de Santalla trouxe à luz o Centiloquium (uma
coleção de uma centena de aforismos astrológicos); e em 1140 Hermann de
Coríntia traduziu o Introductorium de Abu Ma'shar, que se tornou a fonte
árabe mais amplamente utilizada. Ptolomeu logo foi redescoberto: Platão de
Tivoli traduziu o seu Tetrabiblos em 1138, e o prolífico tradutor Gerard de
Cremona produziu uma versão do seu Almagest a partir do árabe em Toledo
em 1175.
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Instrumentos e Tabelas
Por volta do fim do século XII, os principais textos astrológicos da
Antigüidade estavam disponíveis na Europa. A teoria da astrologia estava
sendo construída sobre uma base firme. O necessário então eram alguns
instrumentos e tabelas confiáveis.
A arte de montagem do calendário, e especialmente a data da Páscoa, era
essencial para o ano litúrgico e agrícola — no campo e na Igreja. Embora não
se saiba que ele tenha escrito sobre astrologia, Bede era a autoridade
principal no que era conhecido como computus — isto é, a computação ou
cálculo do calendário, em particular a data da Páscoa.
Não havia almanaques ou calendários. Havia ampulhetas e velas com
marcações e até alguns relógios de água (clepsidras), mas estes não podiam
dizer "por quanto tempo" (como um timer de cozinha) nem "quando" (como um
relógio moderno). Sem relógios e calendários, as pessoas calculavam o tempo
pelas posições do Sol e da Lua. Então Chaucer em seu Prólogo para os Contos
de Canterbury pôde dizer que abril chegara com "suas bebidas curtidas"
porque "o jovem Sonne teve no Carneiro a metade da sua parte". E como ele
pôde afirmar isso? Olhando para o relógio de sol zodiacal em uma igreja ou
prefeitura, como ainda pode ser visto na Antiga Corte do Queen's College, em
Cambridge, na Prefeitura de Praga ou na parede do Observatório Real em
Greenwich. O relógio de sol no Queen's College também é lunar, e foi pintado
em 1733 para substituir um mostrador anterior que estava lá desde 1642.12
Estes relógios de sol datam pelo menos do século II a.C. e foram
amplamente utilizados pelos gregos e pelos romanos. O princípio do relógio de
sol era conhecido pelos chineses desde 2500 a.C. O ângulo do braço em
relação ao horizonte deve ser o mesmo da latitude no qual o mostrador está
disposto. Para saber o tempo pelo relógio lunar é necessário saber a posição
angular da Lua em relação ao Sol. O signo do zodíaco pode ser lido no
mostrador do Queen's College, observando-se a posição da sombra nas curvas
de cor verde. Um verso antigo era utilizado para ajudar a memória:
O Carneiro, o Touro, os Gêmeos Celestes,
E depois o Caranguejo, brilha o Leão,
A Virgem e a Balança,
O Escorpião, o Arqueiro e a Cabra,
O Homem que verte o Pote de Água,
E o Peixe com escamas prateadas.
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A sombra do Sol ao meio-dia diria onde o Sol estava no zodíaco. Mas, e a
hora? Isto poderia ser lido pelo modo como a sombra caía sobre o mostrador
durante o dia, e pelas posições das estrelas à noite. A partir do século XII o
zodíaco apareceu em incontáveis "Livros das Horas", que continham um
calendário das datas e horas das festas e das orações, e também dos salmos
e das preces. Eles foram usados pelos clérigos e pelos leigos por toda a
Europa.
O instrumento mais importante para o desenvolvimento independente
da astronomia e da astrologia na Europa foi o astrolábio, que foi adquirido
dos árabes no século XII. Eles, por sua vez, o tinham conseguido com os
gregos. O astrolábio possibilitou a projeção da esfera observada dos céus
sobre um plano. Era essencial para montar as tabelas dos corpos celestes,
para observá-los e para descobrir a hora, as latitudes, altitudes e distâncias. Quanto ao horóscopo, ele fornecia observações precisas dos céus
no momento do nascimento.
Combinado com as tabelas, ele possibilitava ao astrólogo encontrar a posição do Ascendente e dividir o mapa nas 12 Casas.
Tabelas precisas eram essenciais. Em seu reino recentemente reconquistado dos mouros na Espanha, Alfonso X (1252-1284), rei de Castela e Leão, reuniu estudiosos muçulmanos, judeus e cristãos para montar e codificar os dados astronômicos existentes. O resultado, as Tabelas alfonsinas, permaneceu como trabalho padrão na Europa até ser revisto por Copérnico no século XVI.
Especialistas Medievais
Quase todos os estudiosos medievais que se interessaram pela astrologia
eram homens ligados de alguma maneira à Igreja. Por isso tinham de se
adaptar à atitude mantida por ela em relação a esta área de conhecimento.
A primeira Igreja cristã lutava contra o que considerava uma idolatria
paga e superstição. No século XII, Aristóteles se uniu a Platão como um
filósofo respeitado, e pelos próximos duzentos anos a filosofia dos eruditos
na Europa foi primordialmente aristotélica. A astrologia era aceita como
parte da ciência juntamente com a alquimia e a medicina. Entretanto,
como já vimos, a Igreja tinha um problema com seu determinismo implícito
que parecia contaminar a doutrina cristã do livre-arbítrio e da
responsabilidade moral. A formação física de uma pessoa poderia ser
determinada pelas influências celestes, mas não sua consciência e sua
vontade. Em 1277 o Bispo Estevão Tempier de Paris editou uma lista de
219 proposições heréticas, seis das quais claramente ligadas à astrologia:
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143 Quanto aos diferentes signos nos céus, eles significamcondições diferentes nos homens quanto aos seus dons
espirituais e seus assuntos temporais.
161 Que os efeitos das estrelas sobre o livre-arbítrio estão escondidos.
162 Que nossa vontade está sujeita ao poder dos corpos celestes.
195 Que o destino, que é uma disposição universal, procede da
divina providência não imediatamente, mas por mediação do
movimento dos corpos celestes...
206 Que ninguém atribua a saúde e a doença, vida e morte, à
disposição das estrelas e ao aspecto da fortuna, dizendo que se
a fortuna lhe estiver bem aspectada, ele viverá, e, caso
contrário, ele morrerá.
207 Que na hora da procriação de um homem em seu corpo e
conseqüentemente em sua alma, que segue o corpo, pela
ordem das causas superior e inferior, existe no homem uma
disposição que inclui tais e tais atos e eventos. Isto é um erro,
a menos que seja entendido como "eventos naturais" e "por
meio de uma disposição".13
Em uma carta em 1272, Berthold de Regensburg resumiu a atitude típica de
um clérigo em relação a astrologia: "Assim como Deus deu poder às pedras e
ervas e às palavras, deu também poder às estrelas, que elas tenham o poder
sobre todas as coisas, exceto sobre uma (...) É o livre-arbítrio do homem: sobre
o qual nenhum homem tem autoridade, exceto ele mesmo."14
A astrologia foi aceita, embora com algumas reservas, pelas maiores
mentes medievais conhecidas como os "Escolásticos". Sua filosofia os predispôs
a aceitar a influência dos corpos celestes, porém o cristianismo, com sua ênfase
na onipotência de Deus e no livre-arbítrio, abafou seu entusiasmo.
Robert Grosseteste, bispo de Lincoln de 1235 a 1253, cuja diocese incluía a
Universidade de Oxford, foi um grande estudioso que não só aprovou a
astrometeorologia (previsão do tempo atmosférico segundo o estado dos céus),
como usou a astrologia tanto na alquimia quanto na medicina. Em um dos seus
primeiros livros, Sobre as artes liberais, escreveu: "A filosofia natural precisa
da assistência da astronomia mais do que as outras, pois não existe sequer um,
ou somente poucos, trabalho nosso ou da natureza, como por exemplo a
propagação das plantas, a transmutação dos minerais, a cura das doenças, que
pode ser retirado do alcance da astronomia. Pois a natureza inferior (natura
inferior) não tem efeito, a menos que o poder celeste a modifique e a direcione
340 * Peter Marshall
da potência para o agir."15 Grosseteste notou que os termos astronomia e
astrologia ainda eram utilizados indiferentemente. Ao mesmo tempo, ele
acabou rejeitando a astrologia imparcial e insistiu que o livre-arbítrio não
estava subjugado às estrelas, mas somente a Deus.
Outros grandes pensadores medievais aceitaram a astrologia tanto quanto
aceitaram a alquimia. Na verdade, eles acreditaram que a primeira era
necessária para calcular o momento correto para os experimentos da última.
Influenciado pelo renascimento do interesse em Aristóteles, que havia
enfatizado a importância do método científico na busca do conhecimento, o
filósofo inglês Roger Bacon (1214-1294), algumas vezes chamado de o
primeiro cientista europeu, destacou a importância da experiência e da
observação. Ele tentou romper num aspecto com Ptolomeu ao afirmar que a
Terra não era o centro da criação, mas um pequeno planeta em um vasto
universo. Bacon foi também um hábil astrólogo e aceitou totalmente o
horóscopo das religiões, reproduzindo virtualmente as palavras de Abu
Ma'shar na carta: "Os filósofos querem que Jove (Júpiter), em sua conjunção
com outros planetas, signifique religião e fé." Como havia seis planetas, havia
seis religiões principais: Júpiter com Saturno originou o judaísmo; com
Marte, a "lei" caldaica; com o Sol, a "lei" egípcia; com Vênus, a "lei" dos
sarracenos, que era "amante dos prazeres e da lascívia"; com Mercúrio, o
cristianismo, "até que, finalmente, a 'lei' da Lua viria para perturbá-lo e esta
seria a seita do anti-Cristo".16
Na parte IV, do seu Opus Maius, Bacon definiu a astronomia como a
"astrologia prática" e prosseguiu para explicar as ambigüidades do termo
"Casa" e as diferenças entre o zodíaco "fixo" utilizado pelos astrólogos, com
suas divisões de 30° a partir do "primeiro ponto de Áries", e o zodíaco móvel,
causado pela precessão dos equinócios. Sem dúvida relembrando suas fontes
árabes, ele definiu as mansões lunares como "o espaço do zodíaco que a Lua
atravessa em um dia" e apontou sua utilidade na previsão do tempo
atmosférico e para o trabalho com os dias críticos na medicina. No Secretum
Secretorum, seu trabalho sobre alquimia, Bacon reconheceu também o elo
entre a geomancia e a astrologia. Admirou também o matemático Campanus
de Novara (d. 1296), a quem mais tarde foi atribuído um novo método de
divisão dos céus em 12 Casas.
Alberto Magno, cerca de 1193-1280, um monge dominicano de Colônia, e
uma das maiores mentes da sua época, endossou totalmente tanto a
astrologia quanto a alquimia. Ele leu Firmicus Maternus e Abu Ma'shar, e
recomendou o Almagest e o Quadripartitum (Tetrabiblos) de Ptolomeu.
Aprovou a astrologia na medicina, especialmente por selecionar momentos
apropriados. Recomendou até a gravação de pedras com imagens astrológicas
para acelerar os processos naturais. Não tinha certeza quanto a possibilidade
de prever o futuro das vidas humanas individuais e acreditava que Jesus
havia escapado inteiramente à influência das estrelas.
A astrologia no mundo * 341
Seu discípulo mais conhecido foi Tomás de Aquino (1227-1274), que tentou
reconciliar o novo aristotelismo com a fé católica em sua celebrada Summa
Theologia. A posição de Aquino era típica dos professores mais ponderados: o
corpo era influenciado pelas estrelas, mas a razão e a vontade, não. "Os
astrólogos, em muitas coisas, podem fazer previsões verdadeiras, e isto
especialmente em termos gerais; contudo, não em particular, pois nada impede
que o homem resista às suas paixões por seu livre-arbítrio. Portanto, os
próprios astrólogos dizem que 'o homem sábio é mestre das estrelas' (sapiens
homo dominatur astris), visto que ele é o mestre das suas paixões."17 A frase
tornou-se um lugar-comum na literatura astrológica medieval da época. O
argumento de Aquino de que a razão é boa desde que seja mantida dentro dos
confinamentos da fé também se tornou o dogma fundamental da Igreja em
relação à ciência.
Graças à aceitação quase universal da física de Aristóteles, não surpreende
que ele aceitasse a astrologia "geral" ou "natural" — isto é, a importância das
influências celestes na meteorologia, medicina e alquimia. Aristóteles tornou a
astrologia reconciliável com o cristianismo ao negar que os planetas eram
deuses vivos; eram, sim, estágios pelos quais a inteligência criativa passava
vinda das estrelas fixas para a Terra. Aquino foi então capaz de afirmar que,
embora as estrelas regessem o corpo (propriedade da esfera sublunar), Deus
regia a alma (propriedade dos céus). A partir desta distinção emergiu a visão
de que a astrologia mundana (voltada para os eventos do mundo) era mais
determinada ou "destinada" que a astrologia natal (que trata dos assuntos da
alma e do livre-arbítrio). Aquino argumentou que como os grupos eram mais
inclinados às suas paixões do que os indivíduos, eles eram mais suscetíveis à
influência das estrelas.
O grande médico e alquimista espanhol Arnaldo de Villanova (d. 1313) era
um adepto fervoroso da influência das estrelas na doença e na saúde. Seus
trabalhos foram divididos em Medica e Exótica, com a última subdividida em
Chymica, Astronômica e Theologica. Reivindicou que Hipócrates enfatizara
que a astrologia era uma parte importante da medicina. Na verdade, as
ciências gêmeas e interligadas da medicina e da astrologia eram ambas
necessárias ao médico. Os astrólogos podiam aconselhar sobre as melhores
épocas para as operações e a colheita e o uso das ervas. Típico da sua
interpretação, que sem dúvida apressava a recuperação do paciente, era o
julgamento: "Se o Ascendente estiver em um signo 'obile' e a Lua no mesmo
tipo de signo — a saber Áries, Câncer, Libra ou Capricórnio — e o Regente do
Ascendente da mesma forma, a doença será rapidamente superada, para o bem
ou para o mal." Contudo, Villanova deixou claro que as influências celestes
necessariamente não determinavam, mas dispunham e se familiarizavam com
todas as coisas no reino sublunar. Como Aquino, ele acreditava que os seres
humanos, com sua razão e livre-arbítrio, poderiam superar a influência dos
céus sobre suas paixões: "o homem sábio dominará as estrelas com sua
racionalidade" (vir sapiens dominabitur astris sua rationabilitate).u
342 * Peter Marshall
Dante em seu Inferno (Canto XX. 118) mencionou Michael Scot, "que
conheceu verdadeiramente o jogo das fraudes mágicas". Nascido
provavelmente na Escócia no fim do século XII, ele se tornou um estudioso
do hebraico e do árabe e também profundamente versado no aprendizado do
latim. Por volta da década de 1220, ele era conhecido o suficiente para lhe
ser oferecido o arcebispado de Cashel, do qual declinou por não conhecer o
irlandês. Em vez disso, desceu para a Sicília, recentemente retomada pelos
mouros, e tornou-se astrologus da corte de Frederico II, um grande diletante
das ciências ocultas. Em 1235, Frederico se casou com Isabela, irmã de
Henrique III da Inglaterra, mas, como registrou Matthew Paris, "ele se
recusou a conhecê-la carnalmente até que a hora propícia fosse determinada
pelos astrólogos".
Enquanto era empregado de Frederico, Michael Scot escreveu vários
trabalhos sobre astrologia, incluindo o amplamente aceito Liber
Introductorius, destinado a "iniciantes e àqueles não prejudicados pela
inteligência". O horologium (provavelmente um relógio de sol) e o astrolábio
(utilizado à noite), ele escreveu, eram essenciais para estabelecer a hora e o
Ascendente e para calcular as Casas. Fez descrições das constelações e dos
planetas, e também um relato sobre as casas planetárias e as casas
mundanas. Incluiu os nodos da Lua, caput draconis (cabeça do dragão) e a
cauda draconis (cauda do dragão) na listas dos planetas. As mansões
lunares também são mencionadas. Bem ilustrado e detalhado, seu trabalho
oferece um bom resumo da astrologia medieval.
Três linhas após a referência a Michael Scot em O inferno, Dante
menciona o astrólogo italiano Guido Bonatti (a. 1210). Ele está entre os
adivinhos que estão sendo punidos por tentarem perscrutar o futuro (que
pertence somente a Deus), com suas cabeças voltadas para trás sobre seus
próprios ombros para fazê-los ver o passado. Contudo, Bonatti confirma o
importante elo entre a astrologia e a medicina na Idade Média, pois seu
nome aparece em uma lista de professores na Universidade de Bolonha, uma
das escolas de medicina mais antigas na Europa. O professor de astrologia
ensinou num curso de quatro anos que os estudantes de medicina eram
obrigados a freqüentar. O tratado de 12 livros de Bonatti, De Astronomia
{astrologia e astronomia ainda eram usados indiferentemente) resumia o
assunto na época, incluindo as "revoluções" (progressões) e predestinações.
Continha também a confusão comum sobre a divisão das Casas. O seu Liber
Astronomicus era considerado como um trabalho suficientemente clássico
por Henrique VII da Inglaterra para merecer uma edição de luxo em sua
biblioteca duzentos anos mais tarde.
Como vários astrólogos, Bonatti prestava serviços a alguém — no seu
caso, o nobre italiano Guido de Montefeltro. A história diz que ele deveria
montar uma torre na praça em Forli com seus livros e o astrolábio para
decidir o momento em que seu patrão deveria marchar com seu exército
contra seus inimigos.
A astrologia no mundo * 343
Não é certo que o contemporâneo de Bonatti, Campanus de Novara,
realmente desenvolveu o método de divisão das Casas que se tornou
associado ao seu nome. O método imaginava um grande círculo passando
pelo zênite (o ponto imediatamente acima da cabeça do observador na Terra),
formando ângulos retos com o meridiano. Este círculo e o meridiano cortam a
esfera usada no horóscopo em quatro quadrantes, divididos então cada um
em três por círculos que se interceptavam nos pontos Norte e Sul do
horizonte. Como resultado, os pontos de início (cúspides) das Casas desiguais
eram os graus da eclíptica cortada por estes círculos.
A Mestria das Estrelas
Por volta do século XIV, papas, bispos, reis e príncipes, todos tinham seus
astrólogos. Quando a Peste Negra chegou à Europa em 1347 e a dominou por
três anos, muitos acreditaram que era o resultado das configurações dos
planetas na época. A Faculdade Médica da Universidade de Paris registrou
para o rei em 1348:
A 20 de março de 1345, à uma hora da tarde, ocorreu uma conjunção de
Saturno, Júpiter e Marte na casa de Aquário. A conjunção de Saturno e
Júpiter causou notoriamente a morte e o desastre, enquanto a conjunção
de Marte e Júpiter espalhou a pestilência no ar (Júpiter, sendo quente e
úmido, calcula-se que tenha lançado vapores malignos da terra e da
água, que Marte, quente e seco, então acendeu em um fogo infectante).
Obviamente, a conjunção dos três planetas só poderia significar uma
epidemia em escala cataclísmica.19
Entretanto, o crescente interesse na astrologia nem sempre protegia
pessoalmente os astrólogos da raiva da Igreja, se eles ultrapassassem o
limite. Cecco d'Ascoli, astrólogo e alquimista na corte de Florença que fazia
conferências em Bolonha, foi queimado na fogueira como herege em 16 de
setembro de 1327 por levantar o horóscopo de Cristo e deduzir o aspecto
inevitável da crucificação. Sua heresia foi primordialmente pelo seu trabalho
sobre necromancia, mas ele também aplicou sua astrologia à vinda do anti-
Cristo e ao fim do mundo, que foi demais para o Vaticano. D'Ascoli
acreditava que a astrologia era o modo mais confiável de conhecer o futuro —
melhor que a magia e a divinação — e que ela tornava o homem divino como
os anjos. Ela até ajudava o médico a curar as causas e conseqü.ncias de uma
doença mesmo sem ver o paciente!
Embora a Idade Média tenha se iniciado com a ausência virtual da
astrologia no Ocidente, ela acabou sendo aceita amplamente, apesar de
algumas restrições. A primeira
344 * Peter Marshall
metade do século V foi a grande era do ilustrado "Livro das Horas". Um dos
melhores é o Três riches heures, do Duque de Berry, que muitas vezes é
utilizado para ilustrar os livros modernos de astrologia. Embora
primordialmente voltado para o calendário, ele contém uma bela
representação do "homem zodiacal" inspirado pela astrologia médica.
Os signos do zodíaco também estavam nos vitrais de igrejas e catedrais.
Eram talhados na madeira e na pedra em arcos, tímpanos e misericórdias.
Em Vézélay, eles envolvem a figura do Cristo no tímpano acima da porta
central. Novamente, a intenção maior era mostrar o Cristo, como Mitras
antes dele, como Senhor do Tempo, porém as associações astrológicas não
passavam despercebidas por aqueles que as conheciam.
No século XV, os Papas Pio II, Sisto IV e Alexandre VI tiveram grande
interesse na astrologia. O Papa Sisto IV pediu a Regiomontanus (Johann
Muller, 1436-1476), autor das tabelas astrológicas conhecidas como
Efemérides e ligado à corte do rei da Hungria, que reformasse o calendário.
Ele não somente antecipou as descobertas de Copérnico, como inventou
uma nova maneira de dividir o céu em Casas desiguais que é utilizado
ainda hoje. O seu novo sistema de Casas dividiu o quadrante entre o
horizonte e o meridiano. Ele marcou 12 círculos que representavam as
Casas ao longo do equador celeste. As cúspides eram então indicadas pelos
graus da eclíptica cortada por esses círculos.
Contudo, a aceitação da Igreja permaneceu restrita. O Bispo Nicole
Oresme (1320-1382), que tinha ensinado teologia em Paris, permaneceu
tipicamente cauteloso. Escreveu um pequeno trabalho em latim, Tractatus
Contra Judiciários Astrônomos, que foi ampliado para um trabalho em
francês chamado Livre de divinacions (1361-1365). Em um de seus casos
deturpados, ele mistura astrologia com parricídio, porém, pelo menos
reconhece a importância do Egito em suas origens: "Nectanebus, rei do
Egito, entrou à força na Macedônia com 14 nações em rebelião e mais tarde
quis ensinar astrologia ao Rei Alexandre que, dizem, era seu filho.
Alexandre deu-lhe um soco e ele caiu e quebrou o pescoço. Por isso teria
melhor servido a ele ter olhado para a Terra e não para o céu."20
Embora Oresme aprovasse com restrições os eventos que derivavam das
principais conjunções e os prognósticos médicos, ele argumentava que a
parte que pertencia à "sorte", e mais especificamente aos aniversários, não
era confiável. Em si mesma, "ela não está além do conhecimento no que diz
respeito à questão do caráter e inclinação de uma pessoa nascida em
determinado momento, e não é possível saber a sorte e as coisas que podem
estar por trás da vontade humana".21 Trata-se da antiga advertência: a
astrologia é aceitável desde que não interfira na vontade e na onipotência
de Deus. Era aceitável desde que se importasse somente com os eventos
ocorridos no céu, sem quaisquer relações com a Terra. Então: Sapiens homo
dominabitur astris — o homem sábio será mestre das estrelas.
31
Renascimento
A astrologia é o mais elevado dos ramos do conhecimento porque trata das
coisas celestes e do futuro, cujo conhecimento é não somente divino, mas
também muito útil.
GlROLAMO CARDANO
O PALÁCIO DE UFFIZI EM FLORENÇA ESTÁ PENDURADO UM MAGNÍFICO QUADRO DE
Botticelli chamado Minerva ou Primavera. Na gruta escura de cor
laranja, com o chão coberto de flores, Zéfiro persegue e agarra Flora,
que tem flores saindo de sua boca. Flora é transformada por Zéfiro em
uma Hora da Primavera grávida, cuja veste diáfana é bordada com flores.
Uma Vênus pensativa está entre eles. À esquerda, as três Graças dançam de
mãos dadas.
O quadro inteiro forma uma alegoria brilhantemente executada, uma
celebração do poder da natureza e dos mitos antigos. Porém a figura mais
enigmática e poderosa está à direita. Com sandálias aladas, ele volta as costas
para as Graças e aponta a mão direita, que segura um caduceu para os céus,
lembrando-nos de nossas origens e destinos celestes. Ele é Mercúrio, o deus
romano dos viajantes; ele é Hermes, o mensageiro grego dos deuses; ele é
Thoth, o deus egípcio da sabedoria. No coração da Renascença, no coração da
cristandade, o antigo pai da astrologia detém o controle.
É costume dizer que a Renascença teve início com a descoberta do antigo
aprendizado, após a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453.
Porém, como vimos, as obras gregas e romanas de filosofia e ciência se
infiltraram por séculos na Europa a partir das traduções árabes. Desde o
século XIV havia um movimento em marcha que finalmente conduziria à
separação da teologia e da filosofia e da metafísica e da ciência na chamada
Revolução Científica dos séculos XVI e XVII. A astrologia, unindo ambas as
tradições, foi inevitavelmente capturada no torvelinho intelectual.
N
346 * Peter Marshall
No século XV na Europa, os horóscopos das crianças de família abastadas
eram levantados como questão obrigatória. A astrologia também interessava
aos novos literatos. Um bom exemplo do crescimento da literatura
astrológica é o Kalendar and Compost of Shepherds. Impresso em Paris em
1493 e em Londres em uma tradução para o inglês em 1506, somente meio
século mais tarde após ter sido inventada a arte da imprensa, o trabalho
contém xilogravuras maravilhosas. Um bom resumo da tradição astrológica
medieval foi colocado na boca dos pastores, incluindo os versos traduzidos
por volta de 1518:
Saturno é o mais elevado e mais frio sendo totalmente mau,
E Marte com sua espada sangrenta, sempre pronto para matar;
Júpiter muito benéfico, e Vênus faz os amantes felizes,
Mercúrio é bom, e verdadeiramente maléfico.1
Marsilio Ficino e os Raios Estelares
Embora não fosse novidade, houve sem dúvida uma nova onda de interesse
durante o Renascimento a respeito da antiga Grécia e Egito, especialmente
na Itália. Os estudiosos italianos procuraram no estoicismo a noção da
simpatia cósmica, no neoplatonismo a crença na imortalidade da alma e nos
pitagóricos a Harmonia das Esferas e a numerologia sagrada. O notável
intelectual Marsilio Ficino (1433-1499) apegou-se a esta tradição. Sob a
proteção de Lorenzo de Mediei em Florença, a quem dava conselhos
astrológicos, Ficino montou uma escola baseada no modelo da Academia de
Platão, que inspirou o quadro de Rafael A Escola de Atenas, no Vaticano.
Como os filósofos platônicos, ele acreditou que "a alma do mundo por motivo
pessoal havia concebido formas além das estrelas no céu. Elas possuíam a
mesma substância da qual as próprias estrelas eram formadas, e a alma do
mundo imprimira suas propriedades em todas elas. Cada tipo de criação
inferior, com suas propriedades, está contido nas estrelas, nas formas, nas
partes e em suas propriedades".2
Ficino estava traduzindo um trabalho de Platão quando Mediei lhe pediu
que olhasse um texto em grego recentemente descoberto. Fascinado por este
novo documento, Ficino deixou de lado o texto de Platão e pegou a pena para
traduzir o Corpus Hermeticum, que estava circulando com o latino Asclepius.
A antiga sabedoria do Egito estava emergindo novamente no centro da
cristandade. Para Ficino, os escritos herméticos não somente pareciam de
acordo com o cristianismo, como confirmavam sua visão da dignidade do
homem.
A astrologia no mundo * 347
Ficino era profundamente interessado em astrologia, e suas leituras
incluíam Abu Ma'shar, o Centiloquium, Bonatti, Campanus e Ptolomeu entre
outros. Manilius tinha sido redescoberto em 1416 e o trabalho de Firmicus
Maternus também estava disponível. Quando jovem, Ficino tinha questionado
as reivindicações da astrologia divinatória no trabalho não terminado
Disputatio Contra Iudicum Astrologorum, porém em seu trabalho posterior
expressou algumas apreensões a respeito da influência dos céus sobre os
eventos físicos na Terra. Foi, entretanto, a iatromathematica — a medicina
astrológica — que mais o atraiu, pois expressava a crença hermética na
correspondência entre o céu e a Terra e a visão do homem como microcosmo
do universo. Ele afirmou: "Se Galeno é o médico do corpo, então Platão é o
médico da alma."3
"Se você valoriza sua vida, tomará remédios aprovados pelos céus.
Confirmado com certeza por apoio celeste", escreveu Ficino em 1489. Ele
acreditou que uma composição particular de ervas e vapores feita primeiro
pelas artes da medicina e depois pelos astrólogos produziria "uma combinação
— uma harmonia por assim dizer — dotada das propriedades das estrelas".4
Em sua Theologica Platônica, escrita em 1486, Ficino seguiu seu "divino
Platão" e apresentou o universo como um organismo gigantesco, vibrante, no
qual as estrelas eram a fonte das forças ativas na matéria, plantas e animais.
Jove, a única alma de toda a criação, "colocava as almas que partilhavam a
inteligência nas partes mais puras das esferas, isto é, as estrelas e os
planetas, que eram também chamados de deuses. Nas regiões ígneas ele
colocou os demônios e os heróis do fogo. No ar puro, os espíritos aéreos; no ar
obscuro, demônios e heróis aquáticos". O todo se encontrava unido por uma
grande Cadeia de Seres: "Todas as inteligências (...) estão tão interligadas
que, começando com Deus que é o cabeça, elas prosseguem em uma cadeia
longa e ininterrupta, e todos os seres superiores lançam seus raios para baixo
até os inferiores."5
Ficino era músico, cantor e tocava lira. Lembrando-se da antiga doutrina
da Harmonia das Esferas, ele argumentou que as estrelas e os planetas
forneciam uma harmonia celeste, cujas partes podiam ser incorporadas na
música: "Então, a partir dos tons escolhidos de acordo com o comportamento
padrão das estrelas, e depois dos tons combinados para produzir a harmonia
entre estas mesmas estrelas, surgiu um padrão comum e deste padrão
emerge um tipo de poder celestial." Como era de se esperar, ele atribuiu sons
tristes e melancólicos a Saturno, dissonantes e ameaçadores a Marte. As
harmonias de Júpiter, pelo contrário, eram melodiosas e alegres, e as canções
atribuídas a Vênus passavam um prazer sensual por serem "devassas e
lânguidas". Mercúrio, leve e vigoroso, situava-se entre os extremos.6 Essas
composições eram essenciais para a condução de cerimônias mágicas. Mais
tarde encontraram sua expressão suprema no magnífico trabalho de Holst,
Os planetas.
348 * Peter Marshall
Como os corpos celestes influenciavam os eventos na Terra? Ficino
acreditava que as estrelas emitiam raios que penetravam na matéria e
imprimiam características sobre as coisas que tocavam ou atravessavam. Em
seu Liber de Vita (1489) escreveu: "A imensa extensão dos céus, seu poder e
seu movimento significam que cada raio de cada estrela penetra na massa da
Terra (que é como uma insignificância no céu), e em um momento e com a
maior facilidade percorrem seu caminho até o centro." Baseou sua caixa de
magia talismânica nisto: se os raios estelares penetravam em toda a Terra,
eles também penetravam nos metais e nas pedras preciosas quando gravadas
com imagens deles, que então conservavam seu poder. O poder celestial podia
então ser conduzido e canalizado para talismãs, palavras e canções. Por
exemplo: "Para lutar contra uma febre esculpe-se Mercúrio em mármore, na
hora de Mercúrio, quando ele está ascendendo na forma de um homem que
segura flechas."7 E por intermédio de qual veículo as propriedades dos corpos
celestes nos afetavam? Elas entravam em nosso corpo via nosso espírito.
Condizente com suas simpatias neoplatônicas e herméticas, Ficino
pensava que quanto mais transformássemos o corporal em espiritual, mais
poderíamos escapar das influências físicas dos corpos celestes: "A força do
destino não penetra na mente, a menos que a mente esteja de acordo e tenha
primeiro submergido no corpo, que está sujeito ao Destino (...) Cada alma
deve se afastar do empecilho do corpo e tornar-se centrada na mente, pois
então o destino descarregará sua força sobre o corpo sem tocar a alma."8
Pico e a Dignidade do Homem
Outro erudito destacado na Renascença italiana, o Conde Giovanni Pico delia
Mirandola (1463-1494) trilhou um caminho diferente. Morreu com trinta anos
em 1494, porém em sua curta vida ficou conhecido pelo seu nascimento nobre,
herdou riquezas e uma boa aparência, e também pelo seu intelecto penetrante. Ainda jovem, dominou o árabe e o hebraico e mergulhou na Cabala. Apareceu em Roma em 1486 e anunciou publicamente cerca de novecentas teses que tratavam de lógica, matemática, física e teologia, que propôs defender contra todos os que se apresentassem. Apesar de seu berço aristocrático, ele se tornou amigo de Girolamo Savonarola, o tormento da decadência florentina. Pico é mais conhecido pelo seu Discurso sobre a dignidade do homem, no qual definiu o homem não somente como um microcosmo do universo, mas como o magnum miraculum (o grande milagre).
Após descobrir a Cabala, Pico tentou usar a tradição mística para apoiar o
cristianismo, uma tentativa condenada pelo Papa Inocêncio VIII.
349
Sempre em busca de umacontrovérsia, em uma época na qual os astrólogos estavam em moda na corte, ele lançou uma reação contrária em 12 livros, Disputaciones Adversus Astrologiam Divinatricem, que dedicou ao papa.
Entretanto, o celebrado ataque de Pico não visava todos os aspectos da
astrologia. Como Aquino, ele fez uma distinção entre a astrologia natural e a
judiciária, e desejava limpar a verdadeira astrologia e magia de seus
acréscimos supersticiosos. Embora não se referisse a ela em seu tratado, ele
teria aceitado com reservas a astrologia "física" ou "natural", que previa os
fenômenos naturais como marés e eclipses. Foi a "astrologia divinatória" que
ele atacou, o tipo de astrologia judicial que buscava prever fatos através das
estrelas: mapas natais, progressões, eleições e interrogações. Além de
enfatizar os desacordos entre astrólogos, a principal investida do ataque de
Pico era que "o astrólogo consulta signos que não são signos e examina causas
que não são causas".9 Destacou que os astrólogos eram incapazes de
estabelecer as divisões em minutos do zodíaco e que basear uma progressão
no princípio de "um grau por ano" era um absurdo. Não conseguia
compreender por que as diferentes regiões do céu deveriam produzir efeitos
diferentes na Terra. Quanto às "grandes conjunções", os raios estelares
poderiam afetar as coisas abaixo, mas como poderia haver a possibilidade de
afetarem uns aos outros? Como não podiam, os aspectos entre os planetas não
tinham significados. Resumindo, se os astrólogos não conseguiam distinguir
os fatos maiores, como poderiam confiar nos menores?
Pico focalizou ainda os desacordos entre os astrólogos quanto à divisão das
Casas (Campanus contra Regiomontanus), a importância relativa da
concepção e do nascimento (mencionada por Ptolomeu) e as diferentes
influências das estrelas fixas. Levantou a questão da possível influência de
planetas desconhecidos. Observou que a precessão dos equinócios significava
que "o primeiro grau de Áries" não estava mais em Áries, o que era motivo de
escárnio do zodíaco fixo usado pela maioria dos astrólogos. Então, havia o
problema das tabelas imprecisas e a dificuldade de afirmar com certeza "a
hora do início" e a condição exata dos céus no momento. Finalmente, admitiu
que algumas vezes os astrólogos prediziam o que de fato acontecia. "Mas como
boa parte das previsões não acontece", perguntou, "por que não poderíamos
pensar que as previsões aconteciam por acaso? (...) quase sempre as linhas da
mão, as marcas da geomancia e a posição dos planetas, não vão dizer a ele a
mesma coisa."10
A principal preocupação de Pico era restaurar a liberdade da vontade e a
autonomia da mente. Ele buscou separar a astrologia da medicina e voltar
esta última para a ciência. Acima de tudo, desejou reformar a filosofia
erradicando a astrologia desenvolvida pelos caldeus e egípcios como uma
concepção geral da realidade da Árvore do Conhecimento. Desta supressão
severa, ele dispensou a "magia natural", não no sentido da necromancia
350
na qual se trabalhava com demônios, mas como "a parte prática da ciência da natureza, que somente nos ensina a atingir trabalhos admiráveis por meio de forças naturais".11 O ataque de Pico foi sem dúvida devastador e atormentou a mente dos astrólogos que foram seus contemporâneos, e ainda hoje deve ser considerado.
Girolamo Cardano e a Inquisição
Em grande parte os dominicanos e os franciscanos apoiaram a astrologia. Até os jesuítas, a ordem mais poderosa e intelectual durante a Renascença, eram ativos. Entre os papas, Júlio II (1505-1513) utilizou a astrologia para decidir o momento mais auspicioso para ter sua própria estátua erigida, enquanto Paulo III (1534-1549) consultava regularmente os astrólogos para saber os melhores momentos para realizar suas audiências.
Um astrólogo que entrou em choque com a Inquisição foi o brilhante
médico e matemático italiano, Girolamo Cardano (1501-1576). Entretanto, após ter sido solto da prisão por motivo de heresia, Cardano viveu seus últimos anos com uma pensão dada pelo papa. Quanto à astrologia, foi um escritor prolífico. Em sua visão: "A contemplação da astrologia é bela em si mesma, uma compreensão de como as coisas inferiores estão ligadas com as superiores. Sua utilidade é conhecer o futuro e ser capaz de tomar precauções antecipadas." Considerou a astrologia como "mais benéfica e mais divina" que qualquer outro ramo de estudo porque nos instruía a respeito do curso das estrelas e dos "próprios deuses".12 Englobava todas as artes que nos ensinam como descobrir o futuro, principalmente a agricultura, navegação, medicina, fisiognomonia, interpretação dos sonhos e magia natural.
Cardano estava claramente indo longe demais quando se referiu a "deuses" e não a Deus. O renascimento do hermetismo e um interesse na antiga sabedoria do Egito trouxeram mais uma vez o espectro do paganismo. Mas, em 1586, um homem que fora agricultor e agora era o Papa Sisto V editou uma bula proibindo a astrologia que não fosse uma "astrologia natural" (previsões relativas à agricultura, à arte da navegação e à medicina). A astrologia judicial (natal, horária e eletiva) era considerada uma negação do livre-arbítrio e uma afronta a Deus. Em sua bula, Coeli et Terrae, o Papa Sisto V zangou-se com os mathematici que "empregavam um conhecimento inútil e falso dos planetas e das estrelas, e com a maior das audácias se ocupavam agora antecipando uma revelação dos arranjos de Deus para as coisas". Este tipo de divinação vinha do demônio.
351
Sem dúvida, os astrólogos tinham de se conduzir com cuidado. Em sua resposta à bula papal, o Dominicano Tommaso Campanella (1568-1639) observou que ela perseguia os astrólogos com mais hostilidade dos que os heréticos e os cismáticos. Ela até os excomungava, retirando toda a sua autoridade, e os punia com a sentença de morte. Campanella sustentou que os astrólogos não estavam oferecendo um determinado conhecimento do futuro, mas que baseavam sua arte nos princípios físicos: "A astrologia atesta as causas, com os corpos celestes trabalhando sobre o mundo abaixo como causas universais dos tempos e das coisas temporais. É isso que nos diz a experiência."" Ciente da oposição, ele editou o seu trabalho sobre astrologia em 1629 em Lyon com o título: Os seis livros de astrologia de Campanella da Ordem dos Pregadores, no qual a astrologia — e do qual toda a superstição dos árabes e judeus foi eliminada — é ilustrada sobre os princípios físicos segundo a Sagrada Escritura e os ensinamentos de Santo Tomás e São Alberto e dos grandes teólogos, de tal forma que pode ser lida com grande benefício sem cair sob a suspeita da Igreja de Deus.
Campanella argumentou que os princípios físicos da astrologia demonstravam que "as estrelas trabalhavam nas coisas inferiores através do calor, luz, movimento e aspecto". Sem esquecer a crítica de Pico, insistiu que era absolutamente necessário estar seguro do grau e do minuto do horóscopo.
Estava igualmente atento ao fato de a precessão dos equinócios significar que
o equinócio vernal começava em Peixes, embora os astrólogos ainda o
chamassem de "primeiro grau de Áries". Talvez sua idéia mais importante
tenha sido sua resposta para aqueles que, como Copérnico, achavam que o Sol
e não a Terra estava no centro do universo. Longe de ouvir os sinos fúnebres
dobrarem pela astrologia, argumentou que o que importava era a posição
relativa dos planetas e as suas distâncias angulares vistas da Terra: "Se o Sol
se move ou fica parado, supomos um planeta que se move à nossa volta
considerando a matéria por meio dos nossos sentidos e da nossa descrição;
pois o mesmo acontece se ele se move ou a Terra."14 Quanto aos planetas,
sentia que todos eles eram propícios por si próprios, mas alguns podiam ser
favoráveis e outros maléficos, "assim como um fogo pequeno é útil e um fogo
grande, um aborrecimento". Com esta base, os planetas maléficos (Saturno e
Marte) eram "úteis para cobras, os assuntos hostis a nós e para os povos
bárbaros que abandonavam sua posição humana".15
Ironicamente, Campanella conduziu uma cerimônia mágica no Palácio
Laterano em benefício do Papa Urbano VIII, que se sentiu ameaçado pela
aproximação de um eclipse lunar. Em um belo resumo da magia astral da
Renascença, ele recomendou que, para as três horas antes e as três horas
depois do eclipse, a pessoa deveria:
352
Primeiro sinta cada dor comedidamente, segundo a razão e tão próximo
de Deus quanto possível, dedicando-se a Ele por meio de orações e
rituais sagrados. Segundo, feche sua casa inteira para que o alento de
ninguém possa nela entrar. Borrife a casa com vinagre de rosa e incense
com odores aromáticos. Acenda um fogo e queime nele louro, murta,
alecrim, cipreste e outras madeiras aromáticas. Não há algo mais
poderoso que isto para dissipar as operações venenosas no céu, mesmo
que sejam administradas pelo demônio. Terceiro, decore a casa com
panos de seda branca e ramos de feto. Quarto, acenda duas velas e cinco archotes para representar os planetas, a fim de que seus lugares possam estar preenchidos na Terra no momento em que estiverem ausentes do céu (...) Faça representações dos planetas com uma mistura de substâncias aromáticas, e tendo feito cópias dos 12 signos do zodíaco (segundo os princípios da filosofia e não das superstições que as pessoas comuns acreditam) você pode prosseguir (...) Quinto, tenha com você amigos e associados cujos horóscopos não estiveram sujeitos ao mal de
um eclipse (...) Sexto, faça as pessoas tocarem músicas pertencentes a
Júpiter e Vênus no ambiente para que possam romper o caráter maligno
da atmosfera (...) Sétimo, como os símbolos de cada estrela estão em
pedras, plantas, cores, odores, música e movimentos (...), providencie
aqueles que atraem as estrelas benéficas e aqueles que fazem fugir as
estrelas maléficas. Os licores destilados sob as influências planetárias
deverão ser ingeridos, pois possuem muito poder.16
Paracelso e Calvino
Enquanto isso, no Norte da Europa, o teólogo e humanista alemão Erasmo (1469-1536) estava preparado para aprovar a astrologia e também a alquimia. O protestante revolucionário Paracelso (1493-1541), lembrado como pai da farmacologia, foi um médico e alquimista que usou a astrologia como parte essencial de suas curas.
Paracelso nomeou o princípio universal que regulava todo o universo de
Magnale-Magnum e afirmou a correspondência entre o microcosmo e o
macrocosmo. Acreditou que o homem era composto de três princípios —
Mercúrio, Sal e Enxofre —, que Hermes chamou de espírito, alma e corpo.
Havia também constelações, estrelas e planetas (astra) em nossos corpos, e
também nos céus, e os dois precisavam estar em harmonia para haver uma
saúde boa. "Pois, o que há de mais nobre em um médico", perguntou ele, "do
que o conhecimento da concordância dos astro.} — pois ali está a base de
todas as doenças."17
Como os antigos gregos, Paracelso associou os principais órgãos do corpo
aos sete planetas, e se um organismo estava fora de equilíbrio, a influência
do seu planeta
353
correspondente deveria ser ativada para trazer a restauração. Segundo
Paracelso, o Sol governava o coração; a Lua, o cérebro; Vênus, os vasos;
Saturno, o baço; Mercúrio, o fígado; Júpiter, os pulmões; e Marte regia a
vesícula. Para atingir a cura, ele insistia q ue tanto o momento astrológico
deveria ser observado quanto a dosagem correta do remédio, ou erva,
adequado.
A maioria dos reformadores protestantes era bem menos ligada à
astrologia, em parte, sem dúvida, sua associação com a decadência católica.
Girolamo Cardano publicou o "horóscopo verdadeiro" de Martinho Lutero
datado de 22 de outubro de 1483, no qual anotou: "Marte, Vênus e Júpiter
estão agrupados próximo da estrela Spica, logo abaixo do horizonte. Através
desta combinação pode-se discernir o poder real sem os adornos da realeza
(porque estes planetas estão abaixo da Terra). Isto se refere à religião."18
Embora Lutero criticasse a astrologia, seu amigo íntimo Melanchthon era um
defensor leal, especialmente da medicina astrológica. No seu Initia Doctrinae
Physicae (1549), ele argumentou que "grande parte das suas qualidades dignas
de nota quanto ao temperamento são tão boas como más, e têm sua origem nas
estrelas". Consultando as tabelas de Pico, ele destacou o caso de duas crianças
que herdaram as características físicas dos pais, embora possuíssem saúde e
extensão de vida bem diferentes. A causa disto deveria ser encontrada nas estrelas. Mas ele não excluiu Deus do cenário: "A natureza governa grande parte, mas não tudo. Não se deve retirar Deus do governo astrológico, mas declarar que Ele modera várias tendências que se originam com as estrelas e orar a Deus que auxilie aquelas que são boas e suprima as que são ruins."1'
O reformador protestante francês Jean Calvino (1509-1564) não concordava com qualquer um destes pontos. Rejeitou a astrologia judicial como uma "superstição satânica" e reconheceu que: "Todos os corpos terrenos e (deixe-me falar em termos gerais) todos os corpos inferiores possuem algum tipo de afinidade com o curso das estrelas e daí derivam algum tipo de
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